13 de janeiro de 2026 7:00 por Da Redação

Por Geraldo de Majella*
Os trabalhos realizados por historiadores, jornalistas e pesquisadores de diversas áreas vem revelando fatos e casos desconhecidos por grande parte da sociedade brasileira, ocorridos ao longo dos 21 anos da ditadura militar.
Tribunais e auditorias militares guardam relatos aterrorizantes: presos que denunciaram torturas, mortes e suplícios em instalações militares; locais alugados pelos órgãos repressivos que funcionaram como dependências clandestinas, onde centenas de cidadãos brasileiros e estrangeiros foram torturados e mortos. Nos julgamentos realizados nas auditorias militares e no Tribunal Superior Militar (TSM), magistrados ouviram depoimentos tenebrosos das vítimas e, ainda assim, nada fizeram. Advogados — profissionais corajosos — defenderam seus clientes sob ameaça constante.
Arquivos militares foram abertos, embora não todos. Os principais, onde constam informações sobre os autores das mortes e o destino dos desaparecidos políticos, permanecem fechados. Muitos desses homens e mulheres, depois de supliciados e assassinados, seguem até hoje com o paradeiro de seus corpos ignorado.

Os trabalhos acadêmicos e as investigações jornalísticas continuam a revelar histórias individuais e coletivas desse período, ampliando a compreensão sobre a extensão da violência de Estado praticada no país.
Nesse contexto, o cinema, enquanto linguagem artística e expressão cultural, tem desempenhado papel relevante no Brasil e no mundo, ao realizar leituras rigorosas da realidade e alcançar um público de milhões de pessoas. Dois filmes brasileiros contribuem para uma nova percepção de fatos ocorridos há mais de cinquenta anos: Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, vencedor do Oscar em 2024, e O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, vencedor em Cannes, em 2024, e do Globo de Ouro neste domingo, dia 11.
Essas leituras da história se complementam e revelam riqueza na elaboração e na abordagem. Cinema, história, literatura, jornalismo e teatro, em suas dimensões individuais e coletivas, debruçam-se sobre a história recente do Brasil, revelando os horrores de um período marcado pela violência de Estado e reafirmando a convicção de que seu legado autoritário pode e será superado pelo aprofundamento da democratização da sociedade.
Ao recorrer à memória, à pesquisa histórica e à linguagem do cinema, esses trabalhos reafirmam que o passado não é um capítulo encerrado, mas um campo permanente de disputa. Negar a ditadura, relativizar seus crimes ou silenciar suas vítimas não apaga a história. Ao contrário, reforça a urgência de narrá-la, revisitá-la e compreendê-la, para que a sociedade brasileira possa, enfim, enfrentar seus fantasmas e fortalecer os valores democráticos.
*Historiador e jornalista





