15 de janeiro de 2026 9:38 por Da Redação

Por Geraldo de Majella*
O cantor e compositor João Gomes, 23 anos, sertanejo de Serrita (PE), é hoje o nome mais conhecido da música brasileira. Presente em todas as mídias e com agenda de mais de cem shows até o final do ano em todo o país, o artista inicia, em março, sua primeira turnê internacional. A estreia será na Europa, com o show Dominguinho, passando por Bélgica, Holanda, França, Espanha e Suíça. Esta é a primeira parte da turnê; a segunda ainda não foi anunciada.
A música que retrata o mundo rural nordestino, marcada por aboios que representam a convivência dos vaqueiros com os animais — o gado em especial —, ganhou uma dimensão impensável antes da existência da internet. Luiz Gonzaga, o mestre que levou a fala e o modo de viver dos sertanejos que lidam com o gado, no sertão embrenhado na caatinga, para todas as regiões do Brasil, abriu esse caminho.
O vaqueiro, a seca, a geografia humana e os cursos d’água foram cantados. As aves, os animais e o jumento de modo particular ganharam vida e relevância social por meio da música. Brasileiros que não são da roça descobriram, por exemplo, que o canto das aves no sertão pode anunciar chuva e tempestades.
A vida rústica e sofrida dos sertanejos, e dos vaqueiros em particular — que trabalham tangendo o gado, atentos ao mugido dos animais que se comunicam com o homem, seja no período de seca ou no inverno —, atravessa gerações e encontra, agora, nova audiência.
João Gomes tem se projetado com cantos que são genuinamente seus, de seus antepassados e de sua família. A vaquejada faz parte da cultura do sertanejo em particular e do nordestino em geral, do patrão e do empregado, como expressão social e cultural profundamente enraizada.
A voz e a fala do artista, com sotaque imaculado do sertão pernambucano, são um diferencial em um mundo pasteurizado e culturalmente colonizado pelas grandes plataformas-máquina, que definem tudo — ou quase tudo — na vida dos viventes do planeta Terra.
A bolha foi arrombada por seu canto e por seu lamento sertanejo, ainda que João Gomes também interprete músicas de outras regiões do Brasil. Sua voz e sua imagem, projetadas em todas as mídias, têm provocado grande alvoroço entre jovens urbanos, que passam a ter contato mais frequente com esse estilo musical.
O misto de surpresa e orgulho para os alagoanos foi ouvir o jovem pernambucano afirmar que, em Alagoas, há um rei. O rei de João Gomes é o cantor Kara Véia (Edvaldo José de Lima, 1973–2004), falecido aos 31 anos, em 2004, artista querido nos circuitos de vaquejadas do Nordeste.
“Flor de Flamboyant”, um de seus grandes sucessos, ultrapassou as cercas das vaquejadas e hoje embala multidões urbanas em todo o Brasil, na voz de João Gomes, Mestrinho e Jota.pê. Nossos artistas não estão acostumados a serem reconhecidos e reverenciados por outros artistas, o que torna esse gesto ainda mais significativo.
O show business faz coisas que Deus, Padre Cícero Romão e Frei Damião de Bozzano talvez duvidassem: a cena, transmitida pela televisão para milhões de pessoas, de Roberto Carlos e João Gomes cantando uma música de vaquejada.
Esse é o milagre do show business e da premiação do Grammy Latino que este pernambucano levou ao semiárido e que agora divide com o restante do Brasil.
Outra singularidade de João Gomes é a forma simples e emotiva com que aponta para sua professora presente em um de seus shows, em Petrolina, e pede que os jovens respeitem os pais e as professoras e os professores. A fala do cantor em defesa da escola pública é um ponto fora da curva nesse meio e reforça um traço pouco comum no universo musical sertanejo.
João Gomes também tem se mostrado um diferencial ao tratar de temas como habitação. Ao afirmar que recusou um projeto que o levaria a morar “num caixote” e que desejava uma casa com traços do sertão, com alpendre, abriu uma discussão sobre o papel da arquitetura na vida das pessoas. Sem a intenção de afrontar novas linguagens arquitetônicas nem faltar com respeito aos profissionais da área, trouxe à tona o debate sobre como o espaço de morar dialoga com a cultura, a memória e o modo de viver.
O cantor é uma semente que brotou no solo da caatinga, bioma que resiste ao sol inclemente, onde o acauã canta livre do amanhecer até o final da tarde. Quando a temperatura diminui, ele se recolhe, e a paisagem silencia, parece escutar o seu canto.
*Historiador e jornalista





