Adriano Zumba

A mão de Deus (2021)

4.5 estrelas

Título original: È stata la mano di Dio

Título em inglês: The hand of God

Países: Itália, Estados Unidos

Duração: 2 h e 10 min

Gêneros: Comédia, drama

Elenco principal: Filippo Scotti, Toni Servillo, Teresa Saponangelo

Diretor: Paolo Sorrentino

IMDB: https://www.imdb.com/title/tt12680684/


Citações:

  • Fantasia e criatividade são mitos que não servem para nada.
  • Não gosto mais da realidade. A realidade é terrível. Por isso quero fazer filmes…
  • Lembre-se, aqueles sem coragem não dormem com mulheres belas.
  • Gosto de conflito. Sem conflito, não se progride.

Opinião: Paixão absurda aplicada em um filme absurdamente intimista.


Sinopse: A história de um garoto na tumultuada Nápoles dos anos 1980. O filme mais pessoal de Sorrentino até agora é uma história de destino, família, esportes, cinema, amor e perda.


Nada mais apaixonante e corajoso no mundo do cinema do que colocar a própria vida para ser manipulada pela linguagem cinematográfica. Fragmentos da própria história são assuntos sobre os quais as pessoas têm controle absoluto e domínio amplo, pelo simples fato de os terem vivenciado em algum momento e por estarem guardados em suas próprias intimidades. Dito isto, o laureado cineasta Paolo Sorrentino resolveu, mesmo sem admitir com ênfase absoluta, colocar sua história “no papel” da sétima arte, compartilhando os mais diversos tipos de momentos, desde os mais cômicos até os mais dramáticos e/ou trágicos em um filme muito bem dirigido e produzido, esteticamente perfeito (se é que existe isso no cinema), e com um roteiro deveras atrativo, que desenvolve competentemente as suas temáticas para deixar uma ótima mensagem que faz alusão à continuidade da vida (apesar de tudo).

A mão de Deus” nomeia um lance em que o maior jogador argentino da história, Diego Armando Maradona, fez um gol de mão (que foi validado erronemante) contra a Inglaterra na Copa do Mundo do México em 1986. Segundo o próprio jogador: “se houve mão na bola, foi a mão de Deus”. Maradona movia multidões e mexia com as emoções da população da Nápoles da década de 80, pois jogava no time da cidade, o Napoli, e essa paixão acaba por ser decisiva dentro do enredo do filme, pois livra o protagonista de um triste fim, por isso o título escolhido é absolutamente bem sugestivo dentro do contexto – só para começar, já pelo título, a fazer referência aos pontos positivos da obra.

Claramente, o filme tem dois momentos distintos, separados por uma tragédia. O primeiro momento é nostálgico, engraçado e exageradíssimo: a apresentação dos personagens de uma família italiana – com toda a tradicional expansividade que lhe é inerente. Para quem é fã do cinema italiano de outrora, principalmente do período em que a chamada comédia all’italiana imperava, esse bloco narrativo, que conta com muitas referências, é delicioso, a despeito de não conter nada de novo em sua abordagem. Os personagens são muito caricatos, com as principais características que os definem sendo hiperbolizadas, e o mais importante é a exibição das relações existentes entre eles, principalmente a definição do lugar do protagonista Fabietto, alter ego de Sorrentino, nesse microcosmo pitoresco. Cineastas históricos italianos são automaticamente lembrados, seja pelo estilo aplicado pelo diretor em sua produção ou mesmo por conter referências textuais e visuais a eles: Mario Monicelli, Federico Fellini, Franco Zefirelli, etc. Ademais, nesse bloco, as cores são vivas, vibrantes, coloridas, para demonstrar a aura alegre que é exibida, regada a confusões e brincadeiras à vontade.

Após a tragédia supracitada, a paleta de cores fica mais serena com tons azulados para denotar tristeza, perda de rumo, vazio existencial, etc. Nesse bloco narrativo mais sério, o novato Filippo Scotti dá um show de interpretação e o roteiro respira ares introspectivos que às vezes incomodam, sempre em busca de um novo caminho dada a nova conjuntura que se apresentou. Por sinal, esse segundo momento mostra a gênese do desejo de Fabietto em dirigir filmes por um motivo interessante: fugir da realidade – e, nesse sentido, os diálogos com o cieneasta Antonio Capuano são magníficos dentro da obra, com muitas frases de efeito e percepções particulares sobre o mundo da sétima arte e a existência. Ademais, o roteiro, através de suas cenas, impõe um olhar para o futuro, a despeito da aura duvidosa que se instala, e uma dessas cenas é espetacular nesse sentido: a perda da virgindade de Fabietto, que, por incrível que pareça, direciona – de forma muito irreverente, diga-se de passagem – para o que o filme se propõe a transmitir.

Esteticamente, o filme é magnífico. A fotografia salta aos olhos por tanta beleza e aproveita o melhor que Nápoles tem a oferecer; a trilha sonora potencializa as emoções em momentos chave; a direção de arte capricha na ambientação e na caracterização dos personagens; etc. Nota-se o esforço da produção para que tudo esteja perfeito e faltam adjetivos para exaltar o audiovisual provido pela obra. Tudo isso se chama paixão, que é facilmente identificável em toda a obra, pois vem da alma de alguém que está contando a sua história, que está ousadamente desnudando a sua vida, aliada a um estilo particular que já vem sendo identificado em obras passadas de Sorrentino.

Como tudo que é feito com o coração fica belo…

O trailer com legendas em português segue abaixo.

Obs.: Disponível na Netflix e representante da Itália no Oscar 2022.

Adriano Zumba


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Por Adriano Zumba

Benedetta (2021)

A maior ousadia de Paul Verhoeven.

5 estrelas

Países: França, Holanda, Bélgica

Duração: 2 h e 11 min

Gêneros: Biografia, drama, história, romance

Elenco principal: Virginie Efira, Daphne Patakia, Charlotte Rampling

Diretor: Paul Verhoeven

IMDB: https://www.imdb.com/title/tt6823148/

Citação: “Você mente até o fim.”

Sinopse: No século XVII, uma freira italiana, Benedetta Carlini, vive em um monastério na Toscana, na cidade de Pescia, desde quando era criança. Doutrinada por sua mãe como sendo a noiva de Jesus, ela tem perturbações e visões religiosas e eróticas. Com a chegada de uma nova garota ao monastério, Bartolomea, que é acolhida por Benedetta, um romance homossexual entre as duas toma corpo.


Para fazer qualquer análise sobre “Benedetta“, acho pertinente ter em mente dois conceitos pouco conhecidos e alusivos à arte e ao mundo do cinema: Arte Transgressora e Nunsploitation. Vou apenas definir os conceitos, sem, contudo, aprofundar a discussão. Arte transgressora é a arte que visa transgredir (obviamente); isto é, ultrajar ou violar a moral e a sensibilidade básicas. O termo transgressivo foi usado pela primeira vez nesse sentido pelo cineasta americano Nick Zedd e seu “Cinema de Transgressão” em 1985. Nunsploitation é um subgênero dos filmes de exploitation que teve seu auge na Europa e no Japão na década de 1970. Esses filmes geralmente envolvem freiras cristãs (nuns, em inglês) que vivem em conventos durante a Idade Média. O principal conflito da história é geralmente de natureza religiosa ou sexual, como opressão religiosa ou supressão sexual por viver em celibato. A Inquisição é outro tema comum.

O filme em tela, “Benedetta“, enquadra-se perfeitamente em ambos os conceitos por suas temáticas abordadas e principalmente pela forma como foi conduzido pelo provocador Paul Verhoeven, cuja filmografia mostra muita controvérsia e, porque não, transgressão. “Benedetta” não poderia ter caído em melhores mãos para ganhar vida através do cinema. O filme foi adaptado do livro “Immodest acts: The life of a lesbian nun in renaissance Italy” (1987) da historiadora Judith C. Brown, que, segundo averiguei, possui uma narrativa cheia de lacunas pela dificuldade de obter informações precisas de um fato ocorrido há séculos. Como consequência dessa afirmação, muita liberdade narrativa acabou sendo obtida por Verhoeven e seu colega roteirista David Birke, que assinam o enredo da obra cinematográfica. Isso é um presságio de ousadia, o que realmente pode ser visto no filme.

Benedetta” é um filme que conta com elementos mais do que suficientes para chocar, principalmente pela liberdade artística provida pela suposta imprecisão e falta de detalhes da obra-base. Suas temáticas olhadas em conjunto são antagônicas, e, olhadas individualmente, sempre promovem boas discussões. São elas: poder, sexualidade e religião, que são desenvolvidas no âmbito da Igreja católica, mais especificamente num monastério – ou mosteiro. O principal conflito é entre o espiritual (a fé) e o carnal (o sexo), que são partes integrantes de qualquer ser humano, mas não deveriam dialogar na hipócrita conjuntura proposta. Apenas por sua concepção, nota-se que é um filme polêmico, e, após a exibição, tenham a certeza que a controvérsia será potencializada, pois outras temáticas acessórias e não menos polêmicas são introduzidas, como a homossexualidade (no seio da Igreja no século XXVII), por exemplo, nudez e erotismo em demasia é apresentada e algumas cenas são construídas com uma gênese realmente transgressora. Muitos irão identificar um quê de profanação, enquanto outros, um quê altamente artístico e condizente com a proposta do filme. Particularmente, considero que “Benedetta” está na galeria dos melhores filmes de 2021, por seus excelentes aspectos técnicos e narrativa desestabilizadora, quebradora de alicerces e fonte de incômodo. É o cinema saindo de seu lugar comum.

O foco é na personagem que intitula o filme, Benedetta, interpretada magnificamente pela ótima Virginie Efira. Desde cedo, Benedetta dá mostras de sua orientação sexual, vide a cena do acidente com a imagem da Virgem logo no início do filme, que representa crença e desejo ao mesmo tempo, que é o grande dilema do filme e representa duas grandes características da protagonista – uma pessoa com uma fé impressionante e com um lado sexual reprimido (pelos dogmas da Igreja), que só necessita de uma fagulha para se transformar em um super vulcão. Com a chegada da protagonista à fase adulta e a introdução da personagem Bartolomea na história, tem-se o que se chama de tempestade perfeita. Concomitantemente, as visões erótico-religiosas de Benedetta se tornam cada vez mais blasfêmicas, e daí, Verhoeven começa a ser ferir o sagrado de morte, mas dentro de uma conjuntura lógica perfeita, mas deveras agressiva pela forma como é mostrada. Destaco duas cenas com um viés até profanador, as quais ficarão gravadas em minha mente para sempre: a cena de Jesus crucificado, que vou chamar de cena 1, e a cena do uso da estátua da Virgem utilizada com outro propósito, que vou chamar de cena 2. Ambas as cenas são psicologicamente violentas, mas representam nuances importantes dentro do roteiro. A cena 1 confirma a orientação sexual da protagonista através da revelação bombástica provida por seu amor de sempre, Jesus, e a cena 2, que considero o ápice do filme, promove uma junção perfeita entre o carnal e o espiritual, como já salientado. O antagonismo intrínseco entre as duas temáticas se transforma em harmonia, e, a cada orgasmo, mais empoderamento pode ser visto na protagonista. Trata-se de uma ousadia surreal e magnífica.

Um dos grandes atrativos do filme é a dúvida. Benedetta transita facilmente entre a santa, a vigarista, a gananciosa por poder e a vadia. Pode-se facilmente identificar bons e maus elementos através do comportamento da jovem freira. Os “milagres” exibidos são contestáveis e a aura construída é duvidosa, principalmente pela imprecisão apresentada através das palavras ditas pela própria protagonista. Essa dúvida se espalha pelos personagens coadjuvantes, gerando algumas situações acessórias que reforçam a tendência principal da narrativa: fomentar a incerteza. Nesse contexto, destaca-se a personagem Irmã Christina e a Irmã Felicita, que também atua fortemente no desenvolvimento da temática do poder dentro da instituição sagrada e tem participação decisiva no desfecho da história.

O filme também não se furta de caracterizar bem a época de seus acontecimentos. A peste, que dizimou boa parte do mundo, ronda a narrativa. O uso do fogo para punir pessoas com crimes eclesiásticos é bastante conveniente. A alusão a Joana d’Arc também é muito pertinente, já que morreu queimada e foi torturada. A direção de arte caprichou em locações, figurino e fotografia, mas a cena do cometa achei meio teatral, contudo, a essa altura, o espectador já está envolvido e não leva em consideração supostos deslizes.

Benedetta” ousa como há tempos o cinema necessitava e colhe suculentos frutos advindos de seus pecados. A arte simplesmente agradece, pois o padrão foi jogado na lata do lixo. Talvez, o filme não proporcione uma jornada sem percalços, mas uma coisa é certa: o impacto é profundo, para o bem ou para o mal.

Obra-prima!

O trailer com legendas em inglês segue abaixo.

Obs.: O filme estreará nos cinemas em janeiro de 2022 e, logo após, será exibido nos canais Telecine.

Adriano Zumba


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Por Adriano Zumba

Titane (2021)

4.5 estrelas

Países: França, Bélgica

Duração: 1 h e 48 min

Gêneros: Drama, ficção científica, horror, thriller

Diretora: Julia Ducournau

Elenco principal: Vincent Lindon, Agathe Rousselle, Garance Marillier

IMDB: https://www.imdb.com/title/tt10944760/


Citação: “Acha que não reconheço o meu próprio filho?”


Opinião: “Obra que não encontra apogeu num lugar comum.”


Sinopse: Após uma série de crimes inexplicáveis, um pai se reencontra com o filho que estava desaparecido há 10 anos. Titânio: Metal altamente resistente ao calor e à corrosão, com ligas de alta resistência à tração.


Definitivamente, Julia Ducournau não faz filmes em que o público possa se enxergar. Na verdade, passa muito longe disso. “Titane” é bizarro, gore, estranho, visceral, distópico, transgressivo, perturbador, grotesco e absolutamente simbólico. Isso nada mais é do que o estilo da jovem diretora que flui naturalmente no filme em tela – que é seu segundo longa-metragem – e pôde ser visto em seu debut: “Raw“(2016). Em seu primeiro filme, a protagonista da história sofre um trauma, fica obsessiva por algo e começa a agir de forma estranha. Em seu segundo, a mesmíssima sequência toma corpo mas com outros elementos envolvidos, entretanto, a narrativa parte para um lado surreal e/ou fantástico, que considero espetacular, mas, para muitos, pode ser sinônimo de insanidade. Em ambos os filmes, trabalha-se um subgênero do horror/terror chamado body horror, que, segundo a Wikipedia, caracteriza-se por “apresentar intencionalmente violações gráficas ou psicologicamente perturbadoras do corpo humano”. O certo é que o novo filme de Ducournau é, sem sombra de dúvidas, o mais chocante e original de 2021 – e vai dividir as percepções e avaliações por sua excentricidade.

Considero a primeira meia hora de “Titane” espetacular, asfixiante e intensa. Trata-se do período narrativo no qual o thriller impera, para, posteriormente, na segunda parte do filme, transformar-se em drama, principalmente para poder transmitir suas mensagens. Sim, um genuíno espécime do body horror pode deixar mensagens. São minutos visceralmente violentos, que exibem uma ferocidade monstruosa e facilmente podem gerar uma estranhesa – além de outros sentimentos piores – igualmente monstruosa no público pelas ligações bizarras que a diretora propõe (vide a cena pós-cirurgia da protagonista Alexia quando criança), as quais serão essenciais ao longo da exibição, e a brutalidade pujante que dá o tom nesse bloco narrativo. Há diversas cenas apoteóticas e absolutamente perurbadoras que merecem destaque: [spoillers a partir daqui] a cirurgia de Alexia, que culmina com a implantação de uma placa de titânio em seu crânio, o sexo selvagem com o Cadillac – incluíndo preliminares -, a tentativa de arrancar o mamilo da personagem Jasmine com os dentes, a tentativa de aborto com o prendendor de cabelo – que também é usado como arma -, a autoquebra do nariz de Alexia, além dos assassinados em profusão exibidos – apesar de inúteis. Considero até que a cena de sexo citada tem potencial para ser lembrada como cult no futuro. Resumidamente, o espectador é submetido a uma reação em cadeia de violência sádica e à necessidade de percepção em relação à desumanização da protagonista e sua sociopatia, adquirida após possuir uma parte metálica em seu corpo e por suas interações com o bicho homem, principalmente com seu pai.

A desconexão de Alexia com os seres humanos, as consequências de sua aproximação (em vários aspectos, inclusive o sexual) com os automóveis e a necessidade de se esconder das autoridades após seus crimes, promovem um ponto de virada na obra, que desliza do pesadelo de terror corporal para um registro dramático mais sutilmente enervante. As transformações da protagonista dão o tom na segunda parte da obra e novos personagens importantes aparecem, principalmente Vincent, um bombeiro masculinamente tóxico cujo filho desapareceu há 10 anos e que “reapareçe” na pele de Alexia em uma composição oportuna para ambos os personagens, uma ilusão necessária para a alma. Nesse ponto, Ducournau está totalmente focada na percepção individual, em como as coisas podem ser totalmente diferentes para pessoas diferentes. Um carro pode ser um objeto sexual atraente para Alexia; uma mulher grávida homicida pode ser um menino ferido que precisa de cuidados para um pai saudoso, o dolorosamente sincero Vincent. Ainda sobre esse direcionamento, a protagonista sai de seu mundo de performance feminina e entra na esfera hipermasculina do corpo de bombeiros do qual Vincent é capitão, quando é colocada entre os membros da tripulação que são tão leais que parecem dispostos a aceitar a farsa. Essa segunda parte é um desenvolvimento preparatório – e muito menos intenso – para o desfecho, que tem o condão de gerar expectativa extrema a quem conseguiu resistir à perturbação durante cerca de 90 minutos. O filme constrói à sua maneira todo o arcabouço narrativo necessário para a exibição do fato mais esperado da trama: o nascimento do filho – ou de algo que possa ser chamado de filho – de Alexia e o ígneo Cadillac.

No clímax, o filme retorna com muita potência ao caráter atrativo de sua primeira meia hora, pois volta a relacionar o fato final à premissa inicial que é deveras envolvente. Nesse momento, vem automaticamente à mente obras icônicas da sétima arte como “O bebê de Rosemary“(1968), “Eraserhead“(1977), “Alien, o oitavo passageiro”(1979), etc., pelo nascimento potencialmente perturbador e indefinido que se avizinha. E o resultado faz total sentido dentro da proposta da diretora, que se delineia fortemente a partir do ponto de virada do filme, quando o filme parte para o drama. Após tanta bizarrice, o filme resolve terminar de forma tenra, fazendo alusão a temas como o amor e a família, mas sem deixar de causar mal-estar. “Estou aqui”, diz Vincent a seu “neto”. Para coadunar com toda a estranheza gerada ao longo de todo o filme, trata-se de um desfecho absolutamente condizente.

Para encerrar, deve-se exaltar a atuação da hipnotizante Agathe Rousselle como Alexia em seu primeiro trabalho no cinema na pele de uma protagonista extremamente bem construída e interpretada, a fotografia expressiva apresentada, a montagem que concede agilidade e potencializa as sensações das cenas, principalmente àquelas dos assassinatos, e a direção espetacular de Julia Ducournau e sua natureza meio “Cronembergiana”, que mostra ao mundo da sétima arte que veio para ficar. Resumidamente, “Titane” é um filme que retira o espectador da zona de conforto e promove transformações no íntimo de cada um que vivenciou essa experiência “titânica”, com alta resistência à tração, segundo a sinopse. Indiscutívelmente, o espectador não sai da exibição da mesma forma que entrou nela – e isso é um ótimo sinal. É a prova que o “Titane” é uma obra marcante!

Obs.: Filme ganhador da Palma de Ouro no Festival de Cannes 2021 e indicado pela França para representar o país no Oscar de Melhor Filme Internacional em 2022 (quero nem imaginar os conservadores da Academia assistindo a esse filme).

O trailer segue abaixo.

Adriano Zumba

Por Adriano Zumba

I’M YOUR MAN (2021)

 

Título original: Ich bin dein Mensch
País: Alemanha
Duração: 1 h e 45 min
Gêneros: Comédia, ficção científica, romance
Elenco principal: Maren Eggert, Dan Stevens, Sandra Hüller
Diretora: Maria Schrader
IMDB: https://www.imdb.com/title/tt13087796/
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Citação: “Noventa e três por cento das mulheres alemãs sonham com isso.”
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Opinião: “Impressionantemente real, a despeito de seu viés supostamente imaginário.”
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Sinopse: Para obter fundos de pesquisa para seus estudos, uma cientista, Alma, aceita relutantemente a oferta de participar de um experimento extraordinário: durante três semanas, ela viverá com um robô humanoide, Tom, que é programado para fazê-la feliz.
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Já tive a oportunidade de assistir a filmes com personagens desprovidos de vícios e prejulgamentos, por não serem humanos, e que possuem a capacidade de raciocinar para oferecer, por exemplo, olhares críticos sobre determinados assuntos e/ou fazer com que outros personagens e o público reflitam à vontade. Humanizar “criaturas” em nome de uma visão isenta é uma fórmula de sucesso que mais uma vez se repete em uma obra cinematográfico de grande expressão, pois o filme em tela é o indicado pela Alemanha ao Oscar de Melhor Filme Internacional 2022, e, portanto, terá uma visibilidade monstro ao redor do mundo.

Utilizando um viés cômico durante boa parte de sua exibição, “I’m your man” é responsável e insinuante, pois desenvolve de forma bem equilibrada e com doses de ousadia na medida exata, nuances do jogo do amor, adentrando profundamente em aspectos humanos e desnudando almas para a familiarização imediata de seu espectador. A despeito da utilização de uma narrativa absurda (mais abaixo vocês verão que isso não é uma verdade absoluta) à primeira vista para a grande maioria das pessoas, o filme tem um poder atrativo muito forte por exibir uma situação que pode figurar nos sonhos mais íntimos do ser humano: viver com o(a) parceiro(a) perfeito(a). Mas será que algo nesse sentido é realmente tão desejável?

A protagonista Alma, na seara laboral, é pesquisadora de um museu e se dedica quase que exclusivamente a seu estudo da escrita cuneiforme. Na seara amorosa, é uma mulher solteira, recém-saída de um relacionamento com um colega de trabalho, Julian, mas não desesperada por isso, que carrega consigo um passado insatisfatório e deveras dolorido no nível feminino mais íntimo – no materno – por conta de um aborto. Trata-se de uma mulher que se “afunda” no trabalho como uma forma de refúgio transitório para sua alma. Então, para obter recursos financeiros para sua pesquisa, ela se voluntaria meio a contragosto para testar um experimento ousado e surreal: viver alguns dias com um humanoide programado apenas para fazê-la feliz em todas as searas de sua vida.

Imediatamente, para o espectador que está antenado com as evoluções tecnológicas do mundo de hoje, vem à mente toda discussão ética acerca do uso da inteligência artificial e como ela poderá afetar a conduta das sociedades atuais e vindouras, entretanto, desenvolver essa temática não é o cerne principal do filme, apesar de ser uma discussão pertinente e pincelada pela narrativa. Para coadunar com as temáticas abordadas, segue o link de um episódio da vida real em que um homem conversa com sua noiva falecida há 8 anos por meio da inteligência artificial: clique aqui. “I’m your man“, através de sua narrativa, propõe-se a esquentar mais ainda a água dessa fervura, levando o espectador a tentar identificar e estabelecer limites entre o real e o virtual e a discorrer intimamente sobre pontos positivos e negativos das interações amorosas exibidas. O foco é trabalhar o amor, com as imperfeições intrínsecas – e talvez necessárias – do ser humano saindo de cena e a perfeição absoluta de alguém moldado aos anseios mais particulares de alguém assumindo o comando. O julgamento sobre isso, tanto pelos envolvidos ficcionalmente no filme, quanto pelo público é automático e inevitável, e o filme não se furta de suscitar esses questionamentos em momento algum. Por exemplo, em determinada passagem, Alma é questionada sobre a importância de haver atritos emocionais em uma relação, pois, simplesmente, trata-se de algo humano.

Indubitavelmente, o elenco está muito bem em tela. Alma, interpretada por Maren Eggert, demonstra competentemente aquela aura duvidosa e reflexiva a todo o momento, assumindo o papel de autoindagadora. A necessidade de assimilação e/ou aprendizado daquele contexto por parte da protagonista é uma das grandes delícias do filme, permitindo que o drama e a comédia caminhem lado a lado. Enquanto Tom, interpretado por Dan Stevens, entre movimentos e pensamentos artificiais e/ou metódicos e/ou robóticos e/ou calculados providos por seu algoritmo, além de possuir também características fortemente humanas, personifica a comédia no filme, com frases de efeito, implementação de clichês, comportamentos bregas e constrangedores, etc., e funciona muito no papel do instigador. Ademais, o elenco ainda conta com uma coadjuvante de luxo, a excelente Sandra Hüller, aquela peladona de “Toni Erdmaan” (2016).

Num mundo onde cada vez mais as pessoas se relacionam virtualmente uma com as outras e interagem com entes inumanos, como robôs e programas – até mesmo sem perceberem -, essa pequena e incomum pérola cinematográfica interroga cuidadosamente o abismo entre o digital e o biológico, entre o abstrato e o real. A palavra-chave é satisfação humana, que, nesse caso, pode ser obtida sob demanda. No filme, “programar os robôs para flertar é particularmente difícil”, mas o humanoide Tom pode ser calibrado através de aprendizado de máquina (machine learning). Nessa conjuntura, há grandes e abrangentes questionamentos que vão desde o desejo e a identidade humana até a obtenção de direitos plenos das máquinas como indivíduos. Entre tantos temas de interesse desenvolvidos em uma atmosfera tão pitoresca, “I’m your man” é uma excelente recomendação que põe o espectador para pensar, mas também proporciona grande divertimento. É um dos melhores filmes de 2021.

Por Adriano Zumba
Por Redação