Edson Bezerra

Papai Noel

Para Babi, o meu pequeno Amor

Naquele ano, ele – não lembrando exatamente quando, – Papai Noel acordou com certeza que, já algum tempo ele estava morrendo, assim, não por não poder dar alegrias e presentes à todas as crianças da cidade – disto, já há muito ele sabia – mas, em virtude das memórias, nas quais a alegria entre os homens estava a sumir, e, do sumidouro delas, o contágio da solidão se estendiam às crianças.

Mas, – era o que ele se perguntava – seriam ele ou os homens que estava morrendo? Ou seriem os dois?!!!!

E, confuso, assim ficou quando se pensou em desterro.

No entanto – e nisto havia um consolo – ele desde sempre se pensou um homem adormecido e apenas a despertar para espalhar alegria entre os homens e encantar os meninos durante o Natal. Todavia, o que fazer agora neste Natal que se desenhava enquanto um tempo no qual, homens embrutecidos e crianças absortas em maquinas pulsantes não sabiam dele o que querer, ou, pior, pediam-lhes confusos desejos entre o superficial e o impossível? Pois, – e era sobretudo disto que ele se lembrava, – mesmo sendo um personagem desde sempre adormecido e somente desperto durante o Natal, lembrava-se ele de tempos outros, dos dias de poucas luzes, de cadeiras nas portas, das crenças e rezas e da ansiedade feliz das crianças na suave espera dos presente carinhosamente acoplados aos arredores da árvore de Natal. E eram soldadinhos de chumbo, um caixa de chocolate, alguns com luzes brilhantes, de madeira, outros, e também, de metal ou plásticos, e, coloridos que eram, se alegravam os meninos que, ainda mais alegres ficavam ao sentir por dentre eles, o calor e as alegrias dos homens.

Mas agora, o que fazer diante deste tempo de sorrisos simulados, e, quando, nem mesmo os vizinhos se lembravam do encantamento do mundo, e, quando muito, sentiam o fugidio o sentimento do sagrado chegar-lhes a contrapelo?

Sim, também ele sabia dos descrentes. Mas, e daí? se perguntava ele, pois, o que estava em falta – era isto o que ele sentia – era a magia das festas e o contágio da ternura entre os homens diante da fuga da esperança e a desapontadora solidão das crianças. Daí, o se pensar morrendo ao sentir escorregar de suas mãos, a magia de colorir e de alegrar o mundo.

Todavia, mesmo assim tão cansado e só, ele, em um derradeiro gesto, montou em seu trenó e, por dentre chaminés ou a se adentrar nas janelas das casas adormecidas na esperança de se encantar no encantamento do mundo. Mas antes, na derradeira esperança de não deixar órfãos crianças de quaisquer cor ou tamanho em qualquer lugar que fosse, se esgueirou por dentre as fechaduras das portas e pelas frechas dos telhados dos grandes magazines da cidade, e, expropriando delas todos os brinquedos que podia, se enveredou a colorir o mundo espalhando sopros e presentes de vida.

E então, e somente então, enlouquecido de alegria e de esperanças, de azul ele pintou as portas, e, de cor e de girassol as janelas das casas mais tristes, soprou de azul os telhados, nas ruas espalhou chocolates, pássaros e flores, e, adornado de luzes, acenou aos loucos e aos doentes, e ainda, cansado como só ele havia, encontrou forças para espalhar sonhos por debaixo das portas. E depois de estar exausto e não menos só, descosturou os rombos da noite, voltou ao sonho e se postou a dormir, quase anjo, na espera e desejo de acordar o mundo, e de nele, sentir por dentre o riso das crianças, a incompletude em busca de presenças, os rostos e os corpos na espera do amor, pois que, afinal, contra toda desesperança – pensou ele – era Natal e, ao descansar, veio-lhe uma certeza, – quase que um destino- , que justamente, ele nunca poderia morrer, pois afinal, e nisto ele se pensou: o que seriam do mundo se dele se evadissem os sonhos?

 

Por Edson Bezerra

O estranho e inapreensível homem que (também) comia com as mãos

Para meu Pai, Manoel

Sentados ao redor da mesa, almoço ou jantar, geralmente eram cinco os comensais. Além do pai, mãe e dos dois filhos, ainda havia uma tia-Avó, somatório de almas, ao qual, se se voltasse alguns anos na cronologia do menino, também se acrescentaria à eles, uma outra tia-avó ainda mais gasta que a primeira.

Coisa estranha as vezes acontecia naquela mesa, posto que, a mãe, professora primária, sempre se esmerava em educar os filhos. Todavia, a diferença para com ela ficava por conta do Pai, logo ele, o Pai, que, vez por outra se punha a comer com as mãos.
Coisa estranha achava o menino ao ver o Pai abandonar garfo e faca, e, depois de tratar a mistura e amalgamar farinha, arroz e feijão, levar tudo à boca.

Mas, não era só nisto que se revelava a rusticidade daquele homem, posto que, todo ele era de um primitivismo gritante. Bastava prestar atenção sobre o seu trajar para logo se ver que, entre ele e o mundo, havia como que, uma espécie de estranhamento e uma diferença que não se somava. De cabelos negros penteados para trás, vestia quase sempre uma calça desbotada pelo tempo, e, se por acaso se fosse verificar a sola de seus sapatos, logo se notaria que, nos saltos, havia um mais gasto do que o outro, como se ele não conseguisse andar no alinhamento das ruas.

Todavia, o notar estas coisas pelo menino somente veio muito depois, quando, ao perceber o estranhamento entre aquele homem e o mundo, o menino às vezes fugia ao não querer se confundir com o Pai. No entanto, quando pequeno, não poderia ser diferente, visto que, o menino naquele tempo, – coisa que de resto ninguém nunca soube o porque – era mudo, e sem poder falar, nele ficavam sem vazar, os sonhos e os alvoroços do mundo.

Mas, em seu apreender o mundo, o menino não se sentia assim, posto que, antes, muito antes de se enquadrar no discernimento do tempo, havia entre o menino e o estranho homem, um aprendizado de vida que se multiplicava no entranhado do tempo. Dentre elas, todas as noites havia entre os dois um riacho, o menino e os peixes, e entre eles, o riacho, o menino e os peixes, a voz calorosa daquele homem. É que, o menino sendo mudo, e não podendo expressar o que lhe chegava e o que ele via por não falar, ele vivia a se sentir ilhado ao não poder compartilhar as coisas, e, ao contemplar a estrelas e ao tentar delas balbuciar o nome, ou das coisas que via, lá estava ele, o estranho-homem-pai a lhe apontar luas e os brilhos dos astros e isto, todas as noites, fosse noite de lua ou noite de breu, pois que, quando lua não havia no céu, o menino era posto no colo do Pai a se entranhar entre rios, meninos e peixes.

Não, não precisava falar, o Pai já sabia, e, quando o menino tateava em busca do livro lá estava o homem logo ali bem perto a lhe abrir o livro vermelho, e, lá vinham elas, estórias e mais estórias e todas as noites as mesmas estórias de um menino a se banhar em um rio de águas claras em meios aos peixes e de peixes que viravam meninos e meninos e peixes que falavam, e, lá estava o Pai sentado com o menino no colo.

Não fosse ali no quarto perto da hora de dormir, era na praça com o menino correndo atrás da lua, correndo e caindo atrás da Lua, quando o pai lhe segurava nos braços e o menino, ao ficar ainda mais perto da Lua, tão perto e quase tocando, se punha a balbuciar gritando e o estranho-homem-pai, ria e ria e era por dentre os risos e sorrisos e, somente parava de rir e largar o menino quando acendia o cigarro.

Quando, muito tempo depois e já grande e culto, o agora homem se punha a se lembrar do Pai, e, dentre um turbilhão de imagens, uma das mais fortes que lhe vinha, era a imagem daquele homem comendo com as mãos, e, no que ele, o menino-homem agora pensava, era que, aquelas – as imagens do estranho-homem a comer com as mãos – não eram imagens simples de se evocar, posto que, ao delas se recordar, tudo nele se misturava em lembranças de lua, de meninos, de peixes e de águas, posto que, – era o que ele sentia – o seu pulsar originário, desde sempre esteve ali naquele homem, pois, até aonde ele podia alcançar, as suas entranhas vinham dali, tudo advinha dali, como se, por um desatino do tempo, as águas que agora lhe brotavam nos olhos a se lembrar do Pai, eram as mesmas águas de quando ele, o menino mudo, escutava as palavras do Pai como se fossem sonhos.

E agora então, desde há muito ele se põe a divagar pensando: os sonhos vagam? Os sonhos andam? Os peixes correm? E, de onde me vêm então agora estas águas que não cessam, estes sonhos que se avolumam e, de onde vêm agora homens com os quais as vezes converso e falo e agora transformados em peixes?

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Por Edson Bezerra

A bailarina

Eu adorava vê-la dançar, e, era uma alegria imensa, senti-la flutuar al como uma borboleta, a rodopiar e a desafiar a gravidade, a dar saltos e mais saltos. E ela, como se eu não estivesse ali, se entregava toda à canção em seu dançar esvoaçante.

As vezes, eu estava longe, mas, ao ouvir a canção, eu sabia que era ela que estava a dançar, e então, como que de esguelha, eu ficava na porta do quarto e ficava a vê-la dançar, dançar e dançar.

Todavia, por mais desejo que eu tivesse, eu quase que, não a podia tocar, pois o seu tamanho e zelo espirava cuidados, de modo que, somente as vezes eu podia toca-la, e, nas vezes em que eu pude toca-la, eu a fiz dançar.

Por vezes, depois de um tempo, ela sumia, se escondia e eu não sabia aonde, quando de repente e em puro resplandecer de magia, ela retornava e se punha a bailar, e eu, com meus olhos de menino pidão, ficava ali, meio que, enfeitiçado e cheio de desejos.

Lembro-me da primeira vez em que eu a vi. Eu era bem pequeno ainda, mas, como poderia esquecer aqueles gestos? Somente senti que, depois daquele dia – da primeira vez em que a vi, – eu desejaria vê-la e tê-la muitas vezes comigo, mas, era só, posto que, logo depois, ela sumia e se escondia de mim por um bom tempo.

E o tempo foi passando e a bailarina como que, sumiu. Mas, mesmo que eu soubesse que ela estava por ali, alhures, eu a deixava quieta a descansar Todavia, isto somente se deu aos poucos, pois, de tempos em tempos eu ia vê-la se pôr a dançar, e silenciosa e, muda, ela bailava, bailava até que, cansado eu me punha a dormir como que, apaixonado, eu pudesse adormecer junto a ela.

E o tempo foi escorregando e, como que, adormecendo o meu desejo de vê-la dançar e dançar, e isto, – que se acredite – aconteceu quase que sem um sentir, dia-a-dia, mês a mês. No entanto, com o passar do tempo, os meus olhos apartados dos desejos, me fez como que, esquecer dela em seu quase sumir adormecida que já há algum tempo estava.

Só que um dia, um dia muito distante daqueles primeiros dias em que eu, apaixonado ficava a vê-la dançar, senti saudades e, sorrateiramente como quem não quer nada, invadi o quarto, e, ao remexer no guarda roupa, lá estava ela adormecida no canto da caixa. E então eu, delicadamente e entorpecido de saudadas, tentei dar corda na caixinha, mas a manivela estava quebrada e ela, naquele dia pleno de saudades, não se deixou brincar, posto que, ela, a bailarina estava como que, quebrada, e eu, tentei dar corda no afã de ouvir a velha canção, dim, dimdim, e, nada.

E foi que, naquele dia, ao me adentrar no quarto de minha mãe, eu me lembrei de remexer em todas as coisas e me recordar de todos os afetos que existia ali em nosso riso e brincar com a bailarina em seu dançar em meio a risos.

Todavia agora, a caixinha e ela estão desde a muito, quebrados, e minha mãe, eu seu aparecer tardio, agora me aparece bem velha, e então eu, mergulhado em um mar de saudades, me ponho a comtemplar às estrelas e, solitariamente, danço e danço, como que, assim eu pudesse voltar a ser menino, me encantar e voltar a ter com ela, mas que, enfim, eu posso compreender e aceitar que, um dia, a bailarina teria que sumir, para que ela pudesse permanecer em mim para sempre feito a volúpia de um sonho e fantasias de amor

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Por Edson Bezerra

O bom Pastor, ou uma memória de infância

O retiro do Bom Pastor é um convento situado na rua Virgínio de Campos, no bairro do Farol, onde eu, quando pequeno, vez por outra era para ali levado pela minha mãe, e, no mais das vezes, da Praça dos Martírios para lá, íamos quase sempre que a pé e, depois de subirmos pela Ladeira dos Martírios e na caminhada nos alongarmos até a Praça do Centenário, dali seguíamos pela Av. Fernandes Lima até dobrarmos pela rua (…), onde havia bangalôs elegantes, nos quais, por detrás dos muros baixos, os meus olhos de menino pobre, pelos jardins e salas, avistavam telescópios, bicicletas, velocípedes e outros objetos de desejos por coisas que eu não tinha.

Mas era uma grande alegria visitar o convento do Bom Pastor, e, por dentre as dezenas de internas, havia as freiras e, dentre muitas, havia duas que me ficariam na memória: a Madre Maria Xavier e a Madre Celina.

Se com as duas a minha mãe inteirava-se das coisas do sagrado, era no particular com a Madre Xavier que se dava a maior parte dos seus colóquios e orações, no entanto, eu não sabia se para a intimidade de seus colóquios contribuía a sua condição de cadeirante.

“A madre Xavier” — uma cadeirante — assim ficara, dizia-me minha mãe, em virtude da maldade de uma noviça, a qual, por pura maldade, fê-la cair de propósito fraturando a coluna. E isto, pontuava minha mãe, seria um segredo que morreria com ela, que por isto e também pelas penitências e rezas, a minha mãe, uma órfã outrora adotada por minha Avô Salviana, escolhera a Madre como uma segunda mãe, com o adendo de, além daquela maternidade adotada, ser ela uma santa!

Uma santa!! Dizia-me a minha mãe, e santa ou não, lembro-me dela com uma saudade atrelada de doçura. E, se por vezes, eu permanecia ali durante dezenas de minutos, horas, por outras, quando minha mãe estava nos entremeios de entrar nas intimidades de confissões, dizia-me delicadamente: meu filho, vá dar uma volta.

Ordenada a sentença, eu descia para um sitio que havia, e era um sítio com muitas árvores frutíferas, e havia as mangueiras, os cajueiros, jaqueiras, pitangueiras e outras tantas frondosas espalhadas, sob as quais se derramavam por dentre as quietudes e os cantos dos pássaros, o cocoricar das galinhas e os bandos de patos por entre uma vastidão de sombras. E, no meio do sítio, havia uma gruta com a imagem de Nossa Senhora e, diante da santa, uma construção de pedras cheia de água e repleta de peixinhos amarelos.

Lembro-me que, ao chegar na gruta, eu fechava os olhos e punha-me a rezar, e sabe-se lá quanto tempo eu ficava e o que pedia. E ali, naquele tempo, era um tempo em que eu buscava ser santo, e ali eu pensava nos mistérios de São Francisco de Assis e na história do lobo mau pelo santo amansado, e punha-me a pensar nos sofrimentos de Cristo na cruz pelos malvados, e, depois de muito pensar em Deus e na pureza dos santos e dos mistérios dos céus, eu mergulhando minha mão n’água na tentativa de brincar com os peixinhos, vez por outra olhava para a santa. Depois dali, cansado de, por dentre as árvores, ter corrido atrás das galinhas e patos, esquecido do tempo, de longe escutava uma voz: Edson, a tua mãe tá chamando, e triste, lá ia eu despedir-me da Madre, e no caminho de volta para casa, já ia ficando triste e com saudade daquele mundo.

Mas para ali eu sempre voltava e logo logo já estava eu de novo a visitar a Madre Celina e a Madre Xavier. E, entre os colóquios, invariavelmente havia os lanches regados a doces e queijos e também os pacotes de broas e de doces que as freiras faziam para vender. Havia ainda os santinhos, carinhosamente talhados em suas bordas, e eles eram lindos de se ver, pois havia o menino Jesus, a imagem de Nossa Senhora, ou ainda do Sagrado Coração de Jesus e de outros santos, arrodeados de anjos e repletos de auras.

Vez por outra, apareciam algumas noviças, e tanto elas quanto as freiras quando me elogiavam, eu ficava de cabeça baixa como se nada daquilo fosse comigo.

Depois, muitos anos depois, as visitas de minha mãe foram rareando, posto que a Madre Celina fora transferida para o Recife e em seguida morreria a Madre Xavier, e, a partir de então, as imagens e as memórias daquele lugar foram como que rareando até quase desaparecer, mas que, em mim, quase que a contrapelo, elas permaneceriam sempre enquanto fragmentos teimosos nos resíduos de memórias.

E durante os anos que roem o tempo, durante décadas, ao passar por aqueles arredores, naquele local, que, durante muito tempo sempre ter sido aquele uma geografia composta de pedras, bichos e verdes, com o avançar do tempo, eu, meio que distraído ao passar por ali, notava-o cada vez mais diminuto, pois, ano aqui, ano mais além, eu fui percebendo a sua fragmentação e enquadramento. E aos poucos e aos pedações, ele foi sendo fragmentado em um, dois, três e outras tantas partes, e eu ficava então a lembrar-me a quantas estava o vasto pomar daquele sítio e também da imagem da santa. Afinal, como estaria todo aquele mundo?

E os anos foram se tornando décadas e, durante décadas, eu passaria por ali, e a cada vez algo como que pulsava dentro de mim a perguntar: como estará aquilo lá? Haveria ainda o verde e a imagem da santa? E sempre que assim pensava, era a imagem de um todo o que me vinha, e se por vezes me acudia a antiga salinha dos colóquios entre as freiras e a minha mãe, por outras eram as frondosas árvores do pomar com as suas galinhas e patos e, sobretudo, a doce imagem da santa que me acudia, e também do meu rezar. E punha-me então a perguntar: Como estará tudo aquilo por dentro?

Durante anos e anos eu passaria por ali, mas, apesar do incômodo, eu postergava a adentrar-me ali até que um dia — na semana passada — eu resolvi visitá-lo, e, ao entrar, eu me procurei nos lugares de outrora. Primeiro, a sala de estar, um recanto aconchegante que ficava logo no lado esquerdo de quem entra, lugar dos colóquios e orações de minha mãe e as madres, e deparei-me com um espaço lacrado e, em seguida, pus-me a olhar na direção do portão por onde outrora eu me adentrava no sítio. Mas no lugar da porta, um tapume.

Irmã — perguntei — cadê o sítio e a gruta da Santa?

— A santa tá lá fora, meu filho, logo na entrada, e o sitio foi vendido já faz tempo, muito tempo!

Vendido! E fiquei meio que sem acreditar. E, então, pus-me a andar na direção a umas janelas de vidro, na esperança de, ao menos, olhar dali as ruinas e a solidão das fruteiras e as ruinas da gruta, mas nada da janela lacrada, não se podia transpor a vista pois estava tudo tapado. Senti um aperto na garganta e pus-me então a andar em círculos, como se assim eu pudesse reportar-me ao passado, mas era tudo solidão.

Desconsolado e triste, adentrei-me na capela e, ao lado de velhas freiras e das ladainhas dos terços, pus-me a rezar um pai nosso e recordar-me do passado, dos santinhos, das broas e das sorridentes meninas do antigo internato, nada me saía da cabeça. E também me acudiram as lembranças das correrias por dentre as folhas secas querendo pegar as galinhas, de, quando já cansado, chupar mangas e cajus e deitar-me sobre as folhas secas a contemplar o céu para além dos galhos. E quando dei por mim, algo estava molhado e triste, e ainda outra vez, na busca de concretude, aproximei-me de uma freira já bastante idosa e cadeirante, e perguntei:

— Há quanto tempo a senhora está aqui?

— Há muitos anos, meu filho, muitos anos.

‘ Olha, irmã, quando eu era pequeno vinha por aqui com a minha mãe, e havia duas freiras: a Madre Celina e a Madre Xavier.

— Ah, eu conheci, meu filho, eu era bem novinha e elas já estavam por aqui. A senhora se lembra bem delas? Indaguei.

— Muito pouco, meu filho, muito pouco, pois com a idade as coisas vão sumindo, sumindo…

E eu fiquei ali a ouvi-la e, com o passar dos minutos, eu fui revendo-me em sonhos e pus-me a recordar e a perguntar a mim mesmo: Onde estão todos vocês agora, onde está agora aquele antigo desejo louco de ser santo?

E estava ficando de noite, quando ao se aproximar da hora do Angelus, eu, mais uma vez fui rever-me com minha mãe e os meus. Com meu pai, em seu aparecer já velho, a lembrar-me de meu irmão, das minhas tias, e ali, mergulhado por dentre hinos e cantos evocados, eu pus-me a lembrar lá das bandas do Auto da Saudade, da preta Salviana nas beiradas da Praça dos Martírios, e pus-me então como que a pensar se aquilo tudo era saudade mesmo, ou se poderia ser um sonho de voltar a ser um pouco de mim mesmo. E, por entre as águas que aos poucos me chegavam, ao pôr-me como, que de esguelha, a sair, deixando-me sentir por dentre odores e ruinas, confuso e sem saber se eram elas que estavam ali ao redor e por dentre as paredes, ou se era algo dentro de mim a ruir sob o manto inelutável da saudade, quando dali me chegavam cantos:

O meu coração é só de Jesus

E a minha alegria é a santa cruz.

E eu pus-me a caminhar pelas ruas com uma saudade a girar em círculos:

No céu, no céu
Com minha mãe estarei,
No céu, no céu (…)

E assim, envolto em reminiscências, envolvi-me no indagar aos ventos na procura de encontrar, por dentre as ruas, o fugitivo rosto de minha mãe. E, então, por entre as águas que aos poucos me chegavam, ao pôr-me de esguelha a perambular, deixando-me enlaçar por dentre odores e ruinas, na sinestesia de não saber se eram os meus que estavam ali ao redor por dentre ou detrás daquelas paredes, ou se era algo dentro de mim a ruir sob o manto inelutável de uma imensa saudade de quando era puro e santo, e não acreditava na maldade do mundo.

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Por Edson Bezerra

Claudio, o Gigante

De Edson Bezerra para Cláudio Canuto

Quando penso em Cláudio,

Eu penso no mundo, e ,

Sobretudo no tamanho do mundo,

E no mundo que habita o tamanho de Cláudio,

Pois o tamanho de Cláudio é o volume imenso

De uma montanha que se desloca entre os edifícios,

E que também fala e brinca solidária

Entre a solidão dos homens.

 

Quando eu penso em Cláudio

E em seu volume,

Eu recordo o gigante que havia no

Tempo em que eu era menino,

Mas também dele aprendi

Que do volume de um homem

Não se deve ter medo,

Pois, neste mesmo tamanho

E dos pés imensos que percorrem

Os bares solitários,

Existe um coração a percorrer esta cidade,

E se esta cidade é solitária e sem amor,

E se nela os homens vivem a fome,

Eu penso em Cláudio, e penso ali num coração sozinho

A driblar a solidão abraçando o mundo e esta cidade,

E trazendo a mim,

Na solidão do tempo em que se vive,

A certeza de que seu tamanho é pouco,

E o coração lhe escapa e não lhe cabe.

E mesmo que ele não saiba,

Assim é Cláudio, um furacão cansado

No coração de um homem.

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Por Edson Bezerra

O bom pastor, ou, uma memória de infância

O retiro do Bom Pastor é um convento situado na rua Virgínio de Campos, no bairro do Farol, para o qual eu, quando pequeno, vez por outra era para ali levado pela minha mãe e, no mais das vezes, da Praça dos Martírios para ali, íamos quase sempre que, a pé, e, depois de subirmos pela Ladeira dos Martírios e na caminhada nos alongarmos até a Praça do Centenário, deli seguíamos pela Av. Fernandes Lima, até dobramos pela rua (…), na qual haviam bangalôs elegantes, nos quais, por detrás dos muros baixos, os meus olhos de menino pobre, pelos jardins e salas, eu avistava telescópios, bicicletas, velocípedes e outros objetos de desejos por coisas que eu não tinha.

Mas, era uma grande a alegria visitar o convento do Bom Pastor, e, por dentre as dezenas de internas, haviam as freiras, e, dentre muitas, haviam duas que me ficariam na memória: a Madre Maria Xavier e a Madre Celina.

Se com as duas a minha mãe se inteirava das coisas do sagrado, era no particular com a Madre Xavier que se dava a maior parte dos seus colóquios e orações, e, eu não sabia se para a intimidade de seus colóquios, contribuía a sua condição de cadeirante.

“A madre Xavier” – uma cadeirante, – assim ficara, dizia-me minha mãe, em virtude da maldade de uma noviça, a qual, por pura maldade a fê-la cair de propósito fraturando a coluna, e isto, pontuava minha mãe, seria um segredo que morreria com ela, e que por isto e também pelas penitências e rezas, a minha mãe, um órfã outrora adotada que fora por minha Avô Salviana, escolhera a Madre, como um segunda mãe, com o adendo de, ser além daquela maternidade adotada, ser ela, uma santa!

Uma santa!! Dizia-me a minha mãe, e santa ou não, lembro-me dela com uma saudade atrelada de doçura, e, se por vezes eu permanecia ali durante dezenas de minutos, horas, por outras, quando minha mãe estava nos entremeios de entrar nas intimidades de confissões, dizia-me delicadamente: meu filho, vá dar uma volta.

Ordenada a sentença, eu descia para um sitio que havia, e era um sítio com muitas árvores frutíferas, e haviam as mangueiras, os cajueiros, jaqueiras, pitangueiras e outras tantas frondosas espalhadas sob as quais se derramavam por dentre as quietudes e os cantos dos pássaros, o cocoricar das galinhas e os bandos de patos por entre uma vastidão de sombras, e, no meio do sítio, havia uma gruta com a imagem de Nossa Senhora, e diante da santa, uma construção de pedras cheia de água e repleta de peixinhos amarelos.

Lembro-me que, ao chegar na gruta eu fechava os olhos e me punha a rezar, e, sabe-se lá quanto tempo eu ficava e o que pedia, e ali, naquele tempo, era um tempo em que eu buscava ser santo, e ali eu pensava nos mistérios de São Francisco de Assis e na história do lobo mau pelo santo amansado, e me punha a pensar nos sofrimentos de Cristo na cruz pelos malvados, e, depois de muito pensar em Deus e na pureza dos santos e dos mistérios dos céus, eu mergulhando minhas mão n’água na tentativa de brincar com os peixinhos, e, vez por outra olhava para a santa, e, depois dali, e cansado de, por dentre as árvores ter corrido atrás das galinhas e patos, esquecido do tempo, de longe escutava uma voz: Edson, a tua mãe tá chamando, e triste, lá ia eu me despedir da Madre, e no caminho de volta para casa, já ia ficando triste e com saudade daquele mundo.

Mas, para ali eu sempre voltava e logo logo já estava eu de novo a visitar a Madre Celina e a Madre Xavier, e, entre os colóquios, invariavelmente haviam os lanches regados a doces e queijos, e também, os pacotes de broas e de doces que as freiras faziam para vender, e, haviam ainda os santinhos, carinhosamente talhados em suas bordas, e eles eram lindos de se ver, pois, haviam o menino Jesus, a imagem de Nossa Senhora, ou ainda, do Sagrado de Jesus e de outros santos, arrodeados de anjos e repletos de auras.

Vez por outra, apareciam algumas noviças, e tanto elas quanto as freiras quando me elogiavam, eu ficava de cabeça baixa como se nada daquilo fosse comigo.

Depois, muitos anos depois, as visitas de minha mãe foram rareando, posto que, a Madre Celina fora transferida para o Recife e em seguida morreria a Madre Xavier, e a partir de então, as imagens e as memórias daquele lugar foram como que, rareando até quase desaparecer, mas que, em mim, quase que a contrapelo, elas permaneceriam sempre enquanto fragmentos teimosos nos resíduos de memórias.

E durante os anos que rói o tempo, durante décadas, ao passar por aqueles arredores, naquele local, que, durante muito tempo sempre ter sido aquele uma geografias composta de pedras, bichos e verdes, com o avançar do tempo, eu, meio que distraído, ao passar por ali, notava-o cada vez mais diminuto, pois, ano aqui, ano mais além, eu fui percebendo a sua fragmentação e esquadrinhamento, e aos poucos e aos pedações, ele foi sendo fragmentado em um, dois, três e outros tantas partes, e eu ficava então a me lembrar a quantas estava o vasto pomar daquele sítio e também, da imagem da santa. Afinal, como estaria tudo aquele mundo?

E os anos foram se tornando décadas e durante décadas eu passaria por ali, e a cada vez algo como que, pulsava dentre de mim a perguntar: como estará aquilo lá? Haveria ainda o verde e a imagem da santa? E sempre que assim pensava, era a imagem de um todo o que me vinha, e, se por vezes me acudia a antiga salinha dos colóquios entre as freiras e a minha mãe, por outras, eram as frondosas árvores do pomar com as suas galinhas e patos, e, sobretudo, a doce imagem da santa que me acudia, e também do meu rezar. E me punha então a perguntar: como estará tudo aquilo por dentro?

Durante anos e anos eu passaria por ali, mas, apesar do incômodo, eu postergava o me adentrar ali, até que um dia – na semana passada – eu resolvi visita-lo, e ao entrar, eu me procurei nos lugares de outrora. Primeiro, a sala de estar, um recanto aconchegante que ficava logo no lado esquerdo de quem entra , lugar dos colóquios e orações de minha mãe e as madres, e me deparei com um espaço lacrado, e, logo em seguida, me pus a olhar na direção do portal por onde, outrora eu me adentrava no sítio. Mas, no lugar da porta, um tapume.

Irmã, – perguntei – cadê o sítio e a gruta da Santa?

– A santa tá lá fora meu filho, logo na entrada, e o sitio foi vendido, já faz tempo, muito tempo!

Vendido! E fiquei meio que sem acreditar. E então me a pus a andar na direção a umas janelas de vidro, na esperança de, ao menos, olhar dali as ruinas e a solidão das fruteiras e as ruinas da gruta, mas, nada, da janela lacrada não de podia transpor a vista pois estava tudo tapado. Senti um aperto na garganta e me pus então a andar em círculos, como se assim eu pudesse me reportar ao passado. Mas, era tudo solidão.

Desconsolado e triste, me adentrei na capela, e, ao lado de velhas freiras e das ladainhas dos terços, me pus a rezar um pai nosso e a me recordar do passado, dos santinhos, das broas e das sorridentes meninas do antigo internato, nada me saia da cabeça, e também me acudiram as lembranças das correrias por dentre as folhas secas querendo pegar as galinhas, e, de quando, já cansado, chupar mangas e cajus e me deitar sobre as folhas secas a contemplar o céu, para além dos galhos, e, quando dei por mim, algo estava molhado e triste, e ainda outra vez, na busca de concretude, me aproximei de uma freira já bastante idosa e cadeirante e bem velhinha, e perguntei:

– Há quanto tempo a senhora está aqui?

– Há muitos anos meu filho, muitos anos.

Olha irmã, quando eu era pequeno vinha por aqui com a minha mãe, e, haviam duas freiras: a Madre Celina e a Madre Xavier.

– Ah, eu conheci meu filho, eu era bem novinha e elas já estavam por aqui. A senhora se lembra bem delas? Indaguei?

– Muito pouco meu filho, muito pouco, pois, com a idade as coisas vão sumindo, sumindo…

E eu fiquei ali a ouvi-la, e, com o passar dos minutos, eu fui me revendo em sonhos e me pus a recordar e a perguntar a mim mesmo: aonde estão todos vocês agora, e aonde esta agora aquele antigo desejo louco se ser santo?

E estava ficando de noite, quando ao se aproximar da hora do Angelus, eu, mais uma vez fui me rever com minha mãe e os meus. Com meu Pai em seu aparecer já velho, a me lembrar de meu irmão, das minha tias, e ali, mergulhado por dentre hinos e cantos evocados, eu me pus a me lembrar lá das bandas do Auto da Saudade, da preta Salviana nas beiradas da Praça dos Martírios, e eu me pus então como que a pensar, se aquilo tudo era saudade mesmo, ou se poderia ser um sonho de voltar a ser um pouco de mim mesmo, e, por entre as águas que aos poucos me chegavam, ao me pus como que, de esguelha, a sair, deixando-me sentir por dentre odores e ruinas, confuso e sem saber se eram elas que estavam ali ao redor e por dentre as paredes, ou se era algo dentro de mim a ruir sob o manto inelutável da saudade, quando deli me chegavam cantos:

O meu coração, é só de Jesus,
E a minha alegria, é a santa cruz.

E eu me pus a caminhar pelas ruas com uma saudade a girar em círculos:

No céu, no céu
Com minha mãe estarei,
No céu, no céu (…)

E assim, envolto em reminiscências, me envolvi no indagar aos ventos na procura encontrar por dentre as ruas, o fugitivo rosto de minha mãe, e então, por entre as águas que aos poucos me chegavam, ao me pus como que, de esguelha a perambular, deixando-me enlaçar por dentre odores e ruinas, na sinestesia de não saber se eram os meus que estavam ali ao redor por dentre ou detrás daquelas paredes, ou se era algo dentro de mim a ruir sob o manto inelutável de uma imensa saudade, de quando era puro e santo, e não acreditava na maldade do mundo.

 

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Por Edson Bezerra

02 de Fevereiro de 2020, o Xangô Rezado Baixo, ou o sentimento de tragédia vivenciado enquanto uma farsa.

Por Edson Bezerra[1]

Em seu 18 de Brumário, Karl Marx, ao analisar a problemática da luta de classe na França no século XIX e os seus impasses, escreveria que: “na primeira vez a história acontece como tragédia e na segunda” (ela a história), “aconteceria enquanto uma farsa”.

Pois bem, e, foi enquanto uma “farsa” que a violência contra a memória histórica dos negros seria rememorada no domingo, dia 02 de fevereiro, quando o evento Xangô Rezado Alto, a despeito de toda memória e registro de seus marcos e de suas violências históricas, sob o amparo e a articulação da Fundação Municipal de Ação Cultural de Maceió – FMAC, realizou a sua performance e ritual sobre a rememoração da tragédia da quebra dos terreiros de 1912, no suntuoso e paradisíaco território e paisagem da Pajuçara-Ponta Verde.

Em uma cidade fragmentada em duas metades, uma exuberante e rica – os espaços da Pajuçara-Ponta Verde e Jatiúca – e uma outra miserável, situada nos bairros periféricos, no geral, lugares esquecidos pelos poderes públicos e sujeitos a todo o tipo de violência, territórios nos quais se encontra situada a esmagadora maioria das casas de culto dos religiosos de matriz afro-alagoana, os contrastes entre estes dois territórios e suas paisagens assemelham-se ao que nos diz Fanon[2], quando, ao identificar as diferenças entre os espaços centrais aonde moram os colonizadores e os espaços dos pobres, esmiúça que:

A zona habitada pelos colonizados não é complementar da zona habitada pelos colonos. Estas duas zonas se opõem, mas não em função de uma unidade superior. Regidas por uma lógica puramente aristotélica, obedecem ao princípio da exclusão recíproca: não há conciliação possível, um dos termos é demais A cidade do colono é uma cidade sólida, toda de pedra e ferro. É uma cidade iluminada, asfaltada, onde os caixotes de lixo regurgitam de sobras desconhecidas, jamais vistas, nem mesmo sondadas.

Posto que:

O mundo colonizado é um mundo cindido em dois. A linha divisória, a fronteira, é indicada pelos quartéis e delegados de polícia.

 

Com este entendimento, vale perguntar por aqui, quais as nuances e quais as diferenças entre a tragédia de 1912 e a farsa de 2020, 108 anos depois?

Pois bem, em 1912 a conjuntura dos eventos que culminariam na trágica violência contra os praticantes de candomblé aconteceu em virtude do atrelamento dos terreiros, os quais, sob os auspícios e a proteção do poder do então representante maior de uma facção das elites alagoanas, o governador Euclides Malta, se sentiram na ilusão de poderem se sentar à mesa com uma elite, a alagoana, sempre, tradicionalmente, violenta, autoritária e de baixo-nível cultural. Pois bem, deu no que deu: pancadaria e humilhação da negrada e, até a presente data, os seus adereços sagrados estão cerimonialmente depositados enquanto despojos nas mãos do vencedor – o Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, enquanto um rico ornamento para turista ver, mas, “sem poder tocar”!!!!

Já a exibição e performance dos terreiros no território e paisagem paradisíaca na Pajuçara como se deu no dia 02 de Fevereiro, tem o sabor de uma farsa, e o sentido da farsa não se encontra apenas na performance ali em si mesma, mas alhures, e ela melhor se revela no contorno das históricas e conflituosas relações entre a cultura afro-alagoana e as nossas elites.

Sim, as razões não se encontram exatamente ali naquela performance, mas alhures, sendo o buraco mais embaixo, mais, muito mais embaixo, como eu já coloquei para o companheiro Jeamersom Santos, posto que, sendo em nossa sociedade (burguesa) a herança dos bens e da propriedade algo transmissível pela força da Lei e do Direito, os herdeiros da violência do Quebra de ontem, de 1912, estão hoje todos concentrados ali, naquele espaço gigantesco, na verdade, um conjugado coletivo de “Casas Grandes” irmanadas no interesse de seus direitos.

Todavia, no domingo, naquele espaço sempre panopticamente vigiado, os terreiros e os seus sagrados adereços, a despeito da violência de terem abandonado toda a perspectiva de memória histórica, estiveram a desfilar ali, altivos e vestidos de seus orixás, e em meio as suas danças e cantos, puderam desfilar “livremente” sob os olhares complacentes da repressão administrada dos poderes, e, para o deleite e alegria dos turistas, enquanto uma coisa pra turista ver!!

Meus caros, ao falar da cultura negra e particularmente dos cultos religiosos afro-alagoanos, não estamos diante de uma cultura qualquer, posto que, ela, a cultura afro-alagoana e suas religiosidades, constituem o coração, o berço e a matriz da cultura alagoana, e, quanto a isto não há novidade, pois, só para se ter uma ideia de sua força, o último filme de Werner Salles e Raphael Barbosa, o longa-metragem Cavalo, tem como a sua ideia estruturante e matriz, a cosmogonia dos orixás das águas, e, toda a esmagadora cultura alagoana, com raras e honrosas exceções, é devedora da força de seu enraizamento de um cultural que nos remete para a herança rebelde dos negros de Palmares.

Zumbi dos Palmares, pintura de José Zumba

Temos então que existe uma dívida, sobretudo, impagável da cultura e da sociedade alagoana para com a sagrada herança africana que habita entre nós e em nossos corações e que se espalha nas entranhas dos nossos paladares, e que, maravilhando os nossos olhos e penetrando em nossos ouvidos, nos atinge a alma no que existe de mais profundo,  e, existe então um lugar de memória que deveria ser preservado a partir das geografias, territórios e marcos originários onde aconteceu a violência da quebradeira dos terreiros; esta paisagem e território, com certeza, não é e nem será jamais ali, posto que, naquelas geografias glamorosas e território privilegiado das elites, os pobres, negros e periféricos estão sempre sobre vigilância e controle, sendo ali, desde sempre, um território no qual jamais residiria um Chico Foguinho, um Pai Aurélio, a negra Fortunata, o João Funfun, Sabino, moradores que foram do bairro da Levada e, não era jamais ali que residiria um Manoel Inglês (morador da Ladeira do Brito) e nem Manoel Coutinho (morador da antiga rua do Reguinho), e nem João Catirina (morador da Rua do Apolo), e nem Maria Bico Doce (Alto do Jacutinga) e nem tampouco Manoel da Loló (Vale do Reginaldo), nem Mestre Félix (Jaraguá), nem Manoel Guleiju (Mutange) e Maria da Cruz (Flexal de Cima) e nem  a Tia Marcelina moradora dos limites do Centro, pois, no geral, ou estes terreiros, – todos eles vítimas da violência do Quebra de 1912, – estavam localizados nas beiras de lagoas, ou situados no centro da cidade, espaço geográfico e território onde as casas e os monumentos e marcos históricos seriam em sua maioria construídos pelos próprios negros,  assim como foram a Igreja do Rosário, a Igreja dos Martírios, a igreja das Graças e a Igreja do Livramento, e, se por caso alguém no último dia 02 de fevereiro de 2020, apenas por alguns minutos, se apartasse do êxtase e fascínio e por dentre aqueles edifícios suntuosos e nominados com estrangeirismos – Patmos, Jacques Lacan, Jacques Lafont, Saint Thomaz, Belize, Van Gogh, Matisse – procurasse por um nome que remetesse a negritudes, seria algo como que procurar agulha em palheiro.

Êxtase. Foto de Siloé Amorim

Todavia, os negros e seus cantos no último dia 02 de fevereiro estavam todos ali, sentindo um pouco do glamour do desfilar na avenida Silvio Viana, espaço reservado de passagem e dos simulacros das relações humanas face-a-face, esquecendo assim, da consolidação e da construção de um lugar de memória – a Praça dos Martírios – quando ali, no dia 02 de fevereiro de 2012, diante de centenas de religiosos de matriz afro-alagoana, o então Governador do Estado, Teotônio Vilela Filho, no papel de represente maior do Estado,  pediria perdão aos negros alagoanos pelas históricas violências sobre as suas religiosidades.

O governador de Alagoas Teotônio Vilela Filho e o Reitor da Uneal, Jairo Campos.

Lembro-me – e isto foi há bem pouco – quando ali na Pajuçara, em dezembro de 2011, portanto um ano antes da realização do Xangô Rezado Alto na Praça dos Martírios, quase que aconteceria um revival do Quebra de 1912, quando a prefeitura da cidade de Maceió, pelo então prefeito Cícero Almeida, chegou a restringir as manifestações de oferendas a Iemanjá a um pequeno espaço da praia de Pajuçara. E por que isto não chegou a acontecer?

Pois bem, naquele dia, 08 de dezembro de 2010, o autor deste texto havia acordado há pouco, quando um militante cultural, o Ernani Viana Neto, telefonou-me avisando que a manifestação daquele ano havia sido proibida pela prefeitura, ao que de imediato não acreditei. No entanto, desconfiado, liguei para Geraldo de Majella[3], que mesmo não acreditando, procurou averiguar os fatos, quando, ao constatar ser verdade aqueles rumores, se comunicou de imediato com a então Secretária de Direitos Humanos, Katia Born, a qual ligaria para o então Secretário de Segurança Pública, alertando-o para as consequências políticas para o Governo do Estado se a tal proibição da Prefeitura fosse levada a cabo e houvesse uma outra quebradeira.

Pois bem, para os que não sabem, – e não são poucos – foi justamente esta intervenção que evitaria uma segunda humilhação dos negros tal como ocorreu em 1912, e foi quando eu e o Professor Geraldo de Majella, apoiados por lideranças afro-religiosas, entramos com um processo contra a Prefeitura no Ministério Público contra aquele ato discricionário.

Pois bem, não haveria e nem poderia haver nenhum tipo de tragédia no último dia 02 de fevereiro do presente ano, um domingo, posto que, os negros que estiveram ali naquele dia, ali estavam enquanto um presença datada, consentida, vigiada e administrada sob o manto protetor das elites alagoanas representadas pela Fundação Municipal de Ação Cultural de Maceió, na certeza a elas, elites, que ali a “barbárie” dos negros seria mantida sob o “controle dos marcos civilizatórios”, e, houve até quem, ou por se confundir com as datas, ou sob o impacto da exuberância dos adereços do desfile, se saísse a perguntar a um e a outro:

“É festa de Iemanjá seu moço?”

E, então, diante do exposto, podemos inferir ter sido toda uma  memória histórica que seria ali destroçada e folclorizada, ali naquele dia 02 de 02 de 2020, posto que, não se poderá jamais servir a dois senhores, e, que se ressalte, toda aquela performance tal como em 1912, se desenvolveria sob o silêncio ou o alheamento da esmagadora maioria dos intelectuais alagoanos, sobretudo daqueles, os quais, debruçando-se sobre as heranças das culturas afro-alagoanas, ao longo do tempo, vêm preenchendo os seus currículos lattes  de eruditos ensaios a partir das heranças ancestrais afro-alagoanas.

Eu, em minhas provocações e palestras, tenho dito que, os negros alagoanos e as suas lideranças mais expressivas, no geral, têm se revelado muito aquém da administração de toda a herança afro-alagoana na qual estamos imersos e somos devedores, haja vista que – só para identificarmos um exemplo – até a presente data, os administradores do patrimônio cultural da Serra da Barriga têm sido a Fundação Palmares, de resto, uma instituição, a qual, não obstante ser legitimamente administrada por respeitáveis intelectuais negros, são completamente alheios às particularidades alagoanas e aos impasses e aos interstícios nos quais a cultura afro-alagoana está situada.

Sobre a Tia Marcelina, a mãe de santo morta no Quebra, dizem que ao ser espancada a golpes de sabre e coturno, ao tempo em que chamava por Xangô, seu Orixá, ela dizia: bate, bate, vocês matam o corpo mas não a sabedoria.

Quanto a mim, enquanto o idealizador deste projeto lá por 2006, ao vê-lo atualmente tão desvirtuado, destroçado, e tão entregue à ideologia e às cínicas articulações de poder, eu, para além de qualquer tipo de pieguismo, só me resta suplicar, como alguém já o fez: Pai, perdoa-lhes, ele não sabem o que fazem!!

Ou, será que sabem?

[1] Para quem não sabe, eu fui o idealizador do projeto Xangô Rezado Alto, o qual seria realizado a primeira vez em 2006 e replicado em 2012 também enquanto uma iniciativa nossa na articulação da Universidade Estadual de Alagoas – UNEAL e as outas instâncias a partir de um proposta compartilhada entre as instituições envolvidas no evento.

[2] Para quem não sabe, Frantz Omar Fanon (1925–1961) foi um psiquiatrafilósofo e ensaísta marxista francês da Martinica de ascendência francesa e africana e que seria um dos mais representativos teóricos dos processos de libertação e descolonização dos países africanos sob o jugo dos países ocidentais.

[3] Que na época era diretor do Iteral (Instituto de Terras e Reforma Agrária de Alagoas).

Todas as postagens são de inteira responsabilidade do blogueiro.

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