Eliana Sá Angelo

DO INTELIGENTE AO CHICS: O FUTURO DA NOSSA VIDA URBANA

Cidades que otimizam a utilização dos recursos para servir melhor aos cidadãos.

Fonte: gratispng.com

 

Imagine uma cidade onde todos os apartamentos estejam ligados a um sistema onde os resíduos descartados vão diretamente para a central de coleta de lixo, sem necessidade de caminhões e, pasmem, os detritos servem para abastecer incineradores que geram energia para a própria cidade.

Nesse lugar os edifícios são conectados por sistemas de monitoramento de energia e de incêndios, capazes de otimizar o uso e reduzir significativamente o custo de manutenção.

Nessa cidade há mais de 400 km de ciclovias e, em algumas delas acumulam-se mais de 40 mil passagens de ciclistas por dia. Além disso, mais da metade de seus parlamentares pedalam todos os dias para o trabalho.

Existe também uma frota de carros elétricos que prestam serviços públicos e aplicativos capazes de dizer aos motoristas exatamente onde e quando os espaços de estacionamento estarão disponíveis, diminuindo as voltas no quarteirão para localizar uma vaga.

Na pegada de redução de emissão dos gases, uma rede integrada de transporte público conta com metrô com mais de 400 quilômetros de extensão, além de trem, ônibus, táxi e bicicletas e, com um único cartão é possível ter acesso a vários meios de transporte.

Cidades assim existem!

A cada século intensifica-se a concentração populacional nas cidades. Previsões indicam que até a metade do século XXI, 2/3 dos habitantes da terra estarão nas cidades. Entretanto… estudos sinalizam que até 3 bilhões de pessoas podem estar vivendo em comunidades precárias.

Os dados não mentem: é urgente a necessidade de se repensar as cidades por meio do planejamento e da gestão urbana, incorporando os preceitos das cidades inteligentes.

Urgente.

O crescimento das cidades e os problemas por ele gerados impõem o surgimento de projetos inteligentes, inovadores e criativos.

As cidades inteligentes são aquelas que combinam seus recursos de modo ótimo e, em geral, inovador, para promover o desenvolvimento econômico e, de fato, elevar o bem-estar e a qualidade de vida da população. Como recursos entenda-se: infraestrutura social (saúde, educação, esgoto, mobilidade, habitação, segurança), governança institucional e ecossistema de inovação empreendedora, instituições de ciência e tecnologia, sistema financeiro, ativos ambientais, e a infraestrutura tecnológica que assume protagonismo e são utilizadas de forma estratégica nesse rearranjo dos recursos.

Ou seja, as cidades inteligentes aliam tecnologia e a participação dos cidadãos ao seu planejamento, com impactos na melhoria da infraestrutura, na otimização da mobilidade urbana, na habitação social, na energia, na coleta de lixo, no controle da poluição do ar, na criação de soluções sustentáveis dentre outras melhorias necessárias para o aumento da qualidade de vida dos moradores.

Para medir o “nível” de inteligência da cidade foi criado pela IESE Business School, o Citiesin Motion Index, que trabalha 10 dimensões: governança, administração pública, planejamento urbano, tecnologia, o meio-ambiente, conexões internacionais, coesão social, capital humano e a economia.

Cidades como Amsterdã, Tóquio, Viena, Nova York, Songdo são cases de sucesso no assunto.

Apesar das características e demandas específicas de cada cidade, que as tornam únicas, as Cidades inteligentes têm aspectos comuns fundamentais: foco no aumento da qualidade de vida dos cidadãos; coesão e envolvimento dos stakeholders; uso otimizado dos recursos; e… planejamento, planejamento, planejamento!

Ao pensar as cidades é inevitável considerar o papel do homem, enquanto cidadão a sua capacidade de contribuir de forma inovadora na solução dos problemas. Surge, então, as Cidades Humanas e Inteligentes.

Projetos menos tecnológicos também podem mudar completamente a vida da população, à exemplo de ações de reciclagem muito comuns na economia circular e criativa.

Assim, a associação entre inteligente, humana e criativa no acrônimo CHICS foi inevitável.

As Cidades Criativas, conforme a Unesco, são aquelas que identificaram a criatividade como um fator estratégico para o desenvolvimento urbano sustentável. São sete as áreas consideradas criativas: artesanato e arte folclórica, design, cinema, gastronomia, literatura, mídia e música.

AS CHICS operam sua gestão baseadas em dados e informações confiáveis, transparentes, e que garantam projetos sustentáveis ambientalmente e também sustentáveis ao longo do tempo e são observadas a partir de seis dimensões: governança inteligente; pessoas inteligentes; ambiente inteligente; mobilidade inteligente; vida inteligente; economia inteligente (Giffinger et al., 2007) e uma sétima dimensão acrescida pelo IBRACHICS, que é o financiamento inteligente.

No Brasil, em 2013, criou-se a Rede Brasileira de Cidades Humanas, Inteligentes, Criativas e Sustentáveis (REDE CHICS), no âmbito da Frente Nacional de Prefeitos e definiu como CHICS “aquela cidade que faz uma gestão integrada, integral, sistêmica e transversal de suas cinco camadas: as pessoas; o subsolo; o solo; a infraestrutura tecnológica; e as plataformas: internet das coisas, inteligência artificial e blockchain, construindo uma cidade boa para viver, para estudar, para trabalhar, para investir e para visitar, de forma sustentável, criativa e com alta qualidade de vida.” (IBRACHICS, 2018).

As CHICS utilizam as tecnologias da informação e da comunicação (TIC), a Internet das Coisas (IoT), a Inteligência Artificial (IA) e a Blockchain (Bcn), de forma integrada, como meio para ter eficiência e eficácia na gestão, englobando aspectos criativos, sustentáveis e principalmente humanos. Ela se organiza, planeja, e executa ações, estabelecendo sistemas entre governo, empresas, academia, ONGs e comunidade, que interagem de forma coletiva, utilizando a criatividade social, econômica, cultural e política de forma inteligente, tendo como finalidade a melhora da qualidade de vida e o aumento da FIB (Felicidade Interna Bruta) de sua população.

Maceió tem dado os primeiros passos nessa direção. São exemplos: a aprovação da Lei de Inovação de Maceió institui a Política Municipal de Ciência, Tecnologia e Inovação e dispõe sobre mecanismos para estímulo à inovação, à economia criativa, ao empreendedorismo, à pesquisa e qualificação científica e tecnológica; o projeto Maceió Cidade Inteligente, que busca, consolidar a cultura da inovação e elevar o município ao patamar de cidade humana, inteligente, sustentável e criativa, engajando o cidadão e aproximando a gestão pública, a academia e o setor produtivo para o desenvolvimento socioeconômico inclusivo, resiliente e sustentável. Ações de desburocratização, assim como a promoção de oficinas e o projeto Vem pro Jaraguá são outras ações que empurram a cidade para esse novo e admirável mundo onde tecnologias, criatividade e sustentabilidade se coadunam de forma inteligente para melhorar a vida dos cidadãos.

Simbora ser CHICS!

 

Banner
Por Eliana Sá Angelo

SOMOS TODOS SURURU: candidatos, rendei-vos à causa!

Na esfera institucional, sair da pandemia da Covid-19 tem sido mais atribulado do que se podia imaginar. Foram vários programas e orçamentos em stand by, que precisam ser executados e o tempo é implacável. O ano termina em 31 de dezembro de 2020, com ou sem pandemia.

O momento é propício, então, hoje vou me ater ao que pode ser uma oportunidade de fazer com que a tecnologia e a inovação estejam no alto da lista de prioridades – como vetor de desenvolvimento – de quem poderá influenciar os destinos da nossa cidade: candidatos à prefeitura e à câmara de vereadores de Maceió.

Antes de seguir com a realidade local, convém lembrar que a inovação tem inúmeras faces. O quadro abaixo desenha essas múltiplas dimensões e nos localiza em relação ao que pretendemos enfocar.

Múltiplas Dimensões da Inovação

Fonte: adaptada pela autora de Garcia e Calantone (2002).

Pela sua tipologia, o ato de rearranjar recursos de maneira inusitada, ou seja, a inovação, pode se dar no próprio produto ou no processo de produção ou, ainda, no modelo como a empresa se organiza e como se relaciona com o mercado.

Quanto mais danos a inovação causar ao padrão de produção vigente (ver destruição criativa, de Schumpeter), maior será o seu impacto. Nesse sentido, observa-se que a inovação pode ser incremental, significando apenas uma alteração em algo que já existe, desde que amplie a inserção competitiva da empresa (não vá confundir com melhoria contínua!).

A inovação pode ser também algo radicalmente novo, fazendo nascer na sociedade um desejo de consumir algo que não existia há pouco tempo atrás, ou seja, criou-se um novo mercado para um novo produto. É o conceito de inovação radical, que compreende o surgimento de novos conhecimentos que se transformam em ideias, produtos ou serviços completamente novos.
A inovação disruptiva, por sua vez, transforma a indústria no segmento em que surge rompendo com o padrão produtivo praticado até então, porém, inovando em mercados já criados, muitas vezes alimentados com produtos que não atendem em 100% as necessidades dos clientes. Assim, para alguns especialistas, a diferença entre ambas está no mercado: enquanto a inovação radical cria novos mercados para novos produtos a inovação disruptiva acontece em mercados já existentes e quebram paradigmas de produção.

No livro A Estratégia do Oceano Azul, Kim e Mauborgne, trabalham sob a perspectiva de que quanto mais radical for a inovação, mais irrelevante se torna a concorrência, em face a exclusividade do produto.

Já a inovação imitativa é tida pelo Linsu Kim, um dos um dos pioneiros na análise do processo de aprendizagem tecnológico da Coréia do Sul, como sendo a difusão da inovação.

ATENÇÃO! Inovação e tecnologia não sinônimos. A inovação trata de soluções inéditas com penetração no mercado, isto é, aceitas pela sociedade. Dessa forma, ações de marketing e novidades organizacionais, em geral, são consideradas inovações não tecnológicas, por não estarem amparadas na exploração de uma nova tecnologia[1].

Por outro lado, tecnologia também pode ser social. Um exemplo de inovação não tecnológica amplamente difundido e premiado pela Finep, foi o projeto “Saúde, que vem da Terra”, da Escola Benjamin Felisberto da Silva, na comunidade de Gruta D’água, Zona Rural de Arapiraca, que, com a parceria de técnicos agrícolas, da vigilância sanitária, de farmacêutica e de pediatras resgatou a cultura das plantas medicinais ao implantar uma “farmácia viva” para resolver problemas de dores de cabeça, cólicas, diarreias, febre, tosse, gripe e piolhos que refletiam na saúde dos alunos e também na frequência e no rendimento.

A difusão da inovação ocorre em dois níveis: macro, com impacto global; e micro, com reflexos no âmbito da empresa (firma). Quanto aos modelos, a inovação pode ser aberta e colaborativa ou seguir um modelo fechado, mais tradicional, em que todo o processo de pesquisa e desenvolvimento de novos produtos fica internalizado nos muros da empresa, que busca inovar utilizando recursos próprios. O modelo aberto, consagrado por Henri Chesbrough, entende que reunir todos os recursos necessários para desenvolver soluções inovadoras de forma individual é difícil e caro e, portanto, a open innovation propõe um trabalho colaborativo, envolvendo empresas, instituições de pesquisa e de conhecimento e demais instituições de um sistema de inovação.

Conceitos apresentados, volto a questão local. O que se espera do executivo e do legislativo, na área de inovação e tecnologia?

Há alguns dias recebi a incumbência de juntar algumas ideias de propostas para apresentar aos candidatos, refletindo o pensamento dos atores que compõem o ecossistema de inovação de Maceió, denominado Sururu Valley.

A primeira ideia que o documento enfatiza é a de que o poder executivo local, à despeito de suas mil e uma atribuições, está inserido nesse ecossistema local de inovação [ 2 ] e, como tal, precisa estar efetivamente comprometido com o seu fortalecimento.

Espera-se que prefeito e vereadores eleitos coloquem a ciência, a tecnologia e a inovação (CTI) entre as suas prioridades, compreendendo esses temas como transversais, a partir dos quais é possível melhorar os  principais indicadores (educação, saúde, habitação, etc.), e promover o desenvolvimento local.

Política de Ciência, Tecnologia e Inovação (CTI)

A criação e a revisão constante da política de CTI assim como a continuidade das ações assertivas já implementadas são condições precípuas para que a cidade evolua e se aproprie das tecnologias que facilitam o acesso da população a serviços e informações e que aumentam sua qualidade de vida. A consolidação do, finalmente criado, Conselho Municipal de CTI como instância de articulação e conexão com instituições de ensino superior (IES), institutos de ciência e tecnologia (ICT), setor produtivo e o ecossistema local de inovação favorece as ações da Prefeitura nessa área e pode ser mantida como um catalizador das ações públicas municipais na área.

A política de CTI do município de Maceió não pode prescindir, principalmente, de dispositivos de promoção da cultura de inovação como um dos principais valores da gestão municipal; de incentivos a empresas inovadoras de base tecnológica; e de estímulo a transformação digital para empresas de Maceió. Sob pena de perdermos competitividade em nível regional e global, isto é, menos empregos, menos renda, menos impostos.

O empreendedorismo inovador, assim como sua infraestrutura de apoio devem ser fortalecidos com parcerias e/ou atração de incubadoras e aceleradoras, centros tecnológicos. É importante também que crie ações de disseminação e estímulo à propriedade intelectual junto às empresas.

Ampliação dos canais de participação da sociedade nas decisões e na construção da política municipal de CTI é uma opção que visa envolver os vários atores da sociedade nas questões inerentes ao tema, dando representatividade às soluções encontradas. É um caminho que deve ser perseguido.

Lei da Inovação

O arcabouço legal é fundamental. Sugere-se que os eleitos contribuam para a criação de um ambiente legal que garanta a segurança jurídica na aquisição de soluções inovadoras, sejam produtos ou processos e para a disseminação das oportunidades de inovação geradas pela legislação municipal vigente (Lei de Inovação de Maceió – n° 6.902/2019).
Uma especial atenção deve ser dada para a sensibilização dos órgãos municipais de controle para o correto entendimento na interpretação da lei, que tem como base as legislações federal e estadual e constitui-se em importante instrumento de geração e aquisição de inovações que promovem o bem-estar do cidadão.

Infraestrutura e Financiamento

Ambientes favoráveis aguçam a criatividade e a inovação. O Vale do Silício ainda é um bom exemplo de como a conjuntura local convergiu para o surgimento de empresas altamente inovador. O Centro de Inovação do Polo Tecnológico, famoso Polo de TI de Alagoas, já passou da hora de ser inaugurado. É importante que a Prefeitura de Maceió seja parceira e principal parte interessada nesse projeto. A infraestrutura não é tudo, mas ajuda a concentrar atores, eventos, informações e facilita o surgimento de parcerias e a geração de negócios.

Seguindo a mesma lógica, a Prefeitura não pode se eximir de prestar apoio à criação de ambientes especializados e cooperativos de inovação e nem aos eventos de tecnologia, inovação e empreendedorismo.

A infraestrutura digital da cidade e da própria prefeitura precisa ser redimensionada, analisada e rearranjada buscando eficientizar a prestação do atendimento à população. Não esquecendo a capacitação dos servidores para a nova realidade digital que se apresenta.

Lembrai-vos! A inovação é o principal elemento indutor de desenvolvimento para países, regiões, cidades e empresas. Por isso, programas e recursos são canalizados para ações nessa área. Uma equipe focada em monitorar instituições de fomento é uma boa ideia para que se possa captar recursos junto a organismos nacionais e internacionais que possibilitem lançar editais de apoio ao desenvolvimento de produtos e processos inovadores, seja para a gestão municipal ou para o mercado.

Prefeitura + inovadora

Surge termos uma Prefeitura mais inovadora e ágil, com a digitalização da prestação de serviços públicos municipais, com o incentivo ao servidor público na criação de soluções para os problemas urbanos e na prática do intraempreendedorismo.
A criação de programas de mentoria que possibilitem a imersão do empreendedor no cotidiano da gestão municipal estimulando a criação de soluções para os gargalos identificados, a criação de govtechs, a disseminação da cultura da experiência do usuário e o desenvolvimento de excelência no atendimento são ações que precisam ser implementadas.

Transformação Digital

A transformação digital extrapola a digitalização das informações e a incorporação das ultramodernas tecnologias advindas da 4ª Revolução Industrial. É um fenômeno cultural. Portanto, mais que saber que essas tecnologias e sua prática existem, elas precisam estar incorporadas ao dia-a-dia das pessoas para fazerem sentido enquanto transformação. Assim, é urgente implantar, disseminar, praticar e estimular a inserção das tecnologias habilitadoras da transformação digital na prefeitura e na cidade.

A transformação digital é irreversível. Cabe a nós descobrir como utilizá-la da melhor forma e reduzir seus impactos negativos. Como diz Klaus Schwab, no seu livro A Quarta Revolução Industrial (2016), “Faz parte da nossa responsabilidade garantir que estabeleçamos um conjunto de valores comuns que norteiam escolhas políticas” transformando esse novo normal em oportunidade.

Educação empreendedora

Nesse campo é válido sugerir que as escolas municipais tenham em seus currículos os programas de inserção e ampliação da cultura do empreendedorismo e da inovação, por meio de mecanismos como os espaços maker e fab labs, estimulando a curiosidade dos alunos para a ciência, para a criação de soluções inovadoras e para o exercício do pensamento crítico e analítico.

É recorrente que as novidades criem resistências, medo e incertezas. Mas a forma como são utilizadas é que definem os reflexos positivos ou negativos que causam na sociedade.

#tecnologiaeinovaçãoparaobem

[1] Tecnologia: é o conjunto de princípios, métodos, instrumentos e processos cientificamente determinados que se aplica especialmente à atividade industrial, com vistas à produção de bens mais eficientes e mais baratos. O conceito de tecnologia engloba, portanto, todas as técnicas e seu estudo. É a aplicação das descobertas da ciência aos objetivos da vida prática. Fonte: ROCHA, Ivan. Ciência, tecnologia e inovação: conceitos básicos. PACT/NE (Programa de Articulação e Capacitação Tecnológica para o Nordeste, ABIPTI/CNPq/SEBRAE, 1996. 102 p.

[ 2 ] Ecossistema de inovação: sistema dinâmico, formado por pessoas e instituições interconectadas, fundamentais para estimular o desenvolvimento tecnológico e econômico, envolvendo um conjunto de atores da indústria, academia, associações, órgãos econômicos, científicos e do governo em todos os níveis (Wang, 2010).

Eliana Sá (Professora e palestrante, especialista em Gestão da Inovação e Indústria 4.0)

REFERÊNCIAS:
GARCIA, Rosanna; CALANTONE, Roger. A critical look at technological innovation typology and innovativeness terminology: a literature review. Journal of product innovation management, v. 19, n. 2, p. 110-132, 2002.
SCHWAB, Klaus. A quarta revolução industrial. São Paulo: Edipro, 2016.
ORGANIZAÇÃO PARA A COOPERAÇÃO E DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO (OCDE). Manual de Oslo: proposta de diretrizes para coleta e interpretação de dados sobre inovação tecnológica. São Paulo: FINEP. 2004. p. 136.
WANG, J. F. Framework for university-industry cooperation innovation ecosystem: factors and countermeasure. In: Challenges in Environmental Science and Computer Engineering (CESCE), 2010 International Conference. IEEE, 2010. p. 303-306

Por Eliana Sá Angelo

SOBRE COMO TRANSFORMAR CONHECIMENTO E RELAÇÕES EM GRANA E DESENVOLVIMENTO

Então… Nessa estreia no 082 NOTÍCIAS enfrentei o dilema da definição do tema a abordar primeiro, a difícil tarefa de fazer uma escolha: por onde começar?

Como profissional dedicada ao estudo e à prática de temas relacionados à inovação, novas tecnologias e à gestão de tudo isso, optei por focar nossas conversas aqui no blog nos acontecimentos que impactam, de alguma forma, o nosso estado de Alagoas.

Pois bem. Estudos realizados em vários países sobre os sistemas de inovação mais exitosos do mundo constatam que dois são os fatores de sucesso comuns a todos. O primeiro refere-se à necessidade de que se forme um consenso nacional entre políticos, acadêmicos, empresários e sociedade em geral, de que a inovação é a melhor estratégia para a manutenção e o aumento da competitividade das empresas e para o desenvolvimento das regiões. O segundo fator consiste da importância do poder público seja na formulação de políticas, planos e ações que priorizem a ciência, a inovação e a tecnologia, seja na criação da infraestrutura necessária, seja na disponibilização de recursos que dividam com o setor privado os custos dos riscos inerentes ao processo de inovação.

Vale ressaltar que, o apoio estatal à inovação se dá como um estímulo temporário para que se consiga implementar algumas ações e alguns projetos, sem que isso signifique, no entanto, um modelo paternalista de Estado. A partir desse incentivo as ações devem ser autossustentáveis, sejam elas totalmente privadas ou em parceria com o setor público.

E nós? Como estamos na fita?

Alagoas tem-se destacado no cenário nacional e, em alguns casos, até internacional por ações pontuais, mas, sobretudo, pelas suas relações institucionais.

Existe um conjunto de instituições públicas e privadas, capazes de impulsionar a inovação no estado. São instituições que se falam, se respeitam e são parceiras, abrangendo as “.edu”, “.gov” e “.com”, e o consenso da necessidade de se impulsionar a inovação para gerar desenvolvimento sustentável existe.

Quais os entraves ao desenvolvimento de um ecossistema de inovação realmente maduro e competente em Alagoas?

São alguns. A fragilidade da educação impacta sobremaneira na formação de cientistas capazes de gerar conhecimento para ser transformado em inovação, tecnológica ou não.

As chamadas “pastas sociais” e seus indicadores impingem um quadro emergencial contínuo com o qual se deparam os governantes, que os coloca no seguinte dilema: como canalizar recursos para o desenvolvimento econômico (inovação como vetor para tal), quando tem-se um cenário devastador na saúde, na segurança, na educação e na infraestrutura de habitação, saneamento e estradas?

Duro impasse. Uma alternativa que alguns governantes têm adotado, mesmo que timidamente, é induzir alguns programas de estímulo à inovação para resolver problemas das áreas sociais.

Recordo do então Presidente da Fapeal, Dr. Fernando Barreiros, quando lançou os Projetos Induzidos. Eu estava iniciando minha atuação nessa área e fiquei muito impressionada com essa ideia, nova para mim, àquele tempo. Ainda hoje vejo iniciativas nesse sentido e as considero bastante inteligentes, embora defenda que não se pode prescindir de ações que também privilegiem as demandas empresariais.

Um empresário à frente da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação (SECTI/AL) é bastante alentador. Esperamos que não seja apenas uma andorinha.

As relações das empresas com a academia, nem sempre bem alinhadas em seus distintos tempos e línguas e também sujeitas a condições ideológicas mais ou menos favoráveis também interferem na transferência do conhecimento e na sua apropriação pelo setor produtivo.

O reduzido parque industrial do estado, em especial quando se contabiliza o número de médias e grandes empresas, geralmente elas mesmas indutoras de desenvolvimento, capacitação e inovação também limita a capacidade inovadora local.

Coloquei inicialmente os dois fatores, praticamente condições sine qua non, mais comuns nos países de referência em inovação. O consenso sobre a importância da inovação como elemento transversal impulsionador da competitividade e do desenvolvimento é visível nos círculos acadêmicos, governamentais e empresariais de Alagoas. A segunda condição, já se verifica em ações pontuais que, entretanto, precisam ser sistematizadas e contínuas. Editais e programas na área da Ciência, Tecnologia e Inovação (CTI), assim como uma política de CTI efetiva, precisam ser perenes, consistentes e perpassar os ciclos administrativos de 4 anos.

A hélice tríplice, pensada por Henry Etzkowitz, define os papéis e relações dos agentes principais da inovação:

Fonte: adaptada pela autora de ETZKOWITZ, 2009.

Completam os sistemas de inovação as instituições dos sistema de financiamento e subvenção, do arcabouço legal, das instituições de apoio, locais, nacionais e até internacionais.

O cenário alagoano: tem-se uma excelente governança, apesar de tímida, temos uma produção interessante de papers (indicador que mede a produção de conhecimento científico), considerando o cenário nacional. A Ufal, por exemplo, está entre as 50 instituições que mais produziram no país. Em instituições chaves, como o Sebrae e a Ufal temos lideranças sensibilizadas e com um percurso profissional amplamente ligado a ações de inovação.

O desafio: aproximar a academia do setor produtivo para transferir conhecimento das universidades e centros de conhecimento para as empresas e, de consequência, gerar inovação (e patentes, que é o indicador clássico de inovação), competitividade e riqueza. O momento é esse!

REFERÊNCIA:
ETZKOWITZ, H. Hélice Tríplice: Universidade-Indústria-Governo: Inovação em Movimento. Porto Alegre:
EDIPUCRS, 2009.

Eliana Sá Angelo (Professora e palestrante, especialista em Gestão da Inovação e Indústria 4.0).

Banner
Por Eliana Sá Angelo
Banner
Por Redação