Gilvan Gomes das Neves

Carnaval: entre o sagrado e o profano

Na Europa medieval e, posteriormente em algumas cidades, existia uma festa dos Inocentes, loucos e foliões.

 

 

 

 

 

 

 

“Carnaval é alegria popular. Direi mesmo, uma das raras alegrias que ainda sobram para a minha gente querida. Peca-se muito no carnaval? Não sei o que pesa mais diante de Deus: se excessos, aqui e ali, cometidos por foliões, ou farisaísmo e falta de caridade por parte de quem julga melhor e mais santo por não brincar o carnaval” (D. Hélder Câmara).

O Carnaval tem uma etimologia incerta: do latim “carrus navalis”, carro-navio; segundo outros, do latim “carne vale!”, adeus carne. Mas, a festa do Carnaval remonta aos celtas e romanos e, segundo alguns, aos babilônios (EIJK, 1994, p. 27). Naquele tempo, existiam festas iniciáticas e celebrativas da fertilidade do campo e do gado. Segundo o escritor romano Tácito (56-120), os germanos veneravam Nerthus, a mãe terra; os romanos festejavam Ìsis e os gregos dançavam para Baccus.

Na origem dos desfiles também encontramos elementos culturais diversos: bacanais gregas, , triunfos da Roma antiga (comemorações eufóricas de vitórias pela chegada dos heróis em carros alegóricos), primeiras grandes procissões (forma abreviada das antigas romarias) e comemorações festivas da reconquista e das cruzadas.

Na Europa medieval e, posteriormente em algumas cidades, existia uma festa dos Inocentes, loucos e foliões. O carnaval firmou-se como parte inseparável do ciclo religioso da quarta-feira de cinzas, quaresma e páscoa. Inicialmente, a festa profana e religiosa era realizada até dentro das igrejas, com a participação do próprio clero. Na folia de então, revelava-se o protesto rebelde e irreverente do povo contra toda forma de abuso das autoridades civis e religiosas. O Papa Inocêncio III (1160-1216) disse:

Dão-se algumas vezes nas igrejas espetáculos e divertimentos de teatro, e não somente introduzem nesses espetáculos e nesses divertimentos monstros mascarados, mas ainda em certas festas os diáconos, os padres e os subdiáconos permitem-se a liberdade de fazer toda casta de loucura e palhaçadas. (…) Eu vos conjuro a exterminar este costume (Apud: MORAES FILHO, 1979, p. 26).

Ao mesmo tempo que o carnaval saiu da igreja, o bobo da corte deixou o governo civil. Isso é lamentável, porque o humor e a irreverência pertencem aos inteligentes.

A partir do século XVI, os protestantes acabaram com o carnaval onde puderam. Somente nos países católicos, como Portugal e Itália, a festa continuou.

D. Hélder no Carnaval. Fonte: www.facebook.com

O carnaval brasileiro começou com o entrudo, de origem popular portuguesa, e com o corso, desfile de carros de antiga origem romana. Em 1641, já havia carnaval no Brasil. A partir desta época surgiu um estilo de vida burguesa europeia em algumas de nossas cidades, por causa da riqueza trazida pela cafeicultura. Isso deu origem a uma espécie de carnaval veneziano, com divertimentos de acordo com as diferentes classes sociais. Todas as camadas da população promoviam baile de mascarados, mas, o mais concorrido era o “corso” desfile de veículos em que as famílias mais ricas exibiam as suas fantasias e eram aplaudidas pelo resto do povo.

Foi no século XVIII, que surgiram blocos e cordões inspirados nas procissões das irmandades, corporações, folias e ranchos de pastorinhas. Os grupos carnavalescos passaram a criar suas bandeiras e estandartes.

Inicialmente, ranchos, blocos e cordões populares eram proibidos e expulsos pela polícia dos centros das cidades para a periferia. Também o Zé Pereira faz parte da história do carnaval. Era um tambor de origem lusa, ao ritmo do qual os foliões percorriam as ruas.

O carnaval que veio da Europa tornou-se mestiço. Nasceram as escolas de samba e ala das baianas. A partir de 1935,as escolas de samba são legalizadas e seus desfiles oficializados e financiados pelo Estado. Logo depois, o desenvolvimento da indústria cultural e do turismo, e os próprios meios de comunicação, provocaram a comercialização das escolas de samba (OLIVEN, 1989, pp. 68-70).

São três dias de festa coletiva, alegria e irreverência, espetáculo e arrastão, tradição e criatividade, animação e fôlego. Por isso terminarei essa crônica registrando o que nos disse o nosso amado D. Hélder: “Brinque, meu povo querido! Minha gente queridíssima. É verdade que na quarta-feira a luta recomeça, mas ao menos se pôs um pouco de sonho na realidade dura da vida!”

REFERÊNCIAS:

EIJK, Inez Van. Do dia de todos os Santos a São Juttemis. Utrecht: Kosmos Z4K, 1994.
Apud: MORAES FILHO, Mello. Festas e tradições populares do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia, 1979.
OLIVEN, Ruben George. Violência e cultura no Brasil. Petrópolis: Vozes, 1989

 

 

Por Gilvan Gomes

Cristão-novo e religião popular

 

Fonte: cristãos-novos/Fonte: www.artepensamento.com.br

Pe. Gilvan Gomes das Neves. Mestre e doutor em Ciências da Religião na UNICAP

Cristão-Novo é o mesmo que marrano¹ . Em 1497, pouco antes do descobrimento do Brasil, o rei dom Manuel só admitia a permanência dos judeus se eles se convertessem e aceitassem o batismo. Nasceu então, o criestão-novo, em contraposição ao “cristão-velho”. No século XVII, cristão-novo já era sinônimo de homem de negócios.

A Igreja proibia os cristãos de obrigarem a batizar os judeus a ser batizados. Entretanto, ao impedir de celebrarem suas festas e fazê-los pagar impostos superiores aos dos demais, acabava por pressioná-los ao batismo.

Mais tarde, o fanatismo de D. João III desencadeou a perseguição inquisitorial. Enquanto isso, o padre Antônio Vieira defendia abertamente os cristãos-novos, pleiteando a abolição da distinção entre cristãos-novos e velhos. Depois de tempos de terrível perseguição, a proposta do padre Vieira, curiosamente foi realizada pelo Marquês de Pombal num alvará de 2 de maio de 1783.

Cristãos-novos hereges eram reconhecidos como tal por causa de seus costumes judaicos: não comiam carne de porco, não usavam sangue de aves nas suas refeições, punham toalhas limpas em camas e mesas na véspera dos sábados e praticavam o jejum no “Yom Kipur”, o dia do perdão. Ronaldo Vainfas (2000) traz exemplos de certos procedimentos fúnebres:

Comer em mesa baixa, amortalhar o defunto com camisa comprida, enterrá-lo em terra virgem, cortar-lhes as unhas e guardá-las, colocar uma pérola ou moeda de ouro ou prata em sua boca para pagar a primeira pousada, jogar fora toda água de potes e vasos da casa. Vários cristãos novos foram denunciados na Inquisição, por causa disso (p. 412).

Os cristãos-novos tiveram grande influência na história e na cultura brasileiras (BARBOSA, p. 243ss). Por exemplo no resguardo pós-parto, o tempo de 40 dias que a mulher deve ficar em casa. Na Igreja, havia uma bênção especial para as mulheres após o resguardo. Talvez os costumes sobre resguardo tenham sido influenciados pelos cristãos-novos, pois, lemos na Bíblia:

Se a mulher conceber e der à luz um menino, ficará impura durante sete dias, como por ocasião das suas regras. No oitavo dia, se fará a circuncisão do menino, e durante trinta e três dias, ela ficará ainda purificando-se do seu sangue. Não tocará coisa alguma consagrada (…). Quando tiver cumprido o tempo de sua purificação, o sacerdote fará por ela o rito de expiação e ela ficará purificada (Lv 12, 1-4;8).

Havia muitos cristãos-novos em Pernambuco, no século XVI; viveram um período de glória durante a dominação holandesa (1630-1654); fundaram uma sinagoga em Recife; dominavam o mercado financeiro; alguns possuíam engenhos e eram mercadores, outros trabalhavam na cobrança do dízimo e outros impostos e faziam empréstimos. Havia os que se dedicavam ao tráfico de escravos da costa da África.

Em 1910, chegou um outro grupo, da Rússia² . A influência judaica na Religiosidade popular pode ter tido vários canais: (1) os cristãos novos em Portugal e no Brasil; (2) o uso da Bíblia no cristianismo; (3) a presença dos portugueses em cruzadas e peregrinações na Terra Santa. Diversos historiadores afirmam que já haviam judeus estabelecidos em Portugal por volta dos séculos VI ou VII da nossa era. Valdemar de Almeida Barbosa escreveu que, em Portugal, surgiu “certa apreensão contra os judeus, alimentada por campanha dos dominicanos e acusações diversas, algumas verdadeiramente fantásticas”. Como que açoitavam a imagem de Cristo e profanavam hóstias consagradas, tinham parentesco com o diabo; crucificavam crianças cristãs (…). Assim, foi se criando, ao longo dos séculos um tipo ideal de judeu intrinsicamente mau e fisicamente repugnante (BARBOSA, p. 244).

NOTA:

1- Na Espanha e em Portugal, designação injuriosa que se dava outrora aos mouros e especialmente aos judeus batizados, suspeitos de se conservarem leais ao judaísmo.

2– DUARTE, Dina. Rota de passagem. In.: VEJA, 07/04/1999.

REFERÊNCIAS:
BARBOSA, Waldemar de Almeida. Judeus na formação histórica de Minas. In.: REVISTA do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, v. 21, p. 244.
DUARTE, Dina. Rota de passagem. In.: VEJA, 07/04/1999.
VAINFAS, Ronaldo. (Dir). Dicionário do Brasil Colonial: 1500-1808. Rio de Janeiro: Objetiva, 2000.

 

Por Gilvan Gomes

Cristãos e Mouros e as manifestações culturais e religiosas em Alagoas

Houve grande influência na medicina, ciência e arte árabes. A contribuição árabe à cultura brasileira ainda não é suficiente conhecida e valorizada

 

Fonte: http://www.cultura.al.gov.br

 

 

Pe. Gilvan Gomes das Neves. Mestre e doutor em Ciências da Religião pela UNICAP, e-mail: Gilvan.neves@uol.com.br

Durante os festejos natalinos nas festas dos padroeiro(a)s que acontecem nessa época assistimos em quase todo estado de Alagoas manifestações culturais, religiosas como o Guerreiro, o Reisado, o pastoril e as Cavalhadas que envolvem a população do estado. Em Arapiraca, n ápice da festa, às 16h do último dia, a padroeira Nossa Senhora do Bom Conselho chega pelas mãos dos Cavaleiros da Ordem de Nossa Senhora. Ocorrendo também nas cidades de Anadia, no dia 23, véspera do inicio do novenário à Nossa Senhora da Piedade, ainda em Viçosa, Capela , Murici, União dos Palmares, São José da Laje, Colônia de Leopoldina e dezenas de outras cidades da zona litorânea e da mata alagoana.

Fonte: alagoasbrasilnoticias.com.br

A chegança também é derivada das lutas e danças entre cristãos e mouros da Europa: “Depois que os mares dividiram os continentes / Quis ver terras diferentes / Eu pensei: vou procurar / um mundo novo / Lá depois do horizonte / levo a rede balançante / Pra no sol me espreguiçar”(Chegança, Antônio Nóbrega).

Mas, como se deu esse hibridismo, esse encontro de culturas?

No ano de 711, 7 mil mouros liderados por Tárik desembarcaram perto de Gibraltar e iniciaram a ocupação da Península Ibérica. Sete séculos da presença árabe, chamada moura, deixaram fortes marcas na cultura e religiosidade de Portugal e Espanha. Segundo o Professor português J. A. Pires de Lima (1925) durante esses sete séculos de dominação na Península Ibérica, “cristãos e mouros” não estavam completamente separados. No território do Califado viviam numerosos Mosárabes¹ , mantendo a sua crença cristã; muitas vezes se celebravam alianças entre chefes cristãos e mouros e, depois , muitos muçulmanos ficaram vivendo ao lado dos cristãos, mantendo suas crenças e seus costumes (LIMA, 1925, p. 5-6).

Herdamos muito da cultura árabe, na língua (Almeida, Almenara, alvíssaras, aldeia, alecrim, alferes, algodão, alguidar, alazão, alfândega etc.,); medidas (almude, alqueire, álgebra); música (alaúde); livros e papel (almaço, alfarrábio, alvará, almanaque) fabricação de açúcar (alfenim, alambique, álcool) trabalho com couro (alforje, alpercata); história da lâmpada d Aladim, e religião (cristãos e mouros).

Fonte: www.historiadealagoas.com.br

Houve grande influência na medicina, ciência e arte árabes. A contribuição árabe à cultura brasileira ainda não é suficiente conhecida e valorizada, mas houve influência via Portugal e, ao mesmo tempo, um bom número de escravos mulçumanos do Sudão ocidental vieram para Salvador (BA) e Penedo (AL): os das lutas está registrada Malês² .

No Brasil, a comemoração das lutas entre cristãos e mouros existe em muitos lugares e de muitos modos. A apresentação das lutas está registrada no “Triumpho Eucarístico” (1734), como “Dança de Turcos e Cristãos”. A encenação do combate entre mouros e cristãos consta da Epanófora Festiva (1763).
As lutas e embaixadas podem ser apresentadas a pé ou a cavalo; o castelo dos mouros e a praça da matriz fazem parte do cenário. Na chegança nordestina, cristãos e mouros chegam de navio. Nas cavalhadas, os cristãos se vestem de azul e os ouros de vermelho (encarnado). Nas bandeiras estão a cruz e a lua.

Aqui em Alagoas, o reisado reúne a memória da reconquista elementos de Natal e do reinado de Nossa Senhora do Rosário. Enfim, na comemoração brasileira andam juntas a memória das lutas entre os soldados de Cristo e os infiéis (os mouros), a história das cruzadas, e Carlos Magno e os 12 pares da França. Historicamente, em Portugal misturam-se as lutas da reconquista com as cruzadas, como por exemplo, quando Afonso Henriques recebeu apoio de uma frota de 200 navios com cruzados na reconquista de Lisboa em 1147.

Também observamos elementos dos torneios medievais como o jogo da argolinha.

Para guisa de considerações finais é possível perceber nas minhas pesquisas que nessas festas numa ação coletiva, os participantes promovem uma catequese espontânea através de lutas, danças e embaixadas. A luta é entre cristãos e mouros, quer dizer cristãos e não cristãos. As armas usadas são lanças, espadas e pistolas. A primeira vitória é dos mouros; a última dos cristãos. A identidade do cristão é apresentada de maneira popular, não clerical. Seriedade e alegria se misturam.

As festas atuais podem estar associadas a temas gerais como a luta entre o bem e o mal, entre a morte e a vida, entre senhores e escravos. Nas lutas entre cristãos e mouros, acontece um hibridismo cultural e um notável abrasileiramento.

NOTA

1- Cristãos ibéricos que viviam sob o governo mulçumano em Al-Andalus, adotando o árabe, entrando assim na comunidade “moçárabe”.

2- [do ioruba: “imàle”: mulçulmano]No Brasil cunhado para designar os escravos que professavam a fé islâmica.

REFERÊNCIAS:

LIMA, J. A. Pires. Tradições portuguesas de origem possivelmente muçulmana. Esposende: Livro. Esposende Ed, 1925.
NÓBREGA, Antônio. Chegança. In.: Madeira que cupim não rói, 1997.

 

 

 

Por Gilvan Gomes

Bandos: da Tapera, alcança-se o mundo

O São Miguel foi um dos primeiros rios a ser visitado pelos portugueses, quando a expedição de Américo Vespúcio e Gonçalo Coelho percorreu o litoral do Nordeste, em 1501.

 

Fonte: alagoasbrasilnoticias.com.br

 

Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.
O Guardador de Rebanhos”. In: Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa.

O surgimento das povoações e os rios segue o mesmo curso da História. As primeiras civilizações se desenvolveram ao longo das margens dos rios, que ofereciam ótimas condições para a agricultura e a disponibilidade de água doce, a exemplo dos vales do Nilo (Egito) e do Tigre e Eufrates (Mesopotâmia). A sociedade foi formada a partir da rica cadeia de atividades econômicas que se desenvolveu graças à localização.

A história das relações do homem – e suas cidades – com os rios segue uma trajetória complexa, marcada por várias formas de interação ao longo do tempo e do espaço, fundada na dinâmica e sazonalidade naturais dos corpos de água, mas, sobretudo, nas significativamente variáveis necessidades e expectativas humanas, no decorrer de distintos períodos, épocas e lugares. Trata-se, portanto, de uma relação com aproximações e antagonismos sucessivos, materializados de forma distinta ao longo do tempo, nas diversas culturas e nos diversos sítios.

No Brasil, de modo particular em Alagoas, a história não foi diferente e a navegação fluvial foi a principal forma de transporte, antes da difusão das estradas de ferro e de rodagem.

Como o poeta português que pensa a partir da sua aldeia, dirijo minha reflexão para o Povoado Tapera, em Anadia-AL, banhado pelo Rio São Miguel² que tem sua nascente em Tanque D’Arca-AL e sua foz na Barra de São Miguel-AL. Não obstante só termos citado uma fonte histórica de 1881, já encontramos registros dessa região em 1643, no Relatório dos Holandeses² : “No districto das Alagoas se compreendem de ordinário os campos de Inhaú, situados no rio São Miguel, que passa de permeio. São conhecidos esses campos como os mais belos pastos de todo o Brazil” (RIAGP, 1887, p. 159-60).

Foto: Léo Vilanova

Com base no referido relatório pressupõe-se que a ocupação do território ocupado pelo atual município de Anadia ocorreu a partir de meados do século XVII: era um aldeamento indígena, denominado Campos do Arrozal de Inhauns, onde existia uma capela consagrada a São João Nepomuceno.

Ainda no século XVII, foi encontrada, sobre uma pedra na Serra da Morena, uma pequena imagem da Virgem da Piedade, possivelmente perdida ou deixada lá por algum fugitivo dos Palmares. Entretanto, acreditando ser o achado uma providência divina, os moradores transportaram a imagem para a capela e passaram a adorá-la. Não demorou e a evocação a São João Nepomuceno como padroeiro cedeu lugar à veneração a Nossa Senhora da Piedade, como padroeira.

Campos do Arrozal de Inhanhuns, de sua criação dedicada ao milagroso S. João Nepomuceno; perdeu o seu Padroado nos princípios do século passado pelo achado da Imagem de Nossa Senhora da Piedade sobre uma pedra na Serra Morena, deixada por falecimento de um dos fugitivos do Quilombo dos Palmares, que aí vieram estabelecer-se e criarem-se em famílias. (JOBIM, 1881, p. 51)

De acordo com o autor, a vila somente foi criada em 18 de novembro de 1801, com a denominação de Vila Nova de São João de Anadia, em homenagem ao Visconde de Anadia, ministro português que autorizou sua criação:

Campos de Arrozal de Inhanhuns de S. João Nepomuceno, elevado a Vila e a freguesia no dia 18 de novembro de 1801, ofuscou-se com o pomposo título de um pomposo português, como ofuscada foi a memória do primeiro Camponês, que penetrando a amenidade de seu solo não pôs dúvida em chamar – Campos de Arrozal – serras, vales, prados, flores e tudo quanto em alegre panorama a natureza lhe mostrava. (p. 51)

Quanto ao desbravamento e ocupação do território do município, não sabemos ao certo. Há uma possibilidade de que os primeiros povoadores tenham procedido dos núcleos mais antigos da região, vindos de Madalena (Marechal Deodoro), Bom Sucesso (Porto Calco) e São Francisco (Penedo). Atraídos, segundo Torquato Cabral, “pelos encantos de suas planícies, fecundidade de seu solo e exuberância de seus vergéis“.

Foto: Creuza Silva/Arquivo pessoal

Uma outra possibilidade é a de que os povoadores exploraram o rio São Miguel e encontraram o aldeamento dos índios. Os rios eram, à época, as principais vias de desbravamento utilizadas pelos colonizadores.

O São Miguel foi um dos primeiros rios a ser visitado pelos portugueses, quando a expedição de Américo Vespúcio e Gonçalo Coelho percorreu o litoral do Nordeste, em 1501.

O povoado Tapera, uma das primeiras povoações banhadas pelo rio São Miguel, “…é um povoado de 60 casas, situado a [sic]margem direita do rio S. Miguel, pouco mais de quatro quilômetros a Norte da matriz com uma capela e cemitério de pau” (JOBIM, 1881, p. 27).

Não sabemos, com exatidão, como ocorreu o aparecimento da referida povoação nem de sua capela, mas, conforme Jobim (1881):

A capela da povoação de Tapera, sob a invocação de Santa Luzia, edificada de madeira sob diligência de Manoel das Pedras, falecido em 1855, atualmente está entregue a velhas devotas sem ornamento algum” (p. 74). E ainda: “A imagem em oratório foi colocada sobre 4 paus, servindo-lhe de altar uma mesa velha gingradeira, ameaçada a cair a cada instante; Assim, os habitantes do povoado fazem no tempo próprio festas correspondentes ao concurso dos festejantes (p. 75).

Segundo registra o mesmo autor, a devoção a Santa Luzia é anterior a 1881, porque há uma referência ao surto de cólera que grassou no norte do Brasil entre 1854 e 1855: “Por ocasião do Cólera Morbus edificaram um cemitério cercado de madeiras proximamente a ela” (JOBIM, 1881, p. 75).

E, juntamente com a construção da capela, a devoção a Santa Luzia vai se firmando na região e construindo assim sua história sociorreligiosa que se insere no universo de um catolicismo rústico, trazido pelos portugueses:

O catolicismo foi, no passado colonial brasileiro, uma religião obrigatória: os que aqui nasciam o aceitavam por pressuposto de cidadania, exceto os indígenas, aos quais se exterminava ou se convertia. Os que aqui não nasciam tinham que adotá-lo, mesmo que não o compreendessem: os negros escravizados eram batizados no porto de procedência ou de desembarque (NEGRÃO, 2008, p. 117).

Neste catolicismo rústico predominavam as festas religiosas, com suas rezas e celebrações, muitas vezes sem a presença do clero, que era escasso no Brasil do século XIX e, em sua maioria, ficava nos centros urbanos, litorâneos, onde se vivia uma certa ortodoxia. Assim, o resto da colônia, os pequenos vilarejos e os bairros rurais, onde vivia dispersa uma população de baixa densidade, não contava com a presença de párocos locais.

Foto: Léo Vilanova

O padre ali passava apenas de quando em quando, às vezes apenas uma vez ao ano, para a “desobriga”: batizar os nascidos, casar os ajuntados, ouvir as confissões, rezar a missa. Essa era, ao mesmo tempo, a configuração do empreendimento. (NEGRÃO, 2008, p.126)

Também se pode dizer que “a missa da festa, que se manifesta quando o povo sente o poder da comunidade […] se relaciona à imagem […] música, movimento, cor e beleza” (HOORNAERT, 1969, p. 585).

Daí se pode afirmar que a festa religiosa que se celebra há mais de cento e cinquenta anos no povoado Tapera faz parte dessa grande tradição sociorreligiosa. A cada ano, a procissão do mastro com os bandos,³ as novenas, as rezas, a missa, a procissão de Santa Luzia constroem e reconstroem a memória através das narrativas e celebrações.

É sabido a importância do conceito de memória para a formação de uma sociedade, pois é por meio dela que podemos manter vivas as tradições e costumes do passado, ou suas representações. Segundo Le Goff:

A memória, como propriedade de conservar certas informações, remete-nos em primeiro lugar a um conjunto de funções psíquicas, graças às quais o homem pode atualizar impressões ou informações passadas, ou que ele representa como passadas (1990, p. 364).

Portanto, é por meio da narrativa que passamos de geração a geração as nossas memórias, costumes e tradições, como culinária, vestuário, festas religiosas, que, no entanto, se modificam durante os anos, agregando novos ritos na tradição original, porém permanecendo as tradições. Assim, Diehl (2002) afirma que: “A narratividade abarca uma especificidade lógica do leque de relações da linguagem através da qual pessoas narram representações do passado pela historiografia e literatura”. (p. 87)

Segundo o autor, toda narrativa se faz por meio de um discurso fundador que, desta forma, pode designar uma ampla constelação de elementos.

Neste sentido, discurso (logos) e anoma (que conhece), vinculando linguagem e história, articulam-se em combinações diferentes, resultando daí as várias tradições históricas que nada mais são do que traduções do passado. Em outras palavras, as narrativas são traduções e leituras diferentes do passado que, dependendo das combinações e ênfases variadas, possibilitam as mais diferenciadas leituras interpretativas do passado. Porém, todas as possíveis tradições possuem algo em comum. Todas elas demonstram ser incompletas e transitórias, mesmo que busquem a perfeição do passado. (DIEHL, 2002, p. 87)

Portanto, a memória se faz fundamental para a construção de qualquer sociedade, principalmente no que tange à permanência das tradições e costumes, pois é por meio dela que podemos preservar nossa cultura e suas representações, fazendo com que sejam passadas de geração a geração, mantendo-se vivas, mesmo em meio às transformações culturais que acontecem em todas as sociedades.

NOTAS:

1- S. Miguel nasce na raiz da Serra Picada, 8 léguas ao norte da sede da Matriz, superveniente de um brejo, onde toma o nome de Cajuiba; na foz do riachinho Cachoeira chama-se – Talabarte – e com o riacho Cambão liso denomina-se S. Miguel. (JOBIM, 1881, p. 19).

2-WALBEECK, Johanes von; Moucheron, Henrique. Relatório sobre o estado das Alagoas, outubro de 1643.

3- Grupo de trinta a quarenta personagens mascarados, uns a cavalo, outros a pé, que fazem corridas pelo povoado, anunciando a festa de santo que irá acontecer dentro de quinze dias. Enquanto o grupo corre e dança acompanhado pela Bandinha Esquenta Mulher, toca durante todo o tempo. Sua origem é portuguesa. Luiz Edmundo, em “O Rio de Janeiro no Tempo dos Vice-Reis” (1763-1808), afirma que esse acontecimento era comum na Corte, onde os cavaleiros faziam corridas, liam editais para anunciar as festas que iriam acontecer e convidar o povo a participar das mesmas.

REFERENCIAS:

DIEHL, A. Antônio. Cultura historiográfica: memória, identidade e representação. Bauru: Edusc, 2002.
HOORNAERT, Eduardo. Distinção entre “Lei” e “Religião” no Nordeste. REB. Petrópolis, v. 29, n. 3, p. 580-606, set. 1969.
JOBIM, Nicodemos. História de Anadia. Maceió: Instituto Arqueológico e Geográfico Alagoano, 1881. v. 1.
LE GOFF, Jacques.1924 História e memória. Campinas: Editora da
Unicamp, 1990.
NEGRÃO, Lísias Nogueira. Trajetórias do sagrado. In.: Tempo Social, revista de sociologia da USP, v. 20, n. 2, 2008, pp. 115-132.
WALBEECK, Johanes von; Moucheron, Henrique. Relatório sobre o estado das Alagoas, outubro de 1643.

Por Gilvan Gomes

Anadia: a cultura e o saber fazer do povo

Cultura é vida, acontece. É dinâmica e tem dono. O povo guarda as coisas enquanto fizerem sentido para ele.

Acreditamos que uma das definições mais polissêmicas nas Ciências Sociais seja o conceito de Cultura¹: saber acumulado por um povo. Tradicionalmente se conceitua como “todo esforço humano para controlar a natureza” (VAN DER POEL, 2013, p. 283). Mas, ao mesmo tempo podemos afirmar que a Cultura é construída socialmente ao longo da história de um povo.

Por isso, Cultura é vida, acontece. É dinâmica e tem dono. O povo guarda as coisas enquanto fizerem sentido para ele. É tradição e criatividade; se renova onde há povo, comunidade, sendo sistemas vivos que evoluem ao largo da história.

A lembrança do passado e da origem é fundamental para se compreender o presente e construir o futuro. Diz-nos o professor BRANDÃO (1998, p. 11): “não devemos esquecer que a lembrança não reconstrói apenas um passado ou uma fração do passado. Ela funda cada vez um presente ao restabelecer as suas origens”.

Nasci, cresci e vivi em Anadia nas décadas de 60 e 70 do século passado e como todo menino do interior bebia e comia na fonte da sabedoria popular: festas, danças, comidas, devoções, fé, celebrações de vida e de morte. No último domingo de novembro, “os bandos” da Tapera. No Natal, o pastoril, impecável: ensaiado pela “Zefinha Leandro” da Rua do Alagadiço, com suas belas pastoras. Também não faltava o guerreiro da Mestra Joana Gajuru de Maribondo. Na festa de Nossa Senhora da Piedade, o “Quilombo” do mestre Abílio de Limoeiro e nas festas juninas as quadrilhas que pipocavam em todos os arraiás pela nossa cidade.

Lembro-me com muita saudade do Guerreiro do Grupo Escolar Rui Barbosa pelos idos de 1969/1970 para arrecadar dinheiro e adquirir uma banda fanfarra para o mesmo, formou um Guerreiro² , que teve a direção da nossa “Zefa do Grupo, com seu senso folclorista, numa exigência em alto grau, para que tudo saísse a contento. Mestre Sabino Fidélis e todo figural cantando³: “Eu sou campeão de Alagoas,/ bato prego, a ripa voa,/ serro caibro a casa cai, volto pra trás / tô mudando de assunto:/ quatro é pouco, cinco é muito/ seis não dá, sete é demais” (Domínio público). E na riqueza do nosso folclore siamos dançando e arrecadando dinheiro pelo interior do estado: São Miguel, Coruripe e tantas outras cidades. Tudo era festa, alegria e idealismo em viver o saber do povo.

Hoje, depois de mais de cinquenta anos, esse saber tradicional foi se “desbotando”. Saudade…e como diz o grande poeta português:

Saudades! Tenho-as até do que me não foi nada, por uma angústia de fuga do tempo e uma doença do mistério da vida. Caras que via habitualmente nas minhas ruas habituais – se deixo de vê-las entristeço; e não me foram nada, a não ser o símbolo de toda a vida (PESSOA, 1935).

Mas, “apesar de você”, como canta outro poeta de cá, “Folclore é a vida do povo que relembra suas origens e delas faz sua própria maneira de viver” (REIS, 1990, p.47). Continuamos teimosamente vivendo a cultura popular e como fez Paulo Freire (1921-1997) inseriu a cultura popular como parte essencial da pedagogia do oprimido. Uma coisa é certa: a promoção do folclore pode ser um dos caminhos para a democracia. Nessa teimosia, ainda sobrevive os “bandos” na Tapera e o “Guerreiro Campeão Vencedor” da Chã de Anadia, composto por trinta membros, tendo à frente o Mestre Benedito Misael da Silva (64 anos) popularmente chamado de “Mestre Biu da Festa”.

(Foto: Mestre Biu e o Guerreiro Campeão Vencedor – www.focuarte.com.br)

 

 

Teria tanto o que lembrar: lugares, pessoas, fatos. Mas, para não permanecer no pessoal e na tentação de me perder na minha subjetividade, gostaria de concluir lembrando o que diz o grande folclorista Luís da Câmara Cascudo: “o folclore é o popular, mas nem todo o popular é folclore”. É preciso resistir, e a resistência cultural dá-se no cotidiano. A Profª Ecléa Bosi nos disse:

Nós encontraremos a pessoa, reduzida nas linhas de montagem, embrutecida nos bares, ansiosa nas filas do INSS, paciente nas greves. Uma resistência diária à massificação e ao nivelamento, eis o sentido das formas da cultura popular. Empobrecedora para com a nossa cultura é a cisão com a cultura do povo: não enxergamos que ela nos dá agora lições de resistência como nos mais duros momentos de luta de classes (BOSI, 1985, p.33).

É urgente que afastemos para longe qualquer “ranço” ou “preconceito” com a cultura do povo. Sabemos que o preconceito é gestado pela ignorância que temos, isto é, do não conhecimento do outro, do diferente de nós. Porque o mesmo leva sempre à marginalização, discriminação, intolerância e violência como temos assistidos nos anos que vivemos neste nosso país. É preciso “despreconceituar”: deixar de acusar o pobre de apatia, preguiça, ingenuidade e fugas nas suas festas. Infelizmente ainda se diz: “Pobre não gosta de ler”, “Morre de fome, mas tem televisão” e “Não sabe administrar o que tem”. Segundo o filósofo Leandro Konder, na antiga Roma, “os pobres eram tolerados desde que se expressassem com humildade. Se, porém ousavam reivindicar algo, passavam ser vistos como arrogantes” (2002, p. 51). Alguma semelhança com a realidade em que vivemos é pura coincidência?!

Gostaria de terminar esse texto de memórias, que brotam dos fatos reais a imaginação evocando a esperança, cantada por um compositor cearense, Zé Vicente , na década de 80:

Quando o dia da paz renascer/Quando o Sol da esperança brilhar/Eu vou cantar./ Quando o povo nas ruas sorrir/E a roseira de novo florir/Eu vou cantar!

Quando as cercas cairem no chão/ Quando as mesas se encherem de pão Eu vou cantar/ Quando os muros que cercam os jardins, destruídos / Então os jasmins vão perfurmar!

Vai ser tão bonito se ouvir a canção / Cantada de novo / No olhar da gente a certeza de irmãos / Reinado do povo!

Notas 

1- Do latim “colere”, habitar, cultivar, zelar.

2- Folguedo natalino surgido em Alagoas entre os anos de 1927 e 1929, sendo a fusão de reisados alagoanos, da chegança, dos pastoris e do auto das   caboclinhas (Pedro Teixeira de Vasconcelos.

3- Figuras: rei, rainha, embaixadores, lira, índio Peri, mateus, a estrela de ouro…

REFERÊNCIAS:

BOSI, Ecléa. Problemas ligados à Cultura das classes pobres. In.: VALLE, Edênio et al. A cultura do povo. 3. Ed. São Paulo: Cortez, 1985.

CASCUDO, L. Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005.

KONDER, Leandro. A questão da Ideologia. São Paulo: Cia das Letras, 2002.

PESSOA, Fernando. Escritos íntimos, Cartas e Páginas Autobiográficas. (Introdução, organização e notas de Antoónio Quadros). Lisboa: Publ. Europa-América, 1986.

REIS, Vanilson. Joaíma em versos e poemas. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1990.

 

 

 

Por Gilvan Gomes

Livrai-nos da Peste, São Sebastião.¹

Na Idade Média, São Sebastião foi feito patrono das corporações de flecheiros e protetor contra a peste.

Pe. Gilvan Gomes das Neves.  Mestre e Doutor em Ciências da Religião pela UNICAP. E-mail: Gilvan.neves@uol.com.br

Hoje, a Igreja Universal celebra São Sebastião (245-288 d. C). De início sua representação variava: algumas vezes com uma túnica militar, outras com armadura ou roupa de nobres (Idade Média) e, ainda, como soldado romano (Renascimento). Daí em diante, firma-se sua imagem flechada, amarrada a um pilar ou um tronco de árvore, como temos na maioria das nossas Igrejas:

Fonte: www.mensagemcomamor.com.br

Segundo a tradição, o mártir São Sebastião nasceu em Narbona (Gália) e era soldado do exército romano. Foi capitão da primeira coorte da Guarda Pretoriana, do Imperador Diocleciano (239-305). Por ser cristão, o amarraram em uma árvore e o crivaram de flechas. Tido por morto, foi socorrido e curado pelos cristãos. Posteriormente pediu ao Imperador que deixasse de perseguir aos cristãos, mas em resposta foi açoitado até morrer, entre 284 e 288. Com certeza conhecemos sua sepultura nas catacumbas, em Roma, e seu culto antiquíssimo. No século IV, foi feita uma Igreja sobre sua sepultura. Na Idade Média, São Sebastião foi feito patrono das corporações de flecheiros e protetor contra a peste, pois a mesma era como uma flecha que matava um após outro, como aconteceu , p.ex., em Lisboa em 1575, e de Roma, em 1680. Segundo outros, a lenda que Apolo defendera os gregos da peste atirando-lhe uma flecha, teria incrementado a devoção a São Sebastião.² Na luta entre o bem e o mal, o soldado São Sebastião vence a peste, a fome e a guerra. Em Portugal cantam; “São Sebastião milagroso / vós sois médico sagrado. /Livrai-nos da fome, da peste, da fome e da guerra / sois nosso advogado”.³

Antigamente, sua procissão e festa eram organizadas pelo poder público, pois São Sebastião pertence aos “santos guerreiros” e é patrono dos soldados, dos fogueteiros, dos armeiros, e negociante de ferragens; também é patrono dos fazendeiros e boiadeiros e protetor do gado.

No Brasil, São Sebastião é padroeiro de 144 paróquias e dá nome a sete municípios brasileiros, além de vilas e povoados. No município de Capela – AL, São Sebastião é festejado com cavalhada e reisado.

Em tempos tão difíceis de “peste” por todos os lados: sanitário, político, social precisamos da intercessão de São Sebastião para nos fortalecer na solidariedade e na gratuidade que a “festa” nos deve trazer. E cantar com o poeta: “Hoje é dia de festa/ todos vão se encontrar. / Toda dor, todo pranto / hoje vão se acabar” (Geraldo Vandré, Dia de festa). Valei-nos, São Sebastião!

Notas:

1- Hino de domínio público cantado em louvor a  São Sebastião, na sua Igreja do Sertãozinho em Anadia-AL.

2- LINDEBOOM, G. A. Introdução à História da Medicina. Rotterdam: Erasmus Publicação, 1993, p. 102.

3- Douro-Litoral, boletim da Comissão Provincial de Etnografia e História I. Porto, 1940, p.31.

REFERÊNCIAS:

Douro-Litoral, Boletim da Comissão Provincial de Etnografia e História I. Porto, 1940, p.31.

LINDEBOOM, G. A. Introdução à História da Medicina. Rotterdam: Erasmus Publicação, 1993, p. 102.

Por Gilvan Gomes

O SONHO DE NOSSA SENHORA: DA DISTOPIA A UTOPIA

Pe. Gilvan Gomes das Neves[1]

“Sonho que se sonha só, é pesadelo. Mas, sonho que se sonha juntos vira realidade…”   (D. Hélder Câmara)

“Sonho que se sonha só, é pesadelo. Mas, sonho que se sonha juntos vira realidade…” (D. Hélder Câmara)
Grande parte de nossa gente já ouviu ou leu o cântico da Virgem Maria (Lc 1, 46-56), o Magnificat é de uma beleza extraordinária. Com uma cadência rítmica que revela a capacidade de conhecimento da sua história, de mulher judia e cheia de sabedoria digna de admiração e respeito. Digna de respeito porque ela não está virada somente para interesses egoístas, mas olha para a comunidade à sua volta e critica os poderes e poderosos, dizendo claramente que a qualquer momento cairão dos seus tronos de opressão.

Chamamos de sonhos os nossos ideais: reforma agrária, educação, saúde, moradia. Reginaldo Veloso disse: “apesar de desacertos, desencontros e desesperos, ainda é possível sonhar e, abrindo espaço para o sonho, ver a esperança se concretizar” (VELOSO, 1996, p.9).

Cresci em Anadia, zona da mata de Alagoas e durante bom seis anos, convivi diariamente com uma senhora bondosa, Dona Jasmelina: pedinte da feira da cidade e num sábado, levou um coice de um cavalo à porta da nossa sorveteria e mamãe a acudiu e levou á Farmácia do Sr. Josias Marques e depois dos curativos pediu-me que a levasse em casa. Morava na rua da Matança Velha, num quarto de taipa, com cama de tijolo e uma porta que completava a mesma com uma esteira de vime…ah, tinha uma redinha, meu lugar preferido, para deitar e beber da sua sabedoria até que cochilasse…meus olhos e ouvidos de adolescente se encantava com a riqueza, os detalhes, as fórmulas próprias de contar e ensinar as “histórias de trancoso”, onde príncipes, princesas se misturavam aos pobres numa narrativa emocionante. Foram seis agradáveis anos, em que diariamente levava o seu almoço e alguma coisa para o café da noite, pois a mesma com o acidente ficou deficiente visual…Das poucas coisas que consegui guarda porque escrevi foi o Sonho de Nossa Senhora² que registrarei aqui a sua versão³ :

Quem quiser aprender o sonho / da Virgem Nossa Senhora / se encoste a seu bento manto / de Salomão, sem demora /onde Jesus se encostou / e suspirou que acordou / o Anjo Gabriel na hora.// A virgem disse: em meu sonho / eu vi a lua gemer/ e vi o sol suspirar / estrelas no Céu correr/ o tempo escurecer / os passarinhos calados / e o oceano a borbulhar. // Vi meu Filho Jesus/ de corda tão enquerido / e coroado de espinhos/ sendo espancado e ferido/ levando a cruz nas ladeiras / do Horto da Oliveiras/ quase morto, esbaforido.// Jesus disse: minha mãe,/ um sonho tão lindo assim/ são as vontades de Deus / eu não posso achar ruim / meu Pai mandou me avisar/ que ninguém poderá chegar / ao Pai senão por Mim. Quem este sonho souber / e não ensinado será/ castigado vários dias/ e dobradas penas terá/ quem ouvir e não aprender // sua alma vai sofrer/ e muito se arrependerá. // Eu ofereço este sonho / ao Senhor daquela Cruz/ que nos livre do inferno / para sempre, amém, Jesus!

Precisamos preservar a memória, a espiritualidade do povo e como nos ensina o teólogo Gustavo Gutierrez: “devemos beber nesse imenso, profundo poço”.

Imagino como a natureza, o governo, a comunidade, a Igreja, os meios de comunicação poderiam ser diferentes e melhores. Não podemos viver sem os sonhos de liberdade e de integração das nações, sobretudo às nossas irmãs da América Latina e ainda como se diz num canto antigo das CEBs : Sonho que se sonha só / pode ser pura ilusão./ Sonha que se sonha junto/ é sinal de união. / Então vamos sonhar / companheiros./ Sonhar ligeiro, sonhar em mutirão” (Zé Vicente ).5

Então, saiamos dessa distopia em que vivemos e passemos a ansiar a utopia da Vida, do Reino de Deus, de um mundo mais justo, igualitário e fraterno.

REFERÊNCIAS:

VELOSO, Reginaldo. Juventude em Movimento, um projeto para a vida. Uma experiência de animação cultural entre adolescentes da Rede municipal de ensino da cidade do Recife. Recife: Graftorre, 1996.

[1] Administrador da Paróquia Nossa Senhora das Graças, Levada – Maceió. Mestre e doutor em Ciências da Religião pela UNICAP.

[2] Oração popular na qual Maria conversa com Jesus sobre o seu sofrimento. O sonho de Nossa Senhora é rezado para vencer o medo ou por devoção.

[3] Tem diferentes versões.

[4] Comunidades Eclesiais de Base.

[5] José Vicente Filho, poeta compositor cearense de Orós.

 

 

Por Gilvan Gomes

A Imaculada da Conceição: O dogma, a história.

 

Nossas Senhora da Conceição. Fonte: Foto: Marlon Costa/Pernambuco Press

 

 

 

 

 

 

(*) Pe. Gilvan Gomes das Neves é Mestre e doutor em Ciências da Religião pela UNICAP. E-mail: Gilvan.neves@uol.com.br

No dia 08 de dezembro a Igreja celebra a festa da Imaculada Conceição, cuja iconografia costuma ser representada de pé sobre o globo terrestre, de mãos postas em oração, pisando em serpente ou dragão. Com vestido branco e manto azul, cabelos compridos, apoia-se numa lua crescente, provável alusão ao verso (do seu Officium Parvum² ): “bela como a lua” (Ct 6,10). Geralmente, vem acompanhada de anjinhos. A celebração do dia 08 de dezembro foi registrada na Inglaterra no século XI.² Pouco a pouco, surgiu a convicção de que Maria – a nova Eva que esmagará a serpente do paraíso – foi concebida sem pecado, mais tarde chamada a “Imaculada Conceição” de Maria.

Mas, a proclamação do dogma só se deu em 08 de dezembro de 1854, e foi definido pelo Papa Pio IX:

“É artigo de fé que a bem-aventurada Virgem Maria, por graça especial e privilégio de Deus, em virtude dos méritos de Jesus Cristo Redentor do gênero humano foi desde o primeiro instante da sua Conceição, isenta e preservada de qualquer culpa da mancha original”( Pio IX, Ineffabilis Deus).

Mas, há registros na história que Dom João IV, numa provisão de 25 de março de 1646, declarou:

Estando ora junto em Côrtes com os Três Estados do Reino, lhes fiz propor a obrigação que tínhamos de renovar e continuar esta promessa, e venerar com muito particular afecto e solenidade a Festa de sua Imaculada Conceição e nelas, com parecer de todos, assentamos de tomar por Padroeira de Nossos Reinos e Senhorios a Santíssima Virgem Nossa Senhora da Conceição.³

A Imaculada Conceição foi protetora do Brasil ao longo do período colonial, proclamada padroeira do Império por D. Pedro I. Sua devoção está inserida ao grupo dos santos guerreiros, pois já existia uma Igreja na Rua Nova, em Recife-PE, datada a sua construção em 1757, de Nossa Senhora da Conceição dos Militares, com pinturas da batalha de Guararapes (1654).

O costume de se colocar uma pequena imagem de Nossa Senhora da Conceição ao pé dos Crucifixos já existia no século XVIII.4  Na guerra do Paraguai (1865-1870), cantava-se um hino próprio da Virgem da Conceição.

Segundo poeta Manoel Caboclo e Silva5 em: “O sermão de meu Padrinho no Ano de 32, “o padre Cícero pregava: E não custa muito tempo / pôr termo a nossa vida/ tomemos por proteção / a Maria Concebida / sem a bênção de Jesus /não somos nada na vida.

Há muitas rezas, orações e benditos à Virgem da Conceição, entre os quais destacam-se: Levantei de Madrugada e também Bendita e Louvada seja / senhora da Conceição / abasta o nome dela / para nos dar consolação. Muitos sabem de cor todo o Ofício de Nossa Senhora da Conceição.

Padroeira de numerosa de Igrejas no Brasil, sendo uma das mais antigas (1593) em Angra dos Reis – RJ e outra (1699) em Intahaém – SP; também no século XVII, Nossa Senhora da Conceição de Cambôa- BA e Conceição das Donzelas de Olinda. No início do século XVII, a capitania de Itamaracá-PE contava apenas com 30 moradores brancos, dez engenhos de açúcar e algumas fazendas. Mas, já era a “Freguesia da Conceição da Ilha de Itamaracá-PE”, isto é vila e paróquia 6 .

Em Marechal Deodoro – AL, a Igreja é de 1633, onde até hoje a Conceição de Maria é festejada com novena, procissão, quebra-pote, pastoril e guerreiro. Os pescadores fazem a Maré da padroeira oferecendo peixes e frutos do mar carregados festivamente numa pequena barca até o interior da Igreja, onde é abençoada pelo celebrante da festa e depois são vendidos em benefício da paróquia .

[1] Pequeno Ofício da Virgem Maria ou o Ofício da Imaculada Conceição.

[2]LIGTENBERG, R. et al. Coletânea Franciscana Holandesa. 1927, p. 21.

[3] Apud: REIS, Jacinto dos. Invocações de Nossa Senhora em Portugal d’Aquém e d’Além-mar e seu padroado. Lisboa: União Gráfica, 1967, p. 167.

[4] ETZEL, Eduardo. Arte Sacra popular brasileira: conceito, exemplo, evolução. São Paulo: Melhoramentos, 1975, p. 85.

[5] Manoel Caboclo e Silva, nasceu no dia 2 de janeiro de 1926, em Juazeiro do Norte, poeta, cordelista, artista, escreveu mais de 50 obras em cordel.

[6] RUBERT, Arlindo. A Igreja no Brasil. Santa Maria: Palotti, 1981/1983, v.2, p. 90

REFERÊNCIAS:

ETZEL, Eduardo. Arte Sacra popular brasileira: conceito, exemplo, evolução. São Paulo: Melhoramentos, 1975.
LIGTENBERG, R. et al. Coletânea Franciscana Holandesa. 1927.
REIS, Jacinto dos. Invocações de Nossa Senhora em Portugal d’Aquém e d’Além-mar e seu padroado. Lisboa: União Gráfica, 1967.
ROCHA, José Maria Tenório. Folclore brasileiro: Alagoas. RJ: Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro, 1977.
RUBERT, Arlindo. A Igreja no Brasil. Santa Maria: Palotti, 1981/1983, v.2, p. 90.

Por Gilvan Gomes

O DIABO E A TERRA DE SANTA CRUZ (2)

Religiosidade Popular na Colônia:

Primeiro gostaria de pedir desculpas aos leitores do meu blog no 082notícias, por motivos pessoais estava sem muito tempo para retomar minhas leituras e pesquisas e agora, aos poucos estou retomando e como no dia 13 de agosto do corrente havia discorrido sobre o Novo Mundo, entre Deus e o Diabo na leitura da obra O diabo e a Terra de Santa Cruz de Laura de Melo e Souza, historiadora, foi docente da USP, onde constrói uma excelente análise dos numerosos relatos deixados por cronistas, viajantes e missionários que retrataram a terra “descoberta” pelo Ocidente entre o final do século XV e início do século XVI. Agora nos deteremos sobre o pensamento da referida autora acerca da análise de como se deu a constituição do sincretismo religioso no Brasil colonial.

(Fonte: www.companhiadasletras.com.br)

A autora nos lembra que o universo religioso era uma mescla trazida pela Igreja com a religiosidade já existente na colônia Portuguesa. Misturava-se, por exemplo, simultaneamente os santos católicos, os orixás e o diabo: “traços católicos, negros, indígenas e judaicos misturavam-se na colônia, tecendo uma religião sincrética” (p. 97).

Dessa forma, o exercício das crenças no cotidiano colonial estava voltado para o plano terreno. As práticas religiosas encontravam-se não só ligadas às necessidades da vida e, também procurava resolver os problemas enfrentados, tais como a cura de doenças, sentimentos e tensões sociais. O sobrenatural era a válvula de escape para tudo aquilo que incomodava no mundo natural.

A forte presença de um sincretismo afro-católico se consolidou com a presença de cultura de povos “Gegês, Nagôs, Iorubás, Malês e tantos outros” (p. 129). A religião de matriz africana procurou os nichos em que puderam se desenvolver. E curiosamente o modelo construído do diferente do praticado pelos antepassados. A lógica dominante branca do sistema colonial fez predominar a presença de divindades afro, tais como: Ogum, Xangô e Exu que valoravam a guerra em detrimento da agricultura. Além desse sincretismo afro-católico se fez presente a mistura de santidades sincréticas ocorridas a partir da mistura católica e indígena. A autora chega a afirmar que “traços católicos, negros, indígenas e judaicos se misturavam na colônia, tecendo uma religião sincrética e especificamente colonial” (p. 134). Essa mistura foi peculiar e pouco compreendida pelo catolicismo oficial romano.

Ainda neste segundo capítulo, a autora discorre sobre a demonização das relações sociais e a divinização do econômico. As visitações do Santo Ofício se depararam na colônia com a evocação constante da presença do diabo. O projeto de impor o medo provocou a externalização de Satanás em relação a Deus. No mundo onde as explicações não eram racionalizadas, tudo apontava para a presença de Deus ou do Diabo.

Na colônia, local distante da Europa, primeiramente edenizado e depois demonizado, “os discursos eclesiásticos católicos e protestantes” eram permeados de um imaginário dicotomizado entre as forças do bem e do mal. Os nativos que manifestavam sua fé através de religiosidades relacionadas a natureza foram acusados pelos jesuítas de práticas religiosas nefastas “os jesuítas acabaram por demonizar ainda mais as concepções indígenas, tornando-se, em última instância, e por mais paradoxal que pareça, agentes demonizadores do cotidiano colonial” (p. 188).

Por fim a autora ressalta, a partir das análises dos processos inquisitoriais que numa colônia em que teve feições de inferno, várias forças trabalhavam no sentido de demonizar o cotidiano. Sendo comum entre os moradores uma relação próxima entre Deus e o Diabo

no cotidiano da colônia, Céu e Inferno, sagrado e profano, práticas mágicas primitivas e europeias ora se aproximavam, ora se apartavam violentamente. Na realidade fluida e fugidia da vida colonial, a indistinção era, entretanto, mais característica do que a dicotomia (p. 201).

O que predominou foi o sincretismo religioso. Por mais que o saber erudito procurasse demonizar as crenças indígenas e africanas numa realidade colonial multifacetada. A feição do inferno se configurou nas tensões sociais entre os senhores e os explorados (índios e negros). A representação do céu se dava das magnitudes de produtos produzidos (açúcar, ouro, tabaco) na colônia que chegavam aos mercados de Portugal, abarrotando-os e trazendo lucros para a metrópole. Entre o polo do Inferno e do céu assentava o purgatório. Local de onde se experimentava as tensões sociais e se projetava rumo ao paraíso (metrópole).

REFERÊNCIAS:
SOUZA, Laura de M. e. O diabo e a Terra de Santa Cruz: feitiçaria e religiosidade no Brasil Colonial. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

Por Gilvan Gomes

O diabo e a terra de Santa Cruz (2).

 

Pe. Gilvan Gomes das Neves é Mestre e Doutor em Ciências da Religião pela UNICAP. E-mail: Gilvan.neves@uol.com.br.

2. Religiosidade Popular na Colônia:

Primeiro gostaria de pedir desculpas aos leitores do meu blog no 082notícias, por motivos pessoais estava sem muito tempo para retomar minhas leituras e pesquisas e agora, aos poucos estou retomando e como no dia 13 de agosto do corrente havia discorrido sobre o Novo Mundo, entre Deus e o Diabo na leitura da obra O diabo e a Terra de Santa Cruz de Laura de Melo e Souza, historiadora, foi docente da USP, onde constrói uma excelente análise dos numerosos relatos deixados por cronistas, viajantes e missionários que retrataram a terra “descoberta” pelo Ocidente entre o final do século XV e início do século XVI. Agora nos deteremos sobre o pensamento da referida autora acerca da análise de como se deu a constituição do sincretismo religioso no Brasil colonial.

A autora nos lembra que o universo religioso era uma mescla trazida pela Igreja com a religiosidade já existente na colônia Portuguesa. Misturava-se, por exemplo, simultaneamente os santos católicos, os orixás e o diabo: “traços católicos, negros, indígenas e judaicos misturavam-se na colônia, tecendo uma religião sincrética” (p. 97).

Dessa forma, o exercício das crenças no cotidiano colonial estava voltado para o plano terreno. As práticas religiosas encontravam-se não só ligadas às necessidades da vida e, também procurava resolver os problemas enfrentados, tais como a cura de doenças, sentimentos e tensões sociais. O sobrenatural era a válvula de escape para tudo aquilo que incomodava no mundo natural.

A forte presença de um sincretismo afro-católico se consolidou com a presença de cultura de povos “Gegês, Nagôs, Iorubás, Malês e tantos outros” (p. 129). A religião de matriz africana procurou os nichos em que puderam se desenvolver. E curiosamente o modelo construído do diferente do praticado pelos antepassados. A lógica dominante branca do sistema colonial fez predominar a presença de divindades afro, tais como: Ogum, Xangô e Exu que valoravam a guerra em detrimento da agricultura. Além desse sincretismo afro-católico se fez presente a mistura de santidades sincréticas ocorridas a partir da mistura católica e indígena. A autora chega a afirmar que “traços católicos, negros, indígenas e judaicos se misturavam na colônia, tecendo uma religião sincrética e especificamente colonial” (p. 134). Essa mistura foi peculiar e pouco compreendida pelo catolicismo oficial romano.

Ainda neste segundo capítulo, a autora discorre sobre a demonização das relações sociais e a divinização do econômico. As visitações do Santo Ofício se depararam na colônia com a evocação constante da presença do diabo. O projeto de impor o medo provocou a externalização de Satanás em relação a Deus. No mundo onde as explicações não eram racionalizadas, tudo apontava para a presença de Deus ou do Diabo.

Na colônia, local distante da Europa, primeiramente edenizado e depois demonizado, “os discursos eclesiásticos católicos e protestantes” eram permeados de um imaginário dicotomizado entre as forças do bem e do mal. Os nativos que manifestavam sua fé através de religiosidades relacionadas a natureza foram acusados pelos jesuítas de práticas religiosas nefastas “os jesuítas acabaram por demonizar ainda mais as concepções indígenas, tornando-se, em última instância, e por mais paradoxal que pareça, agentes demonizadores do cotidiano colonial” (p. 188).

Por fim a autora ressalta, a partir das análises dos processos inquisitoriais que numa colônia em que teve feições de inferno, várias forças trabalhavam no sentido de demonizar o cotidiano. Sendo comum entre os moradores uma relação próxima entre Deus e o Diabo no cotidiano da colônia, Céu e Inferno, sagrado e profano, práticas mágicas primitivas e europeias ora se aproximavam, ora se apartavam violentamente. Na realidade fluida e fugidia da vida colonial, a indistinção era, entretanto, mais característica do que a dicotomia (p. 201).

O que predominou foi o sincretismo religioso. Por mais que o saber erudito procurasse demonizar as crenças indígenas e africanas numa realidade colonial multifacetada. A feição do inferno se configurou nas tensões sociais entre os senhores e os explorados (índios e negros). A representação do céu se dava das magnitudes de produtos produzidos (açúcar, ouro, tabaco) na colônia que chegavam aos mercados de Portugal, abarrotando-os e trazendo lucros para a metrópole. Entre o polo do Inferno e do céu assentava o purgatório. Local de onde se experimentava as tensões sociais e se projetava rumo ao paraíso (metrópole).

Referências:
SOUZA, Laura de M. e. O diabo e a Terra de Santa Cruz: feitiçaria e religiosidade no Brasil Colonial. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

Por Gilvan Gomes

O DIABO E A TERRA DE SANTA CRUZ (1)

 

Fonte: www.companhiadasletras.com.br

 

 

 

 

 

 

 

 

Pe. Gilvan Gomes das Neves é Mestre e Doutor em Ciências da Religião pela UNICAP. E-mail: Gilvan.neves@uol.com.br.

1. O Novo Mundo entre Deus e o Diabo:

Nas minhas pesquisas bibliográficas, no campo de imaginário e religião do povo, guardo nos meus arquivos a leitura da obra O diabo e a Terra de Santa Cruz de Laura de Melo e Souza, historiadora, foi docente da USP, onde constrói uma excelente análise dos numerosos relatos deixados por cronistas, viajantes e missionários que retrataram a terra “descoberta” pelo Ocidente entre o final do século XV e início do século XVI.

A autora utiliza os registros dos viajantes, religiosos e os processos inquisitoriais para mapear e desnudar o chamado processos do “nascimento do Brasil”. Trabalho de relevante contribuição acerca da religião do povo e o cotidiano colonial. Na referida obra o imaginário, a magia, as crenças, a medicina alternativa foram analisadas a partir da ótica da construção das identidades a partir do sincretismo e que estiveram constantemente sob a suspeição do olhar regulador do Tribunal do Santo Oficio.

No capítulo I: O novo mundo entre Deus e o diabo, Souza procura tecer a partir do universo simbólico do mar, como lugar do “medo” que chegou até nós, através das grandes navegações. O mar desde a antiguidade era o lugar em que o imaginário satânico configurava as relações travadas entre viagens imaginárias e o mundo real. O medo do desconhecido alimenta as crenças em monstruosidades.

No desenrolar da narrativa, o contato com o “novo mundo” é estereotipado pela edenização (2) do desconhecido. A natureza é elevada a verossimilhança do paraíso através das primeiras narrativas do navegadores e viajantes. A edenização do novo mundo é construída a partir do imaginário dos europeus que voltaram seus olhares ao novo, relacionando-o a priori as belezas naturais e os nativos habitantes do paraíso.

Laura de Melo e Souza engendra sua análise baseada no pensamento de Jean Delumeau (2) que analisa o medo como “um componente maior da experiência humana”. O medo impulsiona e alimenta o imaginário. Os primeiros contatos com a natureza e os habitantes no século XVI foram relacionados a narrativas bíblicas sobre o paraíso.

O fato de os indígenas andarem despidos foi vista como certa inocência pelos colonizadores. Isso começou a provocar nos conquistadores do velho mundo uma inquietação motivada e alimentada pelos tabus religiosos. A visão edenizada, construída passa por uma transformação e o paraíso toma feições do inferno em virtude das asperezas e astúcias dos nativos.

A literatura produzida sobre a América portuguesa passa por um processo de gradação, primeiro a edenização e, posteriormente estereotipa-se os nativos como luxuriosos e pecadores. O novo mundo assume então conotações do purgatório e ao mesmo tempo de inferno.

As práticas antropofágicas disseminadas em algumas tribos indígenas alimentaram a indignação dos colonizadores. O modelo que edenizou o novo mundo passa por um processo de transformação. Se no começo a simplicidade, a inocência e a nudez eram vistas como atributos valorativos dos nativos, percebe-se que essa imagem vai sofrendo mutações. A permanência dos colonizadores e o aprofundamento das relações vai se tornar complexa e conflituosa. A descoberta da luxúria e do canibalismo por parte dos europeus construiu no imaginário dos conquistadores a demonização do outros (os indígenas).

A colonização no Brasil foi caracterizada segundo a autora por uma bifrontalidade “por um lado incorporavam-se novas terras, sujeitando-as ao poder temporal dos monarcas europeus; por outro, ganhavam-se novas ovelhas para a religião e para o Papa” (p. 48). A empresa colonizadora foi sustentada pela fé e pelo desejo expansionista de um poder temporal do Estado. Se por um lado ocorreu o culto da natureza e das terras (caráter valorativo), por outro o processo de colonização foi sustentado na demonização da humanidade. O processo de marginalização geográfica, os degredos, a vida distante do velho mundo “civilizado” alimentaram no imaginário colonial, principalmente dos portugueses a ideia de um purgatório no novo mundo.

NOTAS:

1- Voltar ao estado edênico.

2-Jean Léon Marie Delumeau (Nantes18de junho de 1923 — Brest13 de janeiro de 2020) foi um historiador francês especializado em estudos sobre a história do Cristianismo e autor de vários trabalhos relacionados com a temática (cf. História do Medo no Ocidente, São Paulo: Cia. Das Letras, 1989).

REFERÊNCIAS:

DELUMEAU, Jean.História do medo no Ocidente: 1300-1800). São Paulo: Cia. Das Letras, 1989.
SOUZA, Laura de M e.,O Diabo e a Terra de Santa Cruz: feitiçaria e religiosidade no Brasil Colonial. São Paulo: Cia. Das Letras, 2009.

Por Gilvan Gomes

AGOSTO? SEXTA-FEIRA 13? CRENDICE OU PRECONCEITO?

 

Fonte: www.artecult.com

Gilvan Gomes das Neves é Mestre e Doutor em Ciências da Religião pela UNICAP. E-mail: Gilvan.neves@uol.com.br.

Cresci no interior do estado de Alagoas ouvindo dizer que o mês de agosto é o mês de azar (1) . Muita gente prefere não casar em agosto. Até se diz: casar em agosto: traz desgosto. E o pior: é quando uma das sextas-feiras do mês coincide com o dia 13 do corrente, e o ano for bissexto. Diz a poesia: “Número treze é bichão / para trazer complicação! /Treze pessoas à mesa / vem por aí tristeza!”(FLORA, 1945, p.194).Pronto, cardápio ideal para nada dar certo. Por que será? Qual seria a origem dessa crença, na nossa cultura?

Segundo alguns autores, as matanças da Noite de São Bartolomeu (2), em 24 de agosto de 1572, na França, causaram o medo de azar nesse mês. Na nossa cultura ocidental, é o dia próprio para algumas cerimônias contra a má sorte. São feitas defumações com guiné (3) ou num chifre queimado. Algumas pessoas tentam explicar isso lembrando as 13 pessoas presentes na última ceia (Jesus e os 12 apóstolos) e o dia da morte de Jesus, numa sexta-feira. Mas, porém, esta ligação parece pouco provável. A última ceia aconteceu numa quinta-feira e o número treze provavelmente já era agourento antes da era de Cristo.

No tarô, conhecido como “máquina da imaginação” ou “escada da sabedoria”, cuja origem é obscura, mas, reúne antigos ensinamentos da cabala judaica e da tradicional astrologia da Caldeia e da Índia (URS VON BALTHAZAR, 1989), a carta treze é a morte.

Também na mitologia nórdica (4) – conjunto de lendas pré-cristãs do povo da Escandinávia que viveram seu apogeu durante a Era Viking, entre os séculos VIII e XIII – faz parte das inúmeras teorias que tanta gente tenta explicar a associação dessa data a coisas negativas.

“Treze raios do sol e treze raios da lua, te arrebenta satanás que esta alma não é tua” compõe a última das “treze palavras” da oração do Anjo Custódio (5) . No dia 13 de junho, morreu Santo Antônio. Daí a trezena das treze terças-feiras.

Cada vez mais fico embevecido com a nossa riqueza cultural, sobretudo aquela criada e vivida por pessoas e grupos populares. Suas tradições vêm da história do povo, até hoje não escrita ou precariamente escrita. Já nos alertava Ayala (1987, p. 53) que a cultura deve ser pensada no plural e no presente. Por isso, as manifestações da cultura do povo são dinâmicas e passam constantemente pelo crivo do grupo ou da comunidade portadora desta cultura.

Portanto, devemos evitar termos pejorativos e preconceituosos como “crendice” usado pela cultura dominante e na Teologia tradicional, segundo a qual diversas manifestações da fé popular seriam formas de fé desqualificadas. Para os que pensam assim, a religião do povo seria um conjunto de crendices pré-cristãs, mal batizadas.

1-Má fortuna ou má sorte. Mal irracional e difícil de ser evitado.

2- O massacre da noite de São Bartolomeu ou a noite de São Bartolomeu, foi um episódio da história da França, na repressão ao protestantismo, arquitetado pelos reis franceses que eram católicos.

3- O mesmo que pipi ou amansa-senhor, tipuana. Planta medicinal, mas federonta.

4- Segundo alguns relatos da mitologia Nórdica, 12 deuses se reuniram em um banquete em Valhalla, o paraíso, quando o Loki, o deus da discórdia e do fogo apareceu sem ter sido convidado e ao se juntar ao grupo passou a ser o 13º participante, criando um conflito que levou à morte, o bondoso Balder.

5- É uma oração muito popular e conhecida, para se livrar do mal e das armadilhas dos inimigos

REFERÊNCIAS:
AYALA, Marcos et al. Cultura Popular no Brasil. São Paulo: Ática, 1987.
BALTHAZAR, URS VON. Meditações sobre os 22 Arcanos Maiores do Tarô. São Paulo: Paulinas, 1989.
FLORA, Eliana. Crendices populares. Guaratinguetá: Papelaria Vieira, 1945.

 

Por Gilvan Gomes

BENZEDEIRAS, BENZEDEIROS: IMAGINÁRIO E REPRESENTAÇÃO (2

 

Fonte: www.emdefesadasaude.com.br

Pe. Gilvan Gomes das Neves é  Mestre e Doutor em Ciências da Religião pela UNICAP. E-mail: Gilvan.neves@uol.com.br.

No artigo passado ao tratarmos sobre nossas rezadeiras e benzedeiros discorremos sobre o conceito de Imaginário humano e o seu sistema simbólico: ferramenta necessária para se entender ao seu modo, o mundo natural e simbólico onde vive.

Outro conceito que nos ajudará a pensar as nossas rezadeiras(os) e benzedeiras (os) e sua prática é a teoria das Representações sociais que está intimamente ligada a questão do imaginário, enquanto formulação mental de realidades concretas. Para Wagner (1998, p. 3) uma representação é um “conteúdo mental estruturado (cognitivo, avaliativo, afetivo e simbólico) sobre um fenômeno social relevante, que toma foma de imagens ou metáforas, e que é conscientemente compartilhado com outros membros do grupo social”.

A representação nesse caso pode ou não ser social, de modo que suas variantes seriam as representações afetivas, líricas, educativas dentre outras. Pode-se portanto, entender representação como “uma forma de conhecimento socialmente elaborada e partilhada, tendo um objetivo prático e concorrendo à construção de uma realidade comum a um conjunto social” (JODELET, 2001, p. 36). Tal perspectiva pode aliar-se a de que à representação seria o “conteúdo concreto apreendido pelos sentidos, pela imaginação, pela memória ou pelo pensamento”; é, em síntese, a “reprodução daquilo que se pensa” (FERREIRA, 1975).

Podemos afirmar, portanto, que uma representação não é apenas uma maneira particular de ver uma situação, a cultura, a pessoa ou objeto, mas é uma criação imaginativa, uma nova realidade para a mente que observa o elemento em questão. Para Abric (2001, p. 188) é “produto e processo de uma atividade mental pela qual um indivíduo ou um grupo reconstitui o real ao qual ele é confrontado e lhe atribui uma significação específica”.

E, ainda mais, mesmo que uma representação não seja social em sua expressão, ela o é em sua construção, dado que é parte de uma vivência essencialmente social. Segundo Spink (1993, s.p):

As representações sociais, sendo deferidas como formas de conhecimento prático, inserem-se mais especificamente entre as correntes que estudam o conhecimento do senso comum. Tal privilégio já pressupõe uma ruptura com as vertentes clássicas das teorias do conhecimento, uma vez que estas abordam o conhecimento como saber formalizado, isso é, focalizam o saber que já transpôs o limiar epistemológico, sendo constituídas por conjuntos de enunciados que definem normas de verificação e coerência. Em nítido contraste, as correntes que se debruçam sobre os saberes enquanto saberes, quer formalizados ou não, procuram superar a clivagem entre ciência e senso comum, tratando ambas as manifestações como construções sociais sujeitas às determinações sócio-históricas de épocas específicas.

Por conseguinte, pode-se entender que uma representação é necessariamente um saber, uma certeza, uma verdade sobre algo que se percebe. Assim, a representação encontra-se arraigada na vida comum do indivíduo, do coletivo do saber prático, da forma como os indivíduos sentem, assimilam, apreendem e interpretam o mundo dentro do seu cotidiano.

Portanto, as representações do imaginário social conforme foi expresso, são inúmeras e variáveis. A noção de cura, saúde, doença, mal, sofrimento, dor são algumas das representações que ocupam o imaginário dos agentes da benzeção: “o imaginário, aqui, é entendido como parte da representação, como tradução mental de uma realidade exterior percebida, que ultrapassa o processo mental e vai além da representação intelectual ou cognitiva” (LAPLANTINE; TRINDADE, 1997, p.25).

Nesse sentido, aquele que se submete a um tratamento ou submete a outrem, o faz por crer que o problema será resolvido no menor tempo possível, evitando transtornos e sofrimento. Assim, ritos, mitos e símbolos podem ser a mediação entre a alteridade de um mundo frequentemente misterioso e o mundo da intersubjetividade humana.

O benzedor e a benzeção, estão inseridos no contexto de representações e do imaginário como uma maneira de modificar (benzer) a realidade ce modo a transformá-la rapidamente em algo melhor. Para Queiroz e Puntel (1997, p. 81):

O benzimento apresenta um elemento ambíguo, principalmente quando ele se refere a problemas de adultos e é tratado por agentes ligados a centros espíritas ou da umbanda. Se há um crédito na eficácia do produto, ao mesmo tempo ele é considerado uma força fora de controle dos padrões morais da sociedade, uma vez que se pode dirigir tanto para o bem como para o mal.

A benzeção, como qualquer outra representação que altera a realidade, também tem o poder de criar uma nova realidade, um novo imaginário diante de uma situação.

Quando o paciente é uma criança, no entanto, o recurso ao benzimento é considerado perfeitamente legítimo e socialmente aceitável. Mesmo os que não acreditam muito na sua eficácia levam seus filhos para benzer, por via das dúvidas e pela pressão social favorável” (QUEIROZ; PUNTEL, 1997, p. 81).

O fenômeno religioso da benzeção, o benzimento em si e os benzedores(as) e rezadores(as) ocupam, portanto, um espaço simbólico ainda expressivo no cotidiano e embora se pretenda aqui analisar tal plausibibilidade, entende-se que tal fato representa uma forma de entender tal fenômeno, ou seja, entender essa possível busca de retorno às raízes naturais do homem, do seu contato com a natureza, o natural, de experimentar o cotidiano e gozar de saúde e estar em harmonia consigo e com todo seu imaginário.

Segundo Levi-Strauss (1967) se a prática religiosa é uma representação que dá significado ao benzido, também o são as feridas ou doença do que procura tal prática achando-se em estado de perturbação na ordem natural de compreensão e vivência do indivíduo.

Em suma, pode-se inferir do exposto que as realidades simbólicas existem, elas estão em constante processo de representação e atuam na construção de nosso imaginário. Sua eficácia depende de todo esse conjunto que funciona não dentro de uma lógica racional, mas, como fenômeno inserido simbolicamente em nosso cotidiano.

REFERÊNCIAS:

ABRIC, J. C. O estudo experimental das representações sociais. In D. Jodelet (Ed.), As representações sociais (pp. 155-171). Rio de Janeiro: UERJ, 2001.
FRANCO, M. L. P. B. Representações sociais, ideologia e desenvolvimento da consciência. Caderno Pesquisa, SP, vol 34, nº 121, Abril, 2004.
JODELET, Denise. As Representações Sociais. Rio de Janeiro: UERJ, 2001.
LAPLANTINE, F.; TRINDADE, L. O que é Imaginário. SP: Brasiliense, 1997.
LEVI-STRAUSS. Antropologia Estrutural. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1967.
QUEIROZ, M.S.; and PUNTEL, M.A. A endemia hânsenica: uma perspectiva multidisciplinar [on-line]. RJ: Ed. FIOCRUZ, 1997.
SPINK, M.J.P. O Conceito de representação social na abordagem psicossocial. Caderno Saúde Pública, RJ, vol. 9, nº 3, set.,

Por Gilvan Gomes

BENZEDEIRAS, BENZEDEIROS: IMAGINÁRIO E REPRESENTAÇÃO (1)

 

Fonte: www.imirante.com

(1) Pe. Gilvan Gomes das Neves

No nosso catolicismo popular há um personagem de vital importância para as comunidades mais remotas, distante dos grandes centros: as benzedeiras e benzedeiros (2). Em Anadia, cresci sendo levado para se curar de mau-olhado (3) , espinhela caída (4) e outros males. Lembro-me de minha avó paterna, Ana Maria das Neves, tia rezadeira das boas, Tia Luze, como ainda D. Zezé do Paulo Lafungaça, Mestre Lula, o carroceiro, dentre tantos outros.

O ato da benção popular faz parte da vida cotidiana do povo. A benzedeira cura com benzeção. Este gesto de solidariedade popular é vivido em ambiente popular é vivido no ambiente familiar. As orações da benzeção pertencem à tradição oral, e não aprendidas nos livros; fazem parte de todo um complexo de tradições da cultura popular, especificamente em sua dimensão sagrada; o rezador usa objetos como: cruz, rosário, cinco-salomão, raminhos, agulha e pano.

Curam-se crianças, adultos e animais, à exceção de porcos e burros. Durante a cura não é permitido ao doente cruzar os braços ou as pernas. A benzeção tradicional passa por dificuldades devido a mudanças na estrutura familiar, na qual a benzeção é transmitida e exercida.

O objetivo deste trabalho de pesquisa é analisar a partir da figura dos nossos benzedeiros(as), os conceitos de imaginário e representação. Tendo como o foco da referida investigação é considerar as práticas religiosas de benzeção sob o olhar de uma cultura do imaginário e da representação social de cura.

SOBRE OS CONEITOS DE IMAGINÁRIO:

A expressão “imaginário” é uma variação que é recentemente utilizada no meio científico. Para Wunenburger (2007, p. 7) compreende “lembrança, fantasia, sonho, devaneio, crença, romance, mito e ficção. Acreditamos que a ocorrência da palavra ter conseguido essa grande expressão mundial foi devida a insatisfação que se tinha com o termo “imaginação” ser limitado, não conseguir abarcar algumas realidades dentro do campo teórico.

Segundo Wunenburg (2007, p8) o termo possui cinco vertentes, sendo a primeira, a ideia de mentalidade, servindo à designação histórica de algo. Na mitologia tem relação com o conjunto de relatos culturais. Imaginário tem ainda relação com ideologia (5) enquanto concepção marxista que identifica na realidade uma intencionalidade não positiva a qual impera sobre os indivíduos. Por fim, imaginário é uma realidade ficcional e ao mesmo tempo temática que destaca matéria e forma das obras artísticas e literárias.

Nesse contexto, pode-se refletir o pensamento de Silva (2011, p. 25):

O imaginário funciona, sobretudo como fecundador e organizador da vida dos homens, como instância de mediação na relação do homem consigo mesmo, com o outro, com o mundo. Atua igualmente como uma rede ou sistema de relações, ou seja, um sistema dinâmico e organizador de imagens, no qual há plena integração e livre circulação entre a vida racional e a via imaginária.

Quer dizer, dormindo ou acordados os homens utilizam seu pensamento para pensar, ou seja, imaginar lógicas para o real, situar e orientar sua vida. Isso porque a maneira como vemos a realidade é uma forma representativa, ou seja, de atribuição de valor e expectativas sobre o real.

Ainda, para Wunenburger (2007, p. 10), o termo pode ser analisado a partir de seus contrários que são o real e o simbólico . A realidade não é conhecida ou dita, ela é imaginada, ou substituída por símbolos criados específicamente para que o homem se localize no Cosmo.

Consoante com Silva (2011, p. 55):

Imaginação corresponde a Imaginário, sendo ambos os termos sinônimos. A primeira é faculdade de formar imagens fornecidas pela percepção, faculdade essa que pode libertar-nos da sedução das imagens primeiras, transformando-as em nosso psiquismo, visto manter-se sempre aberta, evasiva, experiência mesma da abertura, da novidade, soma de nossas experiências.

Feita essa distinção, busca-se situar melhor o conceito de imaginário. Para Wunenburger (2007, p. 12) o imaginário é uma noção holística ou da totalidade representada que necessita ganhar uma certa visibilidade. O imaginário compreende, temas, motivos, intrigas, cenários, tempo, espaço, personagem e ação.

No próximo artigo iremos articular o simbolismo com o imaginário para situarmos melhor o fenômeno das nossas benzedeiras e benzedeiros.

1-Mestre e Doutor em Ciências da Religião pela UNICAP. E-mail: Gilvan.neves@uol.com.br

2-O mesmo que rezador. O benzedor tem que saber as orações, fé, dom de Deus e confiança na comunidade no benzedor.

3-Também chamado olhado, olho ruim, olho gordo e olho mau. Força negativa que enfraquece a pessoa e faz adoecer de quebranto (POEL, 2013, 622).

4-Para alguns, o mesmo que peito aberto (PE). Espinhela é conceito usado na medicina antiga. “No Brasil o conceito da espinhela caída existia entre os ameríndios antes da invasão civilizadora” (SÃO PAULO, 1936, p. 358).

5- A ideologia, contudo, guarda sempre um viés bastante racional. Não há quase lugar para o não-racional no olhar ideológico. No fundo do ideológico há sempre uma interpretação, uma explicação, uma elucidação, uma tentativa de argumentação capaz de explicitar. Há algo, racional, que derivará da aplicação da noção de ideologia (MAFFESOLI, 2011, s.p).

REFERÊNCIAS:

MAFFESOLI, Michel. O imaginário é uma realidade. Revista FAMECOS, Porto Alegre, nº 15, agosto, 2015.
SILVA, Luzia Batista de Oliveira. Cecília Meireles imaginário, poesia e educação. São Paulo: Terceira Margem, 2011.
VAN DER POEL, Francisco. Dicionário da Religiosidade popular. Curitiba: Nossa Cultura, 2013.
WUNENBURGER, Jean-Jacques. O imaginário. São Paulo: Loyola, 2007.

Por Gilvan Gomes

O JUMENTO, NOSSO IRMÃO

 

 

 

Pe. Gilvan Gomes das Neves é Mestre e Doutor em Ciências da Religião pela UNICAP. E-mail: Gilvan.neves@uol.com.br

“É verdade, meu senhor / essa história do Sertão /
Padre Vieira falou:/ o jumento é nosso irmão” (Apologia ao Jumento – Luiz Gonzaga)

Na minha infância longínqua, de menino do interior, sempre guardei as lembranças das nossas reinações e havia um animal que pela sua peculiaridade, docilidade, capacidade de adaptação e seu urro nas horas mais certas: sobretudo a do almoço, quando ele marcava esse tempo; esse animal, era, portanto, o jumento. Uma vez quando tive coqueluche o remédio indicado era o leite da jumenta preta. Onde encontrar? Foi no quintal do Sr. Pedrinho do “Fomento” que conseguimos esse miraculoso remédio e curiosamente fiquei curado.

Hoje, o abandono e abate põem jumentos sob risco de extinção no Nordeste. O jumento, animal-símbolo do Nordeste, chamado de “nosso irmão” em música de Luiz Gonzaga dos anos 1960, está em risco de extinção. Ele perdeu espaço para motos nas propriedades rurais do semiárido e, desvalorizado, virou até alvo da cobiça dos chineses.

Chamado também de jegue, asno, jerico, e, às vezes, chorão ou babau², sempre foi muito usado para transporte de carga. Do cruzamento com jumento com égua nasce o burro. O jumento urra ao meio-dia dando sinal para o almoço.

No dia 03 de julho, em Orocó-PE, há uma tradicional corrida de jegues. O poeta e xilógrafo Jota Borges escreveu: “O macaco é bicho esperto, / o jumento trabalhador,/ o macaco é mais alegre,/ o jumento mais sofredor,/o jumento sofre calado, / o macaco é chiador³. “O jumento tem as orelhas compridas porque não aprendeu seu nome e levou um puxão de orelha de Jesus Nosso Senhor”4.

Como me referi acima, animal em franca extinção. Diz o poeta Cearense Nicodemos Araújo

Eu sinto o coração penalizado / ao ver de estrada o mísero jumento / sob o seu fardo incômodo e pesado / ao rigor do mais duro tratamento./ E penso, às vezes, que a felicidade/ de haveres conduzido o Rei Divino,/ deu-te a força, esta serenidade / com que suportas teu cruel destino .

No interior do Nordeste, em inúmeras paróquias, um jumento carrega Jesus na encenação da sua chegada triunfal a Jerusalém, na procissão do Domingo de Ramos (Jo 12, 14-15). Esta entrada triunfal de Jesus já era encenada na Europa, no século X.

O grande cantor, compositor e tocador de sanfona, Luiz Gonzaga compôs a “Apologia ao Jumento”:

O jumento sempre foi o maior desenvolvimentista do sertão: ajudou o Brasil a se desenvolver; arrastou lenha, madeira, pedra, cal, cimento, tijolo, telha; fez açude, estrada de rodagem e carregou água pra casa do homem; fez a feira e serviu de montaria (…) o jumento é nosso irmão (…) Animal sagrado: serviu de transporte para Nosso Senhor quando era pirritotinho( sic) . Todo jumento tem uma cruz nas costas, foi onde o menino Jesus fez pipi (…) (GONZAGA, 1968).

O padre Antônio Vieira (1919-2003), a quem Luiz Gonzaga se refere na Apologia ao Jumento, era de Várzea Alegre-CE, região do Cariri. Ele publicou “O Jumento é nosso Irmão” 6, reunindo textos populares e eruditos, religiosos e profanos sobre o jumento e pronunciando-se contra a sua extinção no Nordeste. Para o mesmo fim, fundou o “Clube Mundial dos Jumentos”, em 27 de fevereiro de 1996, tendo como finalidade preservar e proteger a espécie considerando para tanto dois aspectos fundamentais: a) a matança indiscriminada desse valioso aliado do homem do campo; b) o descaso das autoridades no tocante aos implementos de repressão. Fato curioso é que essa associação teve alcance fora do Brasil, notadamente na França, inclusive o apoio da atriz Briggite Bardot, que carrega no seu sobrenome o nome do nosso animal, pois Bardô (significa “jumento”, em francês), a mesma não só se regozijou com o novo parentesco, como ainda militou pela causa usando o seu prestígio.

Notas:

1- Personagem da farsa popular bumba-meu-boi (Dicionário Online de Português).

2- BORGES, José Francisco. No tempo que os bichos falavam. Olinda: Casa das Crianças de Olinda/Instituto Nacional do Folclore, 1983, p.3.

3- CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. 3ª edição. Brasília: Instituto Nacional do Livro, 1972, p. 64.

4- ARAÚJO, Vicente Freitas. O carpinteiro das Letras – perfil bibliográfico de Nicodemos Araújo. Joinvile: Clube dos autores, 2018.

5-  VIEIRA, Antônio. O Jumento, nosso irmão. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1964, 308 p.

Referências:

ARAÚJO, Vicente Freitas. O carpinteiro das Letras – perfil bibliográfico de Nicodemos Araújo. Joinvile: Clube dos autores, 2018.
BORGES, José Francisco. No tempo que os bichos falavam. Olinda: Casa das Crianças de Olinda/Instituto Nacional do Folclore, 1983, p.3.
CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. 3ª edição. Brasília: Instituto Nacional do Livro, 1972, p. 64.
VIEIRA, Antônio. O Jumento, nosso irmão. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1964.

Por Gilvan Gomes

 

São Pedro Fonte: www.google.com

 

 

Pe. Gilvan Gomes das Neves (*)

*Mestre e Doutor em Ciências da Religião pela UNICAP. E-mail: Gilvan.neves@uol.com.br

São Pedro (século I), do grego “Petros”, rocha e em aramaico “Kefas”. Sua festa é celebrada no dia 29 de junho. Na sua iconografia aparece vestindo túnica com ornamentos pontificais. Seus atributos são um livro ou rolo de pergaminho, e as chaves, que podem ser três em alusão à Santíssima Trindade. Frequentemente, reconhecemos nos dentes das chaves a letra P, indicando o nome do santo redes, peixes ou uma barca. Manoel da Costa Athaíde (2) pintou São Pedro na companhia de um galo.

Pescador, natural de Betsaida, inicialmente chamado Simão, era filho de João. Apóstolo e mártir; foi o primeiro papa. Dele, Jesus disse: “…sobre esta pedra construirei a minha Igreja”(Mt 16,18; cf. At 15,6-17). Antes de o galo cantar, Pedro negou Jesus três vezes (Mt 26, 74-75), mas tornou-se chaveiro do céu. Liderou os apóstolos no dia de Pentecostes. Do Novo Testamento, constam duas catas de São Pedro.

Segundo a tradição, foi crucificado de cabeça para baixo –Nero era o Imperador (64-67) na colina Vaticana, fora da antiga cidade de Roma. Escavações recentes parecem confirmar que Pedro está enterrado sob a Basílica de São Pedro, no estado do Vaticano, em Roma.

Vale ressaltar que a antiga e grande devoção a São Pedro é própria da Igreja de Roma, que o contém como fundador e padroeiro. Assim como, as grandes Igrejas Ortodoxas foram fundadas por apóstolos aos quais os fiéis cultivam a sua devoção.

Na Religião do povo, São Pedro é invocado como aquele que manda a chuvacair do céu. Além de chaveiro do céu, São Pedro é advogado das almas que estão às portas da eternidade. Veio através dos colonizadores o seguinte canto, ainda cantado em Portugal: “São Pedro é homem velho / homem de muito juízo / Por isso o Senhor o fez / chaveiro do paraíso” (PIRES, 1902, p. 121).

Nas histórias de quando Deus andou no mundo (3) , Jesus andava frequentemente com São Pedro, que tinha muito o que aprender. Em algumas dessas histórias, São Pedro é confundido com Pedro Malsartes (4) . Mesmo sendo futuro chefe da Igreja, foi apontado por Jesus como Satanás (Mt 16,23). “Quando Deus andou no mundo disse a São Pedro assim:/ Quem não quer pobre na porta,/ Também não quereis a mim”(versos populares, recolhidos no interior de Alagoas).

Na tradição a devoção a São Pedro existe uma ligação do referido Santo, como o “Senhor do Galo”. O animal simboliza nas culturas antigas a fecundidade e vigilância. Cristo, São Pedro e o Galo aparecem 120 vezes em sarcófagos do século IV. O Galo de então simbolizava a luz da aurora, a luta e a vitória de Cristo Ressuscitado; vitória da qual participava São Pedro Mártir (em Roma) e não tanto as três vezes que o mesmo Pedro negou a seu Mestre .

Segundo a tradição popular, São Pedro era viúvo. Muitos consideram São Pedro protetor de viúvos e viúvas.

Por fim, a festa de São Pedro encerra o ciclo das festas juninas, que não se deve apenas a popularidade do santo chaveiro do céu, mas principalmente ao fim das colheitas nesse período.

Por isso: “Dia 29 de junho, / É dia de São Pedro, Salve, Salve, São Pedro / pescador da Galiléia,/ salve, salve, São Pedro (…),/o porteiro do céu./ Viva, Viva, São Pedro! (BENJOR, Jorge. Viva São Pedro).

Notas:

 

[1]Manuel da Costa Ataíde,[1] mais conhecido como Mestre Ataíde, (Mariana, batizado em 18 de outubro de 1762 – Mariana2 de fevereiro de 1830) foi um professorpintor e decorador brasileiro.

[2]Manuel da Costa Ataíde,[1] mais conhecido como Mestre Ataíde, (Mariana, batizado em 18 de outubro de 1762 – Mariana2 de fevereiro de 1830) foi um professorpintor e decorador brasileiro.

[3] Contos populares, onde Jesus aparece disfarçado de velhinho ou de peregrino. Essas histórias vieram de Portugal e outras são brasileiras. O povo atribui a Jesus uma sabedoria e esperteza extraordinárias. Ele conhece os corações dos homens e sabem que as aparências enganam. Ele ensina a não julgar. A São Pedro Ele faz entender a vontade de Deus, a hospitalidade, o sentido da pobreza, do trabalho e do sofrimento.

[4] O nome já diz tudo: Pedro: “o das más-artes”, isto é, das estripulias, da astúcia, das peças bem pregadas. Figura do pobre que procura reverter sua situação pela astúcia e inteligência.  Procedente da Idade Média, Malasartes, chegou ao Brasil, via Portugal, desembarcando de uma longa tradição ibérica.

REFERÊNCIAS:
VAN DER POEL, Francisco. Dicionário da Religiosidade popular. Curitiba: Nossa Cultura, 213, p. 458.

Por Gilvan Gomes

DOS ARRAIÁS AOS SANTOS JUNINOS (2)

 

Dando continuidade a apresentação dos santos celebrados no mês de junho, iremos trazer aquele que dá nome as nossas festas, chamadas juninas ou joaninas: São João Batista, porque “todo mês de junho, há uma data em que o dia e a noite têm a maior diferença de duração – o solstício. No Hemisfério Norte, é o mais longo dia de todo o ano” NEVES, G. G., 2020). Sendo que São João Batista, em particular, é o que se celebra mais perto do solstício, portanto é um dos mais celebrados com fogueira, fogos, danças, dando nome as festas que se realizam durante o mês de junho.

2. SÃO JOÃO BATISTA:

“Ai, São João do carneirinho / você é tão bonzinho..” (Luiz Gonzaga).

São João

Dando continuidade a apresentação dos santos celebrados no mês de junho, iremos trazer aquele que dá nome as nossas festas, chamadas juninas ou joaninas: São João Batista, porque “todo mês de junho, há uma data em que o dia e a noite têm a maior diferença de duração – o solstício. No Hemisfério Norte, é o mais longo dia de todo o ano” NEVES, G. G., 2020). Sendo que São João Batista, em particular, é o que se celebra mais perto do solstício, portanto é um dos mais celebrados com fogueira, fogos, danças, dando nome as festas que se realizam durante o mês de junho.

2. SÃO JOÃO BATISTA:

“Ai, São João do carneirinho / você é tão bonzinho..” (Luiz Gonzaga).

São João Batista é comumente representado às margens do Rio Jordão, batizando Jesus Cristo, em pé, dentro da água e os braços cruzados sobre o peito, no alto, o Espírito Santo no simbolismo de uma pomba. Seu título latino “Prodomus” significa precursor. Pois anunciou a vinda do messias. Na festa de São João, as bandeiras e estampas mostram São João Batista criança e com um cordeiro, junto as palavras Ecce Agnus Dei (latim): Eis o Cordeiro de Deus! (Jo 1,29), dia 24 de junho é a festa do seu nascimento, a comemoração do seu martírio é no dia 29 de agosto e não é tão popular.

Eremita, profeta, asceta e mártir, foi um homem tão extraordinário que o próprio Jesus disse: “Entre os nascidos de mulher, nenhum aparecerá maior do que Ele” (Mt 11,2). Profeta, filho do sacerdote Zacarias e Isabel, à beira do rio Jordão ele pregava que o Reino de Deus estava perto. Foi preso por Herodes Antipas a quem repreendera por se ter casado com a cunhada, Herodíades. Encantado com a dança da filha de Herodíades, o rei Herodes atendeu ao pedido da mãe feito pela filha: a cabeça de João numa bandeja. João é primo de Jesus.

Desde o século IV, a religião do povo lhe consagra cantos, danças e fogueiras. No Brasil todo, a festa de São João, sobretudo a realizada na área rural, é feita com devoção e alegria. Para muitos é dia santo. Na cidade, é comida e divertimento só. Quando criança, em Anadia, vi muita gente se pulando a fogueira para se tornarem compadres e comadres de São João! Bastava dizer: São Antônio disse, São João assinou: que nós fôssemos compadres (comadres) que São Pedro mandou! Este juramento é feito com seriedade enquanto pulam a fogueira por três vezes.

Mas afinal, por que a fogueira? Contam que no dia em que São João nasceu, sua mãe Santa Isabel acendeu uma grande fogueira para comunicar o nascimento a Maria, sua prima.

Em muitos estados é dançada a quadrilha com uma irreverente encenação do casamento na roça. Sendo a festa popularíssima em Caruaru (PE) e em Campina Grande (PB), nas referidas cidades a festa dura o mês inteiro e para lá acorrem milhões de pessoas durante as festividades.

Segundo a tradição popular, no dia de sua festa, São João está dormindo no céu. O povo acredita que Deus não quer que Ele venha à terra. Muitos que, se São João descesse, ele poria fogo no mundo. Ainda não encontramos nos Evangelhos argumentos que expliquem o sono e o fogo de São João. As palavras do santo referem a Jesus e ao fogo: Mt 3,10-12; Lc 12, 29-30.

Na véspera da festa, são tiradas as sortes de São João. Trata-se de adivinhação para saber se o ano vai ser bom de chuva. Para ver que sorte terão as moças são feitas experiências com clara de ovo, agulhas virgens, enterram a faca na bananeira. Antes e depois da adivinhação deve-se rezar um Pai-nosso, oferecido ao Santo. Para saber se estarão vivos na próxima festa olham no espelho da água do rio ou de uma bacia. A música “Leva eu saudade”, de Tito Guimarães Neto e Alventino Cavalcanti diz: “Na noite de São João, no terreiro, uma bacia / que é pra ver se para o ano meu amor ainda me via./ Leva eu, minha saudade”.
Viva São João!!!

 

 

Por Geraldo de Majella

Dos Arraiás aos Santos Juninos -1

Santo Antonio. Fonte: www,nossasagradafamilia.com.br

 

No mês de junho de 2020 escrevi um artigo neste blog sobre as origens das nossas festas juninas: suas raízes pagãs e sua cristianização e seu deslocamento para a nossa terra e como o nosso povo as celebram: na alegria das danças, no calor das fogueiras, no brilho dos fogos de artificio e na nossa fé herdada pelos nossos colonizadores.

Nesse mesmo mês iremos apresentar os três santos que festejamos no decorrer do mês de junho.

1. SANTO ANTÔNIO:

“Que seria de mim, meu Deus sem a fé em Antônio” (J. Veloso).

O culto a Santo Antônio de Lisboa implantou-se no Brasil com a vinda dos primeiros portugueses. Um sermão de Padre Antônio Vieira no Maranhão em 1656, já considerava Santo Antônio, “o primeiro valido de Deus”, descrevendo-o com as mãos cheias de “memórias” ou pedidos que eram logo atendidos: “Se vos adoece o filho, Santo Antônio; se vos foge o escravo, Santo Antônio; se requereis o despacho, Santo Antônio; se perdeis a menos miudeza de vossa casa, Santo Antônio” (1).

Fernando de Bulhões e Taveira nasceu em Lisboa no dia 15 de agosto de 1195 e faleceu em Pádua na Itália, no dia 13 de junho de 1231. Entre as inúmeras representações do santo, geralmente, ele aparece com o menino Jesus no colo e vestindo o hábito franciscano, ele abençoa com a mão esquerda e traz, na direita, a Bíblia e um lírio. Também é muito representado com o Menino Jesus, sentado ou em pé sobre a Bíblia sagrada, que o santo milagreiro tanto estudou em sua vida para se tornar o grande pregador em que sua ordem tanto necessitava, à época em que foi fundada.

O seu rosto, nas imagens, é geralmente o de um moço imberbe. Mostra na cabeça a coroa ou tonsura, o corte de cabelo dos clérigos e monges.

Dos seus 36 anos de vida, 25 anos, ele viveu em Portugal, e 11 na Itália e na França. Apenas 11 meses após a sua morte, foi declarado santo pelo Papa Gregório IX.

Aos 15 anos, ingressa na Ordem dos Cônegos Regulares de Santo Agostinho e, aos 25 anos, ordena-se sacerdote em Coimbra. Fascinado pela coragem dos primeiros mártires dos franciscanos no Marrocos, ingressa na Ordem Franciscana Menor, em 1220, no Convento dos Franciscanos em Coimbra, onde recebe o nome de Antônio em homenagem ao eremita do Egito, Santo Antão, que viveu entre o século III e o século IV da era cristã.

Em 1221, partiu para o norte de África, mas, ficou doente e quando regressava a Portugal, uma tempestade desviou o navio para a Itália, onde acabou ficando e foi professor de Teologia para os frades franciscanos.
Tornou-se popular como pregador aguerrido, merecendo os títulos de “trombeta do Evangelho” e “martelo dos heréticos”. De acordo com o franciscano José Clemente Müller,

Seu público era o mais variado possível, abrangendo todas as classes sociais, desde o sumo pontífice com seu sacro colégio, passando pelos governantes e magistrados até ao rústico camponês. O santo da devoção popular era um tipo prático. Mais do que um pensador dogmático, era um mestre intuitivo (MÜLLER, 1995, p.22).

Em Rimini, fez um burro ajoelhar-se diante do Santíssimo e convenceu o chefe o chefe dos Valdenses, Bonvillo, a submeter-se a Roma. Na mesma localidade, com seu famoso sermão aos peixes, surpreendeu o povo. Morreu aos 36 anos no convento de Arcela, perto de Pádua, era 13 de junho de 1231. No dia do seu enterro – uma terça-feira, 17 de junho – aconteceram vários milagres. Os portugueses o chamam de Santo Antônio de Lisboa (onde nasceu) e os italianos preferem chama-lo de Santo Antônio de Pádua (onde morreu).

Em sua vida de teólogo e pregador, aparentemente não há motivo que explique sua popularidade de santo casamenteiro, sobretudo no mundo urbano. Mas, em várias festas e danças rituais da religião do povo, a sexualidade é celebrada comunitária e religiosamente.

Haroldo Lobo e Milton de Oliveira compuseram o xote-baião:

“Santo Antônio exagerou: em matéria de amor / eu nunca brigo / Pedi um casamento / Santo Antônio arranjou cinco.// Tenho a Luísa, tenho a Elisa / e também a Leonor / Tenho a Luzia, tenho a Maria,// Santo Antônio exagerou”(Festa Junina, 1984).

Os devotos fazem trezena porque ele morreu no dia 13. Desde 1617, existe suas devoções às terças-feiras. Santo Antônio é invocado para encontrar objetos perdidos. No Responso de Santo Antônio, hino escrito pelo italiano frei Julião de Espira (+ 1250), logo depois da morte do Santo (+1231): “Quem milagres quer achar / contra os males e o demônio, / busque logo a Santo Antônio,/ que aí os há de encontrar.// (…) tira os presos da prisão, ao doente torna são/ e o perdido faz achar” (GOFFINÉ, 1900, p. 802).

Na cidade de Igaraçu (PE), Santo Anto Antônio e vereador desde 23 de novembro de 1754, com a autorização do rei Dom José I. Nas sessões das terças e das quintas-feiras, um funcionário acende uma vela junto à imagem do santo. Recebeu o título de vereador perpétuo, ganhando 27 mil réis. Até hoje, o salário é entregue ao convento do Santo para a manutenção de uma creche e distribuição de pães para os pobres. Desde 1890, existe o pão de Santo Antônio.

É por toda essa grandeza que esse santo é dos mais populares no Brasil e faço coro com Maria Bethânia:

Antônio querido / Preciso do seu carinho / Mostre-me novo caminho/ Se ando perdido/Se ando perdido / Mostre-me novo caminho / Nas tuas pegadas claras/ Trilho o meu destino / estou nos teus braços, como se fosse / Deus menino. (J. Veloso).

Gilvan Gomes das Neves é mestre e doutor em Ciências da Religião pela Unicap. E-mail: Gilvan.neves@uol.com.br

REFERÊNCIAS:

1- PRECE MILAGROSA. Jornal do Brasil, 11/07/1986. Classificados 5.

GOFFINÉ, Leonardo. Manual do Christão. Rio de Janeiro, Colégio da Imaculada Conceição, 1900, p. 802.

MÜLLER, José Clemente. Santo Antônio e as Sagradas Escrituras. In: OITAVO CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE SANTO ANTÔNIO. São Paulo, nov/1995, p. 22.

 

 

Por Gilvan Gomes

Ofício da Imaculada Conceição: Memória e Religião Popular

Entre as minhas evocações aos anos vividos em Anadia, trago na minha memória, aos sábados minha avó paterna cantando o Ofício da Imaculada Conceição e sempre realçava: “quando se começa o ofício não se pode parar, porque Nossa Senhora se ajoelha no céu”. Diante de tamanha piedade eu ficava imaginando a cena: Maria, no céu, ajoelhada…que quadro belo. Coisa da minha memória religiosa.

Etimologicamente, a palavra memória, de origem latina, deriva de menor e oris, e significa “o que lembra”, ligando-se, assim, ao passado; portanto, ao já vivido (GIRON, 2000, p. 23).

Essa memória me instigou a buscar a entender a origem, a estrutura dessa oração, que é patrimônio da Religião do Povo.

Fonte: www.google.com

Acredita-se que o popular Ofício de Nossa Senhora foi escrito em meados do século XV, atribuído a Bernardino de Busto ou a São Boaventura e aprovado pelo Papa Inocêncio XI. Aqui no Brasil, sua divulgação se deve aos missionários que atuaram no século no século XVII e sua divulgação ficou registrada em vários benditos: “Frei Altino deixou / três pés de árvore plantada / o terço à boca da noite / ofício de madrugada”1. Nas Santas missões, onde um pequeno grupo de missionários dirigidos por um padre-mestre visitava as comunidades nas cidades, nos lugarejos, nas fazendas, nos engenhos. Nos séculos XVII e XVIII, tempo áureo do cristianismo leigo e luso, a missão foi a maneira mais proveitosa que a igreja encontrou para dar assistência espiritual ao povo. Durante as mesmas se ensinavam o catecismo, os dez mandamentos e as oito bem-aventuranças. Visitavam os sete passos, rezavam a Missa, o terço cantado e Ofício de Nossa Senhora da Conceição e a Salve. Faziam procissões cantando benditos.

O Ofício de Nossa Senhora foi oração obrigatória nos quartéis do exército brasileiro no tempo do Império. Até hoje é cantado em casas e capelas, aos sábados. Muitos o conhecem de cor. Ele faz parte da vida do povo; é rezado em diversas circunstâncias, desde a hora do parto até na hora da morte.

Os nomes das partes do Ofício de Nossa Senhora da Conceição correspondem às horas do ofício divino que consta no tradicional breviário dos padres, monges, religiosas. São elas em Latim: (1) Matutinas, (horas matinas) parte longa (entre outras: nove salmos e três leituras) rezada de madrugada ou à meia-noite. (2) Prima (hora primeira) às 6h da manhã; (3) Tercia (tércia, hora terceira), às 9h; (4) Sexta (hora sexta) ao meio-dia; (5) Noa (hora nona), às 15h; (6) Vesperas (vésperas), de tardinha; (7) Completas (horas derradeiras), antes de deitar. O Ofício popular é simplíssimo; em cada hora reza-se uma invocação, um hino e uma oração conclusiva; no final de tudo, é feito o Oferecimento.

Há no Ofício da Imaculada Conceição muitas citações bíblicas do Antigo e do Novo Testamentos; Suas palavras iniciais, são: “Agora, lábios meus,/ dizei e anunciai / os grandes louvores da Virgem Mãe de Deus. // Sede em meu favor, / Virgem soberana,/ livrai-me do inimigo / com grande valor”. O hino das Vésperas curiosamente reza: “Deus vos salve relógio, / que andando atrasado / serviu de sinal /ao Verbo Encarnado”. O texto fala do relógio de Acaz (Is, 38,8ss; 2Rs 20, 1-12). Ezequias pediu um sinal de sua cura ao profeta Isaías. E a sombra do relógio voltou dez graus. Assim como aquele relógio foi o sinal da salvação de Ezequias, assim, Maria é o sinal da nossa salvação, pois nos trouxe o Cristo.

Para concluir quero ressaltar a importância do Ofício da Imaculada Conceição no devocionário popular, pois praticamente todos os tradicionais livros de oração e meditação, cartilhas e catecismos, manuais de irmandades e coleções de cânticos, incluem “O Ofício”. A versão do texto decorado pelo povo já se encontra no Manual Corte Celeste (1751) e no manual de Oração cujo título completo é: “Sanctos Exercícios que são para a Novena Geral de Maria Santíssima, Nossa Senhora” (…),

Divino ofício de sua Imaculada Conceição, modo de rezar o ofício divino, forma de Novena de Natal, (…) e várias devoções e orações para todo fiel christão. Offerecido à puríssima Conceição da Virgem Maria nossa Senhora dado à luz por Francisco Ferreira Machado, Lisboa, 1774.

1- VAN DER POEL, Francisco. Dicionário de Religiosidade Popular, p. 728.

Referências:

GIRON, Loraine Slomp. Da memória nasce a História. IN: LENSKIJ, T. & HELFER, N.E. (Org.) A memória e o ensino de História. Santa Cruz do Sul: Edunisc; São Leopoldo: ANPUH/RS, 2000.

VAN DER POEL, Francisco. Dicionário de Religiosidade Popular. Curitiba: Ed. Nossa Cultura, 2013.

 

Por Redação

Mês de Maio: Da deusa Maia¹ ao mês de Maria

O mês de maio, também chamado mês de Maria e mês das noivas. Dedicado a Santa Mãe de Deus, Maria. A sua devoção surgiu no século XIII, na Europa, onde maio é o mês das flores, um dos meses da primavera. No Brasil, a devoção do mês de maio iniciou-se no século XIX, com a romanização (2) da Igreja e, principalmente pela ação dos religiosos lazaristas franceses. Nos hinários tradicionais encontramos cantos como: “Eis o mês de alegria, mês da mãe do Senhor; Neste mês de alegria, tão lindo mês de flores; Neste mês tão santo de suma alegria, seja o nosso encanto a virgem Maria” (Inf.: Francisco C. Alves Dupim).

Nossa Senhora cercada de flores. Fonte: www.google.com

 

Maio é o mês das coroações de Nossa Senhora, é da mesma época, que é uma devoção marcadamente infantil e feminina. A coroação é uma cerimônia paralitúrgica (3) própria do mês de maio, realizada com crianças vestidas de anjo que homenageiam Maria, Virgem e Rainha, colocando véu, palma, rosário e coroa na sua Imagem, à frente dos fiéis reunidos na Igreja. No final, jogam flores, ou pétalas de rosas.

Lélia Vidal Gomes da Gama conta que antigamente a Igreja era muito bem ornamentada, as escadarias por onde subiam anjos e virgens eram erguidas dos lados da imagem de Nossa Senhora. Eram muitas fitas, filós, cetins, brilhos, cores e flores, A Igreja ficava repleta, no coro, os músicos acompanhavam os cânticos.

Anjos e virgens aguardavam, na sacristia o término da reza e o esperado momento de darem entrada no templo. Lá fora, a banda de música tocava os mais belos dobrados da época, anunciando aos fiéis a chegada do cortejo alado. O vigário, em geral, dava inicio aos cantos de louvor, assim que as meninas, duas a duas, galgavam a porta da Igreja (GAMA, 1984, p. 14).

 

Coroação de Nossa Senhora. Fonte: www.google.com

Existem muitas músicas específicas para a coroação (4). Na entrada pode ser cantado: “neste mês de alegria, tão lindo mês de flores,/ queremos de Maria celebrar os louvores. / Hinos harmoniosos vamos hoje cantar./ De ramos mais viçosos, ornemos seu altar”. Outro canto para ofertar os mesmos atributos é: Mãezinha do céu, eu não sei rezar, só sei dizer: eu quero e amar. Azul é teu manto e branco é teu véu. Eu te trago flores (etc.,) mãezinha do céu.

Segundo Dornas Filho, a coroação de Nossa Senhora por Dom Viçoso (1787-1875), bispo de Mariana (MG), a partir de 1840 (5). Já segundo Augusto de Lima Júnior, “as coroações de Nossa Senhora começaram depois de 1849, em Minas Gerais, por iniciativa dos padres Lazaristas e irmãs de Caridade”5.

Em Sergipe, registramos o ritual da queima das flores e outros materiais usados nas festividades. Há cantos apropriados, em Telha (SE), o povo canta: “vamos companheiras, em doce união,/queimemos as flores, na consagração.// Na consagração, em doce harmonia / queimemos as flores do mês de Maria..”(Caderno manuscrito por Maria da Paz, em Telha (SE), 1980, canto 116.

O Ofício de Nossa Senhora da Conceição (séc. XV) diz nas Completas: “Deus vos salve, Virgem, Mãe Imaculada, / rainha de clemência / de estrelas coroada. // Vós, sobre os anjos / sois purificada, / de Deus à mão direita / estás de ouro ornada” (Ap 12,1).

Notas:

1- Maius (magnus) Júpiter, pode ser derivado da deusa romana, Maia, conhecida como Bona Dea, a” Boa Deusa”, na mitologia romana, era uma deusa da fertilidade e virgindade, venerada pelas matronas romanas. Filha do deus Fauno, muitas vezes chamada de Fauna, cuja festa celebravam neste mês que chamaram de Maius.

2- Mestre e doutor pela Unicap. E-mail: Gilvan.neves@uol.com.br.

3- A Romanização na Igreja do Brasil, acontece na segunda metade do século XIX, onde da nossa origem colonial e portuguesa, bastante laicizada, começou a sofrer influência da Igreja européia, marcada pela contrarreforma surgida a partir do Concílio de Trento (1545-1563).

4- Aquilo que vai para além da liturgia. Por exemplo: uma Folia de reis, que é religiosa, mas incorpora outros elementos culturais.

5- SARMENTO, Clarice. Coroações. Montes Claros [s.n.] 1994. Coletânea de 102 cantos com pauta musical em 76pp.
6- DORNAS FILHO, João. Achegas de Etnografia e folclore. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1972, p. 166.

Referências:

GAMA, Lélia Vidal Gomes da. Devoção e nostalgia: informação histórico-litúrgica sobre o catolicismo e o culto da Virgem Maria em Minas Gerais. Belo Horizonte: Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa, 1984, p. 14.

DORNAS FILHO, João. Achegas de Etnografia e folclore. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1972, p. 166.

SARMENTO, Clarice. Coroações. Montes Claros [s.n.] 1994. Coletânea de 102 cantos com pauta musical em 76 pp.

VAN DER POEL, Francisco. Dicionário da Religiosidade Popular. Curitiba: Ed. Nossa Cultura, 2013.

 

Por Gilvan Gomes

Por Redação