Gilvan Gomes das Neves

O DIABO E A TERRA DE SANTA CRUZ (1)

 

Fonte: www.companhiadasletras.com.br

 

 

 

 

 

 

 

 

Pe. Gilvan Gomes das Neves é Mestre e Doutor em Ciências da Religião pela UNICAP. E-mail: Gilvan.neves@uol.com.br.

1. O Novo Mundo entre Deus e o Diabo:

Nas minhas pesquisas bibliográficas, no campo de imaginário e religião do povo, guardo nos meus arquivos a leitura da obra O diabo e a Terra de Santa Cruz de Laura de Melo e Souza, historiadora, foi docente da USP, onde constrói uma excelente análise dos numerosos relatos deixados por cronistas, viajantes e missionários que retrataram a terra “descoberta” pelo Ocidente entre o final do século XV e início do século XVI.

A autora utiliza os registros dos viajantes, religiosos e os processos inquisitoriais para mapear e desnudar o chamado processos do “nascimento do Brasil”. Trabalho de relevante contribuição acerca da religião do povo e o cotidiano colonial. Na referida obra o imaginário, a magia, as crenças, a medicina alternativa foram analisadas a partir da ótica da construção das identidades a partir do sincretismo e que estiveram constantemente sob a suspeição do olhar regulador do Tribunal do Santo Oficio.

No capítulo I: O novo mundo entre Deus e o diabo, Souza procura tecer a partir do universo simbólico do mar, como lugar do “medo” que chegou até nós, através das grandes navegações. O mar desde a antiguidade era o lugar em que o imaginário satânico configurava as relações travadas entre viagens imaginárias e o mundo real. O medo do desconhecido alimenta as crenças em monstruosidades.

No desenrolar da narrativa, o contato com o “novo mundo” é estereotipado pela edenização (2) do desconhecido. A natureza é elevada a verossimilhança do paraíso através das primeiras narrativas do navegadores e viajantes. A edenização do novo mundo é construída a partir do imaginário dos europeus que voltaram seus olhares ao novo, relacionando-o a priori as belezas naturais e os nativos habitantes do paraíso.

Laura de Melo e Souza engendra sua análise baseada no pensamento de Jean Delumeau (2) que analisa o medo como “um componente maior da experiência humana”. O medo impulsiona e alimenta o imaginário. Os primeiros contatos com a natureza e os habitantes no século XVI foram relacionados a narrativas bíblicas sobre o paraíso.

O fato de os indígenas andarem despidos foi vista como certa inocência pelos colonizadores. Isso começou a provocar nos conquistadores do velho mundo uma inquietação motivada e alimentada pelos tabus religiosos. A visão edenizada, construída passa por uma transformação e o paraíso toma feições do inferno em virtude das asperezas e astúcias dos nativos.

A literatura produzida sobre a América portuguesa passa por um processo de gradação, primeiro a edenização e, posteriormente estereotipa-se os nativos como luxuriosos e pecadores. O novo mundo assume então conotações do purgatório e ao mesmo tempo de inferno.

As práticas antropofágicas disseminadas em algumas tribos indígenas alimentaram a indignação dos colonizadores. O modelo que edenizou o novo mundo passa por um processo de transformação. Se no começo a simplicidade, a inocência e a nudez eram vistas como atributos valorativos dos nativos, percebe-se que essa imagem vai sofrendo mutações. A permanência dos colonizadores e o aprofundamento das relações vai se tornar complexa e conflituosa. A descoberta da luxúria e do canibalismo por parte dos europeus construiu no imaginário dos conquistadores a demonização do outros (os indígenas).

A colonização no Brasil foi caracterizada segundo a autora por uma bifrontalidade “por um lado incorporavam-se novas terras, sujeitando-as ao poder temporal dos monarcas europeus; por outro, ganhavam-se novas ovelhas para a religião e para o Papa” (p. 48). A empresa colonizadora foi sustentada pela fé e pelo desejo expansionista de um poder temporal do Estado. Se por um lado ocorreu o culto da natureza e das terras (caráter valorativo), por outro o processo de colonização foi sustentado na demonização da humanidade. O processo de marginalização geográfica, os degredos, a vida distante do velho mundo “civilizado” alimentaram no imaginário colonial, principalmente dos portugueses a ideia de um purgatório no novo mundo.

NOTAS:

1- Voltar ao estado edênico.

2-Jean Léon Marie Delumeau (Nantes18de junho de 1923 — Brest13 de janeiro de 2020) foi um historiador francês especializado em estudos sobre a história do Cristianismo e autor de vários trabalhos relacionados com a temática (cf. História do Medo no Ocidente, São Paulo: Cia. Das Letras, 1989).

REFERÊNCIAS:

DELUMEAU, Jean.História do medo no Ocidente: 1300-1800). São Paulo: Cia. Das Letras, 1989.
SOUZA, Laura de M e.,O Diabo e a Terra de Santa Cruz: feitiçaria e religiosidade no Brasil Colonial. São Paulo: Cia. Das Letras, 2009.

Banner
Por Gilvan Gomes

AGOSTO? SEXTA-FEIRA 13? CRENDICE OU PRECONCEITO?

 

Fonte: www.artecult.com

Gilvan Gomes das Neves é Mestre e Doutor em Ciências da Religião pela UNICAP. E-mail: Gilvan.neves@uol.com.br.

Cresci no interior do estado de Alagoas ouvindo dizer que o mês de agosto é o mês de azar (1) . Muita gente prefere não casar em agosto. Até se diz: casar em agosto: traz desgosto. E o pior: é quando uma das sextas-feiras do mês coincide com o dia 13 do corrente, e o ano for bissexto. Diz a poesia: “Número treze é bichão / para trazer complicação! /Treze pessoas à mesa / vem por aí tristeza!”(FLORA, 1945, p.194).Pronto, cardápio ideal para nada dar certo. Por que será? Qual seria a origem dessa crença, na nossa cultura?

Segundo alguns autores, as matanças da Noite de São Bartolomeu (2), em 24 de agosto de 1572, na França, causaram o medo de azar nesse mês. Na nossa cultura ocidental, é o dia próprio para algumas cerimônias contra a má sorte. São feitas defumações com guiné (3) ou num chifre queimado. Algumas pessoas tentam explicar isso lembrando as 13 pessoas presentes na última ceia (Jesus e os 12 apóstolos) e o dia da morte de Jesus, numa sexta-feira. Mas, porém, esta ligação parece pouco provável. A última ceia aconteceu numa quinta-feira e o número treze provavelmente já era agourento antes da era de Cristo.

No tarô, conhecido como “máquina da imaginação” ou “escada da sabedoria”, cuja origem é obscura, mas, reúne antigos ensinamentos da cabala judaica e da tradicional astrologia da Caldeia e da Índia (URS VON BALTHAZAR, 1989), a carta treze é a morte.

Também na mitologia nórdica (4) – conjunto de lendas pré-cristãs do povo da Escandinávia que viveram seu apogeu durante a Era Viking, entre os séculos VIII e XIII – faz parte das inúmeras teorias que tanta gente tenta explicar a associação dessa data a coisas negativas.

“Treze raios do sol e treze raios da lua, te arrebenta satanás que esta alma não é tua” compõe a última das “treze palavras” da oração do Anjo Custódio (5) . No dia 13 de junho, morreu Santo Antônio. Daí a trezena das treze terças-feiras.

Cada vez mais fico embevecido com a nossa riqueza cultural, sobretudo aquela criada e vivida por pessoas e grupos populares. Suas tradições vêm da história do povo, até hoje não escrita ou precariamente escrita. Já nos alertava Ayala (1987, p. 53) que a cultura deve ser pensada no plural e no presente. Por isso, as manifestações da cultura do povo são dinâmicas e passam constantemente pelo crivo do grupo ou da comunidade portadora desta cultura.

Portanto, devemos evitar termos pejorativos e preconceituosos como “crendice” usado pela cultura dominante e na Teologia tradicional, segundo a qual diversas manifestações da fé popular seriam formas de fé desqualificadas. Para os que pensam assim, a religião do povo seria um conjunto de crendices pré-cristãs, mal batizadas.

1-Má fortuna ou má sorte. Mal irracional e difícil de ser evitado.

2- O massacre da noite de São Bartolomeu ou a noite de São Bartolomeu, foi um episódio da história da França, na repressão ao protestantismo, arquitetado pelos reis franceses que eram católicos.

3- O mesmo que pipi ou amansa-senhor, tipuana. Planta medicinal, mas federonta.

4- Segundo alguns relatos da mitologia Nórdica, 12 deuses se reuniram em um banquete em Valhalla, o paraíso, quando o Loki, o deus da discórdia e do fogo apareceu sem ter sido convidado e ao se juntar ao grupo passou a ser o 13º participante, criando um conflito que levou à morte, o bondoso Balder.

5- É uma oração muito popular e conhecida, para se livrar do mal e das armadilhas dos inimigos

REFERÊNCIAS:
AYALA, Marcos et al. Cultura Popular no Brasil. São Paulo: Ática, 1987.
BALTHAZAR, URS VON. Meditações sobre os 22 Arcanos Maiores do Tarô. São Paulo: Paulinas, 1989.
FLORA, Eliana. Crendices populares. Guaratinguetá: Papelaria Vieira, 1945.

 

Banner
Por Gilvan Gomes

BENZEDEIRAS, BENZEDEIROS: IMAGINÁRIO E REPRESENTAÇÃO (2

 

Fonte: www.emdefesadasaude.com.br

Pe. Gilvan Gomes das Neves é  Mestre e Doutor em Ciências da Religião pela UNICAP. E-mail: Gilvan.neves@uol.com.br.

No artigo passado ao tratarmos sobre nossas rezadeiras e benzedeiros discorremos sobre o conceito de Imaginário humano e o seu sistema simbólico: ferramenta necessária para se entender ao seu modo, o mundo natural e simbólico onde vive.

Outro conceito que nos ajudará a pensar as nossas rezadeiras(os) e benzedeiras (os) e sua prática é a teoria das Representações sociais que está intimamente ligada a questão do imaginário, enquanto formulação mental de realidades concretas. Para Wagner (1998, p. 3) uma representação é um “conteúdo mental estruturado (cognitivo, avaliativo, afetivo e simbólico) sobre um fenômeno social relevante, que toma foma de imagens ou metáforas, e que é conscientemente compartilhado com outros membros do grupo social”.

A representação nesse caso pode ou não ser social, de modo que suas variantes seriam as representações afetivas, líricas, educativas dentre outras. Pode-se portanto, entender representação como “uma forma de conhecimento socialmente elaborada e partilhada, tendo um objetivo prático e concorrendo à construção de uma realidade comum a um conjunto social” (JODELET, 2001, p. 36). Tal perspectiva pode aliar-se a de que à representação seria o “conteúdo concreto apreendido pelos sentidos, pela imaginação, pela memória ou pelo pensamento”; é, em síntese, a “reprodução daquilo que se pensa” (FERREIRA, 1975).

Podemos afirmar, portanto, que uma representação não é apenas uma maneira particular de ver uma situação, a cultura, a pessoa ou objeto, mas é uma criação imaginativa, uma nova realidade para a mente que observa o elemento em questão. Para Abric (2001, p. 188) é “produto e processo de uma atividade mental pela qual um indivíduo ou um grupo reconstitui o real ao qual ele é confrontado e lhe atribui uma significação específica”.

E, ainda mais, mesmo que uma representação não seja social em sua expressão, ela o é em sua construção, dado que é parte de uma vivência essencialmente social. Segundo Spink (1993, s.p):

As representações sociais, sendo deferidas como formas de conhecimento prático, inserem-se mais especificamente entre as correntes que estudam o conhecimento do senso comum. Tal privilégio já pressupõe uma ruptura com as vertentes clássicas das teorias do conhecimento, uma vez que estas abordam o conhecimento como saber formalizado, isso é, focalizam o saber que já transpôs o limiar epistemológico, sendo constituídas por conjuntos de enunciados que definem normas de verificação e coerência. Em nítido contraste, as correntes que se debruçam sobre os saberes enquanto saberes, quer formalizados ou não, procuram superar a clivagem entre ciência e senso comum, tratando ambas as manifestações como construções sociais sujeitas às determinações sócio-históricas de épocas específicas.

Por conseguinte, pode-se entender que uma representação é necessariamente um saber, uma certeza, uma verdade sobre algo que se percebe. Assim, a representação encontra-se arraigada na vida comum do indivíduo, do coletivo do saber prático, da forma como os indivíduos sentem, assimilam, apreendem e interpretam o mundo dentro do seu cotidiano.

Portanto, as representações do imaginário social conforme foi expresso, são inúmeras e variáveis. A noção de cura, saúde, doença, mal, sofrimento, dor são algumas das representações que ocupam o imaginário dos agentes da benzeção: “o imaginário, aqui, é entendido como parte da representação, como tradução mental de uma realidade exterior percebida, que ultrapassa o processo mental e vai além da representação intelectual ou cognitiva” (LAPLANTINE; TRINDADE, 1997, p.25).

Nesse sentido, aquele que se submete a um tratamento ou submete a outrem, o faz por crer que o problema será resolvido no menor tempo possível, evitando transtornos e sofrimento. Assim, ritos, mitos e símbolos podem ser a mediação entre a alteridade de um mundo frequentemente misterioso e o mundo da intersubjetividade humana.

O benzedor e a benzeção, estão inseridos no contexto de representações e do imaginário como uma maneira de modificar (benzer) a realidade ce modo a transformá-la rapidamente em algo melhor. Para Queiroz e Puntel (1997, p. 81):

O benzimento apresenta um elemento ambíguo, principalmente quando ele se refere a problemas de adultos e é tratado por agentes ligados a centros espíritas ou da umbanda. Se há um crédito na eficácia do produto, ao mesmo tempo ele é considerado uma força fora de controle dos padrões morais da sociedade, uma vez que se pode dirigir tanto para o bem como para o mal.

A benzeção, como qualquer outra representação que altera a realidade, também tem o poder de criar uma nova realidade, um novo imaginário diante de uma situação.

Quando o paciente é uma criança, no entanto, o recurso ao benzimento é considerado perfeitamente legítimo e socialmente aceitável. Mesmo os que não acreditam muito na sua eficácia levam seus filhos para benzer, por via das dúvidas e pela pressão social favorável” (QUEIROZ; PUNTEL, 1997, p. 81).

O fenômeno religioso da benzeção, o benzimento em si e os benzedores(as) e rezadores(as) ocupam, portanto, um espaço simbólico ainda expressivo no cotidiano e embora se pretenda aqui analisar tal plausibibilidade, entende-se que tal fato representa uma forma de entender tal fenômeno, ou seja, entender essa possível busca de retorno às raízes naturais do homem, do seu contato com a natureza, o natural, de experimentar o cotidiano e gozar de saúde e estar em harmonia consigo e com todo seu imaginário.

Segundo Levi-Strauss (1967) se a prática religiosa é uma representação que dá significado ao benzido, também o são as feridas ou doença do que procura tal prática achando-se em estado de perturbação na ordem natural de compreensão e vivência do indivíduo.

Em suma, pode-se inferir do exposto que as realidades simbólicas existem, elas estão em constante processo de representação e atuam na construção de nosso imaginário. Sua eficácia depende de todo esse conjunto que funciona não dentro de uma lógica racional, mas, como fenômeno inserido simbolicamente em nosso cotidiano.

REFERÊNCIAS:

ABRIC, J. C. O estudo experimental das representações sociais. In D. Jodelet (Ed.), As representações sociais (pp. 155-171). Rio de Janeiro: UERJ, 2001.
FRANCO, M. L. P. B. Representações sociais, ideologia e desenvolvimento da consciência. Caderno Pesquisa, SP, vol 34, nº 121, Abril, 2004.
JODELET, Denise. As Representações Sociais. Rio de Janeiro: UERJ, 2001.
LAPLANTINE, F.; TRINDADE, L. O que é Imaginário. SP: Brasiliense, 1997.
LEVI-STRAUSS. Antropologia Estrutural. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1967.
QUEIROZ, M.S.; and PUNTEL, M.A. A endemia hânsenica: uma perspectiva multidisciplinar [on-line]. RJ: Ed. FIOCRUZ, 1997.
SPINK, M.J.P. O Conceito de representação social na abordagem psicossocial. Caderno Saúde Pública, RJ, vol. 9, nº 3, set.,

Banner
Por Gilvan Gomes

BENZEDEIRAS, BENZEDEIROS: IMAGINÁRIO E REPRESENTAÇÃO (1)

 

Fonte: www.imirante.com

(1) Pe. Gilvan Gomes das Neves

No nosso catolicismo popular há um personagem de vital importância para as comunidades mais remotas, distante dos grandes centros: as benzedeiras e benzedeiros (2). Em Anadia, cresci sendo levado para se curar de mau-olhado (3) , espinhela caída (4) e outros males. Lembro-me de minha avó paterna, Ana Maria das Neves, tia rezadeira das boas, Tia Luze, como ainda D. Zezé do Paulo Lafungaça, Mestre Lula, o carroceiro, dentre tantos outros.

O ato da benção popular faz parte da vida cotidiana do povo. A benzedeira cura com benzeção. Este gesto de solidariedade popular é vivido em ambiente popular é vivido no ambiente familiar. As orações da benzeção pertencem à tradição oral, e não aprendidas nos livros; fazem parte de todo um complexo de tradições da cultura popular, especificamente em sua dimensão sagrada; o rezador usa objetos como: cruz, rosário, cinco-salomão, raminhos, agulha e pano.

Curam-se crianças, adultos e animais, à exceção de porcos e burros. Durante a cura não é permitido ao doente cruzar os braços ou as pernas. A benzeção tradicional passa por dificuldades devido a mudanças na estrutura familiar, na qual a benzeção é transmitida e exercida.

O objetivo deste trabalho de pesquisa é analisar a partir da figura dos nossos benzedeiros(as), os conceitos de imaginário e representação. Tendo como o foco da referida investigação é considerar as práticas religiosas de benzeção sob o olhar de uma cultura do imaginário e da representação social de cura.

SOBRE OS CONEITOS DE IMAGINÁRIO:

A expressão “imaginário” é uma variação que é recentemente utilizada no meio científico. Para Wunenburger (2007, p. 7) compreende “lembrança, fantasia, sonho, devaneio, crença, romance, mito e ficção. Acreditamos que a ocorrência da palavra ter conseguido essa grande expressão mundial foi devida a insatisfação que se tinha com o termo “imaginação” ser limitado, não conseguir abarcar algumas realidades dentro do campo teórico.

Segundo Wunenburg (2007, p8) o termo possui cinco vertentes, sendo a primeira, a ideia de mentalidade, servindo à designação histórica de algo. Na mitologia tem relação com o conjunto de relatos culturais. Imaginário tem ainda relação com ideologia (5) enquanto concepção marxista que identifica na realidade uma intencionalidade não positiva a qual impera sobre os indivíduos. Por fim, imaginário é uma realidade ficcional e ao mesmo tempo temática que destaca matéria e forma das obras artísticas e literárias.

Nesse contexto, pode-se refletir o pensamento de Silva (2011, p. 25):

O imaginário funciona, sobretudo como fecundador e organizador da vida dos homens, como instância de mediação na relação do homem consigo mesmo, com o outro, com o mundo. Atua igualmente como uma rede ou sistema de relações, ou seja, um sistema dinâmico e organizador de imagens, no qual há plena integração e livre circulação entre a vida racional e a via imaginária.

Quer dizer, dormindo ou acordados os homens utilizam seu pensamento para pensar, ou seja, imaginar lógicas para o real, situar e orientar sua vida. Isso porque a maneira como vemos a realidade é uma forma representativa, ou seja, de atribuição de valor e expectativas sobre o real.

Ainda, para Wunenburger (2007, p. 10), o termo pode ser analisado a partir de seus contrários que são o real e o simbólico . A realidade não é conhecida ou dita, ela é imaginada, ou substituída por símbolos criados específicamente para que o homem se localize no Cosmo.

Consoante com Silva (2011, p. 55):

Imaginação corresponde a Imaginário, sendo ambos os termos sinônimos. A primeira é faculdade de formar imagens fornecidas pela percepção, faculdade essa que pode libertar-nos da sedução das imagens primeiras, transformando-as em nosso psiquismo, visto manter-se sempre aberta, evasiva, experiência mesma da abertura, da novidade, soma de nossas experiências.

Feita essa distinção, busca-se situar melhor o conceito de imaginário. Para Wunenburger (2007, p. 12) o imaginário é uma noção holística ou da totalidade representada que necessita ganhar uma certa visibilidade. O imaginário compreende, temas, motivos, intrigas, cenários, tempo, espaço, personagem e ação.

No próximo artigo iremos articular o simbolismo com o imaginário para situarmos melhor o fenômeno das nossas benzedeiras e benzedeiros.

1-Mestre e Doutor em Ciências da Religião pela UNICAP. E-mail: Gilvan.neves@uol.com.br

2-O mesmo que rezador. O benzedor tem que saber as orações, fé, dom de Deus e confiança na comunidade no benzedor.

3-Também chamado olhado, olho ruim, olho gordo e olho mau. Força negativa que enfraquece a pessoa e faz adoecer de quebranto (POEL, 2013, 622).

4-Para alguns, o mesmo que peito aberto (PE). Espinhela é conceito usado na medicina antiga. “No Brasil o conceito da espinhela caída existia entre os ameríndios antes da invasão civilizadora” (SÃO PAULO, 1936, p. 358).

5- A ideologia, contudo, guarda sempre um viés bastante racional. Não há quase lugar para o não-racional no olhar ideológico. No fundo do ideológico há sempre uma interpretação, uma explicação, uma elucidação, uma tentativa de argumentação capaz de explicitar. Há algo, racional, que derivará da aplicação da noção de ideologia (MAFFESOLI, 2011, s.p).

REFERÊNCIAS:

MAFFESOLI, Michel. O imaginário é uma realidade. Revista FAMECOS, Porto Alegre, nº 15, agosto, 2015.
SILVA, Luzia Batista de Oliveira. Cecília Meireles imaginário, poesia e educação. São Paulo: Terceira Margem, 2011.
VAN DER POEL, Francisco. Dicionário da Religiosidade popular. Curitiba: Nossa Cultura, 2013.
WUNENBURGER, Jean-Jacques. O imaginário. São Paulo: Loyola, 2007.

Banner
Por Gilvan Gomes

O JUMENTO, NOSSO IRMÃO

 

 

 

Pe. Gilvan Gomes das Neves é Mestre e Doutor em Ciências da Religião pela UNICAP. E-mail: Gilvan.neves@uol.com.br

“É verdade, meu senhor / essa história do Sertão /
Padre Vieira falou:/ o jumento é nosso irmão” (Apologia ao Jumento – Luiz Gonzaga)

Na minha infância longínqua, de menino do interior, sempre guardei as lembranças das nossas reinações e havia um animal que pela sua peculiaridade, docilidade, capacidade de adaptação e seu urro nas horas mais certas: sobretudo a do almoço, quando ele marcava esse tempo; esse animal, era, portanto, o jumento. Uma vez quando tive coqueluche o remédio indicado era o leite da jumenta preta. Onde encontrar? Foi no quintal do Sr. Pedrinho do “Fomento” que conseguimos esse miraculoso remédio e curiosamente fiquei curado.

Hoje, o abandono e abate põem jumentos sob risco de extinção no Nordeste. O jumento, animal-símbolo do Nordeste, chamado de “nosso irmão” em música de Luiz Gonzaga dos anos 1960, está em risco de extinção. Ele perdeu espaço para motos nas propriedades rurais do semiárido e, desvalorizado, virou até alvo da cobiça dos chineses.

Chamado também de jegue, asno, jerico, e, às vezes, chorão ou babau², sempre foi muito usado para transporte de carga. Do cruzamento com jumento com égua nasce o burro. O jumento urra ao meio-dia dando sinal para o almoço.

No dia 03 de julho, em Orocó-PE, há uma tradicional corrida de jegues. O poeta e xilógrafo Jota Borges escreveu: “O macaco é bicho esperto, / o jumento trabalhador,/ o macaco é mais alegre,/ o jumento mais sofredor,/o jumento sofre calado, / o macaco é chiador³. “O jumento tem as orelhas compridas porque não aprendeu seu nome e levou um puxão de orelha de Jesus Nosso Senhor”4.

Como me referi acima, animal em franca extinção. Diz o poeta Cearense Nicodemos Araújo

Eu sinto o coração penalizado / ao ver de estrada o mísero jumento / sob o seu fardo incômodo e pesado / ao rigor do mais duro tratamento./ E penso, às vezes, que a felicidade/ de haveres conduzido o Rei Divino,/ deu-te a força, esta serenidade / com que suportas teu cruel destino .

No interior do Nordeste, em inúmeras paróquias, um jumento carrega Jesus na encenação da sua chegada triunfal a Jerusalém, na procissão do Domingo de Ramos (Jo 12, 14-15). Esta entrada triunfal de Jesus já era encenada na Europa, no século X.

O grande cantor, compositor e tocador de sanfona, Luiz Gonzaga compôs a “Apologia ao Jumento”:

O jumento sempre foi o maior desenvolvimentista do sertão: ajudou o Brasil a se desenvolver; arrastou lenha, madeira, pedra, cal, cimento, tijolo, telha; fez açude, estrada de rodagem e carregou água pra casa do homem; fez a feira e serviu de montaria (…) o jumento é nosso irmão (…) Animal sagrado: serviu de transporte para Nosso Senhor quando era pirritotinho( sic) . Todo jumento tem uma cruz nas costas, foi onde o menino Jesus fez pipi (…) (GONZAGA, 1968).

O padre Antônio Vieira (1919-2003), a quem Luiz Gonzaga se refere na Apologia ao Jumento, era de Várzea Alegre-CE, região do Cariri. Ele publicou “O Jumento é nosso Irmão” 6, reunindo textos populares e eruditos, religiosos e profanos sobre o jumento e pronunciando-se contra a sua extinção no Nordeste. Para o mesmo fim, fundou o “Clube Mundial dos Jumentos”, em 27 de fevereiro de 1996, tendo como finalidade preservar e proteger a espécie considerando para tanto dois aspectos fundamentais: a) a matança indiscriminada desse valioso aliado do homem do campo; b) o descaso das autoridades no tocante aos implementos de repressão. Fato curioso é que essa associação teve alcance fora do Brasil, notadamente na França, inclusive o apoio da atriz Briggite Bardot, que carrega no seu sobrenome o nome do nosso animal, pois Bardô (significa “jumento”, em francês), a mesma não só se regozijou com o novo parentesco, como ainda militou pela causa usando o seu prestígio.

Notas:

1- Personagem da farsa popular bumba-meu-boi (Dicionário Online de Português).

2- BORGES, José Francisco. No tempo que os bichos falavam. Olinda: Casa das Crianças de Olinda/Instituto Nacional do Folclore, 1983, p.3.

3- CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. 3ª edição. Brasília: Instituto Nacional do Livro, 1972, p. 64.

4- ARAÚJO, Vicente Freitas. O carpinteiro das Letras – perfil bibliográfico de Nicodemos Araújo. Joinvile: Clube dos autores, 2018.

5-  VIEIRA, Antônio. O Jumento, nosso irmão. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1964, 308 p.

Referências:

ARAÚJO, Vicente Freitas. O carpinteiro das Letras – perfil bibliográfico de Nicodemos Araújo. Joinvile: Clube dos autores, 2018.
BORGES, José Francisco. No tempo que os bichos falavam. Olinda: Casa das Crianças de Olinda/Instituto Nacional do Folclore, 1983, p.3.
CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. 3ª edição. Brasília: Instituto Nacional do Livro, 1972, p. 64.
VIEIRA, Antônio. O Jumento, nosso irmão. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1964.

Banner
Por Gilvan Gomes

 

São Pedro Fonte: www.google.com

 

 

Pe. Gilvan Gomes das Neves (*)

*Mestre e Doutor em Ciências da Religião pela UNICAP. E-mail: Gilvan.neves@uol.com.br

São Pedro (século I), do grego “Petros”, rocha e em aramaico “Kefas”. Sua festa é celebrada no dia 29 de junho. Na sua iconografia aparece vestindo túnica com ornamentos pontificais. Seus atributos são um livro ou rolo de pergaminho, e as chaves, que podem ser três em alusão à Santíssima Trindade. Frequentemente, reconhecemos nos dentes das chaves a letra P, indicando o nome do santo redes, peixes ou uma barca. Manoel da Costa Athaíde (2) pintou São Pedro na companhia de um galo.

Pescador, natural de Betsaida, inicialmente chamado Simão, era filho de João. Apóstolo e mártir; foi o primeiro papa. Dele, Jesus disse: “…sobre esta pedra construirei a minha Igreja”(Mt 16,18; cf. At 15,6-17). Antes de o galo cantar, Pedro negou Jesus três vezes (Mt 26, 74-75), mas tornou-se chaveiro do céu. Liderou os apóstolos no dia de Pentecostes. Do Novo Testamento, constam duas catas de São Pedro.

Segundo a tradição, foi crucificado de cabeça para baixo –Nero era o Imperador (64-67) na colina Vaticana, fora da antiga cidade de Roma. Escavações recentes parecem confirmar que Pedro está enterrado sob a Basílica de São Pedro, no estado do Vaticano, em Roma.

Vale ressaltar que a antiga e grande devoção a São Pedro é própria da Igreja de Roma, que o contém como fundador e padroeiro. Assim como, as grandes Igrejas Ortodoxas foram fundadas por apóstolos aos quais os fiéis cultivam a sua devoção.

Na Religião do povo, São Pedro é invocado como aquele que manda a chuvacair do céu. Além de chaveiro do céu, São Pedro é advogado das almas que estão às portas da eternidade. Veio através dos colonizadores o seguinte canto, ainda cantado em Portugal: “São Pedro é homem velho / homem de muito juízo / Por isso o Senhor o fez / chaveiro do paraíso” (PIRES, 1902, p. 121).

Nas histórias de quando Deus andou no mundo (3) , Jesus andava frequentemente com São Pedro, que tinha muito o que aprender. Em algumas dessas histórias, São Pedro é confundido com Pedro Malsartes (4) . Mesmo sendo futuro chefe da Igreja, foi apontado por Jesus como Satanás (Mt 16,23). “Quando Deus andou no mundo disse a São Pedro assim:/ Quem não quer pobre na porta,/ Também não quereis a mim”(versos populares, recolhidos no interior de Alagoas).

Na tradição a devoção a São Pedro existe uma ligação do referido Santo, como o “Senhor do Galo”. O animal simboliza nas culturas antigas a fecundidade e vigilância. Cristo, São Pedro e o Galo aparecem 120 vezes em sarcófagos do século IV. O Galo de então simbolizava a luz da aurora, a luta e a vitória de Cristo Ressuscitado; vitória da qual participava São Pedro Mártir (em Roma) e não tanto as três vezes que o mesmo Pedro negou a seu Mestre .

Segundo a tradição popular, São Pedro era viúvo. Muitos consideram São Pedro protetor de viúvos e viúvas.

Por fim, a festa de São Pedro encerra o ciclo das festas juninas, que não se deve apenas a popularidade do santo chaveiro do céu, mas principalmente ao fim das colheitas nesse período.

Por isso: “Dia 29 de junho, / É dia de São Pedro, Salve, Salve, São Pedro / pescador da Galiléia,/ salve, salve, São Pedro (…),/o porteiro do céu./ Viva, Viva, São Pedro! (BENJOR, Jorge. Viva São Pedro).

Notas:

 

[1]Manuel da Costa Ataíde,[1] mais conhecido como Mestre Ataíde, (Mariana, batizado em 18 de outubro de 1762 – Mariana2 de fevereiro de 1830) foi um professorpintor e decorador brasileiro.

[2]Manuel da Costa Ataíde,[1] mais conhecido como Mestre Ataíde, (Mariana, batizado em 18 de outubro de 1762 – Mariana2 de fevereiro de 1830) foi um professorpintor e decorador brasileiro.

[3] Contos populares, onde Jesus aparece disfarçado de velhinho ou de peregrino. Essas histórias vieram de Portugal e outras são brasileiras. O povo atribui a Jesus uma sabedoria e esperteza extraordinárias. Ele conhece os corações dos homens e sabem que as aparências enganam. Ele ensina a não julgar. A São Pedro Ele faz entender a vontade de Deus, a hospitalidade, o sentido da pobreza, do trabalho e do sofrimento.

[4] O nome já diz tudo: Pedro: “o das más-artes”, isto é, das estripulias, da astúcia, das peças bem pregadas. Figura do pobre que procura reverter sua situação pela astúcia e inteligência.  Procedente da Idade Média, Malasartes, chegou ao Brasil, via Portugal, desembarcando de uma longa tradição ibérica.

REFERÊNCIAS:
VAN DER POEL, Francisco. Dicionário da Religiosidade popular. Curitiba: Nossa Cultura, 213, p. 458.

Por Gilvan Gomes

DOS ARRAIÁS AOS SANTOS JUNINOS (2)

 

Dando continuidade a apresentação dos santos celebrados no mês de junho, iremos trazer aquele que dá nome as nossas festas, chamadas juninas ou joaninas: São João Batista, porque “todo mês de junho, há uma data em que o dia e a noite têm a maior diferença de duração – o solstício. No Hemisfério Norte, é o mais longo dia de todo o ano” NEVES, G. G., 2020). Sendo que São João Batista, em particular, é o que se celebra mais perto do solstício, portanto é um dos mais celebrados com fogueira, fogos, danças, dando nome as festas que se realizam durante o mês de junho.

2. SÃO JOÃO BATISTA:

“Ai, São João do carneirinho / você é tão bonzinho..” (Luiz Gonzaga).

São João

Dando continuidade a apresentação dos santos celebrados no mês de junho, iremos trazer aquele que dá nome as nossas festas, chamadas juninas ou joaninas: São João Batista, porque “todo mês de junho, há uma data em que o dia e a noite têm a maior diferença de duração – o solstício. No Hemisfério Norte, é o mais longo dia de todo o ano” NEVES, G. G., 2020). Sendo que São João Batista, em particular, é o que se celebra mais perto do solstício, portanto é um dos mais celebrados com fogueira, fogos, danças, dando nome as festas que se realizam durante o mês de junho.

2. SÃO JOÃO BATISTA:

“Ai, São João do carneirinho / você é tão bonzinho..” (Luiz Gonzaga).

São João Batista é comumente representado às margens do Rio Jordão, batizando Jesus Cristo, em pé, dentro da água e os braços cruzados sobre o peito, no alto, o Espírito Santo no simbolismo de uma pomba. Seu título latino “Prodomus” significa precursor. Pois anunciou a vinda do messias. Na festa de São João, as bandeiras e estampas mostram São João Batista criança e com um cordeiro, junto as palavras Ecce Agnus Dei (latim): Eis o Cordeiro de Deus! (Jo 1,29), dia 24 de junho é a festa do seu nascimento, a comemoração do seu martírio é no dia 29 de agosto e não é tão popular.

Eremita, profeta, asceta e mártir, foi um homem tão extraordinário que o próprio Jesus disse: “Entre os nascidos de mulher, nenhum aparecerá maior do que Ele” (Mt 11,2). Profeta, filho do sacerdote Zacarias e Isabel, à beira do rio Jordão ele pregava que o Reino de Deus estava perto. Foi preso por Herodes Antipas a quem repreendera por se ter casado com a cunhada, Herodíades. Encantado com a dança da filha de Herodíades, o rei Herodes atendeu ao pedido da mãe feito pela filha: a cabeça de João numa bandeja. João é primo de Jesus.

Desde o século IV, a religião do povo lhe consagra cantos, danças e fogueiras. No Brasil todo, a festa de São João, sobretudo a realizada na área rural, é feita com devoção e alegria. Para muitos é dia santo. Na cidade, é comida e divertimento só. Quando criança, em Anadia, vi muita gente se pulando a fogueira para se tornarem compadres e comadres de São João! Bastava dizer: São Antônio disse, São João assinou: que nós fôssemos compadres (comadres) que São Pedro mandou! Este juramento é feito com seriedade enquanto pulam a fogueira por três vezes.

Mas afinal, por que a fogueira? Contam que no dia em que São João nasceu, sua mãe Santa Isabel acendeu uma grande fogueira para comunicar o nascimento a Maria, sua prima.

Em muitos estados é dançada a quadrilha com uma irreverente encenação do casamento na roça. Sendo a festa popularíssima em Caruaru (PE) e em Campina Grande (PB), nas referidas cidades a festa dura o mês inteiro e para lá acorrem milhões de pessoas durante as festividades.

Segundo a tradição popular, no dia de sua festa, São João está dormindo no céu. O povo acredita que Deus não quer que Ele venha à terra. Muitos que, se São João descesse, ele poria fogo no mundo. Ainda não encontramos nos Evangelhos argumentos que expliquem o sono e o fogo de São João. As palavras do santo referem a Jesus e ao fogo: Mt 3,10-12; Lc 12, 29-30.

Na véspera da festa, são tiradas as sortes de São João. Trata-se de adivinhação para saber se o ano vai ser bom de chuva. Para ver que sorte terão as moças são feitas experiências com clara de ovo, agulhas virgens, enterram a faca na bananeira. Antes e depois da adivinhação deve-se rezar um Pai-nosso, oferecido ao Santo. Para saber se estarão vivos na próxima festa olham no espelho da água do rio ou de uma bacia. A música “Leva eu saudade”, de Tito Guimarães Neto e Alventino Cavalcanti diz: “Na noite de São João, no terreiro, uma bacia / que é pra ver se para o ano meu amor ainda me via./ Leva eu, minha saudade”.
Viva São João!!!

 

 

Por Geraldo de Majella

Dos Arraiás aos Santos Juninos -1

Santo Antonio. Fonte: www,nossasagradafamilia.com.br

 

No mês de junho de 2020 escrevi um artigo neste blog sobre as origens das nossas festas juninas: suas raízes pagãs e sua cristianização e seu deslocamento para a nossa terra e como o nosso povo as celebram: na alegria das danças, no calor das fogueiras, no brilho dos fogos de artificio e na nossa fé herdada pelos nossos colonizadores.

Nesse mesmo mês iremos apresentar os três santos que festejamos no decorrer do mês de junho.

1. SANTO ANTÔNIO:

“Que seria de mim, meu Deus sem a fé em Antônio” (J. Veloso).

O culto a Santo Antônio de Lisboa implantou-se no Brasil com a vinda dos primeiros portugueses. Um sermão de Padre Antônio Vieira no Maranhão em 1656, já considerava Santo Antônio, “o primeiro valido de Deus”, descrevendo-o com as mãos cheias de “memórias” ou pedidos que eram logo atendidos: “Se vos adoece o filho, Santo Antônio; se vos foge o escravo, Santo Antônio; se requereis o despacho, Santo Antônio; se perdeis a menos miudeza de vossa casa, Santo Antônio” (1).

Fernando de Bulhões e Taveira nasceu em Lisboa no dia 15 de agosto de 1195 e faleceu em Pádua na Itália, no dia 13 de junho de 1231. Entre as inúmeras representações do santo, geralmente, ele aparece com o menino Jesus no colo e vestindo o hábito franciscano, ele abençoa com a mão esquerda e traz, na direita, a Bíblia e um lírio. Também é muito representado com o Menino Jesus, sentado ou em pé sobre a Bíblia sagrada, que o santo milagreiro tanto estudou em sua vida para se tornar o grande pregador em que sua ordem tanto necessitava, à época em que foi fundada.

O seu rosto, nas imagens, é geralmente o de um moço imberbe. Mostra na cabeça a coroa ou tonsura, o corte de cabelo dos clérigos e monges.

Dos seus 36 anos de vida, 25 anos, ele viveu em Portugal, e 11 na Itália e na França. Apenas 11 meses após a sua morte, foi declarado santo pelo Papa Gregório IX.

Aos 15 anos, ingressa na Ordem dos Cônegos Regulares de Santo Agostinho e, aos 25 anos, ordena-se sacerdote em Coimbra. Fascinado pela coragem dos primeiros mártires dos franciscanos no Marrocos, ingressa na Ordem Franciscana Menor, em 1220, no Convento dos Franciscanos em Coimbra, onde recebe o nome de Antônio em homenagem ao eremita do Egito, Santo Antão, que viveu entre o século III e o século IV da era cristã.

Em 1221, partiu para o norte de África, mas, ficou doente e quando regressava a Portugal, uma tempestade desviou o navio para a Itália, onde acabou ficando e foi professor de Teologia para os frades franciscanos.
Tornou-se popular como pregador aguerrido, merecendo os títulos de “trombeta do Evangelho” e “martelo dos heréticos”. De acordo com o franciscano José Clemente Müller,

Seu público era o mais variado possível, abrangendo todas as classes sociais, desde o sumo pontífice com seu sacro colégio, passando pelos governantes e magistrados até ao rústico camponês. O santo da devoção popular era um tipo prático. Mais do que um pensador dogmático, era um mestre intuitivo (MÜLLER, 1995, p.22).

Em Rimini, fez um burro ajoelhar-se diante do Santíssimo e convenceu o chefe o chefe dos Valdenses, Bonvillo, a submeter-se a Roma. Na mesma localidade, com seu famoso sermão aos peixes, surpreendeu o povo. Morreu aos 36 anos no convento de Arcela, perto de Pádua, era 13 de junho de 1231. No dia do seu enterro – uma terça-feira, 17 de junho – aconteceram vários milagres. Os portugueses o chamam de Santo Antônio de Lisboa (onde nasceu) e os italianos preferem chama-lo de Santo Antônio de Pádua (onde morreu).

Em sua vida de teólogo e pregador, aparentemente não há motivo que explique sua popularidade de santo casamenteiro, sobretudo no mundo urbano. Mas, em várias festas e danças rituais da religião do povo, a sexualidade é celebrada comunitária e religiosamente.

Haroldo Lobo e Milton de Oliveira compuseram o xote-baião:

“Santo Antônio exagerou: em matéria de amor / eu nunca brigo / Pedi um casamento / Santo Antônio arranjou cinco.// Tenho a Luísa, tenho a Elisa / e também a Leonor / Tenho a Luzia, tenho a Maria,// Santo Antônio exagerou”(Festa Junina, 1984).

Os devotos fazem trezena porque ele morreu no dia 13. Desde 1617, existe suas devoções às terças-feiras. Santo Antônio é invocado para encontrar objetos perdidos. No Responso de Santo Antônio, hino escrito pelo italiano frei Julião de Espira (+ 1250), logo depois da morte do Santo (+1231): “Quem milagres quer achar / contra os males e o demônio, / busque logo a Santo Antônio,/ que aí os há de encontrar.// (…) tira os presos da prisão, ao doente torna são/ e o perdido faz achar” (GOFFINÉ, 1900, p. 802).

Na cidade de Igaraçu (PE), Santo Anto Antônio e vereador desde 23 de novembro de 1754, com a autorização do rei Dom José I. Nas sessões das terças e das quintas-feiras, um funcionário acende uma vela junto à imagem do santo. Recebeu o título de vereador perpétuo, ganhando 27 mil réis. Até hoje, o salário é entregue ao convento do Santo para a manutenção de uma creche e distribuição de pães para os pobres. Desde 1890, existe o pão de Santo Antônio.

É por toda essa grandeza que esse santo é dos mais populares no Brasil e faço coro com Maria Bethânia:

Antônio querido / Preciso do seu carinho / Mostre-me novo caminho/ Se ando perdido/Se ando perdido / Mostre-me novo caminho / Nas tuas pegadas claras/ Trilho o meu destino / estou nos teus braços, como se fosse / Deus menino. (J. Veloso).

Gilvan Gomes das Neves é mestre e doutor em Ciências da Religião pela Unicap. E-mail: Gilvan.neves@uol.com.br

REFERÊNCIAS:

1- PRECE MILAGROSA. Jornal do Brasil, 11/07/1986. Classificados 5.

GOFFINÉ, Leonardo. Manual do Christão. Rio de Janeiro, Colégio da Imaculada Conceição, 1900, p. 802.

MÜLLER, José Clemente. Santo Antônio e as Sagradas Escrituras. In: OITAVO CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE SANTO ANTÔNIO. São Paulo, nov/1995, p. 22.

 

 

Por Gilvan Gomes

Ofício da Imaculada Conceição: Memória e Religião Popular

Entre as minhas evocações aos anos vividos em Anadia, trago na minha memória, aos sábados minha avó paterna cantando o Ofício da Imaculada Conceição e sempre realçava: “quando se começa o ofício não se pode parar, porque Nossa Senhora se ajoelha no céu”. Diante de tamanha piedade eu ficava imaginando a cena: Maria, no céu, ajoelhada…que quadro belo. Coisa da minha memória religiosa.

Etimologicamente, a palavra memória, de origem latina, deriva de menor e oris, e significa “o que lembra”, ligando-se, assim, ao passado; portanto, ao já vivido (GIRON, 2000, p. 23).

Essa memória me instigou a buscar a entender a origem, a estrutura dessa oração, que é patrimônio da Religião do Povo.

Fonte: www.google.com

Acredita-se que o popular Ofício de Nossa Senhora foi escrito em meados do século XV, atribuído a Bernardino de Busto ou a São Boaventura e aprovado pelo Papa Inocêncio XI. Aqui no Brasil, sua divulgação se deve aos missionários que atuaram no século no século XVII e sua divulgação ficou registrada em vários benditos: “Frei Altino deixou / três pés de árvore plantada / o terço à boca da noite / ofício de madrugada”1. Nas Santas missões, onde um pequeno grupo de missionários dirigidos por um padre-mestre visitava as comunidades nas cidades, nos lugarejos, nas fazendas, nos engenhos. Nos séculos XVII e XVIII, tempo áureo do cristianismo leigo e luso, a missão foi a maneira mais proveitosa que a igreja encontrou para dar assistência espiritual ao povo. Durante as mesmas se ensinavam o catecismo, os dez mandamentos e as oito bem-aventuranças. Visitavam os sete passos, rezavam a Missa, o terço cantado e Ofício de Nossa Senhora da Conceição e a Salve. Faziam procissões cantando benditos.

O Ofício de Nossa Senhora foi oração obrigatória nos quartéis do exército brasileiro no tempo do Império. Até hoje é cantado em casas e capelas, aos sábados. Muitos o conhecem de cor. Ele faz parte da vida do povo; é rezado em diversas circunstâncias, desde a hora do parto até na hora da morte.

Os nomes das partes do Ofício de Nossa Senhora da Conceição correspondem às horas do ofício divino que consta no tradicional breviário dos padres, monges, religiosas. São elas em Latim: (1) Matutinas, (horas matinas) parte longa (entre outras: nove salmos e três leituras) rezada de madrugada ou à meia-noite. (2) Prima (hora primeira) às 6h da manhã; (3) Tercia (tércia, hora terceira), às 9h; (4) Sexta (hora sexta) ao meio-dia; (5) Noa (hora nona), às 15h; (6) Vesperas (vésperas), de tardinha; (7) Completas (horas derradeiras), antes de deitar. O Ofício popular é simplíssimo; em cada hora reza-se uma invocação, um hino e uma oração conclusiva; no final de tudo, é feito o Oferecimento.

Há no Ofício da Imaculada Conceição muitas citações bíblicas do Antigo e do Novo Testamentos; Suas palavras iniciais, são: “Agora, lábios meus,/ dizei e anunciai / os grandes louvores da Virgem Mãe de Deus. // Sede em meu favor, / Virgem soberana,/ livrai-me do inimigo / com grande valor”. O hino das Vésperas curiosamente reza: “Deus vos salve relógio, / que andando atrasado / serviu de sinal /ao Verbo Encarnado”. O texto fala do relógio de Acaz (Is, 38,8ss; 2Rs 20, 1-12). Ezequias pediu um sinal de sua cura ao profeta Isaías. E a sombra do relógio voltou dez graus. Assim como aquele relógio foi o sinal da salvação de Ezequias, assim, Maria é o sinal da nossa salvação, pois nos trouxe o Cristo.

Para concluir quero ressaltar a importância do Ofício da Imaculada Conceição no devocionário popular, pois praticamente todos os tradicionais livros de oração e meditação, cartilhas e catecismos, manuais de irmandades e coleções de cânticos, incluem “O Ofício”. A versão do texto decorado pelo povo já se encontra no Manual Corte Celeste (1751) e no manual de Oração cujo título completo é: “Sanctos Exercícios que são para a Novena Geral de Maria Santíssima, Nossa Senhora” (…),

Divino ofício de sua Imaculada Conceição, modo de rezar o ofício divino, forma de Novena de Natal, (…) e várias devoções e orações para todo fiel christão. Offerecido à puríssima Conceição da Virgem Maria nossa Senhora dado à luz por Francisco Ferreira Machado, Lisboa, 1774.

1- VAN DER POEL, Francisco. Dicionário de Religiosidade Popular, p. 728.

Referências:

GIRON, Loraine Slomp. Da memória nasce a História. IN: LENSKIJ, T. & HELFER, N.E. (Org.) A memória e o ensino de História. Santa Cruz do Sul: Edunisc; São Leopoldo: ANPUH/RS, 2000.

VAN DER POEL, Francisco. Dicionário de Religiosidade Popular. Curitiba: Ed. Nossa Cultura, 2013.

 

Por Redação

Mês de Maio: Da deusa Maia¹ ao mês de Maria

O mês de maio, também chamado mês de Maria e mês das noivas. Dedicado a Santa Mãe de Deus, Maria. A sua devoção surgiu no século XIII, na Europa, onde maio é o mês das flores, um dos meses da primavera. No Brasil, a devoção do mês de maio iniciou-se no século XIX, com a romanização (2) da Igreja e, principalmente pela ação dos religiosos lazaristas franceses. Nos hinários tradicionais encontramos cantos como: “Eis o mês de alegria, mês da mãe do Senhor; Neste mês de alegria, tão lindo mês de flores; Neste mês tão santo de suma alegria, seja o nosso encanto a virgem Maria” (Inf.: Francisco C. Alves Dupim).

Nossa Senhora cercada de flores. Fonte: www.google.com

 

Maio é o mês das coroações de Nossa Senhora, é da mesma época, que é uma devoção marcadamente infantil e feminina. A coroação é uma cerimônia paralitúrgica (3) própria do mês de maio, realizada com crianças vestidas de anjo que homenageiam Maria, Virgem e Rainha, colocando véu, palma, rosário e coroa na sua Imagem, à frente dos fiéis reunidos na Igreja. No final, jogam flores, ou pétalas de rosas.

Lélia Vidal Gomes da Gama conta que antigamente a Igreja era muito bem ornamentada, as escadarias por onde subiam anjos e virgens eram erguidas dos lados da imagem de Nossa Senhora. Eram muitas fitas, filós, cetins, brilhos, cores e flores, A Igreja ficava repleta, no coro, os músicos acompanhavam os cânticos.

Anjos e virgens aguardavam, na sacristia o término da reza e o esperado momento de darem entrada no templo. Lá fora, a banda de música tocava os mais belos dobrados da época, anunciando aos fiéis a chegada do cortejo alado. O vigário, em geral, dava inicio aos cantos de louvor, assim que as meninas, duas a duas, galgavam a porta da Igreja (GAMA, 1984, p. 14).

 

Coroação de Nossa Senhora. Fonte: www.google.com

Existem muitas músicas específicas para a coroação (4). Na entrada pode ser cantado: “neste mês de alegria, tão lindo mês de flores,/ queremos de Maria celebrar os louvores. / Hinos harmoniosos vamos hoje cantar./ De ramos mais viçosos, ornemos seu altar”. Outro canto para ofertar os mesmos atributos é: Mãezinha do céu, eu não sei rezar, só sei dizer: eu quero e amar. Azul é teu manto e branco é teu véu. Eu te trago flores (etc.,) mãezinha do céu.

Segundo Dornas Filho, a coroação de Nossa Senhora por Dom Viçoso (1787-1875), bispo de Mariana (MG), a partir de 1840 (5). Já segundo Augusto de Lima Júnior, “as coroações de Nossa Senhora começaram depois de 1849, em Minas Gerais, por iniciativa dos padres Lazaristas e irmãs de Caridade”5.

Em Sergipe, registramos o ritual da queima das flores e outros materiais usados nas festividades. Há cantos apropriados, em Telha (SE), o povo canta: “vamos companheiras, em doce união,/queimemos as flores, na consagração.// Na consagração, em doce harmonia / queimemos as flores do mês de Maria..”(Caderno manuscrito por Maria da Paz, em Telha (SE), 1980, canto 116.

O Ofício de Nossa Senhora da Conceição (séc. XV) diz nas Completas: “Deus vos salve, Virgem, Mãe Imaculada, / rainha de clemência / de estrelas coroada. // Vós, sobre os anjos / sois purificada, / de Deus à mão direita / estás de ouro ornada” (Ap 12,1).

Notas:

1- Maius (magnus) Júpiter, pode ser derivado da deusa romana, Maia, conhecida como Bona Dea, a” Boa Deusa”, na mitologia romana, era uma deusa da fertilidade e virgindade, venerada pelas matronas romanas. Filha do deus Fauno, muitas vezes chamada de Fauna, cuja festa celebravam neste mês que chamaram de Maius.

2- Mestre e doutor pela Unicap. E-mail: Gilvan.neves@uol.com.br.

3- A Romanização na Igreja do Brasil, acontece na segunda metade do século XIX, onde da nossa origem colonial e portuguesa, bastante laicizada, começou a sofrer influência da Igreja européia, marcada pela contrarreforma surgida a partir do Concílio de Trento (1545-1563).

4- Aquilo que vai para além da liturgia. Por exemplo: uma Folia de reis, que é religiosa, mas incorpora outros elementos culturais.

5- SARMENTO, Clarice. Coroações. Montes Claros [s.n.] 1994. Coletânea de 102 cantos com pauta musical em 76pp.
6- DORNAS FILHO, João. Achegas de Etnografia e folclore. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1972, p. 166.

Referências:

GAMA, Lélia Vidal Gomes da. Devoção e nostalgia: informação histórico-litúrgica sobre o catolicismo e o culto da Virgem Maria em Minas Gerais. Belo Horizonte: Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa, 1984, p. 14.

DORNAS FILHO, João. Achegas de Etnografia e folclore. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1972, p. 166.

SARMENTO, Clarice. Coroações. Montes Claros [s.n.] 1994. Coletânea de 102 cantos com pauta musical em 76 pp.

VAN DER POEL, Francisco. Dicionário da Religiosidade Popular. Curitiba: Ed. Nossa Cultura, 2013.

 

Por Gilvan Gomes

A Mãe Terra contra-ataca a Humanidade: Leonardo Boff e a epidemia.

 

Em seu novo livro, “A Covid-19: A Mãe Terra contra-ataca a Humanidade”1, Leonardo Boff reflete sobre “como, e por qual motivo, a humanidade está sendo atacada por um vírus mortal?” Entre tantos outros questionamentos, o teólogo procura entender como o homem está lidando com toda essa situação e o grito de socorro que a Mãe Terra está tentando passar.

Na referida obra o autor pretende apresentar algumas reflexões para uma sociedade pós-Covid-19  que dá o nome de  uma civilização biocentrada: “sairemos da epidemia diferentes do que quando entramos. Ela nos obriga a pensar e mais do que pensar; ou seja, incorporar hábitos novos e estabelecer relações mais respeitosas e cuidadosas para com a natureza e também mais amigáveis para com a Casa Comum, a Terra” (p. 7).

Leonardo Boff Fonte: www.leonardoboff.org

 

Sua pretensão não é apenas comentar sobre o coronavírus, pois, no seu entender, “quase todas as análises do Covid-19 foram feitas a partir da técnica, da medicina, da vacina salvadora, do isolamento social e do uso de máscaras para nos proteger e não contaminarmos os outros. Quase nunca se falou de natureza, pois o vírus veio dela” (p. 144). O autor procura exercer um novo olhar na sua interpretação acerca da pandemia provocada pelo coronavírus. Ancorado por dois documentos universais – a Laudato Si’, do Papa Francisco (2015), e a Carta da Terra (2003)2–, defende a tese de que a Covid-19 é uma “expressão de autodefesa da Terra viva” (p. 10), ou seja, “é um contra-ataque da Terra viva contra nós por causa de séculos ininterruptos de agressão à sua vida” (p. 9). E daí justifica: “não podemos analisar o coronavírus isoladamente, como algo em si. Precisamos colocá-lo no seu devido contexto, no qual ele surgiu. Ele veio da natureza, pouca importa se de um morcego ou de outro animal. O fato é que sua origem se encontra na natureza. Sobre ela quase ninguém fala quando se multiplicam as análises dos muitos especialistas nacionais e internacionais” (p. 19).

Em nenhum momento a sua abordagem é perniciosa, as páginas desta obra são cheias de lucidez, serenidade, esperança e ajuda a cada um de nós como pessoa, como comunidade, como sociedade, na construção de um futuro crescentemente melhor: ”identificar valores, princípios, hábitos, modos de ser, de produzir, de distribuir e de consumir; numa palavra, um outro paradigma civilizacional que se adeque aos ritmos da Terra e da natureza” (p. 10).

Encoraja-nos a assumir esse tempo de crise como um “tempo de grandes sonhos e utopias, que nos movem na direção do futuro, incorporando o melhor do passado, mas fazendo a própria pegada no chão da vida” (p. 47), a sua perspectiva é um apelo à mudança: “não temos outra alternativa senão mudar. Quem acredita no messianismo salvador da ciência é um iludido: a ciência pode muito, mas não tudo” (p. 18). Ainda mais, ”na questão da intrusão do Covid-19 e assumir urgentemente um outro tipo de relação para com a natureza e a terra, contrário daquele dominante. Vale dizer, faz-se mister um novo paradigma de produzir, distribuir, consumir e conviver na mesma Casa Comum” (p. 19).

O livro está estruturado em quatro partes: 1) o coronavírus: uma arma da Terra contra nós (p. 12-55); 2) o coronavírus nos convida a rezar e a meditar (p. 57-105); 3) lições a tirar da pandemia do coronavírus (p. 107-129); 4) a disputa pelo futuro da Mãe Terra (p. 131-156).

Na primeira parte, Boff nos brinda com sete reflexões. Na primeira reflexão, define-se o coronavírus como uma arma da Terra viva, alertando-nos de que não adianta repetirmos sempre o mesmo e de forma pior, querendo curar as feridas da terra cobrindo-as com band-aids mas, carecemos de um novo paradigma na defesa contra o coronavírus para a construção de sete pilares: a) uma visão espiritual do mundo e sua correspondente ética, b) o resgate do coração, do afeto, da empatia e da compaixão, c)  a necessidade de tomar a sério o princípio de cuidado e de precaução, d) o respeito a todo ser, e) a atitude de solidariedade e de cooperação, f) a responsabilidade coletiva, g) a urgência de envidar todos os esforços na construção de uma biocivilização, centrada na vida e na Terra (p. 15-25).

A segunda reflexão destaca o processo de autodefesa da Mãe Terra. Sendo a terra um ente vivo que se auto-organiza é urgente que tenhamos consciência sobre a nossa relação com ela e sobre a responsabilidade que temos pelo nosso destino comum da Terra viva-Humanidade. Esse gesto torna-se necessário porque terra e humanidade são uma única entidade e o ser humano é a porção da Terra que sente e pensa (p. 26-30). A terceira reflexão mostra como ferimos e maltratamos a Mãe Terra (31-34). O autor destaca na quarta reflexão que o coronavírus caiu como um meteoro sobre o capitalismo e, por isso, esse é o momento de questionar as falas-mestre da ordem do capital: a acumulação ilimitada, a competição, o individualismo, a indiferença face à miséria de milhões, a redução do Estado e a exaltação do lema de que a cobiça é boa (p. 35-39).

E, na quinta reflexão, a atenção é voltada para o pós-pandemia: voltar à normalidade é retroceder, uma vez que o atual sistema põe em risco as bases da vida. Na pandemia, o projeto capitalista foi refutado e, por isso, torna-se necessário inaugurar uma civilização biocentrada cuidadosa, amiga da vida, harmoniosa, perguntando-se que tipo de Terra queremos para o futuro. A sexta reflexão, o autor nos apresenta a cooperação e a solidariedade  como contraponto à normalidade. Apresentando os fundamentos científicos para a cooperação – uma vez que tudo está interligado – e o alerta para a mudança que se faz necessária: ou mudamos ou conheceremos o destino dos dinossauros (p. 48-51). Como última reflexão dessa primeira parte é pontuado como a Mãe Terra nos fez descobrir, através da pandemia, a nossa verdadeira humanidade e, por isso, cobra para que não voltemos ao que era antes, mas, que sejamos mais humanos (p. 52-55).

Na segunda parte, o autor partilha seis reflexões e enfatiza o significado do confinamento social e da distância das aglomerações. Aos confinados, tendo em vista que o confinamento permitiu uma revisão de vida e algum exercício de meditação que o autor chama a primeira reflexão de “Meditação da Luz: o caminho da simplicidade” (p. 59-63). Na segunda reflexão é destacado como a celebração da Sexta-Feira Santa ganhou um significado especial no tempo do coronavírus: Jesus continua crucificado nos sofredores do coronavírus (p. 65-69). Por isso, a terceira reflexão apresenta a Páscoa como a promessa da ressurreição às vítimas do coronavírus: todos os que partiram vítimas do coronavírus estão vivos e ressuscitados em Deus (p. 70-77). Seguindo sua reflexão teológica, na quarta reflexão o autor elabora algumas considerações sobre o Pentecostes. O Espirito é vida, movimento e transformação, sendo, por isso, invocado por sua ação sanadora e recriadora (p. 78-82). E na quinta reflexão é aprofundada o significado do nosso corpo e como devemos cuidar dele, do corpo dos outros, dos pobres e da Terra (p. 83-92). E a última reflexão são feitas  considerações sobre o cuidado com o espírito. Cuidar do espírito é cuidar do eterno que há em nós (p. 93-105).

A terceira parte do livro compreende quatro reflexões sobre as lições aprendidas da pandemia do coronavírus. A primeira reflexão (p. 109-112): evidencia

que não podemos prolongar o passado – “deveríamos ter aprendido que somos parte da natureza, e não os seus senhores e donos. Vigora uma conexão umbilical entre ser humano e natureza. Viemos do mesmo pó cósmico como todos os demais seres e somos o elo consciente da corrente da vida” (p. 109).

Na segunda reflexão, o autor traça um mapa para resgatar a vida ameaçada. Uma comunidade de destino para toda a Humanidade, por meio dos valores e princípios da Carta da Terra, articulando a inteligência racional com a cordial (p.113-118). E como terceira reflexão salienta a importância do biorregionalismo como forma viável de concretizar a sustentabilidade (p. 119-122). Na última reflexão desta terceira parte apontam-se quais são as dez virtudes de uma ética da Mãe Terra pós-coronavírus:

a) o cuidado essencial; b) o sentimento de pertença; c) a solidariedade; d) a responsabilidade coletiva; e) a hospitalidade; f) a convivência de todos com todos; g) o respeito incondicional; h)  a justiça social e a igualdade fundamental e todos; i) a busca incansável da paz; j) o cultivo do sentido espiritual da vida (p. 123-129).

A quarta e última parte aborda  do livro são abordadas duas questões: a primeira, a transição para uma sociedade biocentrada – onde se esclarece em que sentido o coronavírus abalou gravemente o capitalismo neoliberal – e quais as alternativas políticas para o pós-coronavírus – este nos obrigará a conferir centralidade à natureza e à Terra (p. 133-138). A segunda: por onde deve começar a transição paradigmática, e quais são os pressupostos para uma transição bem-sucedida: a vulnerabilidade da condição humana exposta a ataques por enfermidades, bactérias e vírus dos ecossistemas; a imprevisibilidade dos acontecimentos naturais e históricos; a interdependência entre os seres, especialmente os seres humanos; a solidariedade como opção consciente; o cuidado essencial para com tudo o que vive e existe, especialmente para os seres humanos. Será decisivo  recriar e refazer o contrato natural e articulá-lo com o contrato social – levando em conta o biorregionalismo como ponta da discussão ecológica (p. 139-148).

Concluindo o livro (p. 149-156), o autor, salienta que:

o Brasil, não obstante suas contradições histórica e internas, tem um capital ecológico que lhe permitirá fazer um ensaio possível de transição para um outro paradigma de civilização. Por suas riquezas ecológicas, geográficas, geopolíticas e populacionais, tem todas as condições para esse ensaio de uma civilização biocentrada. Esses tempos de confinamento por causa da Covid-19, são propícios pra pensarmos num outro projeto de Brasil (p. 149).

Leonardo Boff abre o caminho para variadas reflexões sobre o tema da pós-pandemia. As reflexões compreendidas nesta obra estão sintonizadas com o que insistentemente nos pede o Papa Francisco. Em primeiro lugar, uma reflexão teológica afinada com os tempos atuais. Uma teologia que não se perca na disputa acadêmica e que não olhe para a humanidade a partir de um castelo de vidro. Em segundo lugar, porque num mundo ferido pela pandemia do coronavírus, Francisco, através da encíclica “Fratelli Tutti” (2020), faz um chamado por reformas e mudança de direção propondo um novo paradigma global, em alternativa ao individualismo, capaz de sobrepujar a cultura do descarte hoje difundida e silenciosamente crescente, como nos alertou o Papa Francisco em seu discurso na ONU3, “essa cultura hoje em vigor é um atentado contra a humanidade”.

Notas:
1- BOFF, Leonardo. Covid-19: a Mãe Terra contra-ataca a Humanidade: advertências da pandemia. Petrópolis: Vozes, 2020.
2- A Carta da Terra é uma declaração de princípios éticos fundamentais para a construção, de uma sociedade global justa, sustentável e pacífica. Busca inspirar todos os povos a um novo sentido de interdependência global e responsabilidade compartilhada, voltado para o bem-estar de toda a família humana, da grande comunidade da vida e das futuras gerações. É uma visão de esperança e um chamado à ação.
3- Discurso proferido na Abertura da 75ª Assembleia da ONU, 26/09/2020. Em: www.ecoamazonia.org.br.

Banner
Por Gilvan Gomes

Ramadã: o Islã e Islamofobia

No nono mês do calendário muçulmano, que é lunar, o Ramadã começa hoje, dia 13 de abril e tem a sua duração entre 29 e 30 dias, onde se encerra com uma festa onde se mata um cordeiro(para lembrar Abrãao que foi sacrificar o seu filho Ismael). Durante esse mês deve-se jejuar do nascer ao por do sol, além de do jejum, não se pode ter relações sexuais, não se engole a saliva (dai cospe-se muito) e não se faz uso de tabaco (fumo). Dentro desse mês, o 27º dia é celebrada a “noite do poder”, o do “decreto”: se comemora a noite em que Profeta Maomé recebeu a primeira revelação do Alcorão. Muitos muçulmanos passam esta noite a rezar, acreditando que coisas espirituais podem acontecer, sobretudo os pedidos feitos durante estas horas serão atendidos por Alá (Aquele que está escondido, o transcendente, que está sentado no trono, cria a terra e faz sua revelação ao profeta Maomé).

Foto 1. Fonte: www.google.com.br

Hoje, no mundo temos cerca de 1,8 bilhões de muçulmanos. É comum, nos dias de hoje, ouvir-se falar em árabes e islamismo, ou em muçulmanos, como se essas palavras fossem sinônimos. Na verdade, elas têm significados diferentes, embora estejam diretamente Maomé).

relacionadas entre si. É preciso, portanto, compreender melhor esse relacionamento para desfazer a confusão e entender com mais clareza alguns fatos da atualidade, como os frequentes atentados terroristas cometidos em nome da religião islâmica – apesar de os preceitos do islamismo, como o de várias outras religiões, serem essencialmente pacifistas.

Os árabes são um povo que se desenvolveu na península Arábica, uma vasta região localizada na junção dos continentes africano e asiático. Ao longo da Idade Média, porém, os árabes se expandiram e formaram um grande império. Sua cultura, que tem como principal característica a crença no islamismo, foi então assimilada por diversos outros povos.

Foto 2: fonte: www.google.com

É preciso conhecer um pouco mais o Islamismo para desfazer esse preconceito que chamo no título de Islamofobia. O Islã está fundado em cinco pilares ou cinco práticas que todo muçulmano deve seguir:

1. Sharada (testemunho de fé);
2. Salah (oração: cinco vezes durante o Ramadã);
3. Zakat (caridade: doação de 2,5% do seu lucro para os mais pobres);
4. Jejum do mês do Ramadã;
5. Haijj (peregrinação a Meca, pelo menos uma vez na vida, desde que se tenha condições para isso).

Portanto, não se prega a violência ou a guerra. Mesmo o próprio conceito de “Jihadi” não pode ser traduzido literalmente por guerra ou violência. A palavra vem do Alcorão 61:4, “Em verdade, Deus aprecia aqueles que combatem, em fileiras, por Sua causa, como se fossem uma sólida muralha. Ainda, Combatei, pela causa de Deus, aqueles que vos combatem; porém, não pratiqueis agressão, porque Deus não estima os agressores. (2:190). Daí muitos teólogos do Islamismo defendem que o termo jihadi seja interpretado de uma maneira interna, como esforço de viver a lei de Alá e seguir o Profeta Maomé.

É preciso, como nos diz o editorial do “El País” de 27 de agosto de 2017, logo após os atentados na cidade de Madri:

Evitar uma espiral de intolerância requer que todas as instituições e a sociedade civil comecem a trabalhar imediatamente. Devemos portanto dar as boas-vindas à reação das comunidades islâmicas na Espanha, que não duvidaram em se juntar à condenação dos atentados e rejeitar a instrumentalização que os jihadistas fazem de sua religião.

É claro que o islamismo está submerso em um grande conflito interno e que há forças poderosas que promovem uma versão intolerante e violenta dessa religião. Por essa razão, a luta contra o terrorismo jihadista precisa contar com um envolvimento profundo da comunidade muçulmana. Fiéis e líderes, sociais e espirituais, são cruciais na hora de prevenir e detectar os discursos de ódio e os processos de radicalização. Sem o apoio dessas comunidades, que são as primeiras interessadas no combate a este fenômeno, pouco poderá ser feito.

Gostaria de terminar essa minhas considerações com o título do artigo acima referido: “É preciso parar a Islamofobia.

 

 

Banner
Por Gilvan Gomes

CAMPANHA DA FRATERNIDADE ECUMÊNICA, FAKE-NEWS E IDEOLOGIA DE GÊNERO

No artigo que escrevi sobre a Campanha da Fraternidade Ecumênica nesse blog no dia 16 de fevereiro do corrente ano, registrei que mal a referida Campanha tinha iniciado que os ataques já estavam a aparecendo por aí e no atual momento se disseminam em forma de boicote a mesma pelas redes sociais e outdoors pelo país a fora e esses ataques nas redes são ferozes e acusam líderes religiosos de terem aderido a “pautas abortistas e anticristãs”. Com vídeos no YouTube e hashtags no Twitter e no Instagram, esses grupos tentam incentivar os cristãos a não doar nenhum dinheiro para a Campanha da Fraternidade.

(Foto 01: www.google.com.br)

E uma das razões mais alegadas por esses grupos de extrema direita (católicos e não católicos) se encontra no nº 68 do texto-base que diz:

Outro grupo social que sofre as consequências da política estruturada na violência e na criação de inimigos, é a população LGBTQI+. O já citado Atlas da Violência de 2020, mostra que o número de denúncias de violências sofridas pela população LGBTQI+ registradas no disque 100 no ano de 2018 foi de 1685 casos. Segundo dados do Grupo Gay da Bahia apresentados no Atlas da Violência 2020, no ano de 2018, 420 pessoas LGBTQI+ foram assassinadas, destas 164 eram pessoas trans. (…) O aumento no número de homicídio de pessoas LÇBTQI+, entre 2016 e 2017, foi de 127%. Estes homicídios são efeitos do discurso de ódio, do fundamentalismo religioso, de vozes contra o reconhecimento dos direitos das populações LGBTQI+ e de outros grupos perseguidos e vulneráveis (p. 33). 

Os ataques nas redes são ferozes e acusam líderes religiosos de terem aderido a “pautas abortistas e anticristãs”. Um dos nomes que tem encabeçado a campanha é o guru do governo de Jair Bolsonaro, Olavo de Carvalho e católicos como Frederico Abranches Viotti, porta-voz do Instituto Plínio Corrêa de Oliveira. Em vídeo com imagens sacras e referências à monarquia, ele acusa “setores da Igreja Católica” de estarem trabalhando contra o Brasil e pelo marxismo. “Estamos vendo, no Brasil, o cristianismo ser desvirtuado com a questão da ideologia de gênero.
Criou-se a ideia da Ideologia de gênero, onde a sua funcionalidade mascara, mistifica e demoniza o conceito de gênero e se faz urgente resgatar essa palavra e salvaguardar o seu parâmetro.
Mas, afinal, o que significa ideologia de gênero?
“Ideologia de gênero” é um conceito, ou seja, um termo que busca representar uma realidade. Para entender melhor o que termo significa nos debates sobre a questão de gênero, é interessante desmembrá-lo:
Para CHAUÍ (2006) o termo “ideologia” geralmente é confundido com ideário, significando apenas um conjunto sistemático e encadeado de ideias. No entanto, a autora desfaz essa suposição e classifica ideologia não como um ideário qualquer, e sim um de cunho mais histórico, social e político, servindo para ocultar a realidade e manter a desigualdade e a exploração.
O conceito de gênero é presente no movimento feminista desde os anos 1970 e é entendido não como sexo biológico, mas como as construções sociais baseadas nos sexos biológicos. Pode parecer confuso, mas nós explicamos melhor.

Por muito tempo pregou-se que os homens eram superiores às mulheres por características biológicas. Essas características não se referiam apenas à força física, por exemplo, mas também afirmavam que homens eram mais inteligentes e éticos. O conceito de gênero então surgiu para contestar isso.
“Gênero” não é uma palavra mais bonita para se referir ao sexo biológico, mas um termo que vê essa desigualdade na percepção das capacidades de homens e mulheres como algo socialmente construído.
Ao se falar em “questão de gênero”, por exemplo, faz-se referência às atividades culturalmente atribuídas às mulheres – como cuidar da casa e dos filhos – e aos homens – como sustentar financeiramente a família. As teorias feministas explicam que essas ideias são construídas com base nos costumes, não nas capacidades biológicas. Afinal, um homem não é fisicamente incapaz de limpar a casa e nem uma mulher é fisicamente incapaz de trabalhar como engenheira e sustentar financeiramente sua família.

Acredita-se que o termo “ideologia de gênero” apareceu pela primeira vez em 1998, em uma nota emitida pela Conferência Episcopal do Peru intitulada “Ideologia de gênero: seus perigos e alcances”. O evento nacional que reúne bispos de todo o país é uma tradição da Igreja Católica no mundo inteiro.
Desde seu surgimento, a expressão “ideologia de gênero” carrega um sentido pejorativo (negativo). Por meio dela, setores mais conservadores da sociedade protestam contra atividades que buscam falar sobre a questão de gênero e assuntos relacionados – como sexualidade – nas escolas. As pessoas que concordam com o sentido negativo empregado no termo “ideologia de gênero” geralmente temem que, ao falar sobre as questões mencionadas, a escola vá contra os valores da família.

Dentre esses valores está o medo de que o debate menospreze crenças familiares e gere intolerância religiosa, tanto por parte dos professores quanto de outros colegas. Outro medo é que a ideologia de gênero induza crianças a serem homossexuais ou transexuais. Geralmente tais grupos também discordam da teoria que aponta gênero como sendo socialmente construído e acreditam que o sexo biológico define tanto o gênero quanto a sexualidade da pessoa. Consequentemente, entende-se que a heterossexualidade é o “natural”.
A filósofa Arlene Bacarji , por exemplo, define ideologia de gênero como:

“Uma “ideologia” que atende a interesses políticos e sexuais de determinados grupos, que ensina, nas escolas, para crianças, adolescentes e adultos, que o gênero (o sexo da pessoa) é algo construído pela sociedade e pela cultura, as quais eles acusam de patriarcal, machista e preconceituosa. Ou seja, ninguém nasce homem ou mulher, mas pode escolher o que quer ser. Pois comportamentos e definições do ser homem ou mulher não são coisas dadas pela natureza e pela biologia, mas pela cultura e pela sociedade, segundo a ideologia de gênero.”

Ancorada na filósofa francesa Simone de Beauvoir , no seu livro “O Segundo Sexo” (1949), que constrói a sua obra na perspectiva do sujeito histórico, encarnado, temos um corpo; que se escreve, que se diz na palavra, sendo seres situados, históricos (políticos). Portanto: elaborar a sua história é fazer política com essa escrita, transformar o mundo. Na referida obra a pergunta é: como pode se realizar o ser humano, dentro da condição humana? Como transformar a condição de escravo para a de senhor? Conclui que o “lugar” da mulher, a condição feminina é existir para os homens e não para si; mostra que esse “segundo sexo” foi sendo construído para servir o homem e como as mulheres caíram nessa armadilha; é a função da mulher que lhe dá lugar no mundo. A liberdade é uma condenação: é o que sobra diante das determinações e a luta é ser livre: tomar posse de si.

Já para a teórica norte-americana Judite Butler , esse “tornar-se mulher” corre o risco de cair numa categoria fundamentalista. Para ela, o sexo também não é natural, se constrói a partir de uma noção, da construção de uma ideia da sexualidade (que é um sistema semiótico: discursos, mídias). Butler nega qualquer essencialismo: “prefiro usar as coisas, do que consumi-las”.

Para a referida filósofa gênero é a tecnologia do poder (como por exemplo: pegar a máquina moer carne, colocar teu corpo dentro e você sair agradável aos olhos de quem pode fazer isso). Ela interpreta o gênero a partir do sexo, uma invenção: elementos culturais construídos dentro do poder. Performativos: provocam efeitos; constatativos: está chovendo. O gênero é também um efeito: somos afetados pelo gênero que me precede; o efeito é aquilo que eu causo na vida dos outros.

No Brasil, o termo “ideologia de gênero” ficou famoso quando o Ministério da Educação (MEC) buscou incluir educação sexual, combate às discriminações e promoção da diversidade de gênero e orientações sexuais no Plano Nacional de Educação (PNE), em 2014. Os últimos dois pontos, no entanto, geraram uma grande reação por parte de grupos conservadores, que não consideravam as pautas sobre questão de gênero apropriadas ao ambiente escolar, e o projeto foi barrado. Após muitos protestos por parte da população, liderada por grupos religiosos e pelo Escola sem Partido, o PNE foi aprovado sem fazer menção a gênero e orientação sexual.

Nas Eleições de 2018 o termo voltou à tona com as diversas menções que o então candidato Jair Bolsonaro (PSL) fazia ao “kit gay”, nome pejorativo dado ao projeto “Escola sem Homofobia”. Bolsonaro e muitos de seus apoiadores constantemente afirmavam que Fernando Haddad (PT), seu adversário na corrida presidencial, havia distribuído um determinado livro sobre educação sexual a crianças de seis anos. Segundo eles, Haddad teria incluído a obra no projeto “Escola sem Homofobia” enquanto era ministro da educação, entre 2005 e 2012. Posteriormente, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decretou a afirmação como fake news, isto é, como uma informação falsa e proibiu que a campanha de Bolsonaro usasse o termo “kit gay” para atacar Haddad.

Mesmo assim, a história do “kit gay” levantou novamente a questão de gênero. O pesquisador Rogério Diniz Junqueira vê a propagação das fake news relacionadas à utilização do termo “ideologia de gênero” como uma maneira de assustar a sociedade. Elas levariam as pessoas a se alinharem com aqueles grupos que também são contra o debate da questão de gênero. Junqueira também ressalta que, mesmo que debates sobre gênero envolvam diversos assuntos, como desigualdade salarial entre homens e mulheres, os pontos lembrados ao acusar um grupo de implementar a ideologia de gênero são sempre mais polêmicos. Ao associar educação sobre questões de gênero a aborto, sexualidade e pedofilia, por exemplo, gera-se um “pânico moral”.

O pesquisador diz que esse “pânico moral possui forte potencial mobilizador e alta capacidade de atrair diferentes atores que nem precisam ser muito conservadores ou preconceituosos, mas que, diante do escândalo fabricado, ficam alarmados”. É assim que alguns grupos transformam certas iniciativas – por exemplo, que busquem ensinar a respeitar a diversidade de orientações sexuais existentes na sociedade – na negativa.

Gilvan Gomes das Neves é  Mestre e doutor em Ciências da Religião pela Unicap. E-mail: Gilvan.neves@uol.com.br
CAMPANHA FRATERNIDADE ECUMÊNICA. Texto-Base. Brasília: Edições CNBB, 2020.

ARLENE SIMONE BACARJI: Possui graduação em filosofia pela Universidade Católica Dom Bosco (1991) e Mestrado em Sociologia pela Universidade Federal do Paraná (2000) e mestrado em Teologia pela PUC/RS e doutorado em Teologia sistemático-pastoral pela PUC-Rio.

Simone de Beauvoir foi escritora, filósofa, intelectual, ativista e professora. Integrante do movimento existencialista francês, Beauvoir foi considerada uma das maiores teóricas do feminismo moderno.

Judith Butler é uma filósofa pós-estruturalista estadunidense, uma das principais teóricas contemporâneas do feminismo e teoria queer. Ela também escreve sobre filosofia política e ética.

Referências:
BACARJI, Arlene. Ideologia de gênero: o que é e qual a polêmica por trás ela?. Caxias do Sul: PolitizePublicado em 23 de novembro de 2018
BEAUVOIR, Simone de. O Segundo sexo. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2009.
CAMPANHA FRATERNIDADE ECUMÊNICA. Texto-Base. Brasília: Edições
CNBB, 2020.
CHAUÍ, Marilena. O que é Ideologia. São Paulo: Brasiliense, 2006.
FEMENIAS, Maria Luisa. A crítica de Judith Bluter a Simone de Beauvoir. In: http://periodicos.pucminas.br/index.php/SapereAude/article/view/4619.
JUNQUEIRA, Rogério Diniz. Ideologia de gênero: entenda o assunto e o que está por trás. In: Bertho, Helena, 23/10/2018.

 

 

Banner
Por Gilvan Gomes

SÃO JOSÉ: DA RELIGIÃO DO POVO A PATRIS CORDE

São José (séc. I), cuja festa é dia 19 de março e a Ele é dedicado o mês de março. Esposo da Virgem Maria, vivia em Nazaré como carpinteiro, além de ser patrono dos profissionais da madeira, o referido santo protege os viajantes e asilados. As árvores genealógicas de Mt 1 e Lc 3 mostram que Jesus é descendente e “filho de Davi” através de São José, esposo de Maria Virgem. É chamado “Patriarca São José”, seu título bíblico é o Justo.

Sabemos que a nossa herança católica deve-se principalmente pela ação de leigos portugueses. A religião da colônia foi plantada na colônia com a cruz e a espada. Foram construídas capelas, levantados cruzeiros, organizadas irmandades, santas casas de misericórdia, fundados santuários de romaria.

(Foto 01- Fonte: www.google.com)

(Foto 02: Fonte: www.google.com)São José é santo popular. Muitos homens o seu nome. É padroeiro de 171 paróquias no Brasil, além de ser nome de 60 municípios e patrono de dois estados: Amapá e Ceará.

Na religião do povo, ele é ainda mencionado como o “advogado da boa morte”: Na Botica Preciosa e Thesouro Precioso da Lapa (1754), de autor brasileiro. Em algumas Igrejas, sua morte é celebrada no “trânsito de São José”, na presença de Jesus e Maria.

No século XVIII, existiram no Brasil, várias irmandades de São José.

É costume tradicional na Igreja, dedicar todas as quartas feiras. Em Salvador (BA), a Typ. São Francisco publicou o folheto “As sete quarta-feiras consecutivas consagradas ao Patriarca São José” (s.d.) (VAN DER POEL, 2013, p.986).

Na cidade de Água Preta (PE) e Flores (PE) e em muitos outros lugares nordestinos, sua festa é celebrada com pastoril e bumba-meu-boi. No distrito de Poxim (AL), o Manuel do Rosário participa da festa.

Em 1955, o Papa Pio XII o declarou patrono dos operários.
Preces a São José são frequentes nos cantos de penitência das secas do Norte e Nordeste: “Salve, salve São José,/ que nos protege da agonia./ Nos livra da seca braba / e nossa sede alivia. / Ajuda-nos ò Pai Pai bondoso,/ neste tempo de desvalia / escuta os nossos gemidos / nos dê de novo, a alegria” (Quixadá-Ce, 1996).
Para o senso-comum nordestino, se não chover neste dia, os agricultores imaginam que a estiagem será prolongada.

A chegada do inverno (época das chuvas) no sertão é comandada pelos poderes do glorioso São José. Ele forma nevoeiros cinzentos em torno do sol, ele avisa os animais que a chuva vai chegar. Não choveu até o dia de São José, ano de seca é. São José planta milho para dar a São João (Plantado em março dá em junho) (VAN DER POEL, 2013, p. 320).

Olhando um pouco para o pensamento chamado racional muita gente se pergunta porque o sertanejo espera por chuva no Dia de São José? Um fato científico explica: o dia 19 de março coincide com o início do equinócio de outono, que influencia positivamente na incidência de chuvas. Portanto há uma explicação para a expectativa por chuva no Dia de São José, comemorado no dia, 19 de março.

O dia 19 de março marca o início do equinócio de outono, período em que os dois hemisférios terrestres estão igualmente iluminados pelo sol. O tempo de noite é igual, portanto, ao tempo do dia. A incidência direta de raios solares na linha do Equador, no entanto, acaba atraindo ventos úmidos para a região, e geralmente trazem chuvas abundantes.

No dia 08 de dezembro para celebrar 150º aniversário da proclamação de São José, como patrono da Igreja Universal pelo beato Pio IX, em 1850, o Papa Francisco publica uma carta apostólica “Patris corde” (com o coração de Pai), diz o Papa:

gostaria de deixar «a boca – como diz Jesus – falar da abundância do coração» (Mt 12, 34), para partilhar convosco algumas reflexões pessoais sobre esta figura extraordinária, tão próxima da condição humana de cada um de nós. Tal desejo foi crescendo ao longo destes meses de pandemia em que pudemos experimentar, no meio da crise que nos afeta, que «as nossas vidas são tecidas e sustentadas por pessoas comuns (habitualmente esquecidas), que não aparecem nas manchetes dos jornais e revistas, nem nas grandes passarelas do último espetáculo, mas que hoje estão, sem dúvida, a escrever os acontecimentos decisivos da nossa história: médicos, enfermeiras e enfermeiros, trabalhadores dos supermercados, pessoal da limpeza, curadores, transportadores, forças policiais, voluntários, sacerdotes, religiosas e muitos – mas muitos – outros que compreenderam que ninguém se salva sozinho. (…) Quantas pessoas dia a dia exercitam a paciência e infundem esperança, tendo a peito não semear pânico, mas corresponsabilidade! (pp 8-9)

O Santo Padre divide sua carta em sete capítulos: Um amado Pai; Pai na ternura; Pai na obediência; Pai no acolhimento; Pai com coragem criativa; Pai trabalhador e Pai na sombra.

(Foto 02: Fonte: www.google.com)

O objetivo desta carta apostólica é aumentar o amor por este grande Santo, para nos sentirmos impelidos a implorar a sua intercessão e para imitarmos as suas virtudes e o seu desvelo, nos diz o Santo Pontífice.
E assim conclui sua belíssima carta:

Estimulado com o exemplo de tantos Santos e Santas diante dos olhos, Santo Agostinho interrogava-se: «Então não poderás fazer o que estes e estas fizeram?» E, assim, chegou à conversão definitiva exclamando: «Tarde Vos amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde Vos amei!»
Só nos resta implorar, de São José, a graça das graças: a nossa conversão.
Dirijamos-lhe a nossa oração:
Salve, guardião do Redentor
e esposo da Virgem Maria!
A vós, Deus confiou o seu Filho;
em vós, Maria depositou a sua confiança;
convosco, Cristo tornou-Se homem.
Ó Bem-aventurado José, mostrai-vos pai também para nós
e guiai-nos no caminho da vida.
Alcançai-nos graça, misericórdia e coragem,
e defendei-nos de todo o mal. Amém.
Roma, em São João de Latrão, na Solenidade da Imaculada Conceição da Bem-Aventurada Virgem Maria, 8 de dezembro do ano de 2020, oitavo do meu pontificado.
Francisco.(p.31)

Referências:
FRANCISCO, Papa. Patris Corde. São Paulo: Paulus, 2020.
SEQUEIRA, Ângelo de. Botica preciosa e tesouro precioso da Lapa. Lisboa: Oficcina de Miguel Rodrigues, 1754.
VAN DER POEL, Francisco. Dicionário da Religiosidade Popular. Curitiba: Ed. Nossa Cultura, 2013.

COM CORAÇÃO DE PAI: Carta Apostólica do Papa Francisco por ocasião do 150º aniversário da declaração de São José como padroeiro universal da Igreja. São Paulo: Paulinas, 2020.
Mestre e doutor em Ciências da Religião pela Unicap. E-mail: Gilvan.neves@uol.com.br
SEQUEIRA, Ângelo de. Botica preciosa e tesouro precioso da Lapa. Lisboa: Oficcina de Miguel Rodrigues, 1754, p. 267.

 

 

 

 

 

Banner
Por Gilvan Gomes

FRATERNIDADE E DIALOGO: COMPROMISSO DE AMOR

Todos os anos, durante a Quaresma, a Igreja reforça a reflexão e prática da Campanha da Fraternidade que surgiu em 1961, quando três padres, responsáveis pela Cáritas no Brasil, idealizaram uma campanha com o objetivo de levantar fundos para assistir aos pobres. Deram a esta ideia o nome de Campanha da Fraternidade (CF), que foi realizada pela primeira vez na Quaresma de 1962, na cidade de Natal, no Rio Grande do Norte.

A ideia foi tão bem aceita que, no ano seguinte, dezesseis dioceses do Nordeste realizaram a Campanha da Fraternidade. E em 1964, foi lançada a Campanha da Fraternidade em nível nacional pela CNBB com o tema: “Igreja em Renovação”. A referida campanha nasce no contexto do Concílio Vaticano II, que iniciou um tempo de renovação na pastoral da Igreja. Por isso a Campanha da Fraternidade, que acontece sempre no período quaresmal, é um grande convite a nos convertermos para a prática da justiça social, da solidariedade, da partilha e do amor ao próximo. Para cada ano, a Igreja no Brasil escolhe um tema para ser refletido na Campanha da Fraternidade e transformado em ação concreta de solidariedade. Gestos capazes de transformar realidades de dor e sofrimento em possibilidade de esperança. Por isso, a Campanha da Fraternidade é o diálogo da Igreja com a sociedade, pois todos os cristãos devem ser sal da terra e luz do mundo.

Mas, a partir do ano 2000, atendendo aos apelos da Igreja para a promoção do diálogo com as igrejas cristãs, a CNBB quis dar uma dimensão ecumênica à Campanha da Fraternidade, por ocasião da celebração do Grande Jubileu da Encarnação, confiando ao CONIC a organização da CF de 2000, a primeira CF ecumênica, com o envolvimento de várias Igrejas no planejamento e na execução de tão importante movimento, que vem acontecendo a cada cinco anos.

O Ecumenismo deve ser entendido como nos diz NAVARRO (1995):

O ecumenismo é uma atitude da mente e do coração que nos impele a olhar nossos irmãos cristãos separados com respeito, compreensão e esperança. Com respeito, porque os reconhecemos como irmãos em Cristo e os consideramos antes amigos do que oponentes; com compreensão, porque buscamos as verdades divinas que compartilhamos, embora reconheçamos honestamente as diferenças na fé que há entre nós; com esperança, que nos fará crescer juntos num conhecimento e num amor mais perfeitos de Deus e de Cristo (p. 13).

Neste ano de 2021, a partir da quarta-feira de cinzas, inicio do tempo quaresmal, a Igreja inicia a quinta CF ecumênica cujo tema é: “Fraternidade e diálogo: compromisso de amor”, tendo como lema: “Cristo é a nossa paz: do que era dividido fez-se uma unidade” (Ef 2,14). Com seu objetivo geral:

Convida as comunidades de fé e as de boa vontade a pensarem, avaliarem e identificarem caminhos para superar as polarizações e violências através do diálogo amoroso, testemunhando a unidade na diversidade (Texto-base, p. 10).

(Cartaz da CF 2021)

(Cartaz da CF 2021)

A CF só começa no dia 17 e já causa alvoroço em grupos católicos fundamentalistas, “baratas de sacristia” que apregoam a “sã doutrina”, fazendo oposição ao Papa Francisco e a todo o Magistério católico que vem se pronunciando desde o documento conciliar “Unitatis Redintegratio” (sobre o Ecumenismo), as Conferências Episcopais da América Latina: Medellín, Puebla, Santo Domingo, Aparecida e da grande maioria da CNBB.

Como fruto do delírio coletivo acirrado por meio do bizarro contexto político em que o Brasil se encontra – além da empoeirada divisão entre conservadores e progressistas que perdura desde o final do Concílio Vaticano II (1962-1965) – já era de se esperar que haveria críticas à proposta da Campanha da Fraternidade de 2021. Afinal, ela convida à verdadeira conversão – algo que nem todo cristão, mais de nome do que de obras, é capaz de vislumbrar.

Ao pretender educar para a vida em fraternidade, a partir da justiça e do amor – que é uma exigência central do Evangelho – a proposta da Campanha da Fraternidade 2021 chocou. E qual o motivo para tanto transtorno? Simples, ela convida “comunidades de fé e pessoas de boa vontade para pensar, avaliar e identificar caminhos para a superação das polarizações e das violências que marcam o mundo atual”, conforme aponta seu texto base.

Quando fala na superação de polarizações, a proposta da CF-2021 é justamente o que causa alarde no cristão disfuncional (aquele que adora fazer escândalo e chamar quem fala de problema social ou de pobreza dentro do âmbito teológico de comunista) e isso o motiva a ataques contra o ecumenismo.
Tal comportamento leva a uma onda de outras ações, que vão da produção de fake News e de conteúdos que tentam desmerecer membros do CONIC ao descontrole argumentativo e à crítica a importantes movimentos que promovem a unidade, além de ataques desenfreados à CNBB.

Ou seja: enquanto quem espera por mudanças faz campanha visando à fraternidade, os contrários iniciaram uma contra campanha. E ela é desserviço, que revela o desejo intencional de se dividir ainda mais o povo – do que unir.
Exemplo disso é o vídeo “Saiba quem está por trás da Campanha da Fraternidade!”, divulgado pelo Centro Dom Bosco do Rio de Janeiro: uma arma de propagação de ódio e de calúnias infundadas, que do carisma salesiano nada tem. É material digno de repúdio, pois conclama à desunidade cismática.

Finalizando é preciso afirmar que não podemos confundir propostas de fraternidade com contextos políticos! Estamos em 2021! E apesar de serem realidades que fazem fronteira, vivemos uma incrível eclesiologia de construção e de partilha. Aliás, é importante separarmos bem as coisas: a fraternidade proposta pela Campanha da Fraternidade é a do Evangelho, a partir das palavras de Cristo, e não a da boca pra fora, dos revolucionários medievais conclamando às Cruzadas via internet.

 

Gilvan Gomes das Neces é Doutor e mestre em Ciências da Religião pela unicap. E-mail: Gilvan.neves@uol.com.br

CONIC (Conselho Nacional das Igrejas Cristãs) composto pela Igreja Católica Apostólica Romana, pela Aliança das Igrejas Batistas do Brasil, Igreja episcopal Anglicana do Brasil, Igreja Luterana, Igreja Presbiteriana Unida, Igreja Síria ortodoxa e a Igreja Betesda.

REFERÊNCIAS:
CONIC/CNBB. Campanha da Fraternidade Ecumênica 2021. Texto-Base. Brasília: Ed. CNBB, 2020.
NAVARRO, Juan Bosch. Para compreender o ecumenismo. São Paulo: Loyola, 1995.

 

Por Gilvan Gomes

VAMOS SONHAR JUNTOS

No início do mês de dezembro do corrente ano, a Editora Intrínseca lançou o novo livro do Papa Francisco: “Vamos sonhar juntos” (VSJ) . São reflexões que foram escritas durante a quarentena e compiladas com o auxílio jornalístico de Austen Ivereigh, um dos bons conhecedores da vida e do pensamento do papa. Revelando-nos, assim, um Francisco farejador inquieto em busca de um sentido embutido na tragédia do coronavírus.

No referido livro tem elementos de uma síntese e de um testamento em que o papa, em uma situação de crise mundial, avalia os sete anos de seu pontificado, marcados pelos três documentos programáticos sobre a evangelização (EG), a criação (LS) e a fraternidade universal da humanidade (FT). O papa adverte: O caminho de volta está fechado. Está fechada “a falsa segurança das estruturas políticas e econômicas de antes da crise. Precisamos de economias que permitam a todos o acesso aos frutos da Criação, às necessidades básicas de vida: terra, teto e trabalho (p. 139-144). Devemos reduzir a velocidade, tomar consciência e desenhar maneiras melhores de conviver neste mundo” (p. 12). Como vamos sair dessa crise e caminhar para um futuro melhor?

(Fonte: www.google.com)

O Papa Francisco estrutura o seu livro em três partes: Tempo de ver, Tempo de escolher e Tempo de agir:

1. Tempo de ver:

Francisco recomenda: para avaliar um tempo, ver um território e sentir uma situação, devemos ir às periferias. Precisamos romper com os projetos das elites que querem “restaurar a estrutura socioeconômica que tínhamos antes da pandemia” (p. 24). É previsível que esses projetos acabem em maiores filas de desempregados, talvez todos vacinados, mas sem teto, trabalho e terra. A tentativa de restaurar o mundo a partir do centro “nos leva a um beco sem saída” (p. 63). Nas periferias se encontram os novos modos de organizar a sociedade e se encontram também “os protagonistas das transformações sociais” como “atores de um novo futuro” (p. 24).

A Covid tem uma dimensão universal e uma dimensão pessoal. Ambas interrompem a rotina da nossa vida; nos fazem cair do cavalo, como Saulo. O maior fruto de uma Covid pessoal, que é uma experiência limite, diz o papa, é “a paciência, condimentada com um sadio senso de humor”, que criam um espaço para a mudança. Em seu livro, o papa conta três experiências pessoais de Covid: em 1957, com 21 anos de idade, teve a experiência da proximidade da morte em um hospital de Buenos Aires. Em 1986, na Alemanha, teve a experiência da desconexão, do deslocamento e da solidão. Entre 1990 e 1992, quando foi enviado para Córdoba, viveu uma “espécie de quarentena” em um “banco de reserva”, um reaprender a viver um despojamento e desenraizamento de funções. Ser peneirado por Satanás e, pelo encontro com Jesus, cair do cavalo, como Saulo – em cada Covid nos aguarda um aprendizado, um crescimento e uma nova tentação.

“A crise nos devolveu a compreensão de que necessitamos uns dos outros”, para nos ouvir, corrigir e animar. Através de uma irrupção da fraternidade, conseguiremos brecar a globalização da indiferença e a hiperinflação do indivíduo. Somos responsáveis uns pelos outros. Juntos e sobretudo na periferia “podemos aprender sobre o que nos faz avançar e o que nos faz retroceder” (p. 55).

2. Tempo de escolher:

Para esse segundo tempo, escreve o Papa, precisamos um conjunto de critérios e um “refúgio da tirania do urgente”, um lugar de “reflexão e silêncio”. Precisamos reaprender a rezar, ouvir o chamado do Espírito e “cultivar o diálogo, em uma comunidade que nos apoie e nos convide a sonhar” (p. 59).

Mas, diante das incertezas causadas pela pandemia da covid-19, Francisco aconselha que devemos resistir à sedução de uma mentalidade fundamentalista. “Os fundamentalismos oferecem uma atitude e um pensamento único, fechado […]. A pessoa que se refugia no fundamentalismo tem medo de sair em busca da verdade. Ela já ‘tem’ a verdade e a utiliza como defesa, interpretando qualquer questionamento como uma agressão” (p. 63).

No questionamento ao fundamentalismo, Francisco cita dois dos seus mestres intelectuais: Romano Guardini e John Henry Newman . “A sabedoria de Guardini “me permitiu enfrentar problemas complexos que não podem ser resolvidos simplesmente com normas, mas com um estilo de pensamento que permite passar pelos momentos de conflito sem ficar preso neles” (p. 64).

Com Newman, Francisco enxerga “a verdade sempre mais além de nós, […] como uma luz amável que normalmente não chega através da razão, ‘mas pela imaginação […], pelo testemunho dos fatos’” (p. 64). Francisco assumiu dos seus mestres “que não possuímos a verdade mas que a verdade nos possui e constantemente nos atrai com sua beleza e bondade” (p. 64s). A abordagem da verdade “engloba as duas coisas: um elemento de concordância e um elemento de busca contínua” (p. 64). “Não há contradição entre estar solidamente enraizado na verdade e, ao mesmo tempo”, pela ação do Espírito “aberto a uma compreensão maior” (p. 65): “A tradição não é o culto das cinzas, mas a preservação do fogo” (Gustav Mahler, p. 66). É uma visão dinâmica da realidade que facilita discernir entre suas contradições e perceber as necessidades e os caminhos de transformações.

3. Tempo de agir:

O tempo de agir, o Papa Francisco descreve com base em uma reflexão sobre a “Teologia do Povo de Deus” de sua terra de origem (p. 107-117). Essa teologia nunca foi consensual na América Latina, mas permitiu um providencial consenso no momento de sua eleição como papa. Como na parábola do “Bom Samaritano” (Lc 10,25ss), também com a vida de Francisco podemos aprender que o Espírito pode servir-se de sistemas teológicos diferentes para conduzir seus seguidores pelo caminho do Evangelho. O samaritano da parábola, que veio como o sacerdote e o levita de Jerusalém, não veio do templo. Os samaritanos eram proibidos de entrar no Templo. Mas ele cumpriu o ensinamento do Templo. Amando o próximo, socorreu aquele que caiu nas mãos dos ladrões. O Papa Francisco não veio do templo da “Teologia da Libertação”, mas conseguiu realizar o primeiro mandamento dessa teologia, a opção pelos pobres, na Teologia Argentina do Povo de Deus.

Francisco questiona: “o que significa ser ‘um povo’?”, para nos explicar o significado dessa teologia. Trata-se de “uma categoria de pensamento” e de “um conceito mítico”. “A categoria mítica do povo tem origem e se alimenta de muitas fontes: históricas, linguísticas, culturais (especialmente a música e a dança), mas sobretudo da sabedoria e da memória coletivas” (p. 107). Sua identidade é “arquetípica” e não se define por exclusões, mas “pela síntese de potencialidades” que Francisco chama de “transbordamento” (p. 113). “No início da história de cada povo está a busca pela dignidade e pela liberdade, uma trajetória de solidariedade e luta. […] Para as nações do continente americano, foi a luta pela independência” (p. 107).

Nessa terceira parte do livro, denominada “tempo de agir”, é importante lembrar o que Francisco escreveu sobre o “tempo de ver”: “Recordo a história, não para honrar os antigos opressores, mas para prestar homenagem ao testemunho e à grandeza dos oprimidos. […] O passado é sempre repleto de situações vergonhosas: basta ler a genealogia de Jesus nos Evangelhos” (p. 36).

Os mercados nos afastam das metas políticas necessárias para hoje: “regenerar o mundo natural, vivendo de forma mais sustentável e mais sóbria, ao mesmo tempo que cobrir as necessidades dos que, até agora, foram prejudicados ou excluídos desse modelo socioeconômico. Não sairemos melhor desta crise, se não aceitarmos um princípio de solidariedade entre os povos” (p. 120; 139). Não se trata de “partilhar as migalhas da mesa, mas fazer com que, à mesa, haja lugar para todos” (p. 121). O desafio de todo nosso serviço social é que “o pobre, o nu, o doente, o preso, o desalojado […] sintam-se ’em casa’ entre nós. […] Esse é o sinal de que o Reino dos Céus está entre nós” (p. 124).

No final dessa terceira parte, denominada “tempo de agir”, o papa faz uma das propostas mais ousadas para traçar um “caminho para um futuro melhor”. Para o mundo pós-pandemia será vital “reconhecer o valor do trabalho não remunerado”. Devemos “explorar conceitos como o de renda básica universal, […] um pagamento fixo incondicional a todos os cidadãos” (p. 143). “A renda básica universal poderia redefinir as relações no mercado laboral garantindo às pessoas a dignidade de rejeitar condições de trabalho que as aprisionam na pobreza. […] Com o mesmo objetivo, é bem possível que seja também hora de considerar uma redução no horário de trabalho […]. Trabalhar menos, para que mais gente tenha acesso ao mercado de trabalho, […] é um […] pensamento que precisamos explorar com certa urgência” (p. 143s).

Como epílogo, o Papa se pergunta: qual será o nosso lugar? E aponta com duas palavras para nosso aprendizado possível: “descentrar” e “transcender” e termina com o poema “Esperança” do cubano Alexis Valdés. Ler esse testamento de um grande pontificado, humano, sim, mas ao mesmo tempo profundamente evangélico por ser comprometido com os pobres, vale a pena:
“Quando a tormenta passar
E as estradas estiverem amansadas
[…] Nós nos sentiremos felizes
Simplesmente por estarmos vivos.[…]
Entendemos o frágil
Que significa estar vivos.
Sentiremos falta do velho
Que pedia uma moeda no mercado,
De quem não soubemos o nome
E sempre esteve ao nosso lado.
E talvez o velho pobre
Era teu Deus disfarçado.
Nunca perguntaste por seu nome
Porque estavas apressado.[…]
Quando a tormenta passar
Peço-lhe, Deus, envergonhado,
Que nos devolvas melhores,
Assim como nos havias sonhado!

Banner
Por Gilvan Gomes

Papai Noel, o Natal e a pandemia:

Vivemos num mundo onde a mercadoria é o objeto mais explícito do desejo de crianças e de adultos. A mercadoria tem que ter brilho e magia, senão ninguém a compra. Ela fala mais para os olhos cobiçosos do que para o coração amoroso. É dentro desta dinâmica que se inscreve a figura do Papai Noel. Ele é a elaboração comercial de São Nicolau – Santa Claus – cuja festa se celebra no dia 6 de dezembro. Era bispo, nascido no ano 281 na atual Turquia. Herdou da família importante fortuna. Na época de Natal saia vestido de bispo, todo vermelho, usava um bastão e um saco com os presentes para as crianças. Entregava-os com um bilhetinho dizendo que vinham do Menino Jesus.

Santa Claus deu origem ao atual Papai Noel, criação de um cartunista norte-americano Thomas Nast em 1886, posteriormente divulgado pela Coca-Cola já que nesta época de frio caía muito seu consumo. A imagem do bom velhinho com roupa vermelha e saco nas costas, bonachão, dando bons conselhos às crianças e entregando-lhes presentes é a figura predominante nas ruas e nas lojas em tempo de Natal. Sua pátria de nascimento teria sido a Lapônia na Finlândia, onde há muita neve, elfos, duendes e gnomos e onde as pessoas se movimentam em trenós puxados por renas.

Estamos às vésperas da festa do Natal e essa festa nos oferece a chave para decifrar alguns mistérios insondáveis de nossa atribulada existência. Os seres humano sempre se perguntaram e perguntam: por que a fragilidade de nossa existência? Por que a humilhação e o sofrimento? E Deus silenciava. Eis que no Natal nos vem uma resposta: Ele se fez frágil como nós. Ele se humilhou e sofreu como os humanos. Esta foi a resposta de Deus: não por palavras mas por um gesto de identificação. Não estamos mais sós na nossa imensa solidão. Ele está conosco. Seu nome é Jesus.

(Fonte: pensamentosdeovelha.wordpress.com/2013/12/05

A pandemia é o sino que toca e nos diz: “Meus irmãos, minhas irmãs, este mundo é velho, caducou. Ele enveredou no caminho errado, cheio de buracos, obstáculos, desvios…precisamos do mundo novo! Devemos nos despir dos hábitos do comodismo, da indiferença, da ganância, do preconceito, da autossuficiência e devemos aceitar outra vez sermos guiados por Deus e nos descortina também uma resposta derradeira ao sentido do ser humano. Somos um projeto infinito. Só um Infinito pode realizar nossa plena humanidade. Eis que o Infinito se faz humano para que o humano realizasse seu projeto Infinito. O infinito se fez ser humano para que o ser humano se fizesse Infinito.

(Fonte: www.google.com)

Gostaria de terminar essa breve reflexão com um pensamento que um dia ouvi de Dom Hélder Câmara:

“Gosto de pensar no Natal como um ato de subversão…um menino pobre, uma mãe solteira, um pai adotivo…quem assiste seu nascimento é a ralé da sociedade, os pastores. É presenteado por gente “de outras religiões (magos, astrólogos). A família tem que fugir e assim viram refugiados políticos. Depois voltam a viver na periferia. O resto a gente celebra na Páscoa…mas com a mesma subversão…sim! A revolução virá dos pobres! Só deles pode vir a salvação!”

Feliz Natal!! Feliz subversão!!!

Banner
Por Gilvan Gomes

FRANCISCO DE ASSIS, FRANCISCO DE ROMA

Aos quatro dias de outubro de 2020, no túmulo de São Francisco de Assis, na cidade homônima, o Papa Francisco assina a sua nova encíclica “Fratelli Tutti” cujo título foi tirado de um texto de São Francisco de Assis, escrito no século 13.

Na referida encíclica o Papa fala de temas como imigração, a distância entre ricos e pobres, injustiças econômicas e sociais, desequilíbrios na atenção à saúde e o aumento da polarização política em muitos países.

Acredito ser esse o texto que o mundo precisava neste momento dramático de sua história. No número seis, da referida Encíclica, o papa revela que o tema central é a “fraternidade universal”. O pontífice não pretende dizer tudo sobre o amor fraterno, mas apenas falar sobre essa abertura a todos, num tempo em que os tribalismos, partidarismos e todo tipo de fechamento sobre povos e ideologias ganham um espaço indefinido. O papa nos provoca a termos um coração aberto e fraterno. Afirma também que a Fratelli Tutti é uma encíclica social, assim como foram a Rerum Novarum de Leão XIII até a Caritas in Veritate de Bento XVI.

Fonte: Gazeta do Povo, 04/10/2020

No primeiro capítulo, Francisco descreve as sombras de um mundo fechado sobre si mesmo. É como se o papa pintasse um cenário do nosso tempo, com todas as sombras que temos hoje e, a partir daí, nos outros capítulos ele mostrasse as luzes de esperança sobre este cenário de sombras. São os nossos dramas deste século 21, onde o Papa lembra que a pandemia da Covid-19 é a última crise a provar que as forças de mercado sozinhas não produziram os benefícios sociais que seus idealizadores prometeram.

O capítulo dois, o Papa começa narrando a história do Bom Samaritano, esse anônimo do Evangelho de Lucas (Lucas 10, 25-37), que faz trazer todos para dentro da festa da Vida. Essa é a proposta do Cristianismo. Queremos chamar a Deus de Pai, como fez São Francisco, que em seu momento de conversão chamou a Deus de “Pai Nosso”.

Escreve o capítulo três na busca de pensar e gestar um mundo aberto. Precisamos estar mais próximos uns dos outros. Os povos e nações precisam estar mais próximos.
Na mesma direção, escreve o capítulo quatro, onde pede que tenhamos um coração aberto ao mundo inteiro, precisamos ter um coração aberto e solidário, aliás, desejo que permeia todas as páginas da Encíclica.

No quinto capítulo, acentua a questão política, criticando os governos populistas. E nos lembra que ser popular não é ser populista. O papa denuncia a nova onda de demagogia mundial; não é democracia é demagogia. Capítulo curto, mas, muito contundente.

O diálogo e a amizade social é tratado no capítulo sexto. Mostra-nos como criar uma cultura do encontro na prática. O Papa Francisco, que é argentino, fez referência ao poeta brasileiro, Vinícius de Moraes, ao citar: “A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro na vida”, no seu Samba da Bênção (n.215).

Já no sétimo capítulo são apresentados caminhos de reencontro a partir da verdade. O papa mostra claramente como é que podemos arquitetar a paz. Ele usa a expressão “artesanalidade”. Devemos ser “artesãos da paz”. A paz se faz como tricô; é ponto depois de ponto; nó depois de nó. Não se faz simplesmente com projetos escritos. A encíclica crítica duramente a guerra e a pena de morte, onde deve ser excluída de toda a possibilidade de legislação sensata.

O capítulo oitavo é o último e encerra as reflexões do Papa Francisco sobre a fraternidade universal. Ele afirma que as religiões estão à serviço da fraternidade no mundo e não se podem ser instrumentalizadas em favor de interesses particulares. A religião é instrumento de fraternidade e não instrumento de guerra, como alguns querem fazer crer.

A encíclica Fratelli Tutti termina com duas belíssimas orações, a primeira ao Criador e a segunda em tom mais ecumênico. O Papa Francisco acertou em cheio nesse texto sobre fraternidade inspirado em Francisco de Assis, patrono do seu pontificado, em um tempo tão dividido por discórdias e agredido por um vírus que nós não pedimos e por uma pandemia que nos incomoda em que demora para passar. O Papa Francisco lança uma luz de Esperança com sua nova encíclica Fratelli Tutti.

Gilvan Gomes das Neves  é  Doutor em Ciências da Religião pela UNICAP. E-mail: Gilvan.neves@uol.com.br

Banner
Por Gilvan Gomes

Festa da Padroeira em Anadia: lugar de identidade e memória (1)

Introdução

A cidade de Anadia está situada na região leste do Estado de Alagoas, distando 94 km de sua capital, Maceió. Com uma população estimada em 17.847 hab e com uma incidência de pobreza de 60,70% . Com um Índice de Desenvolvimento Humano (IDHM), em 2010, de 0,568 . O nome original do município era Campos do Arrozal de Inhanhuns e, em 1801, quando foi elevado à categoria de vila, passou a ser chamada de Vila Nova de São João de Anadia, em homenagem ao Visconde de Anadia, ministro português que autorizou a criação da vila. A freguesia foi instalada em 1802. Segundo um historiador anadiense:

 

 

(Fonte: www.google.com.br)

 

 

 

Porém, não se sabe ao certo quais foram os principais desbravadores. Há a hipótese do primeiro povoado ter sido precedido por famílias que migraram para a região, atraídas pelas planícies e pela boa produtividade do solo. Essa produtividade, aliás, pode ter atraído outros desbravadores que seguiram o curso do rio São Miguel, numa rota de exploradores. Conta a história que, durante o século XVII, uma imagem da Virgem da Piedade foi encontrada perto do povoado e, segundo a crença popular, fez com que o padroeiro do arraial, São João, fosse substituído por Nossa Senhora da Piedade.

Campos do Arrozal de Inhanhuns, de sua criação dedicada ao milagroso S. João Nepomuceno; perdeu o seu Padroado nos princípios do século passado pelo achado da Imagem de Nossa Senhora da Piedade sobre uma pedra na Serra Morena, deixada por falecimento de um dos fugitivos do Quilombo dos Palmares, que aí vieram estabelecer-se e criarem-se em famílias. (JOBIM, 1881, p. 48 )

A cidade de Anadia e sua breve história sociorreligiosa está inserida no universo de um catolicismo rústico, trazido pelos portugueses:

No Liberal n.° 20, de 1872, fiz publicar a lenda anadiense e a tradição histórica de N. S. da Piedade, que os velhos têm por verdadeira.

“ Uma mulher, nascida no meado do último século e falecida há 16 anos, em suas recordações infantis nos contava que alcançou, nesta vila, então nascente povoado, uma casinha coberta de palha, onde o Cura de S. Miguel vinha celebrar missa por contrato com os habitantes: e lembrava-se a boa da velinha(Será: a boa velhinha?) que sua mãe empoava-lhe de véspera os cabelos para na madrugada seguinte irem encontrar a procissão de N. S. da Piedade, cuja imagem fugia da casinha e ia ser achada junto a uma pedra na Serra da Morena (fronteira à vila), onde morrera um dos descendentes dos fugitivos dos Palmares que para ali conduzira a dita imagem.

Os grandes festejos que se faziam, dizia a velha, com tiros, caixas e zabumbas, e ao mesmo tempo o desgosto, causado pelo desaparecimento da misteriosa imagem, deram lugar a uma formal promessa de edificar-se uma igreja, mudando-se de Padroado, que era de S. João para N. S. da Piedade e, nessa igreja, adorar-se e glorificar-se a pequena imagem.

José da Fonseca Barbosa e seu irmão Antônio Barbosa, homens mais ricos desse tempo, comprometeram-se a ser os primeiros condutores em seus carros das pedras e madeiras necessárias para a edificação da Capela de N. S. da Piedade se cessar-se (Será: se cessasse?) o maravilhoso desaparecimento.

Se é supersticiosa esta nossa narração não sabemos – o que há de certo é que, na Serra da Morena, três milhas distantes desta vila, ainda existe a descendência dos antigos habitadores [sic]dos Palmares, tipos originais de sua raça: aí fora a sua primeira situação, depois de destruído o Quilombo da Serra da Barriga. De 1765 datam os primeiros serviços de edificação da nossa Matriz, e desejos da criação da freguesia em ato continuado: em 18 de novembro de 1801 foi mandada erigir em vila com a denominação de S. João de Anadia, em honra ao visconde de Anadia, ministro português, que referendou o Alvará da criação da vila e a propôs. Em 20 de dezembro do mesmo ano foi posto em execução, e inaugurada a vila aos 21 fez-se a divisão do termo separando-se de S. Miguel e Atalaia. Em 1803 fundiram-se os 2 sinos, que foram doados a [sic]Matriz e a devoção de S. João Nepomuceno, primeira invocação desapareceu.

A Imagem de N. Senhora foi substituída por outra de vulto maior. A pequenina e antiga colocada ficou ao lado do Evangelho, esquecida….

Entretanto foi ela quem despertou o povo na edificação de sua Matriz anunciando-se no diserto [sic]para ser eterna mãe dos anadienses.

Ingratidão.

Em 1846 sacrilegamente a furtaram da Matriz e achada (não queremos dizer aonde) restituída foi por D. Maria Rosa Rodrigues Leite”.

O catolicismo foi, no passado colonial brasileiro, uma religião obrigatória: os que aqui nasciam o aceitavam por pressuposto de cidadania, exceto os indígenas, aos quais se exterminava ou se convertia. Os que aqui não nasciam tinham que adotá-lo, mesmo que não o compreendessem: os negros escravizados eram batizados no porto de procedência ou de desembarque (NEGRÃO, 2008, p. 262).

Neste catolicismo rústico predominavam as festas religiosas, com suas rezas e celebrações, muitas vezes sem a presença do clero, que era escasso no Brasil do século XIX, e a sua maioria ficava nos centros urbanos, litorâneos, onde se vivia uma certa ortodoxia. Assim, o resto da colônia, os pequenos vilarejos e os bairros rurais, onde vivia dispersa uma população de baixa densidade, não contava com a presença de párocos locais.

O padre passava por eles apenas de quando em quando, às vezes apenas uma vez ao ano, para a “desobriga”: batizar os nascidos, casar os ajuntados, ouvir as confissões, rezar a missa. Essa configuração do empreendimento ao mesmo tempo. (NEGRÃO, 2008, p.263)

Também se pode dizer que “a missa da festa, que se manifesta quando o povo sente o poder da comunidade […] se relaciona à imagem […] música, movimento, cor e beleza” (HOORNAERT, 1969, p. 585).

Daí se pode afirmar que a festa religiosa em Anadia é anterior à própria criação da freguesia, da paróquia, que é datada pelo Livro de Tombo, no. 02, do Arquivo Paroquial: “Em 1801 foi creada a freguezia de Nossa Senhora da Piedade na Villa de São João de Anadia […] Criação do Bispo Dom José Joaquim da Cunha de Azevedo, […] affirmam que foi creada a freguezia [sic]em 02 de fevereiro de 1802”. Dia esse que datou a festa da Padroeira. A primeira providência foi prover a freguesia com um capelão: “ Padre Francisco Ignácio de Araújo, Coadjutor da freguesia de S. Miguel, foi o primeiro nomeado para reger interinamente o Curato, e como tal prestou juramento e tomou posse” (JOBIM, 1881, p. 51).

Hoje, a festa da padroeira é o maior acontecimento da referida cidade, chegando a reunir quase 20.000 pessoas na procissão do dia 2 de fevereiro. “A Festa da Padroeira, no dia 2 de fevereiro, é um dos pontos altos do município, que recebe milhares de fiéis na já tradicional procissão” (https://pt.wikipedia.org/wiki/Anadia_Alagoas, consultado em 14 de junho de 2016).

Foi a festa que eu conheci e, como diz o poeta anadiense: “Festa de N. Sra.da Piedade/ A rua cheinha de gente / E de barracas de palha… E os meus olhos de menino / Iam guardando maravilhados / Aqueles quadros que jamais se apagarão Da minha lembrança” (FAY, 2010, p. 28).

Fonte 1: IBGE, Censo demográfico, 2010.
Fonte 2: IBGE, Censo demográfico, 2000 e Pesquisa de Orçamentos Familiares – POF, 2002/2003.
Fonte 3: Atlas Brasil, 2013 Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento.

REFERÊNCIAS:
ARCHIVO parochial da Paróquia de Anadia. Livro de Tombo, no. 2, 1802. p. 1.
FAY, Emanoel. Trilogia alagoana. Maceió: Aalamagis, 2010.
JOBIM, Nicodemos. História de Anadia. Maceió: Instituto Arqueológico e Geográfico Alagoano, 1881. v. 1.
NEGRÃO, Lísias Nogueira. Pluralismo e multiplicidades religiosas no Brasil contemporâneo. In: Sociedade e Estado, Brasília, v. 23, n. 2, p. 261-279, maio/ago. 2008.

 

Banner
Por Gilvan Gomes

Festas Juninas: dos deuses aos nossos arraiás:

“Olha pro céu meu amor, veja como ele está lindo! Olha prá aquele balão multicor… Havia balões no ar
Xote, baião no salão / E no terreiro o teu olhar / Que incendiou meu coração”(José Fernandes de Paula/Luiz Gonzaga)

 Estamos em junho, mês das festas juninas! Mas, qual a origem das festas e de  onde veio a festa junina? Antes da gente falar sobre quadrilha, fogueira, pamonha e canjica, vamos ter de falar sobre ciência e história.

(Fonte: www.google.com)

Todo mês de junho, há uma data em que o dia e a noite têm a maior diferença de duração – o solstício. No Hemisfério Norte, é o mais longo dia de todo o ano. Esse é o período da colheita na Europa e, até mais ou menos o século X, com os últimos pagãos se convertendo, as populações dos campos comemoravam a data e faziam sacrifícios para afastar demônios e pragas e assim ter prosperidade com as colheitas.

Na história da antiguidade muitas vezes a agricultura é associada à fertilidade, cada região celebrava seu casal de deuses específicos. No Egito, as oferendas eram para Ísis e Osíris. Já na Grécia, havia a festa de Cronos, o deus  da agricultura, ou, apenas para as mulheres, Adônis e Afrodite, quando elas faziam plantações rituais e caíam na celebração pra valer.

Outra grande celebração era para comemorar Prometeu, o criador da humanidade – e quem trouxe o fogo aos gregos. Não é um mistério como ele era celebrado: “O formato era mais ou menos como a gente conhece, com comida regional, danças e fogueira”[2].

A Igreja Católica considerava essas festas como meros rituais pagãos. Mas, como não conseguiu acabar com elas, resolveu adaptá-las ao universo cristão. “Já no século XIII, três santos passaram a ser homenageados no mês de junho: Santo Antônio (dia 13), São João Batista (dia 24) e São Pedro (dia 29)”, explica a antropóloga Lúcia Rangel. Sendo que São João Batista, em particular, é o que se celebra mais perto do solstício. Como ninguém sabe quando ele nasceu realmente, a data foi escolhida pela conveniência de cristianizar os rituais pagãos e veio a coincidir de ser exatos seis meses antes do Natal. Hoje, sabemos que São João é celebrado com fogueiras em quase todo o mundo cristão.

(Fonte: www.google.com)

 

Três séculos depois, já nos anos 1500, quando os portugueses chegaram ao Brasil trouxeram suas tradições. “O primeiro registro de festa comemorativa a São João data de 1583, em São Paulo, feito pelo jesuíta Fernão Cardim”.

As comemorações por aqui foram hibridizadas (sofreram adaptações), até porque em junho é inverno, exatamente o oposto – o dia do solstício é o mais curto do ano. “Entre os elementos que foram ‘abrasileirados’ estão os pratos típicos, em geral derivados do milho, a música e as roupas”.

Por isso, os santos tomaram o lugar dos deuses e o verão virou inverno. Mas, por que razão as pessoas se vestem de caipira? Festa junina é uma celebração rural, da colheita. Assim como as mulheres gregas das cidades plantavam trigo para Adônis, nós nos vestimos de agricultores. Mas, também porque criamos um estereotipo do que achamos que sejam os agricultores. “A figura do Jeca Tatu, criada por Monteiro Lobato, definia o caipira como indolente, preguiçoso, malvestido, sem dentes e com roupas rasgadas. Esse é o modelo que ficou.

No nosso país, sobretudo no Nordeste, o cardápio das festas juninas foi adaptado à cultura agrícola local. Quando os portugueses aqui chegaram, rapidamente transmitiram suas tradições aos índios, mas também adotaram algumas. “Milho era um alimento muito utilizado pelos indígenas, ainda mais em junho, época de colheita”. Então, desde o século XVI passou-se a preparar para as festas juninas uma série de derivados de milho, como bolos, pamonhas, milho assado e cozido, canjica, dentre outras comidas.

No século XIX, o Brasil passou a receber uma grande leva de imigrantes, que trouxeram algumas especialidades para o cardápio da festa, adequadas também para o clima mais frio do sul e do sudeste, locais onde se fixaram.

Assim, nesse grande caldeirão cultural que somos e vivemos, celebramos nossas festas juninas!

 

[1] Doutor em Ciências da Religião pela Unicap.

[2] Rangel, Lúcia Helena. Entre o céu e a terra: www.youtube.com

Todas as postagens são de inteira responsabilidade do blogueiro.

 

Por Redação
Banner
Por Redação