Gilvan Gomes das Neves

DOS ARRAIÁS AOS SANTOS JUNINOS (2)

 

Dando continuidade a apresentação dos santos celebrados no mês de junho, iremos trazer aquele que dá nome as nossas festas, chamadas juninas ou joaninas: São João Batista, porque “todo mês de junho, há uma data em que o dia e a noite têm a maior diferença de duração – o solstício. No Hemisfério Norte, é o mais longo dia de todo o ano” NEVES, G. G., 2020). Sendo que São João Batista, em particular, é o que se celebra mais perto do solstício, portanto é um dos mais celebrados com fogueira, fogos, danças, dando nome as festas que se realizam durante o mês de junho.

2. SÃO JOÃO BATISTA:

“Ai, São João do carneirinho / você é tão bonzinho..” (Luiz Gonzaga).

São João

Dando continuidade a apresentação dos santos celebrados no mês de junho, iremos trazer aquele que dá nome as nossas festas, chamadas juninas ou joaninas: São João Batista, porque “todo mês de junho, há uma data em que o dia e a noite têm a maior diferença de duração – o solstício. No Hemisfério Norte, é o mais longo dia de todo o ano” NEVES, G. G., 2020). Sendo que São João Batista, em particular, é o que se celebra mais perto do solstício, portanto é um dos mais celebrados com fogueira, fogos, danças, dando nome as festas que se realizam durante o mês de junho.

2. SÃO JOÃO BATISTA:

“Ai, São João do carneirinho / você é tão bonzinho..” (Luiz Gonzaga).

São João Batista é comumente representado às margens do Rio Jordão, batizando Jesus Cristo, em pé, dentro da água e os braços cruzados sobre o peito, no alto, o Espírito Santo no simbolismo de uma pomba. Seu título latino “Prodomus” significa precursor. Pois anunciou a vinda do messias. Na festa de São João, as bandeiras e estampas mostram São João Batista criança e com um cordeiro, junto as palavras Ecce Agnus Dei (latim): Eis o Cordeiro de Deus! (Jo 1,29), dia 24 de junho é a festa do seu nascimento, a comemoração do seu martírio é no dia 29 de agosto e não é tão popular.

Eremita, profeta, asceta e mártir, foi um homem tão extraordinário que o próprio Jesus disse: “Entre os nascidos de mulher, nenhum aparecerá maior do que Ele” (Mt 11,2). Profeta, filho do sacerdote Zacarias e Isabel, à beira do rio Jordão ele pregava que o Reino de Deus estava perto. Foi preso por Herodes Antipas a quem repreendera por se ter casado com a cunhada, Herodíades. Encantado com a dança da filha de Herodíades, o rei Herodes atendeu ao pedido da mãe feito pela filha: a cabeça de João numa bandeja. João é primo de Jesus.

Desde o século IV, a religião do povo lhe consagra cantos, danças e fogueiras. No Brasil todo, a festa de São João, sobretudo a realizada na área rural, é feita com devoção e alegria. Para muitos é dia santo. Na cidade, é comida e divertimento só. Quando criança, em Anadia, vi muita gente se pulando a fogueira para se tornarem compadres e comadres de São João! Bastava dizer: São Antônio disse, São João assinou: que nós fôssemos compadres (comadres) que São Pedro mandou! Este juramento é feito com seriedade enquanto pulam a fogueira por três vezes.

Mas afinal, por que a fogueira? Contam que no dia em que São João nasceu, sua mãe Santa Isabel acendeu uma grande fogueira para comunicar o nascimento a Maria, sua prima.

Em muitos estados é dançada a quadrilha com uma irreverente encenação do casamento na roça. Sendo a festa popularíssima em Caruaru (PE) e em Campina Grande (PB), nas referidas cidades a festa dura o mês inteiro e para lá acorrem milhões de pessoas durante as festividades.

Segundo a tradição popular, no dia de sua festa, São João está dormindo no céu. O povo acredita que Deus não quer que Ele venha à terra. Muitos que, se São João descesse, ele poria fogo no mundo. Ainda não encontramos nos Evangelhos argumentos que expliquem o sono e o fogo de São João. As palavras do santo referem a Jesus e ao fogo: Mt 3,10-12; Lc 12, 29-30.

Na véspera da festa, são tiradas as sortes de São João. Trata-se de adivinhação para saber se o ano vai ser bom de chuva. Para ver que sorte terão as moças são feitas experiências com clara de ovo, agulhas virgens, enterram a faca na bananeira. Antes e depois da adivinhação deve-se rezar um Pai-nosso, oferecido ao Santo. Para saber se estarão vivos na próxima festa olham no espelho da água do rio ou de uma bacia. A música “Leva eu saudade”, de Tito Guimarães Neto e Alventino Cavalcanti diz: “Na noite de São João, no terreiro, uma bacia / que é pra ver se para o ano meu amor ainda me via./ Leva eu, minha saudade”.
Viva São João!!!

 

 

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Por Geraldo de Majella

Dos Arraiás aos Santos Juninos -1

Santo Antonio. Fonte: www,nossasagradafamilia.com.br

 

No mês de junho de 2020 escrevi um artigo neste blog sobre as origens das nossas festas juninas: suas raízes pagãs e sua cristianização e seu deslocamento para a nossa terra e como o nosso povo as celebram: na alegria das danças, no calor das fogueiras, no brilho dos fogos de artificio e na nossa fé herdada pelos nossos colonizadores.

Nesse mesmo mês iremos apresentar os três santos que festejamos no decorrer do mês de junho.

1. SANTO ANTÔNIO:

“Que seria de mim, meu Deus sem a fé em Antônio” (J. Veloso).

O culto a Santo Antônio de Lisboa implantou-se no Brasil com a vinda dos primeiros portugueses. Um sermão de Padre Antônio Vieira no Maranhão em 1656, já considerava Santo Antônio, “o primeiro valido de Deus”, descrevendo-o com as mãos cheias de “memórias” ou pedidos que eram logo atendidos: “Se vos adoece o filho, Santo Antônio; se vos foge o escravo, Santo Antônio; se requereis o despacho, Santo Antônio; se perdeis a menos miudeza de vossa casa, Santo Antônio” (1).

Fernando de Bulhões e Taveira nasceu em Lisboa no dia 15 de agosto de 1195 e faleceu em Pádua na Itália, no dia 13 de junho de 1231. Entre as inúmeras representações do santo, geralmente, ele aparece com o menino Jesus no colo e vestindo o hábito franciscano, ele abençoa com a mão esquerda e traz, na direita, a Bíblia e um lírio. Também é muito representado com o Menino Jesus, sentado ou em pé sobre a Bíblia sagrada, que o santo milagreiro tanto estudou em sua vida para se tornar o grande pregador em que sua ordem tanto necessitava, à época em que foi fundada.

O seu rosto, nas imagens, é geralmente o de um moço imberbe. Mostra na cabeça a coroa ou tonsura, o corte de cabelo dos clérigos e monges.

Dos seus 36 anos de vida, 25 anos, ele viveu em Portugal, e 11 na Itália e na França. Apenas 11 meses após a sua morte, foi declarado santo pelo Papa Gregório IX.

Aos 15 anos, ingressa na Ordem dos Cônegos Regulares de Santo Agostinho e, aos 25 anos, ordena-se sacerdote em Coimbra. Fascinado pela coragem dos primeiros mártires dos franciscanos no Marrocos, ingressa na Ordem Franciscana Menor, em 1220, no Convento dos Franciscanos em Coimbra, onde recebe o nome de Antônio em homenagem ao eremita do Egito, Santo Antão, que viveu entre o século III e o século IV da era cristã.

Em 1221, partiu para o norte de África, mas, ficou doente e quando regressava a Portugal, uma tempestade desviou o navio para a Itália, onde acabou ficando e foi professor de Teologia para os frades franciscanos.
Tornou-se popular como pregador aguerrido, merecendo os títulos de “trombeta do Evangelho” e “martelo dos heréticos”. De acordo com o franciscano José Clemente Müller,

Seu público era o mais variado possível, abrangendo todas as classes sociais, desde o sumo pontífice com seu sacro colégio, passando pelos governantes e magistrados até ao rústico camponês. O santo da devoção popular era um tipo prático. Mais do que um pensador dogmático, era um mestre intuitivo (MÜLLER, 1995, p.22).

Em Rimini, fez um burro ajoelhar-se diante do Santíssimo e convenceu o chefe o chefe dos Valdenses, Bonvillo, a submeter-se a Roma. Na mesma localidade, com seu famoso sermão aos peixes, surpreendeu o povo. Morreu aos 36 anos no convento de Arcela, perto de Pádua, era 13 de junho de 1231. No dia do seu enterro – uma terça-feira, 17 de junho – aconteceram vários milagres. Os portugueses o chamam de Santo Antônio de Lisboa (onde nasceu) e os italianos preferem chama-lo de Santo Antônio de Pádua (onde morreu).

Em sua vida de teólogo e pregador, aparentemente não há motivo que explique sua popularidade de santo casamenteiro, sobretudo no mundo urbano. Mas, em várias festas e danças rituais da religião do povo, a sexualidade é celebrada comunitária e religiosamente.

Haroldo Lobo e Milton de Oliveira compuseram o xote-baião:

“Santo Antônio exagerou: em matéria de amor / eu nunca brigo / Pedi um casamento / Santo Antônio arranjou cinco.// Tenho a Luísa, tenho a Elisa / e também a Leonor / Tenho a Luzia, tenho a Maria,// Santo Antônio exagerou”(Festa Junina, 1984).

Os devotos fazem trezena porque ele morreu no dia 13. Desde 1617, existe suas devoções às terças-feiras. Santo Antônio é invocado para encontrar objetos perdidos. No Responso de Santo Antônio, hino escrito pelo italiano frei Julião de Espira (+ 1250), logo depois da morte do Santo (+1231): “Quem milagres quer achar / contra os males e o demônio, / busque logo a Santo Antônio,/ que aí os há de encontrar.// (…) tira os presos da prisão, ao doente torna são/ e o perdido faz achar” (GOFFINÉ, 1900, p. 802).

Na cidade de Igaraçu (PE), Santo Anto Antônio e vereador desde 23 de novembro de 1754, com a autorização do rei Dom José I. Nas sessões das terças e das quintas-feiras, um funcionário acende uma vela junto à imagem do santo. Recebeu o título de vereador perpétuo, ganhando 27 mil réis. Até hoje, o salário é entregue ao convento do Santo para a manutenção de uma creche e distribuição de pães para os pobres. Desde 1890, existe o pão de Santo Antônio.

É por toda essa grandeza que esse santo é dos mais populares no Brasil e faço coro com Maria Bethânia:

Antônio querido / Preciso do seu carinho / Mostre-me novo caminho/ Se ando perdido/Se ando perdido / Mostre-me novo caminho / Nas tuas pegadas claras/ Trilho o meu destino / estou nos teus braços, como se fosse / Deus menino. (J. Veloso).

Gilvan Gomes das Neves é mestre e doutor em Ciências da Religião pela Unicap. E-mail: Gilvan.neves@uol.com.br

REFERÊNCIAS:

1- PRECE MILAGROSA. Jornal do Brasil, 11/07/1986. Classificados 5.

GOFFINÉ, Leonardo. Manual do Christão. Rio de Janeiro, Colégio da Imaculada Conceição, 1900, p. 802.

MÜLLER, José Clemente. Santo Antônio e as Sagradas Escrituras. In: OITAVO CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE SANTO ANTÔNIO. São Paulo, nov/1995, p. 22.

 

 

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Por Gilvan Gomes

Ofício da Imaculada Conceição: Memória e Religião Popular

Entre as minhas evocações aos anos vividos em Anadia, trago na minha memória, aos sábados minha avó paterna cantando o Ofício da Imaculada Conceição e sempre realçava: “quando se começa o ofício não se pode parar, porque Nossa Senhora se ajoelha no céu”. Diante de tamanha piedade eu ficava imaginando a cena: Maria, no céu, ajoelhada…que quadro belo. Coisa da minha memória religiosa.

Etimologicamente, a palavra memória, de origem latina, deriva de menor e oris, e significa “o que lembra”, ligando-se, assim, ao passado; portanto, ao já vivido (GIRON, 2000, p. 23).

Essa memória me instigou a buscar a entender a origem, a estrutura dessa oração, que é patrimônio da Religião do Povo.

Fonte: www.google.com

Acredita-se que o popular Ofício de Nossa Senhora foi escrito em meados do século XV, atribuído a Bernardino de Busto ou a São Boaventura e aprovado pelo Papa Inocêncio XI. Aqui no Brasil, sua divulgação se deve aos missionários que atuaram no século no século XVII e sua divulgação ficou registrada em vários benditos: “Frei Altino deixou / três pés de árvore plantada / o terço à boca da noite / ofício de madrugada”1. Nas Santas missões, onde um pequeno grupo de missionários dirigidos por um padre-mestre visitava as comunidades nas cidades, nos lugarejos, nas fazendas, nos engenhos. Nos séculos XVII e XVIII, tempo áureo do cristianismo leigo e luso, a missão foi a maneira mais proveitosa que a igreja encontrou para dar assistência espiritual ao povo. Durante as mesmas se ensinavam o catecismo, os dez mandamentos e as oito bem-aventuranças. Visitavam os sete passos, rezavam a Missa, o terço cantado e Ofício de Nossa Senhora da Conceição e a Salve. Faziam procissões cantando benditos.

O Ofício de Nossa Senhora foi oração obrigatória nos quartéis do exército brasileiro no tempo do Império. Até hoje é cantado em casas e capelas, aos sábados. Muitos o conhecem de cor. Ele faz parte da vida do povo; é rezado em diversas circunstâncias, desde a hora do parto até na hora da morte.

Os nomes das partes do Ofício de Nossa Senhora da Conceição correspondem às horas do ofício divino que consta no tradicional breviário dos padres, monges, religiosas. São elas em Latim: (1) Matutinas, (horas matinas) parte longa (entre outras: nove salmos e três leituras) rezada de madrugada ou à meia-noite. (2) Prima (hora primeira) às 6h da manhã; (3) Tercia (tércia, hora terceira), às 9h; (4) Sexta (hora sexta) ao meio-dia; (5) Noa (hora nona), às 15h; (6) Vesperas (vésperas), de tardinha; (7) Completas (horas derradeiras), antes de deitar. O Ofício popular é simplíssimo; em cada hora reza-se uma invocação, um hino e uma oração conclusiva; no final de tudo, é feito o Oferecimento.

Há no Ofício da Imaculada Conceição muitas citações bíblicas do Antigo e do Novo Testamentos; Suas palavras iniciais, são: “Agora, lábios meus,/ dizei e anunciai / os grandes louvores da Virgem Mãe de Deus. // Sede em meu favor, / Virgem soberana,/ livrai-me do inimigo / com grande valor”. O hino das Vésperas curiosamente reza: “Deus vos salve relógio, / que andando atrasado / serviu de sinal /ao Verbo Encarnado”. O texto fala do relógio de Acaz (Is, 38,8ss; 2Rs 20, 1-12). Ezequias pediu um sinal de sua cura ao profeta Isaías. E a sombra do relógio voltou dez graus. Assim como aquele relógio foi o sinal da salvação de Ezequias, assim, Maria é o sinal da nossa salvação, pois nos trouxe o Cristo.

Para concluir quero ressaltar a importância do Ofício da Imaculada Conceição no devocionário popular, pois praticamente todos os tradicionais livros de oração e meditação, cartilhas e catecismos, manuais de irmandades e coleções de cânticos, incluem “O Ofício”. A versão do texto decorado pelo povo já se encontra no Manual Corte Celeste (1751) e no manual de Oração cujo título completo é: “Sanctos Exercícios que são para a Novena Geral de Maria Santíssima, Nossa Senhora” (…),

Divino ofício de sua Imaculada Conceição, modo de rezar o ofício divino, forma de Novena de Natal, (…) e várias devoções e orações para todo fiel christão. Offerecido à puríssima Conceição da Virgem Maria nossa Senhora dado à luz por Francisco Ferreira Machado, Lisboa, 1774.

1- VAN DER POEL, Francisco. Dicionário de Religiosidade Popular, p. 728.

Referências:

GIRON, Loraine Slomp. Da memória nasce a História. IN: LENSKIJ, T. & HELFER, N.E. (Org.) A memória e o ensino de História. Santa Cruz do Sul: Edunisc; São Leopoldo: ANPUH/RS, 2000.

VAN DER POEL, Francisco. Dicionário de Religiosidade Popular. Curitiba: Ed. Nossa Cultura, 2013.

 

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Por Redação

Mês de Maio: Da deusa Maia¹ ao mês de Maria

O mês de maio, também chamado mês de Maria e mês das noivas. Dedicado a Santa Mãe de Deus, Maria. A sua devoção surgiu no século XIII, na Europa, onde maio é o mês das flores, um dos meses da primavera. No Brasil, a devoção do mês de maio iniciou-se no século XIX, com a romanização (2) da Igreja e, principalmente pela ação dos religiosos lazaristas franceses. Nos hinários tradicionais encontramos cantos como: “Eis o mês de alegria, mês da mãe do Senhor; Neste mês de alegria, tão lindo mês de flores; Neste mês tão santo de suma alegria, seja o nosso encanto a virgem Maria” (Inf.: Francisco C. Alves Dupim).

Nossa Senhora cercada de flores. Fonte: www.google.com

 

Maio é o mês das coroações de Nossa Senhora, é da mesma época, que é uma devoção marcadamente infantil e feminina. A coroação é uma cerimônia paralitúrgica (3) própria do mês de maio, realizada com crianças vestidas de anjo que homenageiam Maria, Virgem e Rainha, colocando véu, palma, rosário e coroa na sua Imagem, à frente dos fiéis reunidos na Igreja. No final, jogam flores, ou pétalas de rosas.

Lélia Vidal Gomes da Gama conta que antigamente a Igreja era muito bem ornamentada, as escadarias por onde subiam anjos e virgens eram erguidas dos lados da imagem de Nossa Senhora. Eram muitas fitas, filós, cetins, brilhos, cores e flores, A Igreja ficava repleta, no coro, os músicos acompanhavam os cânticos.

Anjos e virgens aguardavam, na sacristia o término da reza e o esperado momento de darem entrada no templo. Lá fora, a banda de música tocava os mais belos dobrados da época, anunciando aos fiéis a chegada do cortejo alado. O vigário, em geral, dava inicio aos cantos de louvor, assim que as meninas, duas a duas, galgavam a porta da Igreja (GAMA, 1984, p. 14).

 

Coroação de Nossa Senhora. Fonte: www.google.com

Existem muitas músicas específicas para a coroação (4). Na entrada pode ser cantado: “neste mês de alegria, tão lindo mês de flores,/ queremos de Maria celebrar os louvores. / Hinos harmoniosos vamos hoje cantar./ De ramos mais viçosos, ornemos seu altar”. Outro canto para ofertar os mesmos atributos é: Mãezinha do céu, eu não sei rezar, só sei dizer: eu quero e amar. Azul é teu manto e branco é teu véu. Eu te trago flores (etc.,) mãezinha do céu.

Segundo Dornas Filho, a coroação de Nossa Senhora por Dom Viçoso (1787-1875), bispo de Mariana (MG), a partir de 1840 (5). Já segundo Augusto de Lima Júnior, “as coroações de Nossa Senhora começaram depois de 1849, em Minas Gerais, por iniciativa dos padres Lazaristas e irmãs de Caridade”5.

Em Sergipe, registramos o ritual da queima das flores e outros materiais usados nas festividades. Há cantos apropriados, em Telha (SE), o povo canta: “vamos companheiras, em doce união,/queimemos as flores, na consagração.// Na consagração, em doce harmonia / queimemos as flores do mês de Maria..”(Caderno manuscrito por Maria da Paz, em Telha (SE), 1980, canto 116.

O Ofício de Nossa Senhora da Conceição (séc. XV) diz nas Completas: “Deus vos salve, Virgem, Mãe Imaculada, / rainha de clemência / de estrelas coroada. // Vós, sobre os anjos / sois purificada, / de Deus à mão direita / estás de ouro ornada” (Ap 12,1).

Notas:

1- Maius (magnus) Júpiter, pode ser derivado da deusa romana, Maia, conhecida como Bona Dea, a” Boa Deusa”, na mitologia romana, era uma deusa da fertilidade e virgindade, venerada pelas matronas romanas. Filha do deus Fauno, muitas vezes chamada de Fauna, cuja festa celebravam neste mês que chamaram de Maius.

2- Mestre e doutor pela Unicap. E-mail: Gilvan.neves@uol.com.br.

3- A Romanização na Igreja do Brasil, acontece na segunda metade do século XIX, onde da nossa origem colonial e portuguesa, bastante laicizada, começou a sofrer influência da Igreja européia, marcada pela contrarreforma surgida a partir do Concílio de Trento (1545-1563).

4- Aquilo que vai para além da liturgia. Por exemplo: uma Folia de reis, que é religiosa, mas incorpora outros elementos culturais.

5- SARMENTO, Clarice. Coroações. Montes Claros [s.n.] 1994. Coletânea de 102 cantos com pauta musical em 76pp.
6- DORNAS FILHO, João. Achegas de Etnografia e folclore. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1972, p. 166.

Referências:

GAMA, Lélia Vidal Gomes da. Devoção e nostalgia: informação histórico-litúrgica sobre o catolicismo e o culto da Virgem Maria em Minas Gerais. Belo Horizonte: Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa, 1984, p. 14.

DORNAS FILHO, João. Achegas de Etnografia e folclore. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1972, p. 166.

SARMENTO, Clarice. Coroações. Montes Claros [s.n.] 1994. Coletânea de 102 cantos com pauta musical em 76 pp.

VAN DER POEL, Francisco. Dicionário da Religiosidade Popular. Curitiba: Ed. Nossa Cultura, 2013.

 

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Por Gilvan Gomes

A Mãe Terra contra-ataca a Humanidade: Leonardo Boff e a epidemia.

 

Em seu novo livro, “A Covid-19: A Mãe Terra contra-ataca a Humanidade”1, Leonardo Boff reflete sobre “como, e por qual motivo, a humanidade está sendo atacada por um vírus mortal?” Entre tantos outros questionamentos, o teólogo procura entender como o homem está lidando com toda essa situação e o grito de socorro que a Mãe Terra está tentando passar.

Na referida obra o autor pretende apresentar algumas reflexões para uma sociedade pós-Covid-19  que dá o nome de  uma civilização biocentrada: “sairemos da epidemia diferentes do que quando entramos. Ela nos obriga a pensar e mais do que pensar; ou seja, incorporar hábitos novos e estabelecer relações mais respeitosas e cuidadosas para com a natureza e também mais amigáveis para com a Casa Comum, a Terra” (p. 7).

Leonardo Boff Fonte: www.leonardoboff.org

 

Sua pretensão não é apenas comentar sobre o coronavírus, pois, no seu entender, “quase todas as análises do Covid-19 foram feitas a partir da técnica, da medicina, da vacina salvadora, do isolamento social e do uso de máscaras para nos proteger e não contaminarmos os outros. Quase nunca se falou de natureza, pois o vírus veio dela” (p. 144). O autor procura exercer um novo olhar na sua interpretação acerca da pandemia provocada pelo coronavírus. Ancorado por dois documentos universais – a Laudato Si’, do Papa Francisco (2015), e a Carta da Terra (2003)2–, defende a tese de que a Covid-19 é uma “expressão de autodefesa da Terra viva” (p. 10), ou seja, “é um contra-ataque da Terra viva contra nós por causa de séculos ininterruptos de agressão à sua vida” (p. 9). E daí justifica: “não podemos analisar o coronavírus isoladamente, como algo em si. Precisamos colocá-lo no seu devido contexto, no qual ele surgiu. Ele veio da natureza, pouca importa se de um morcego ou de outro animal. O fato é que sua origem se encontra na natureza. Sobre ela quase ninguém fala quando se multiplicam as análises dos muitos especialistas nacionais e internacionais” (p. 19).

Em nenhum momento a sua abordagem é perniciosa, as páginas desta obra são cheias de lucidez, serenidade, esperança e ajuda a cada um de nós como pessoa, como comunidade, como sociedade, na construção de um futuro crescentemente melhor: ”identificar valores, princípios, hábitos, modos de ser, de produzir, de distribuir e de consumir; numa palavra, um outro paradigma civilizacional que se adeque aos ritmos da Terra e da natureza” (p. 10).

Encoraja-nos a assumir esse tempo de crise como um “tempo de grandes sonhos e utopias, que nos movem na direção do futuro, incorporando o melhor do passado, mas fazendo a própria pegada no chão da vida” (p. 47), a sua perspectiva é um apelo à mudança: “não temos outra alternativa senão mudar. Quem acredita no messianismo salvador da ciência é um iludido: a ciência pode muito, mas não tudo” (p. 18). Ainda mais, ”na questão da intrusão do Covid-19 e assumir urgentemente um outro tipo de relação para com a natureza e a terra, contrário daquele dominante. Vale dizer, faz-se mister um novo paradigma de produzir, distribuir, consumir e conviver na mesma Casa Comum” (p. 19).

O livro está estruturado em quatro partes: 1) o coronavírus: uma arma da Terra contra nós (p. 12-55); 2) o coronavírus nos convida a rezar e a meditar (p. 57-105); 3) lições a tirar da pandemia do coronavírus (p. 107-129); 4) a disputa pelo futuro da Mãe Terra (p. 131-156).

Na primeira parte, Boff nos brinda com sete reflexões. Na primeira reflexão, define-se o coronavírus como uma arma da Terra viva, alertando-nos de que não adianta repetirmos sempre o mesmo e de forma pior, querendo curar as feridas da terra cobrindo-as com band-aids mas, carecemos de um novo paradigma na defesa contra o coronavírus para a construção de sete pilares: a) uma visão espiritual do mundo e sua correspondente ética, b) o resgate do coração, do afeto, da empatia e da compaixão, c)  a necessidade de tomar a sério o princípio de cuidado e de precaução, d) o respeito a todo ser, e) a atitude de solidariedade e de cooperação, f) a responsabilidade coletiva, g) a urgência de envidar todos os esforços na construção de uma biocivilização, centrada na vida e na Terra (p. 15-25).

A segunda reflexão destaca o processo de autodefesa da Mãe Terra. Sendo a terra um ente vivo que se auto-organiza é urgente que tenhamos consciência sobre a nossa relação com ela e sobre a responsabilidade que temos pelo nosso destino comum da Terra viva-Humanidade. Esse gesto torna-se necessário porque terra e humanidade são uma única entidade e o ser humano é a porção da Terra que sente e pensa (p. 26-30). A terceira reflexão mostra como ferimos e maltratamos a Mãe Terra (31-34). O autor destaca na quarta reflexão que o coronavírus caiu como um meteoro sobre o capitalismo e, por isso, esse é o momento de questionar as falas-mestre da ordem do capital: a acumulação ilimitada, a competição, o individualismo, a indiferença face à miséria de milhões, a redução do Estado e a exaltação do lema de que a cobiça é boa (p. 35-39).

E, na quinta reflexão, a atenção é voltada para o pós-pandemia: voltar à normalidade é retroceder, uma vez que o atual sistema põe em risco as bases da vida. Na pandemia, o projeto capitalista foi refutado e, por isso, torna-se necessário inaugurar uma civilização biocentrada cuidadosa, amiga da vida, harmoniosa, perguntando-se que tipo de Terra queremos para o futuro. A sexta reflexão, o autor nos apresenta a cooperação e a solidariedade  como contraponto à normalidade. Apresentando os fundamentos científicos para a cooperação – uma vez que tudo está interligado – e o alerta para a mudança que se faz necessária: ou mudamos ou conheceremos o destino dos dinossauros (p. 48-51). Como última reflexão dessa primeira parte é pontuado como a Mãe Terra nos fez descobrir, através da pandemia, a nossa verdadeira humanidade e, por isso, cobra para que não voltemos ao que era antes, mas, que sejamos mais humanos (p. 52-55).

Na segunda parte, o autor partilha seis reflexões e enfatiza o significado do confinamento social e da distância das aglomerações. Aos confinados, tendo em vista que o confinamento permitiu uma revisão de vida e algum exercício de meditação que o autor chama a primeira reflexão de “Meditação da Luz: o caminho da simplicidade” (p. 59-63). Na segunda reflexão é destacado como a celebração da Sexta-Feira Santa ganhou um significado especial no tempo do coronavírus: Jesus continua crucificado nos sofredores do coronavírus (p. 65-69). Por isso, a terceira reflexão apresenta a Páscoa como a promessa da ressurreição às vítimas do coronavírus: todos os que partiram vítimas do coronavírus estão vivos e ressuscitados em Deus (p. 70-77). Seguindo sua reflexão teológica, na quarta reflexão o autor elabora algumas considerações sobre o Pentecostes. O Espirito é vida, movimento e transformação, sendo, por isso, invocado por sua ação sanadora e recriadora (p. 78-82). E na quinta reflexão é aprofundada o significado do nosso corpo e como devemos cuidar dele, do corpo dos outros, dos pobres e da Terra (p. 83-92). E a última reflexão são feitas  considerações sobre o cuidado com o espírito. Cuidar do espírito é cuidar do eterno que há em nós (p. 93-105).

A terceira parte do livro compreende quatro reflexões sobre as lições aprendidas da pandemia do coronavírus. A primeira reflexão (p. 109-112): evidencia

que não podemos prolongar o passado – “deveríamos ter aprendido que somos parte da natureza, e não os seus senhores e donos. Vigora uma conexão umbilical entre ser humano e natureza. Viemos do mesmo pó cósmico como todos os demais seres e somos o elo consciente da corrente da vida” (p. 109).

Na segunda reflexão, o autor traça um mapa para resgatar a vida ameaçada. Uma comunidade de destino para toda a Humanidade, por meio dos valores e princípios da Carta da Terra, articulando a inteligência racional com a cordial (p.113-118). E como terceira reflexão salienta a importância do biorregionalismo como forma viável de concretizar a sustentabilidade (p. 119-122). Na última reflexão desta terceira parte apontam-se quais são as dez virtudes de uma ética da Mãe Terra pós-coronavírus:

a) o cuidado essencial; b) o sentimento de pertença; c) a solidariedade; d) a responsabilidade coletiva; e) a hospitalidade; f) a convivência de todos com todos; g) o respeito incondicional; h)  a justiça social e a igualdade fundamental e todos; i) a busca incansável da paz; j) o cultivo do sentido espiritual da vida (p. 123-129).

A quarta e última parte aborda  do livro são abordadas duas questões: a primeira, a transição para uma sociedade biocentrada – onde se esclarece em que sentido o coronavírus abalou gravemente o capitalismo neoliberal – e quais as alternativas políticas para o pós-coronavírus – este nos obrigará a conferir centralidade à natureza e à Terra (p. 133-138). A segunda: por onde deve começar a transição paradigmática, e quais são os pressupostos para uma transição bem-sucedida: a vulnerabilidade da condição humana exposta a ataques por enfermidades, bactérias e vírus dos ecossistemas; a imprevisibilidade dos acontecimentos naturais e históricos; a interdependência entre os seres, especialmente os seres humanos; a solidariedade como opção consciente; o cuidado essencial para com tudo o que vive e existe, especialmente para os seres humanos. Será decisivo  recriar e refazer o contrato natural e articulá-lo com o contrato social – levando em conta o biorregionalismo como ponta da discussão ecológica (p. 139-148).

Concluindo o livro (p. 149-156), o autor, salienta que:

o Brasil, não obstante suas contradições histórica e internas, tem um capital ecológico que lhe permitirá fazer um ensaio possível de transição para um outro paradigma de civilização. Por suas riquezas ecológicas, geográficas, geopolíticas e populacionais, tem todas as condições para esse ensaio de uma civilização biocentrada. Esses tempos de confinamento por causa da Covid-19, são propícios pra pensarmos num outro projeto de Brasil (p. 149).

Leonardo Boff abre o caminho para variadas reflexões sobre o tema da pós-pandemia. As reflexões compreendidas nesta obra estão sintonizadas com o que insistentemente nos pede o Papa Francisco. Em primeiro lugar, uma reflexão teológica afinada com os tempos atuais. Uma teologia que não se perca na disputa acadêmica e que não olhe para a humanidade a partir de um castelo de vidro. Em segundo lugar, porque num mundo ferido pela pandemia do coronavírus, Francisco, através da encíclica “Fratelli Tutti” (2020), faz um chamado por reformas e mudança de direção propondo um novo paradigma global, em alternativa ao individualismo, capaz de sobrepujar a cultura do descarte hoje difundida e silenciosamente crescente, como nos alertou o Papa Francisco em seu discurso na ONU3, “essa cultura hoje em vigor é um atentado contra a humanidade”.

Notas:
1- BOFF, Leonardo. Covid-19: a Mãe Terra contra-ataca a Humanidade: advertências da pandemia. Petrópolis: Vozes, 2020.
2- A Carta da Terra é uma declaração de princípios éticos fundamentais para a construção, de uma sociedade global justa, sustentável e pacífica. Busca inspirar todos os povos a um novo sentido de interdependência global e responsabilidade compartilhada, voltado para o bem-estar de toda a família humana, da grande comunidade da vida e das futuras gerações. É uma visão de esperança e um chamado à ação.
3- Discurso proferido na Abertura da 75ª Assembleia da ONU, 26/09/2020. Em: www.ecoamazonia.org.br.

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Por Gilvan Gomes

Ramadã: o Islã e Islamofobia

No nono mês do calendário muçulmano, que é lunar, o Ramadã começa hoje, dia 13 de abril e tem a sua duração entre 29 e 30 dias, onde se encerra com uma festa onde se mata um cordeiro(para lembrar Abrãao que foi sacrificar o seu filho Ismael). Durante esse mês deve-se jejuar do nascer ao por do sol, além de do jejum, não se pode ter relações sexuais, não se engole a saliva (dai cospe-se muito) e não se faz uso de tabaco (fumo). Dentro desse mês, o 27º dia é celebrada a “noite do poder”, o do “decreto”: se comemora a noite em que Profeta Maomé recebeu a primeira revelação do Alcorão. Muitos muçulmanos passam esta noite a rezar, acreditando que coisas espirituais podem acontecer, sobretudo os pedidos feitos durante estas horas serão atendidos por Alá (Aquele que está escondido, o transcendente, que está sentado no trono, cria a terra e faz sua revelação ao profeta Maomé).

Foto 1. Fonte: www.google.com.br

Hoje, no mundo temos cerca de 1,8 bilhões de muçulmanos. É comum, nos dias de hoje, ouvir-se falar em árabes e islamismo, ou em muçulmanos, como se essas palavras fossem sinônimos. Na verdade, elas têm significados diferentes, embora estejam diretamente Maomé).

relacionadas entre si. É preciso, portanto, compreender melhor esse relacionamento para desfazer a confusão e entender com mais clareza alguns fatos da atualidade, como os frequentes atentados terroristas cometidos em nome da religião islâmica – apesar de os preceitos do islamismo, como o de várias outras religiões, serem essencialmente pacifistas.

Os árabes são um povo que se desenvolveu na península Arábica, uma vasta região localizada na junção dos continentes africano e asiático. Ao longo da Idade Média, porém, os árabes se expandiram e formaram um grande império. Sua cultura, que tem como principal característica a crença no islamismo, foi então assimilada por diversos outros povos.

Foto 2: fonte: www.google.com

É preciso conhecer um pouco mais o Islamismo para desfazer esse preconceito que chamo no título de Islamofobia. O Islã está fundado em cinco pilares ou cinco práticas que todo muçulmano deve seguir:

1. Sharada (testemunho de fé);
2. Salah (oração: cinco vezes durante o Ramadã);
3. Zakat (caridade: doação de 2,5% do seu lucro para os mais pobres);
4. Jejum do mês do Ramadã;
5. Haijj (peregrinação a Meca, pelo menos uma vez na vida, desde que se tenha condições para isso).

Portanto, não se prega a violência ou a guerra. Mesmo o próprio conceito de “Jihadi” não pode ser traduzido literalmente por guerra ou violência. A palavra vem do Alcorão 61:4, “Em verdade, Deus aprecia aqueles que combatem, em fileiras, por Sua causa, como se fossem uma sólida muralha. Ainda, Combatei, pela causa de Deus, aqueles que vos combatem; porém, não pratiqueis agressão, porque Deus não estima os agressores. (2:190). Daí muitos teólogos do Islamismo defendem que o termo jihadi seja interpretado de uma maneira interna, como esforço de viver a lei de Alá e seguir o Profeta Maomé.

É preciso, como nos diz o editorial do “El País” de 27 de agosto de 2017, logo após os atentados na cidade de Madri:

Evitar uma espiral de intolerância requer que todas as instituições e a sociedade civil comecem a trabalhar imediatamente. Devemos portanto dar as boas-vindas à reação das comunidades islâmicas na Espanha, que não duvidaram em se juntar à condenação dos atentados e rejeitar a instrumentalização que os jihadistas fazem de sua religião.

É claro que o islamismo está submerso em um grande conflito interno e que há forças poderosas que promovem uma versão intolerante e violenta dessa religião. Por essa razão, a luta contra o terrorismo jihadista precisa contar com um envolvimento profundo da comunidade muçulmana. Fiéis e líderes, sociais e espirituais, são cruciais na hora de prevenir e detectar os discursos de ódio e os processos de radicalização. Sem o apoio dessas comunidades, que são as primeiras interessadas no combate a este fenômeno, pouco poderá ser feito.

Gostaria de terminar essa minhas considerações com o título do artigo acima referido: “É preciso parar a Islamofobia.

 

 

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Por Gilvan Gomes

CAMPANHA DA FRATERNIDADE ECUMÊNICA, FAKE-NEWS E IDEOLOGIA DE GÊNERO

No artigo que escrevi sobre a Campanha da Fraternidade Ecumênica nesse blog no dia 16 de fevereiro do corrente ano, registrei que mal a referida Campanha tinha iniciado que os ataques já estavam a aparecendo por aí e no atual momento se disseminam em forma de boicote a mesma pelas redes sociais e outdoors pelo país a fora e esses ataques nas redes são ferozes e acusam líderes religiosos de terem aderido a “pautas abortistas e anticristãs”. Com vídeos no YouTube e hashtags no Twitter e no Instagram, esses grupos tentam incentivar os cristãos a não doar nenhum dinheiro para a Campanha da Fraternidade.

(Foto 01: www.google.com.br)

E uma das razões mais alegadas por esses grupos de extrema direita (católicos e não católicos) se encontra no nº 68 do texto-base que diz:

Outro grupo social que sofre as consequências da política estruturada na violência e na criação de inimigos, é a população LGBTQI+. O já citado Atlas da Violência de 2020, mostra que o número de denúncias de violências sofridas pela população LGBTQI+ registradas no disque 100 no ano de 2018 foi de 1685 casos. Segundo dados do Grupo Gay da Bahia apresentados no Atlas da Violência 2020, no ano de 2018, 420 pessoas LGBTQI+ foram assassinadas, destas 164 eram pessoas trans. (…) O aumento no número de homicídio de pessoas LÇBTQI+, entre 2016 e 2017, foi de 127%. Estes homicídios são efeitos do discurso de ódio, do fundamentalismo religioso, de vozes contra o reconhecimento dos direitos das populações LGBTQI+ e de outros grupos perseguidos e vulneráveis (p. 33). 

Os ataques nas redes são ferozes e acusam líderes religiosos de terem aderido a “pautas abortistas e anticristãs”. Um dos nomes que tem encabeçado a campanha é o guru do governo de Jair Bolsonaro, Olavo de Carvalho e católicos como Frederico Abranches Viotti, porta-voz do Instituto Plínio Corrêa de Oliveira. Em vídeo com imagens sacras e referências à monarquia, ele acusa “setores da Igreja Católica” de estarem trabalhando contra o Brasil e pelo marxismo. “Estamos vendo, no Brasil, o cristianismo ser desvirtuado com a questão da ideologia de gênero.
Criou-se a ideia da Ideologia de gênero, onde a sua funcionalidade mascara, mistifica e demoniza o conceito de gênero e se faz urgente resgatar essa palavra e salvaguardar o seu parâmetro.
Mas, afinal, o que significa ideologia de gênero?
“Ideologia de gênero” é um conceito, ou seja, um termo que busca representar uma realidade. Para entender melhor o que termo significa nos debates sobre a questão de gênero, é interessante desmembrá-lo:
Para CHAUÍ (2006) o termo “ideologia” geralmente é confundido com ideário, significando apenas um conjunto sistemático e encadeado de ideias. No entanto, a autora desfaz essa suposição e classifica ideologia não como um ideário qualquer, e sim um de cunho mais histórico, social e político, servindo para ocultar a realidade e manter a desigualdade e a exploração.
O conceito de gênero é presente no movimento feminista desde os anos 1970 e é entendido não como sexo biológico, mas como as construções sociais baseadas nos sexos biológicos. Pode parecer confuso, mas nós explicamos melhor.

Por muito tempo pregou-se que os homens eram superiores às mulheres por características biológicas. Essas características não se referiam apenas à força física, por exemplo, mas também afirmavam que homens eram mais inteligentes e éticos. O conceito de gênero então surgiu para contestar isso.
“Gênero” não é uma palavra mais bonita para se referir ao sexo biológico, mas um termo que vê essa desigualdade na percepção das capacidades de homens e mulheres como algo socialmente construído.
Ao se falar em “questão de gênero”, por exemplo, faz-se referência às atividades culturalmente atribuídas às mulheres – como cuidar da casa e dos filhos – e aos homens – como sustentar financeiramente a família. As teorias feministas explicam que essas ideias são construídas com base nos costumes, não nas capacidades biológicas. Afinal, um homem não é fisicamente incapaz de limpar a casa e nem uma mulher é fisicamente incapaz de trabalhar como engenheira e sustentar financeiramente sua família.

Acredita-se que o termo “ideologia de gênero” apareceu pela primeira vez em 1998, em uma nota emitida pela Conferência Episcopal do Peru intitulada “Ideologia de gênero: seus perigos e alcances”. O evento nacional que reúne bispos de todo o país é uma tradição da Igreja Católica no mundo inteiro.
Desde seu surgimento, a expressão “ideologia de gênero” carrega um sentido pejorativo (negativo). Por meio dela, setores mais conservadores da sociedade protestam contra atividades que buscam falar sobre a questão de gênero e assuntos relacionados – como sexualidade – nas escolas. As pessoas que concordam com o sentido negativo empregado no termo “ideologia de gênero” geralmente temem que, ao falar sobre as questões mencionadas, a escola vá contra os valores da família.

Dentre esses valores está o medo de que o debate menospreze crenças familiares e gere intolerância religiosa, tanto por parte dos professores quanto de outros colegas. Outro medo é que a ideologia de gênero induza crianças a serem homossexuais ou transexuais. Geralmente tais grupos também discordam da teoria que aponta gênero como sendo socialmente construído e acreditam que o sexo biológico define tanto o gênero quanto a sexualidade da pessoa. Consequentemente, entende-se que a heterossexualidade é o “natural”.
A filósofa Arlene Bacarji , por exemplo, define ideologia de gênero como:

“Uma “ideologia” que atende a interesses políticos e sexuais de determinados grupos, que ensina, nas escolas, para crianças, adolescentes e adultos, que o gênero (o sexo da pessoa) é algo construído pela sociedade e pela cultura, as quais eles acusam de patriarcal, machista e preconceituosa. Ou seja, ninguém nasce homem ou mulher, mas pode escolher o que quer ser. Pois comportamentos e definições do ser homem ou mulher não são coisas dadas pela natureza e pela biologia, mas pela cultura e pela sociedade, segundo a ideologia de gênero.”

Ancorada na filósofa francesa Simone de Beauvoir , no seu livro “O Segundo Sexo” (1949), que constrói a sua obra na perspectiva do sujeito histórico, encarnado, temos um corpo; que se escreve, que se diz na palavra, sendo seres situados, históricos (políticos). Portanto: elaborar a sua história é fazer política com essa escrita, transformar o mundo. Na referida obra a pergunta é: como pode se realizar o ser humano, dentro da condição humana? Como transformar a condição de escravo para a de senhor? Conclui que o “lugar” da mulher, a condição feminina é existir para os homens e não para si; mostra que esse “segundo sexo” foi sendo construído para servir o homem e como as mulheres caíram nessa armadilha; é a função da mulher que lhe dá lugar no mundo. A liberdade é uma condenação: é o que sobra diante das determinações e a luta é ser livre: tomar posse de si.

Já para a teórica norte-americana Judite Butler , esse “tornar-se mulher” corre o risco de cair numa categoria fundamentalista. Para ela, o sexo também não é natural, se constrói a partir de uma noção, da construção de uma ideia da sexualidade (que é um sistema semiótico: discursos, mídias). Butler nega qualquer essencialismo: “prefiro usar as coisas, do que consumi-las”.

Para a referida filósofa gênero é a tecnologia do poder (como por exemplo: pegar a máquina moer carne, colocar teu corpo dentro e você sair agradável aos olhos de quem pode fazer isso). Ela interpreta o gênero a partir do sexo, uma invenção: elementos culturais construídos dentro do poder. Performativos: provocam efeitos; constatativos: está chovendo. O gênero é também um efeito: somos afetados pelo gênero que me precede; o efeito é aquilo que eu causo na vida dos outros.

No Brasil, o termo “ideologia de gênero” ficou famoso quando o Ministério da Educação (MEC) buscou incluir educação sexual, combate às discriminações e promoção da diversidade de gênero e orientações sexuais no Plano Nacional de Educação (PNE), em 2014. Os últimos dois pontos, no entanto, geraram uma grande reação por parte de grupos conservadores, que não consideravam as pautas sobre questão de gênero apropriadas ao ambiente escolar, e o projeto foi barrado. Após muitos protestos por parte da população, liderada por grupos religiosos e pelo Escola sem Partido, o PNE foi aprovado sem fazer menção a gênero e orientação sexual.

Nas Eleições de 2018 o termo voltou à tona com as diversas menções que o então candidato Jair Bolsonaro (PSL) fazia ao “kit gay”, nome pejorativo dado ao projeto “Escola sem Homofobia”. Bolsonaro e muitos de seus apoiadores constantemente afirmavam que Fernando Haddad (PT), seu adversário na corrida presidencial, havia distribuído um determinado livro sobre educação sexual a crianças de seis anos. Segundo eles, Haddad teria incluído a obra no projeto “Escola sem Homofobia” enquanto era ministro da educação, entre 2005 e 2012. Posteriormente, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decretou a afirmação como fake news, isto é, como uma informação falsa e proibiu que a campanha de Bolsonaro usasse o termo “kit gay” para atacar Haddad.

Mesmo assim, a história do “kit gay” levantou novamente a questão de gênero. O pesquisador Rogério Diniz Junqueira vê a propagação das fake news relacionadas à utilização do termo “ideologia de gênero” como uma maneira de assustar a sociedade. Elas levariam as pessoas a se alinharem com aqueles grupos que também são contra o debate da questão de gênero. Junqueira também ressalta que, mesmo que debates sobre gênero envolvam diversos assuntos, como desigualdade salarial entre homens e mulheres, os pontos lembrados ao acusar um grupo de implementar a ideologia de gênero são sempre mais polêmicos. Ao associar educação sobre questões de gênero a aborto, sexualidade e pedofilia, por exemplo, gera-se um “pânico moral”.

O pesquisador diz que esse “pânico moral possui forte potencial mobilizador e alta capacidade de atrair diferentes atores que nem precisam ser muito conservadores ou preconceituosos, mas que, diante do escândalo fabricado, ficam alarmados”. É assim que alguns grupos transformam certas iniciativas – por exemplo, que busquem ensinar a respeitar a diversidade de orientações sexuais existentes na sociedade – na negativa.

Gilvan Gomes das Neves é  Mestre e doutor em Ciências da Religião pela Unicap. E-mail: Gilvan.neves@uol.com.br
CAMPANHA FRATERNIDADE ECUMÊNICA. Texto-Base. Brasília: Edições CNBB, 2020.

ARLENE SIMONE BACARJI: Possui graduação em filosofia pela Universidade Católica Dom Bosco (1991) e Mestrado em Sociologia pela Universidade Federal do Paraná (2000) e mestrado em Teologia pela PUC/RS e doutorado em Teologia sistemático-pastoral pela PUC-Rio.

Simone de Beauvoir foi escritora, filósofa, intelectual, ativista e professora. Integrante do movimento existencialista francês, Beauvoir foi considerada uma das maiores teóricas do feminismo moderno.

Judith Butler é uma filósofa pós-estruturalista estadunidense, uma das principais teóricas contemporâneas do feminismo e teoria queer. Ela também escreve sobre filosofia política e ética.

Referências:
BACARJI, Arlene. Ideologia de gênero: o que é e qual a polêmica por trás ela?. Caxias do Sul: PolitizePublicado em 23 de novembro de 2018
BEAUVOIR, Simone de. O Segundo sexo. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2009.
CAMPANHA FRATERNIDADE ECUMÊNICA. Texto-Base. Brasília: Edições
CNBB, 2020.
CHAUÍ, Marilena. O que é Ideologia. São Paulo: Brasiliense, 2006.
FEMENIAS, Maria Luisa. A crítica de Judith Bluter a Simone de Beauvoir. In: http://periodicos.pucminas.br/index.php/SapereAude/article/view/4619.
JUNQUEIRA, Rogério Diniz. Ideologia de gênero: entenda o assunto e o que está por trás. In: Bertho, Helena, 23/10/2018.

 

 

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Por Gilvan Gomes

SÃO JOSÉ: DA RELIGIÃO DO POVO A PATRIS CORDE

São José (séc. I), cuja festa é dia 19 de março e a Ele é dedicado o mês de março. Esposo da Virgem Maria, vivia em Nazaré como carpinteiro, além de ser patrono dos profissionais da madeira, o referido santo protege os viajantes e asilados. As árvores genealógicas de Mt 1 e Lc 3 mostram que Jesus é descendente e “filho de Davi” através de São José, esposo de Maria Virgem. É chamado “Patriarca São José”, seu título bíblico é o Justo.

Sabemos que a nossa herança católica deve-se principalmente pela ação de leigos portugueses. A religião da colônia foi plantada na colônia com a cruz e a espada. Foram construídas capelas, levantados cruzeiros, organizadas irmandades, santas casas de misericórdia, fundados santuários de romaria.

(Foto 01- Fonte: www.google.com)

(Foto 02: Fonte: www.google.com)São José é santo popular. Muitos homens o seu nome. É padroeiro de 171 paróquias no Brasil, além de ser nome de 60 municípios e patrono de dois estados: Amapá e Ceará.

Na religião do povo, ele é ainda mencionado como o “advogado da boa morte”: Na Botica Preciosa e Thesouro Precioso da Lapa (1754), de autor brasileiro. Em algumas Igrejas, sua morte é celebrada no “trânsito de São José”, na presença de Jesus e Maria.

No século XVIII, existiram no Brasil, várias irmandades de São José.

É costume tradicional na Igreja, dedicar todas as quartas feiras. Em Salvador (BA), a Typ. São Francisco publicou o folheto “As sete quarta-feiras consecutivas consagradas ao Patriarca São José” (s.d.) (VAN DER POEL, 2013, p.986).

Na cidade de Água Preta (PE) e Flores (PE) e em muitos outros lugares nordestinos, sua festa é celebrada com pastoril e bumba-meu-boi. No distrito de Poxim (AL), o Manuel do Rosário participa da festa.

Em 1955, o Papa Pio XII o declarou patrono dos operários.
Preces a São José são frequentes nos cantos de penitência das secas do Norte e Nordeste: “Salve, salve São José,/ que nos protege da agonia./ Nos livra da seca braba / e nossa sede alivia. / Ajuda-nos ò Pai Pai bondoso,/ neste tempo de desvalia / escuta os nossos gemidos / nos dê de novo, a alegria” (Quixadá-Ce, 1996).
Para o senso-comum nordestino, se não chover neste dia, os agricultores imaginam que a estiagem será prolongada.

A chegada do inverno (época das chuvas) no sertão é comandada pelos poderes do glorioso São José. Ele forma nevoeiros cinzentos em torno do sol, ele avisa os animais que a chuva vai chegar. Não choveu até o dia de São José, ano de seca é. São José planta milho para dar a São João (Plantado em março dá em junho) (VAN DER POEL, 2013, p. 320).

Olhando um pouco para o pensamento chamado racional muita gente se pergunta porque o sertanejo espera por chuva no Dia de São José? Um fato científico explica: o dia 19 de março coincide com o início do equinócio de outono, que influencia positivamente na incidência de chuvas. Portanto há uma explicação para a expectativa por chuva no Dia de São José, comemorado no dia, 19 de março.

O dia 19 de março marca o início do equinócio de outono, período em que os dois hemisférios terrestres estão igualmente iluminados pelo sol. O tempo de noite é igual, portanto, ao tempo do dia. A incidência direta de raios solares na linha do Equador, no entanto, acaba atraindo ventos úmidos para a região, e geralmente trazem chuvas abundantes.

No dia 08 de dezembro para celebrar 150º aniversário da proclamação de São José, como patrono da Igreja Universal pelo beato Pio IX, em 1850, o Papa Francisco publica uma carta apostólica “Patris corde” (com o coração de Pai), diz o Papa:

gostaria de deixar «a boca – como diz Jesus – falar da abundância do coração» (Mt 12, 34), para partilhar convosco algumas reflexões pessoais sobre esta figura extraordinária, tão próxima da condição humana de cada um de nós. Tal desejo foi crescendo ao longo destes meses de pandemia em que pudemos experimentar, no meio da crise que nos afeta, que «as nossas vidas são tecidas e sustentadas por pessoas comuns (habitualmente esquecidas), que não aparecem nas manchetes dos jornais e revistas, nem nas grandes passarelas do último espetáculo, mas que hoje estão, sem dúvida, a escrever os acontecimentos decisivos da nossa história: médicos, enfermeiras e enfermeiros, trabalhadores dos supermercados, pessoal da limpeza, curadores, transportadores, forças policiais, voluntários, sacerdotes, religiosas e muitos – mas muitos – outros que compreenderam que ninguém se salva sozinho. (…) Quantas pessoas dia a dia exercitam a paciência e infundem esperança, tendo a peito não semear pânico, mas corresponsabilidade! (pp 8-9)

O Santo Padre divide sua carta em sete capítulos: Um amado Pai; Pai na ternura; Pai na obediência; Pai no acolhimento; Pai com coragem criativa; Pai trabalhador e Pai na sombra.

(Foto 02: Fonte: www.google.com)

O objetivo desta carta apostólica é aumentar o amor por este grande Santo, para nos sentirmos impelidos a implorar a sua intercessão e para imitarmos as suas virtudes e o seu desvelo, nos diz o Santo Pontífice.
E assim conclui sua belíssima carta:

Estimulado com o exemplo de tantos Santos e Santas diante dos olhos, Santo Agostinho interrogava-se: «Então não poderás fazer o que estes e estas fizeram?» E, assim, chegou à conversão definitiva exclamando: «Tarde Vos amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde Vos amei!»
Só nos resta implorar, de São José, a graça das graças: a nossa conversão.
Dirijamos-lhe a nossa oração:
Salve, guardião do Redentor
e esposo da Virgem Maria!
A vós, Deus confiou o seu Filho;
em vós, Maria depositou a sua confiança;
convosco, Cristo tornou-Se homem.
Ó Bem-aventurado José, mostrai-vos pai também para nós
e guiai-nos no caminho da vida.
Alcançai-nos graça, misericórdia e coragem,
e defendei-nos de todo o mal. Amém.
Roma, em São João de Latrão, na Solenidade da Imaculada Conceição da Bem-Aventurada Virgem Maria, 8 de dezembro do ano de 2020, oitavo do meu pontificado.
Francisco.(p.31)

Referências:
FRANCISCO, Papa. Patris Corde. São Paulo: Paulus, 2020.
SEQUEIRA, Ângelo de. Botica preciosa e tesouro precioso da Lapa. Lisboa: Oficcina de Miguel Rodrigues, 1754.
VAN DER POEL, Francisco. Dicionário da Religiosidade Popular. Curitiba: Ed. Nossa Cultura, 2013.

COM CORAÇÃO DE PAI: Carta Apostólica do Papa Francisco por ocasião do 150º aniversário da declaração de São José como padroeiro universal da Igreja. São Paulo: Paulinas, 2020.
Mestre e doutor em Ciências da Religião pela Unicap. E-mail: Gilvan.neves@uol.com.br
SEQUEIRA, Ângelo de. Botica preciosa e tesouro precioso da Lapa. Lisboa: Oficcina de Miguel Rodrigues, 1754, p. 267.

 

 

 

 

 

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Por Gilvan Gomes

FRATERNIDADE E DIALOGO: COMPROMISSO DE AMOR

Todos os anos, durante a Quaresma, a Igreja reforça a reflexão e prática da Campanha da Fraternidade que surgiu em 1961, quando três padres, responsáveis pela Cáritas no Brasil, idealizaram uma campanha com o objetivo de levantar fundos para assistir aos pobres. Deram a esta ideia o nome de Campanha da Fraternidade (CF), que foi realizada pela primeira vez na Quaresma de 1962, na cidade de Natal, no Rio Grande do Norte.

A ideia foi tão bem aceita que, no ano seguinte, dezesseis dioceses do Nordeste realizaram a Campanha da Fraternidade. E em 1964, foi lançada a Campanha da Fraternidade em nível nacional pela CNBB com o tema: “Igreja em Renovação”. A referida campanha nasce no contexto do Concílio Vaticano II, que iniciou um tempo de renovação na pastoral da Igreja. Por isso a Campanha da Fraternidade, que acontece sempre no período quaresmal, é um grande convite a nos convertermos para a prática da justiça social, da solidariedade, da partilha e do amor ao próximo. Para cada ano, a Igreja no Brasil escolhe um tema para ser refletido na Campanha da Fraternidade e transformado em ação concreta de solidariedade. Gestos capazes de transformar realidades de dor e sofrimento em possibilidade de esperança. Por isso, a Campanha da Fraternidade é o diálogo da Igreja com a sociedade, pois todos os cristãos devem ser sal da terra e luz do mundo.

Mas, a partir do ano 2000, atendendo aos apelos da Igreja para a promoção do diálogo com as igrejas cristãs, a CNBB quis dar uma dimensão ecumênica à Campanha da Fraternidade, por ocasião da celebração do Grande Jubileu da Encarnação, confiando ao CONIC a organização da CF de 2000, a primeira CF ecumênica, com o envolvimento de várias Igrejas no planejamento e na execução de tão importante movimento, que vem acontecendo a cada cinco anos.

O Ecumenismo deve ser entendido como nos diz NAVARRO (1995):

O ecumenismo é uma atitude da mente e do coração que nos impele a olhar nossos irmãos cristãos separados com respeito, compreensão e esperança. Com respeito, porque os reconhecemos como irmãos em Cristo e os consideramos antes amigos do que oponentes; com compreensão, porque buscamos as verdades divinas que compartilhamos, embora reconheçamos honestamente as diferenças na fé que há entre nós; com esperança, que nos fará crescer juntos num conhecimento e num amor mais perfeitos de Deus e de Cristo (p. 13).

Neste ano de 2021, a partir da quarta-feira de cinzas, inicio do tempo quaresmal, a Igreja inicia a quinta CF ecumênica cujo tema é: “Fraternidade e diálogo: compromisso de amor”, tendo como lema: “Cristo é a nossa paz: do que era dividido fez-se uma unidade” (Ef 2,14). Com seu objetivo geral:

Convida as comunidades de fé e as de boa vontade a pensarem, avaliarem e identificarem caminhos para superar as polarizações e violências através do diálogo amoroso, testemunhando a unidade na diversidade (Texto-base, p. 10).

(Cartaz da CF 2021)

(Cartaz da CF 2021)

A CF só começa no dia 17 e já causa alvoroço em grupos católicos fundamentalistas, “baratas de sacristia” que apregoam a “sã doutrina”, fazendo oposição ao Papa Francisco e a todo o Magistério católico que vem se pronunciando desde o documento conciliar “Unitatis Redintegratio” (sobre o Ecumenismo), as Conferências Episcopais da América Latina: Medellín, Puebla, Santo Domingo, Aparecida e da grande maioria da CNBB.

Como fruto do delírio coletivo acirrado por meio do bizarro contexto político em que o Brasil se encontra – além da empoeirada divisão entre conservadores e progressistas que perdura desde o final do Concílio Vaticano II (1962-1965) – já era de se esperar que haveria críticas à proposta da Campanha da Fraternidade de 2021. Afinal, ela convida à verdadeira conversão – algo que nem todo cristão, mais de nome do que de obras, é capaz de vislumbrar.

Ao pretender educar para a vida em fraternidade, a partir da justiça e do amor – que é uma exigência central do Evangelho – a proposta da Campanha da Fraternidade 2021 chocou. E qual o motivo para tanto transtorno? Simples, ela convida “comunidades de fé e pessoas de boa vontade para pensar, avaliar e identificar caminhos para a superação das polarizações e das violências que marcam o mundo atual”, conforme aponta seu texto base.

Quando fala na superação de polarizações, a proposta da CF-2021 é justamente o que causa alarde no cristão disfuncional (aquele que adora fazer escândalo e chamar quem fala de problema social ou de pobreza dentro do âmbito teológico de comunista) e isso o motiva a ataques contra o ecumenismo.
Tal comportamento leva a uma onda de outras ações, que vão da produção de fake News e de conteúdos que tentam desmerecer membros do CONIC ao descontrole argumentativo e à crítica a importantes movimentos que promovem a unidade, além de ataques desenfreados à CNBB.

Ou seja: enquanto quem espera por mudanças faz campanha visando à fraternidade, os contrários iniciaram uma contra campanha. E ela é desserviço, que revela o desejo intencional de se dividir ainda mais o povo – do que unir.
Exemplo disso é o vídeo “Saiba quem está por trás da Campanha da Fraternidade!”, divulgado pelo Centro Dom Bosco do Rio de Janeiro: uma arma de propagação de ódio e de calúnias infundadas, que do carisma salesiano nada tem. É material digno de repúdio, pois conclama à desunidade cismática.

Finalizando é preciso afirmar que não podemos confundir propostas de fraternidade com contextos políticos! Estamos em 2021! E apesar de serem realidades que fazem fronteira, vivemos uma incrível eclesiologia de construção e de partilha. Aliás, é importante separarmos bem as coisas: a fraternidade proposta pela Campanha da Fraternidade é a do Evangelho, a partir das palavras de Cristo, e não a da boca pra fora, dos revolucionários medievais conclamando às Cruzadas via internet.

 

Gilvan Gomes das Neces é Doutor e mestre em Ciências da Religião pela unicap. E-mail: Gilvan.neves@uol.com.br

CONIC (Conselho Nacional das Igrejas Cristãs) composto pela Igreja Católica Apostólica Romana, pela Aliança das Igrejas Batistas do Brasil, Igreja episcopal Anglicana do Brasil, Igreja Luterana, Igreja Presbiteriana Unida, Igreja Síria ortodoxa e a Igreja Betesda.

REFERÊNCIAS:
CONIC/CNBB. Campanha da Fraternidade Ecumênica 2021. Texto-Base. Brasília: Ed. CNBB, 2020.
NAVARRO, Juan Bosch. Para compreender o ecumenismo. São Paulo: Loyola, 1995.

 

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Por Gilvan Gomes

VAMOS SONHAR JUNTOS

No início do mês de dezembro do corrente ano, a Editora Intrínseca lançou o novo livro do Papa Francisco: “Vamos sonhar juntos” (VSJ) . São reflexões que foram escritas durante a quarentena e compiladas com o auxílio jornalístico de Austen Ivereigh, um dos bons conhecedores da vida e do pensamento do papa. Revelando-nos, assim, um Francisco farejador inquieto em busca de um sentido embutido na tragédia do coronavírus.

No referido livro tem elementos de uma síntese e de um testamento em que o papa, em uma situação de crise mundial, avalia os sete anos de seu pontificado, marcados pelos três documentos programáticos sobre a evangelização (EG), a criação (LS) e a fraternidade universal da humanidade (FT). O papa adverte: O caminho de volta está fechado. Está fechada “a falsa segurança das estruturas políticas e econômicas de antes da crise. Precisamos de economias que permitam a todos o acesso aos frutos da Criação, às necessidades básicas de vida: terra, teto e trabalho (p. 139-144). Devemos reduzir a velocidade, tomar consciência e desenhar maneiras melhores de conviver neste mundo” (p. 12). Como vamos sair dessa crise e caminhar para um futuro melhor?

(Fonte: www.google.com)

O Papa Francisco estrutura o seu livro em três partes: Tempo de ver, Tempo de escolher e Tempo de agir:

1. Tempo de ver:

Francisco recomenda: para avaliar um tempo, ver um território e sentir uma situação, devemos ir às periferias. Precisamos romper com os projetos das elites que querem “restaurar a estrutura socioeconômica que tínhamos antes da pandemia” (p. 24). É previsível que esses projetos acabem em maiores filas de desempregados, talvez todos vacinados, mas sem teto, trabalho e terra. A tentativa de restaurar o mundo a partir do centro “nos leva a um beco sem saída” (p. 63). Nas periferias se encontram os novos modos de organizar a sociedade e se encontram também “os protagonistas das transformações sociais” como “atores de um novo futuro” (p. 24).

A Covid tem uma dimensão universal e uma dimensão pessoal. Ambas interrompem a rotina da nossa vida; nos fazem cair do cavalo, como Saulo. O maior fruto de uma Covid pessoal, que é uma experiência limite, diz o papa, é “a paciência, condimentada com um sadio senso de humor”, que criam um espaço para a mudança. Em seu livro, o papa conta três experiências pessoais de Covid: em 1957, com 21 anos de idade, teve a experiência da proximidade da morte em um hospital de Buenos Aires. Em 1986, na Alemanha, teve a experiência da desconexão, do deslocamento e da solidão. Entre 1990 e 1992, quando foi enviado para Córdoba, viveu uma “espécie de quarentena” em um “banco de reserva”, um reaprender a viver um despojamento e desenraizamento de funções. Ser peneirado por Satanás e, pelo encontro com Jesus, cair do cavalo, como Saulo – em cada Covid nos aguarda um aprendizado, um crescimento e uma nova tentação.

“A crise nos devolveu a compreensão de que necessitamos uns dos outros”, para nos ouvir, corrigir e animar. Através de uma irrupção da fraternidade, conseguiremos brecar a globalização da indiferença e a hiperinflação do indivíduo. Somos responsáveis uns pelos outros. Juntos e sobretudo na periferia “podemos aprender sobre o que nos faz avançar e o que nos faz retroceder” (p. 55).

2. Tempo de escolher:

Para esse segundo tempo, escreve o Papa, precisamos um conjunto de critérios e um “refúgio da tirania do urgente”, um lugar de “reflexão e silêncio”. Precisamos reaprender a rezar, ouvir o chamado do Espírito e “cultivar o diálogo, em uma comunidade que nos apoie e nos convide a sonhar” (p. 59).

Mas, diante das incertezas causadas pela pandemia da covid-19, Francisco aconselha que devemos resistir à sedução de uma mentalidade fundamentalista. “Os fundamentalismos oferecem uma atitude e um pensamento único, fechado […]. A pessoa que se refugia no fundamentalismo tem medo de sair em busca da verdade. Ela já ‘tem’ a verdade e a utiliza como defesa, interpretando qualquer questionamento como uma agressão” (p. 63).

No questionamento ao fundamentalismo, Francisco cita dois dos seus mestres intelectuais: Romano Guardini e John Henry Newman . “A sabedoria de Guardini “me permitiu enfrentar problemas complexos que não podem ser resolvidos simplesmente com normas, mas com um estilo de pensamento que permite passar pelos momentos de conflito sem ficar preso neles” (p. 64).

Com Newman, Francisco enxerga “a verdade sempre mais além de nós, […] como uma luz amável que normalmente não chega através da razão, ‘mas pela imaginação […], pelo testemunho dos fatos’” (p. 64). Francisco assumiu dos seus mestres “que não possuímos a verdade mas que a verdade nos possui e constantemente nos atrai com sua beleza e bondade” (p. 64s). A abordagem da verdade “engloba as duas coisas: um elemento de concordância e um elemento de busca contínua” (p. 64). “Não há contradição entre estar solidamente enraizado na verdade e, ao mesmo tempo”, pela ação do Espírito “aberto a uma compreensão maior” (p. 65): “A tradição não é o culto das cinzas, mas a preservação do fogo” (Gustav Mahler, p. 66). É uma visão dinâmica da realidade que facilita discernir entre suas contradições e perceber as necessidades e os caminhos de transformações.

3. Tempo de agir:

O tempo de agir, o Papa Francisco descreve com base em uma reflexão sobre a “Teologia do Povo de Deus” de sua terra de origem (p. 107-117). Essa teologia nunca foi consensual na América Latina, mas permitiu um providencial consenso no momento de sua eleição como papa. Como na parábola do “Bom Samaritano” (Lc 10,25ss), também com a vida de Francisco podemos aprender que o Espírito pode servir-se de sistemas teológicos diferentes para conduzir seus seguidores pelo caminho do Evangelho. O samaritano da parábola, que veio como o sacerdote e o levita de Jerusalém, não veio do templo. Os samaritanos eram proibidos de entrar no Templo. Mas ele cumpriu o ensinamento do Templo. Amando o próximo, socorreu aquele que caiu nas mãos dos ladrões. O Papa Francisco não veio do templo da “Teologia da Libertação”, mas conseguiu realizar o primeiro mandamento dessa teologia, a opção pelos pobres, na Teologia Argentina do Povo de Deus.

Francisco questiona: “o que significa ser ‘um povo’?”, para nos explicar o significado dessa teologia. Trata-se de “uma categoria de pensamento” e de “um conceito mítico”. “A categoria mítica do povo tem origem e se alimenta de muitas fontes: históricas, linguísticas, culturais (especialmente a música e a dança), mas sobretudo da sabedoria e da memória coletivas” (p. 107). Sua identidade é “arquetípica” e não se define por exclusões, mas “pela síntese de potencialidades” que Francisco chama de “transbordamento” (p. 113). “No início da história de cada povo está a busca pela dignidade e pela liberdade, uma trajetória de solidariedade e luta. […] Para as nações do continente americano, foi a luta pela independência” (p. 107).

Nessa terceira parte do livro, denominada “tempo de agir”, é importante lembrar o que Francisco escreveu sobre o “tempo de ver”: “Recordo a história, não para honrar os antigos opressores, mas para prestar homenagem ao testemunho e à grandeza dos oprimidos. […] O passado é sempre repleto de situações vergonhosas: basta ler a genealogia de Jesus nos Evangelhos” (p. 36).

Os mercados nos afastam das metas políticas necessárias para hoje: “regenerar o mundo natural, vivendo de forma mais sustentável e mais sóbria, ao mesmo tempo que cobrir as necessidades dos que, até agora, foram prejudicados ou excluídos desse modelo socioeconômico. Não sairemos melhor desta crise, se não aceitarmos um princípio de solidariedade entre os povos” (p. 120; 139). Não se trata de “partilhar as migalhas da mesa, mas fazer com que, à mesa, haja lugar para todos” (p. 121). O desafio de todo nosso serviço social é que “o pobre, o nu, o doente, o preso, o desalojado […] sintam-se ’em casa’ entre nós. […] Esse é o sinal de que o Reino dos Céus está entre nós” (p. 124).

No final dessa terceira parte, denominada “tempo de agir”, o papa faz uma das propostas mais ousadas para traçar um “caminho para um futuro melhor”. Para o mundo pós-pandemia será vital “reconhecer o valor do trabalho não remunerado”. Devemos “explorar conceitos como o de renda básica universal, […] um pagamento fixo incondicional a todos os cidadãos” (p. 143). “A renda básica universal poderia redefinir as relações no mercado laboral garantindo às pessoas a dignidade de rejeitar condições de trabalho que as aprisionam na pobreza. […] Com o mesmo objetivo, é bem possível que seja também hora de considerar uma redução no horário de trabalho […]. Trabalhar menos, para que mais gente tenha acesso ao mercado de trabalho, […] é um […] pensamento que precisamos explorar com certa urgência” (p. 143s).

Como epílogo, o Papa se pergunta: qual será o nosso lugar? E aponta com duas palavras para nosso aprendizado possível: “descentrar” e “transcender” e termina com o poema “Esperança” do cubano Alexis Valdés. Ler esse testamento de um grande pontificado, humano, sim, mas ao mesmo tempo profundamente evangélico por ser comprometido com os pobres, vale a pena:
“Quando a tormenta passar
E as estradas estiverem amansadas
[…] Nós nos sentiremos felizes
Simplesmente por estarmos vivos.[…]
Entendemos o frágil
Que significa estar vivos.
Sentiremos falta do velho
Que pedia uma moeda no mercado,
De quem não soubemos o nome
E sempre esteve ao nosso lado.
E talvez o velho pobre
Era teu Deus disfarçado.
Nunca perguntaste por seu nome
Porque estavas apressado.[…]
Quando a tormenta passar
Peço-lhe, Deus, envergonhado,
Que nos devolvas melhores,
Assim como nos havias sonhado!

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Por Gilvan Gomes

Papai Noel, o Natal e a pandemia:

Vivemos num mundo onde a mercadoria é o objeto mais explícito do desejo de crianças e de adultos. A mercadoria tem que ter brilho e magia, senão ninguém a compra. Ela fala mais para os olhos cobiçosos do que para o coração amoroso. É dentro desta dinâmica que se inscreve a figura do Papai Noel. Ele é a elaboração comercial de São Nicolau – Santa Claus – cuja festa se celebra no dia 6 de dezembro. Era bispo, nascido no ano 281 na atual Turquia. Herdou da família importante fortuna. Na época de Natal saia vestido de bispo, todo vermelho, usava um bastão e um saco com os presentes para as crianças. Entregava-os com um bilhetinho dizendo que vinham do Menino Jesus.

Santa Claus deu origem ao atual Papai Noel, criação de um cartunista norte-americano Thomas Nast em 1886, posteriormente divulgado pela Coca-Cola já que nesta época de frio caía muito seu consumo. A imagem do bom velhinho com roupa vermelha e saco nas costas, bonachão, dando bons conselhos às crianças e entregando-lhes presentes é a figura predominante nas ruas e nas lojas em tempo de Natal. Sua pátria de nascimento teria sido a Lapônia na Finlândia, onde há muita neve, elfos, duendes e gnomos e onde as pessoas se movimentam em trenós puxados por renas.

Estamos às vésperas da festa do Natal e essa festa nos oferece a chave para decifrar alguns mistérios insondáveis de nossa atribulada existência. Os seres humano sempre se perguntaram e perguntam: por que a fragilidade de nossa existência? Por que a humilhação e o sofrimento? E Deus silenciava. Eis que no Natal nos vem uma resposta: Ele se fez frágil como nós. Ele se humilhou e sofreu como os humanos. Esta foi a resposta de Deus: não por palavras mas por um gesto de identificação. Não estamos mais sós na nossa imensa solidão. Ele está conosco. Seu nome é Jesus.

(Fonte: pensamentosdeovelha.wordpress.com/2013/12/05

A pandemia é o sino que toca e nos diz: “Meus irmãos, minhas irmãs, este mundo é velho, caducou. Ele enveredou no caminho errado, cheio de buracos, obstáculos, desvios…precisamos do mundo novo! Devemos nos despir dos hábitos do comodismo, da indiferença, da ganância, do preconceito, da autossuficiência e devemos aceitar outra vez sermos guiados por Deus e nos descortina também uma resposta derradeira ao sentido do ser humano. Somos um projeto infinito. Só um Infinito pode realizar nossa plena humanidade. Eis que o Infinito se faz humano para que o humano realizasse seu projeto Infinito. O infinito se fez ser humano para que o ser humano se fizesse Infinito.

(Fonte: www.google.com)

Gostaria de terminar essa breve reflexão com um pensamento que um dia ouvi de Dom Hélder Câmara:

“Gosto de pensar no Natal como um ato de subversão…um menino pobre, uma mãe solteira, um pai adotivo…quem assiste seu nascimento é a ralé da sociedade, os pastores. É presenteado por gente “de outras religiões (magos, astrólogos). A família tem que fugir e assim viram refugiados políticos. Depois voltam a viver na periferia. O resto a gente celebra na Páscoa…mas com a mesma subversão…sim! A revolução virá dos pobres! Só deles pode vir a salvação!”

Feliz Natal!! Feliz subversão!!!

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Por Gilvan Gomes

FRANCISCO DE ASSIS, FRANCISCO DE ROMA

Aos quatro dias de outubro de 2020, no túmulo de São Francisco de Assis, na cidade homônima, o Papa Francisco assina a sua nova encíclica “Fratelli Tutti” cujo título foi tirado de um texto de São Francisco de Assis, escrito no século 13.

Na referida encíclica o Papa fala de temas como imigração, a distância entre ricos e pobres, injustiças econômicas e sociais, desequilíbrios na atenção à saúde e o aumento da polarização política em muitos países.

Acredito ser esse o texto que o mundo precisava neste momento dramático de sua história. No número seis, da referida Encíclica, o papa revela que o tema central é a “fraternidade universal”. O pontífice não pretende dizer tudo sobre o amor fraterno, mas apenas falar sobre essa abertura a todos, num tempo em que os tribalismos, partidarismos e todo tipo de fechamento sobre povos e ideologias ganham um espaço indefinido. O papa nos provoca a termos um coração aberto e fraterno. Afirma também que a Fratelli Tutti é uma encíclica social, assim como foram a Rerum Novarum de Leão XIII até a Caritas in Veritate de Bento XVI.

Fonte: Gazeta do Povo, 04/10/2020

No primeiro capítulo, Francisco descreve as sombras de um mundo fechado sobre si mesmo. É como se o papa pintasse um cenário do nosso tempo, com todas as sombras que temos hoje e, a partir daí, nos outros capítulos ele mostrasse as luzes de esperança sobre este cenário de sombras. São os nossos dramas deste século 21, onde o Papa lembra que a pandemia da Covid-19 é a última crise a provar que as forças de mercado sozinhas não produziram os benefícios sociais que seus idealizadores prometeram.

O capítulo dois, o Papa começa narrando a história do Bom Samaritano, esse anônimo do Evangelho de Lucas (Lucas 10, 25-37), que faz trazer todos para dentro da festa da Vida. Essa é a proposta do Cristianismo. Queremos chamar a Deus de Pai, como fez São Francisco, que em seu momento de conversão chamou a Deus de “Pai Nosso”.

Escreve o capítulo três na busca de pensar e gestar um mundo aberto. Precisamos estar mais próximos uns dos outros. Os povos e nações precisam estar mais próximos.
Na mesma direção, escreve o capítulo quatro, onde pede que tenhamos um coração aberto ao mundo inteiro, precisamos ter um coração aberto e solidário, aliás, desejo que permeia todas as páginas da Encíclica.

No quinto capítulo, acentua a questão política, criticando os governos populistas. E nos lembra que ser popular não é ser populista. O papa denuncia a nova onda de demagogia mundial; não é democracia é demagogia. Capítulo curto, mas, muito contundente.

O diálogo e a amizade social é tratado no capítulo sexto. Mostra-nos como criar uma cultura do encontro na prática. O Papa Francisco, que é argentino, fez referência ao poeta brasileiro, Vinícius de Moraes, ao citar: “A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro na vida”, no seu Samba da Bênção (n.215).

Já no sétimo capítulo são apresentados caminhos de reencontro a partir da verdade. O papa mostra claramente como é que podemos arquitetar a paz. Ele usa a expressão “artesanalidade”. Devemos ser “artesãos da paz”. A paz se faz como tricô; é ponto depois de ponto; nó depois de nó. Não se faz simplesmente com projetos escritos. A encíclica crítica duramente a guerra e a pena de morte, onde deve ser excluída de toda a possibilidade de legislação sensata.

O capítulo oitavo é o último e encerra as reflexões do Papa Francisco sobre a fraternidade universal. Ele afirma que as religiões estão à serviço da fraternidade no mundo e não se podem ser instrumentalizadas em favor de interesses particulares. A religião é instrumento de fraternidade e não instrumento de guerra, como alguns querem fazer crer.

A encíclica Fratelli Tutti termina com duas belíssimas orações, a primeira ao Criador e a segunda em tom mais ecumênico. O Papa Francisco acertou em cheio nesse texto sobre fraternidade inspirado em Francisco de Assis, patrono do seu pontificado, em um tempo tão dividido por discórdias e agredido por um vírus que nós não pedimos e por uma pandemia que nos incomoda em que demora para passar. O Papa Francisco lança uma luz de Esperança com sua nova encíclica Fratelli Tutti.

Gilvan Gomes das Neves  é  Doutor em Ciências da Religião pela UNICAP. E-mail: Gilvan.neves@uol.com.br

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Por Gilvan Gomes

Festa da Padroeira em Anadia: lugar de identidade e memória (1)

Introdução

A cidade de Anadia está situada na região leste do Estado de Alagoas, distando 94 km de sua capital, Maceió. Com uma população estimada em 17.847 hab e com uma incidência de pobreza de 60,70% . Com um Índice de Desenvolvimento Humano (IDHM), em 2010, de 0,568 . O nome original do município era Campos do Arrozal de Inhanhuns e, em 1801, quando foi elevado à categoria de vila, passou a ser chamada de Vila Nova de São João de Anadia, em homenagem ao Visconde de Anadia, ministro português que autorizou a criação da vila. A freguesia foi instalada em 1802. Segundo um historiador anadiense:

 

 

(Fonte: www.google.com.br)

 

 

 

Porém, não se sabe ao certo quais foram os principais desbravadores. Há a hipótese do primeiro povoado ter sido precedido por famílias que migraram para a região, atraídas pelas planícies e pela boa produtividade do solo. Essa produtividade, aliás, pode ter atraído outros desbravadores que seguiram o curso do rio São Miguel, numa rota de exploradores. Conta a história que, durante o século XVII, uma imagem da Virgem da Piedade foi encontrada perto do povoado e, segundo a crença popular, fez com que o padroeiro do arraial, São João, fosse substituído por Nossa Senhora da Piedade.

Campos do Arrozal de Inhanhuns, de sua criação dedicada ao milagroso S. João Nepomuceno; perdeu o seu Padroado nos princípios do século passado pelo achado da Imagem de Nossa Senhora da Piedade sobre uma pedra na Serra Morena, deixada por falecimento de um dos fugitivos do Quilombo dos Palmares, que aí vieram estabelecer-se e criarem-se em famílias. (JOBIM, 1881, p. 48 )

A cidade de Anadia e sua breve história sociorreligiosa está inserida no universo de um catolicismo rústico, trazido pelos portugueses:

No Liberal n.° 20, de 1872, fiz publicar a lenda anadiense e a tradição histórica de N. S. da Piedade, que os velhos têm por verdadeira.

“ Uma mulher, nascida no meado do último século e falecida há 16 anos, em suas recordações infantis nos contava que alcançou, nesta vila, então nascente povoado, uma casinha coberta de palha, onde o Cura de S. Miguel vinha celebrar missa por contrato com os habitantes: e lembrava-se a boa da velinha(Será: a boa velhinha?) que sua mãe empoava-lhe de véspera os cabelos para na madrugada seguinte irem encontrar a procissão de N. S. da Piedade, cuja imagem fugia da casinha e ia ser achada junto a uma pedra na Serra da Morena (fronteira à vila), onde morrera um dos descendentes dos fugitivos dos Palmares que para ali conduzira a dita imagem.

Os grandes festejos que se faziam, dizia a velha, com tiros, caixas e zabumbas, e ao mesmo tempo o desgosto, causado pelo desaparecimento da misteriosa imagem, deram lugar a uma formal promessa de edificar-se uma igreja, mudando-se de Padroado, que era de S. João para N. S. da Piedade e, nessa igreja, adorar-se e glorificar-se a pequena imagem.

José da Fonseca Barbosa e seu irmão Antônio Barbosa, homens mais ricos desse tempo, comprometeram-se a ser os primeiros condutores em seus carros das pedras e madeiras necessárias para a edificação da Capela de N. S. da Piedade se cessar-se (Será: se cessasse?) o maravilhoso desaparecimento.

Se é supersticiosa esta nossa narração não sabemos – o que há de certo é que, na Serra da Morena, três milhas distantes desta vila, ainda existe a descendência dos antigos habitadores [sic]dos Palmares, tipos originais de sua raça: aí fora a sua primeira situação, depois de destruído o Quilombo da Serra da Barriga. De 1765 datam os primeiros serviços de edificação da nossa Matriz, e desejos da criação da freguesia em ato continuado: em 18 de novembro de 1801 foi mandada erigir em vila com a denominação de S. João de Anadia, em honra ao visconde de Anadia, ministro português, que referendou o Alvará da criação da vila e a propôs. Em 20 de dezembro do mesmo ano foi posto em execução, e inaugurada a vila aos 21 fez-se a divisão do termo separando-se de S. Miguel e Atalaia. Em 1803 fundiram-se os 2 sinos, que foram doados a [sic]Matriz e a devoção de S. João Nepomuceno, primeira invocação desapareceu.

A Imagem de N. Senhora foi substituída por outra de vulto maior. A pequenina e antiga colocada ficou ao lado do Evangelho, esquecida….

Entretanto foi ela quem despertou o povo na edificação de sua Matriz anunciando-se no diserto [sic]para ser eterna mãe dos anadienses.

Ingratidão.

Em 1846 sacrilegamente a furtaram da Matriz e achada (não queremos dizer aonde) restituída foi por D. Maria Rosa Rodrigues Leite”.

O catolicismo foi, no passado colonial brasileiro, uma religião obrigatória: os que aqui nasciam o aceitavam por pressuposto de cidadania, exceto os indígenas, aos quais se exterminava ou se convertia. Os que aqui não nasciam tinham que adotá-lo, mesmo que não o compreendessem: os negros escravizados eram batizados no porto de procedência ou de desembarque (NEGRÃO, 2008, p. 262).

Neste catolicismo rústico predominavam as festas religiosas, com suas rezas e celebrações, muitas vezes sem a presença do clero, que era escasso no Brasil do século XIX, e a sua maioria ficava nos centros urbanos, litorâneos, onde se vivia uma certa ortodoxia. Assim, o resto da colônia, os pequenos vilarejos e os bairros rurais, onde vivia dispersa uma população de baixa densidade, não contava com a presença de párocos locais.

O padre passava por eles apenas de quando em quando, às vezes apenas uma vez ao ano, para a “desobriga”: batizar os nascidos, casar os ajuntados, ouvir as confissões, rezar a missa. Essa configuração do empreendimento ao mesmo tempo. (NEGRÃO, 2008, p.263)

Também se pode dizer que “a missa da festa, que se manifesta quando o povo sente o poder da comunidade […] se relaciona à imagem […] música, movimento, cor e beleza” (HOORNAERT, 1969, p. 585).

Daí se pode afirmar que a festa religiosa em Anadia é anterior à própria criação da freguesia, da paróquia, que é datada pelo Livro de Tombo, no. 02, do Arquivo Paroquial: “Em 1801 foi creada a freguezia de Nossa Senhora da Piedade na Villa de São João de Anadia […] Criação do Bispo Dom José Joaquim da Cunha de Azevedo, […] affirmam que foi creada a freguezia [sic]em 02 de fevereiro de 1802”. Dia esse que datou a festa da Padroeira. A primeira providência foi prover a freguesia com um capelão: “ Padre Francisco Ignácio de Araújo, Coadjutor da freguesia de S. Miguel, foi o primeiro nomeado para reger interinamente o Curato, e como tal prestou juramento e tomou posse” (JOBIM, 1881, p. 51).

Hoje, a festa da padroeira é o maior acontecimento da referida cidade, chegando a reunir quase 20.000 pessoas na procissão do dia 2 de fevereiro. “A Festa da Padroeira, no dia 2 de fevereiro, é um dos pontos altos do município, que recebe milhares de fiéis na já tradicional procissão” (https://pt.wikipedia.org/wiki/Anadia_Alagoas, consultado em 14 de junho de 2016).

Foi a festa que eu conheci e, como diz o poeta anadiense: “Festa de N. Sra.da Piedade/ A rua cheinha de gente / E de barracas de palha… E os meus olhos de menino / Iam guardando maravilhados / Aqueles quadros que jamais se apagarão Da minha lembrança” (FAY, 2010, p. 28).

Fonte 1: IBGE, Censo demográfico, 2010.
Fonte 2: IBGE, Censo demográfico, 2000 e Pesquisa de Orçamentos Familiares – POF, 2002/2003.
Fonte 3: Atlas Brasil, 2013 Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento.

REFERÊNCIAS:
ARCHIVO parochial da Paróquia de Anadia. Livro de Tombo, no. 2, 1802. p. 1.
FAY, Emanoel. Trilogia alagoana. Maceió: Aalamagis, 2010.
JOBIM, Nicodemos. História de Anadia. Maceió: Instituto Arqueológico e Geográfico Alagoano, 1881. v. 1.
NEGRÃO, Lísias Nogueira. Pluralismo e multiplicidades religiosas no Brasil contemporâneo. In: Sociedade e Estado, Brasília, v. 23, n. 2, p. 261-279, maio/ago. 2008.

 

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Por Gilvan Gomes

Festas Juninas: dos deuses aos nossos arraiás:

“Olha pro céu meu amor, veja como ele está lindo! Olha prá aquele balão multicor… Havia balões no ar
Xote, baião no salão / E no terreiro o teu olhar / Que incendiou meu coração”(José Fernandes de Paula/Luiz Gonzaga)

 Estamos em junho, mês das festas juninas! Mas, qual a origem das festas e de  onde veio a festa junina? Antes da gente falar sobre quadrilha, fogueira, pamonha e canjica, vamos ter de falar sobre ciência e história.

(Fonte: www.google.com)

Todo mês de junho, há uma data em que o dia e a noite têm a maior diferença de duração – o solstício. No Hemisfério Norte, é o mais longo dia de todo o ano. Esse é o período da colheita na Europa e, até mais ou menos o século X, com os últimos pagãos se convertendo, as populações dos campos comemoravam a data e faziam sacrifícios para afastar demônios e pragas e assim ter prosperidade com as colheitas.

Na história da antiguidade muitas vezes a agricultura é associada à fertilidade, cada região celebrava seu casal de deuses específicos. No Egito, as oferendas eram para Ísis e Osíris. Já na Grécia, havia a festa de Cronos, o deus  da agricultura, ou, apenas para as mulheres, Adônis e Afrodite, quando elas faziam plantações rituais e caíam na celebração pra valer.

Outra grande celebração era para comemorar Prometeu, o criador da humanidade – e quem trouxe o fogo aos gregos. Não é um mistério como ele era celebrado: “O formato era mais ou menos como a gente conhece, com comida regional, danças e fogueira”[2].

A Igreja Católica considerava essas festas como meros rituais pagãos. Mas, como não conseguiu acabar com elas, resolveu adaptá-las ao universo cristão. “Já no século XIII, três santos passaram a ser homenageados no mês de junho: Santo Antônio (dia 13), São João Batista (dia 24) e São Pedro (dia 29)”, explica a antropóloga Lúcia Rangel. Sendo que São João Batista, em particular, é o que se celebra mais perto do solstício. Como ninguém sabe quando ele nasceu realmente, a data foi escolhida pela conveniência de cristianizar os rituais pagãos e veio a coincidir de ser exatos seis meses antes do Natal. Hoje, sabemos que São João é celebrado com fogueiras em quase todo o mundo cristão.

(Fonte: www.google.com)

 

Três séculos depois, já nos anos 1500, quando os portugueses chegaram ao Brasil trouxeram suas tradições. “O primeiro registro de festa comemorativa a São João data de 1583, em São Paulo, feito pelo jesuíta Fernão Cardim”.

As comemorações por aqui foram hibridizadas (sofreram adaptações), até porque em junho é inverno, exatamente o oposto – o dia do solstício é o mais curto do ano. “Entre os elementos que foram ‘abrasileirados’ estão os pratos típicos, em geral derivados do milho, a música e as roupas”.

Por isso, os santos tomaram o lugar dos deuses e o verão virou inverno. Mas, por que razão as pessoas se vestem de caipira? Festa junina é uma celebração rural, da colheita. Assim como as mulheres gregas das cidades plantavam trigo para Adônis, nós nos vestimos de agricultores. Mas, também porque criamos um estereotipo do que achamos que sejam os agricultores. “A figura do Jeca Tatu, criada por Monteiro Lobato, definia o caipira como indolente, preguiçoso, malvestido, sem dentes e com roupas rasgadas. Esse é o modelo que ficou.

No nosso país, sobretudo no Nordeste, o cardápio das festas juninas foi adaptado à cultura agrícola local. Quando os portugueses aqui chegaram, rapidamente transmitiram suas tradições aos índios, mas também adotaram algumas. “Milho era um alimento muito utilizado pelos indígenas, ainda mais em junho, época de colheita”. Então, desde o século XVI passou-se a preparar para as festas juninas uma série de derivados de milho, como bolos, pamonhas, milho assado e cozido, canjica, dentre outras comidas.

No século XIX, o Brasil passou a receber uma grande leva de imigrantes, que trouxeram algumas especialidades para o cardápio da festa, adequadas também para o clima mais frio do sul e do sudeste, locais onde se fixaram.

Assim, nesse grande caldeirão cultural que somos e vivemos, celebramos nossas festas juninas!

 

[1] Doutor em Ciências da Religião pela Unicap.

[2] Rangel, Lúcia Helena. Entre o céu e a terra: www.youtube.com

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Monsenhor Alfredo Dâmaso: o padrinho, o santo – bem à frente do seu tempo (2)

Monsenhor Alfredo: andanças e lutas de um pastor

Chegou à cidade de Bom Conselho no ano de 1918, sendo recebido muito bem pelos fieis da paróquia. Tempos depois foi transferido para Águas Belas com a finalidade de resolver os problemas existentes entre políticos e os índios daquela cidade.

Por considerar os índios “os donos da terra”, Padre Alfredo chegou a se desentender com os políticos porque queria demarcar o patrimônio em favor dos nativos. Isto lhe custou muitos aborrecimentos levando-o, inclusive, ao Rio de Janeiro, onde em entrevista com Getúlio Vargas expôs o caso e consegui do então presidente da Republica o compromisso de proteger os índios Funiôs. De volta a Águas Belas, conseguiu despejar das terras dos índios os ocupantes que se opunham a pagar foro. Após a resolução do problema, volta para Bom Conselho, mais ou menos no ano de 1930. Dias depois se envolvendo em política, ao ponto de disputar a Prefeitura em campanha tendo adversário o seu grande inimigo Cel. José Abílio. Era tão pública sua inimizade que sempre ao se referir ao coronel chamava-o de “O amarelo”. Esta inimizade rendeu muitos episódios entre os dois. Esta eleição foi considerada muito dura. Inclusive o governador do Estado, Carlos de Lima Cavalcanti, não acreditava na vitória de Jose Abílio.
Muitos fatos ocorreram durante a campanha e a eleição, chegando a serem anuladas duas secções pelo Tribunal Eleitoral e quase um ano depois foram autorizadas as eleições complementares. Foram designados dois juízes especiais, um para cada distrito, a fim de presidir as mesmas.

(Mons. Alfredo os índios Fulniô – Águas Belas – PE – arquivo: www.google.com)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O grupo do coronel utilizou entre seus mecanismos a criação de uma ala feminina, chamada e treinada por gente de Jose Abílio. As moças tomaram as ruas do Taquari e da Prata, onde acompanhavam cada eleitor de braços dados até asa proximidades das urnas. O matuto ficava envaidecido com a presença das moças bonitas e entregava-se ao esquema como se fosse uma brincadeira. Padre Alfredo tomou suas precauções. Foi até ao juiz, denunciou que os eleitores estavam voltando sobre coação. O Juiz manda chamar José Abílio, com a finalidade de apurar a denúncia, ao que José Abílio responde com a seguinte frase: – apresentem um eleitor que votou coagido, que eu tomarei as providências!…

Como não apareceram provas, as eleições seguiram e o padre foi derrotado, cumprindo a profecia do coronel: “O povo vai ficar com o padre na igreja e com o coronel na prefeitura”.

– Assim padre Alfredo desistiu de ter um mandato público. No entanto, cresceu sua hostilidade pelo coronel, chegando a pedir ao mesmo que do coronel sempre foi bem recebida na igreja pelo pároco.

– Diante do tratamento recebido no Taquari, o padre amaldiçoou o povoado e criou a Vila de princesa Isabel, hoje conhecida por Rainha Isabel. Com o desenvolvimento de Princesa Isabel, o distrito de Taquari, que era o maior distrito de Bom Conselho, foi decaindo ao ponto de ser totalmente destruído.

Como pároco de Bom Conselho, todos os fiéis de sua época tem uma lembrança bonita do padre. Para uns ele fez o casamento, para outros batizou todos os filhos, e para outros deu primeira comunhão.
Sempre disposto mesmo quando já estava bem idoso e doente, nunca se negou a fazer um atendimento a quem quer que fosse. Não tinha horário nem expediente, viajou durante muitos anos montado a cavalo ou em lombo de burro. No final da vida usava um jeep. Viveu na mais singela humildade. Apesar der ter vindo de família abastada e ser também capitão reformado do exército, jamais demonstrou luxo ou qualquer desperdício.

Realizou grandes festas religiosas, sendo responsável pela tradição das comemorações religiosas da semana santa e da quaresma, comemorada desde a Quarta-feira de cinzas até a festa da Páscoa. De todas as festas religiosas, a maior e mais bonita sempre foi a quaresma e a semana santa, com vias – sacras, Procissão do encontro, procissão de ramos, procissão de enfermos, Lava-pés dos apóstolos, hora da agonia, procissão do Senhor morto, onde as moça da sociedade representavam as figuras bíblicas envolvidas na paixão de cristo, como: os pecados, as virgens loucas e virgens e virgens prudentes, Ben-Hur, o cego de Jericó, Santa Verônica, os apóstolos, as almas, são Tomé, todas vestidas caracterizadas como personagens, pronto para a dramatização da Paixão. Outras festas eram realizadas na paróquia como: Festa da sagrada Família, Festa de São Sebastião, Festa de N. Senhora do Bom Conselho, Festa de Santo Antônio, Festa de Nossa Senhora das Vitórias, Festa de São Francisco, além da celebração dos meses de maio e de outubro. De todas as festas apenas as de são Francisco e de Nossa do Bom Conselho eram realizadas pelos franciscanos, auxiliados pelo padre Alfredo. Havia as festas dos distritos, também realizadas sob o seu comando e sua incansável fé e liderança. Construí a ermida de Santa Terezinha, a casa do padre, na serra, para servir de local de repouso e retiro: a residência paroquial, um sobrado, chamado por ele de quixó, demolido por ocasião da construção da nova casa paroquial. Por ver muitas mulheres morrerem de parto, construiu a Pré-maternidade Mãe sertaneja, na rua Mons. Marques, uma mini maternidade, que tinha uma sala de parto equipada dos instrumentos mais usados, com pequenos apartamentos e alguns leitos para as mães pobres. Acolheu muitas mulheres para um atendimento médico ou mesmo pelos parteiros da cidade, Joaldi Soares e Dulce Guerra, pessoas que ajudaram milhares de crianças nascerem. Não esquecer dos idosos: construiu e manteve por muito tempo o Abrigo são Vicente de Paula onde recolheu diverso idoso abandonados pela família.

Após algum tempo, resolveu construir um hospital. Batalhou o terreno e começou as obras. Quando a construção já tinha mais ou menos um metro de altura, padre Alfredo adoeceu, enquanto celebrava uma missa na igreja de são Sebastião e desmaiou. Todos os fiéis ficaram surpresos e a partir deste dia ficou público o estado de saúde do pároco.

Muitos exames foram feitos, inclusive uma cirurgia, no entanto, tempos depois, precisamente no dia 29 de junho de 1964, padre Alfredo faleceu no Recife.

Vários episódios são relatados por relatados por pessoas que conviveram com ele. Os mais conhecidos são os seguintes:

Por ocasião da construção do hospital, um senhor que tinha sua casa vizinho ao terreno do hospital resolveu construir o muro da casa mais ou menos um metro adiante do terreno do hospital. Por varias vezes o padre pediu que não se construísse o muro até aquele ponto. Uma das vezes chegou a marcar com a bengala onde queria que desmanchasse. No entanto, o proprietário do muro não atendeu ao pedido do padre e no dia da sua morte, uma grande chuva caiu em Bom Conselho e o muro curiosamente caiu exatamente no local marcado pelo padre.

Outro fato curioso e de que nós tivemos noticia: Na hora em que padre Alfredo faleceu no Recife, os sinos da igreja da Aldeia, em Águas Belas, repicaram sem que tivesse alguém na igreja.

Não sabemos até que ponto pode-se considerar folclore ou não, mas todas as pessoas que viviam e que vivem até hoje podem contar estes fatos.

Na manhã do seu sepultamento a população encarregou-se de limpar a estrada que dava acesso á ermida e na hora do seu sepultamento reuniu-se uma multidão em Bom Conselho jamais vista e jamais repetida. Deixou uma carta testamento determinando suas vontades para o povo de bom conselho e distribuindo seus pertences aos parentes e amigos.

Passados 51 anos após sua morte, pessoas visitam seu túmulo, pagam promessas e alcançam graças, invocando a Santa Teresinha por meio de padre Alfredo, grandes graças e favores.

Em sua homenagem foi construído, uma praça e colocado o seu busto. Por ser de gesso, o tempo destruiu e em breve espera-se que seja colocado um novo, desta vez de um material digno do grande sacerdote que foi para Bom Conselho.

Considerações finais

Quase nenhuma fonte escrita existe sobre a vida do Monsenhor Alfredo Dâmaso, daí a grande dificuldade em se escrever sobre o mesmo. Precisamos nos debruçar sobre os depoimentos, fontes de jornais, arquivos paroquiais. Mas, o mesmo deixou-nos um belo documento que chamamos carta-testamento que resumiria um pouco a vida, a luta e o desejo desse grande presbítero que viveu muitos anos à frente do seu tempo. Passarei a transcrevê-la:

Em nome do pai, do filho e do Espírito Santo. Amém.
Sentindo-me gravemente enfermo, além da pior das enfermidades a velhice, quero deixar alguns esclarecidos e algumas determinações sobre coisas de minha pobre vida.

Estou nas mãos de Deus- Meu pai- e d´Ele aceito alegremente tudo o que ele houve disposto sobre a minha vida.

A ele peço perdão pelos meus enormes pecados e deficiências. “a ele ofereço a minha morte. Quero que ela seja um ato de amor à santíssima Trindade assim como um ato de total submissão e adoração á sua vontade Soberana. Também de amor a Santa igreja. Tenho muito medo da justiça de Deus, mas tenho uma confiança ilimitada na sua misericórdia Infinita. Sou pobre. O pouco que possuía já foi distribuído. Pouquíssimo resta. Para maior clareza desejo e determino o seguinte:

1º) Na cidade de Bom Conselho, nos fundos da casa paroquial, construí um sobradinho que determinei “O Quixó” para minha residência. Quero e faço doação deste humilde prédio á SOCIEDADE DE SÃO VICENTE PAULO – “Casa de São Vicente” que tem personalidade jurídica, para o fim de auxiliar com seus rendimentos ao “Abrigo D.Moura” ou a Casa da caridade de velhos indigentes, que temos conservado e amparado até hoje com as esmolas dos bons paroquianos. Terei o uso fruto enquanto viver e quero que seja inalienável perpetuamente. Conflito no critério justiça do nosso bispo diocesano. No alto da Ermida de Santa Teresinha, num pequeno sitio, junto á capela que tem já seu patrimônio em terra e casas de aluguel, fiz também um sobradinho para residência do Vigário ou do Capelão do mesmo modo quero que seja incorporado ao Patrimônio da Ermida, com as mesmas condições acima determinada:

2º) Biblioteca: quase desaparecida! Não convém dizer. Restam poucos livros todos eles quero que façam parte da biblioteca do meu irmão mais novo, por um educado – Jorge Pinto Damaso. Quanto porém aos livros eclesiásticos ficarão sob seus cuidados e destinado ao primeiro sacerdote da família que venha a ordenar-se futuramente.

3º) Minha casa: É paupérrima. Nunca me incomodou a falta de conforto. O meu irmão Jorge disponha de tudo como quiser –lembrando –se de deixar cadeiras e camas á casa paroquial. Lembrando –se também do Paulo e da velha Júlia.

ATENÇÃO

No caso de morte aqui no Recife – é preferível – o sepultamento aqui mesmo para evitar atrapalhação e despesa no seio da família – no chão (cova bem funda). Enterro paupérrimo. Não convém transportar para Bom Conselho. Para quê? Melhor aqui mesmo.

No caso de Bom Conselho, se morto lá – seria sepultamento no pátio da Ermida (antes da entrada do enrolado) numa rede, presente de Alfredo Canuto – rede de linho – do amazonas. E dentro do caixão da caridade, se os índios reclamarem – seria na capelinha da Aldeia. Ass: Pe. “Alfredo Pinto Dâmaso”.[2]

Referências:

[1] Doutor e mestre em Ciências da Religião pela Unicap. E-mail: gilvan.neves@uol.com.br.

[2] Carta-Testamento do Monsenhor Alfredo Pinto Dâmaso.

CELAM. Evangelização no presente e no futuro da América Latina. Conclusões de Puebla. São Paulo: Ed. Paulinas, 1979.

DÂMASO, Alfredo P. Carta Testamento, escrita em 30 de maio de 1964.

FERRO, Celina Correia. De Papacaça à Bom Conselho.Vol. 01, 1992.

TRIBUNA INDEPENDENTE, Maceió-AL, Ed. No. 2070, 2º. Caderno, pg. 3, 14 de junho de 2014.

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Monsenhor Alfredo Dâmaso: o padrinho, o santo – bem à frente do seu tempo (1)

Monsenhor Alfredo Pinto Dâmaso. Nascido no Engenho Quadrado (hoje município de São Miguel dos Campos – AL) aos 25 de janeiro de 1881, foi ordenado sacerdote no dia 19 de novembro de 1905. Trabalhou em algumas paróquias da então Diocese de Maceió e foi, depois, transferido para Bom Conselho – PE. Sua atividade sacerdotal naquelas regiões foi marcada pelo zelo pastoral e pelo cuidado para com os pobres, dentre os quais, e notadamente, os índios Fulni-ôs, de Águas Belas, em Pernambuco, e os Xucuru-Kariris, de Alagoas. A finalidade do artigo é evidenciar o quanto ele antecipou, em algumas décadas, a “opção preferencial pelos pobres” assumida pelo episcopado latino-americano na Conferência do CELAM realizada em Puebla (México), em 1979. Em decorrência do seu engajamento político-pastoral recebeu dos ricos proprietários da região o irônico apelido de “bispo dos índios”. Faleceu aos 29 de junho de 1964, com 83 anos de idade, na cidade do Recife.

  1. Da história à memória

Quando pároco na Paróquia de Santa Rita em Boca da Mata, Alagoas, a cem quilômetros de Maceió, é que ouvi falar pela primeira vez no Monsenhor Alfredo Pinto Dâmaso. Lá reside grande parte de sua família. Região onde também o mesmo nasceu em 25 de janeiro de 1881.

Foi seminarista em Olinda, Pernambuco, onde foi ordenado padre no dia 19 de novembro de 1905. Trabalhou em algumas paróquias de Alagoas e Pernambuco e sempre demonstrou através de sua ação pastoral, uma vida dedicada aos pobres, chegando a falecer em 29 de junho de 1964, aos 83 anos de idade.

A sua história de vida sacerdotal se faz valer por si só, nas paróquias em que trabalhou tanto em Alagoas (Anadia), como em Pernambuco (Bom Conselho, Águas Belas) e pelas obras materiais e sociais que construiu. Em Alagoas, seu Estado de origem, a sua atuação pastoral também tem sido lembrada, com destaque para os meios de comunicação, principalmente pelo antigo Jornal de Alagoas e Gazeta de Alagoas.

Seu cuidado pastoral nestas regiões foi marcado pelo seu zelo pastoral e seu cuidado para com os pobres, dentre eles os índios Fulni-ô de Águas Belas, os Xucuru-Kariri em Alagoas, antecipando assim há décadas a “opção preferencial pelos pobres” assumida pelo episcopado latino-americano na Conferência de Puebla em 1979.

Nas palavras de sua sobrinha-neta:

 

Lembrar do tio Alfredo Pinto Dâmaso é trazer a memória a figura humana do homem que um dia lutou por seus ideais missionários. É reviver a história de sua vida. É mostrar a gratidão daqueles que foram assistidos durante suas atividades pastorais.

Muito já foi dito, publicações diversas já destacaram seu papel missionário imortalizando seu nome através de suas obras. Todavia, nada mexe mais com nossas emoções do que quando as pessoas demonstram, ainda hoje, um sentimento de orgulho e carinho ao falarem de seus feitos. Com isso, seu legado se perpetua, tornando-o digno de reverência através dos tempos.

Seu sacerdócio foi um misto de doação, solidariedade e perseverança. Sua missão de caráter humanitário levando uma melhor qualidade de vida para seus paroquianos foi muito além de suas obrigações sacerdotais.

De forte personalidade e de visão realista lutou, com audácia e sagacidade, em busca de recursos para realizar seus projetos assistenciais, numa época em que as ações governamentais não contemplavam certas áreas da região nordeste.

Neste ponto, não poderíamos deixar de ressaltar e enaltecer seu magnífico trabalho em favor dos povos indígenas: Fulni-ô de Águas Belas- Pernambuco, Xucuru-Kariri de Palmeira dos Índios e Kariri-Xokó de Porto Real do Colégio – Alagoas, para formação de suas identidades e inserção social.[2]

 

Enfim, todo merecimento ao sacerdote que ensinou seu povo a viver melhor. Suas lembranças tem um lugar especial nos corações daqueles que compartilharam com seu trabalho. Sua história serve de exemplo para outros clérigos.

Este ano de 2020, ao completar 56 anos de seu falecimento, a sua obra mantém-se viva na memória daqueles que tiveram a felicidade de seu convívio e, mais ainda, na daqueles que receberam o seu apoio imprescindível para levantar e defender a sua causa.

Mons. Alfredo Pinto Dâmaso
Arquivo de Nadja Nara Dâmaso, sobrinha neta do Monsenhor.

Neste contexto, para entender a sua importância, vale lembrar o que aconteceu com os povos indígenas de Alagoas no século XIX. Depois de todas as atrocidades cometidas durante o período da Colonização contra a população nativa, expulsão dos territórios, escravização e extermínio, em 1872, o então presidente da Província Luiz Rômulo Peres de Moreno decretou o fim dos aldeamentos indígenas, transferindo as terras para o patrimônio público e para particulares. A partir daí os indígenas são postos no anonimato e forma-se a categoria de caboclo. Graciliano Ramos, em seu livro Caetés, refere-se aos Xucuru-Kariri como remanescentes que vivem bêbados nas periferias de Palmeira dos Índios.

Praticamente, um século depois, essas populações começam a emergir reivindicando o reconhecimento étnico e seus direitos, como a demarcação dos territórios, a assistência em educação e saúde. Nesse ínterim é que se destaca o papel do padre Alfredo Dâmaso em defesa do reconhecimento étnico e dos direitos. Pároco de Águas Belas, Pernambuco, conquistou o carinho da população Fulni-ô, chegando a receber o nome na língua nativa de Claixiua-lha, que pode ser traduzido por sacerdote maior ou “Padre Grande”.

O Jornal do Comércio de Pernambuco, escreve: “grande amigo e benfeitor dos índios de Águas Belas, Porto Real do Colégio, Palmeira dos Índios, Vila de Cimbres”. E, completa:

Durante o período em que foi pároco de Águas Belas tornou-se seu extremado defensor, de modo a desfrutar da confiança ilimitada da tribo. Bispo dos índios, dizem por morfa os perseguidores destes. (Sic).

O atual cacique de Kariri-Xokó, atualmente com mais de 80 anos, no município de Porto Real do Colégio, Alagoas, relata que acompanhava o antigo pajé Francisquinho nas viagens que faziam com as antigas lideranças Xucuru-Kariri, cacique Alfredo Celestino e Miguel Celestino, até a cidade de Bom Conselho para pedir apoio para criação de Postos Indígenas em suas áreas. O que foi atendido permanentemente pelo padre, encaminhando suas solicitações através de cartas e/ou pessoalmente junto às autoridades governamentais locais e em nível nacional.

É com este marco que, 51 anos depois de seu falecimento, gostaria de resgatar a sua memória e a importância de sua vida pastoral junto aos povos indígenas. Um século depois do decreto de extinção indígena, pode-se também celebrar, com o seu compromisso em defesa da vida, a existência de doze grupos indígenas reconhecidos no Estado de Alagoas.

REFERÊNCIAS:

CELAM. Evangelização no presente e no futuro da América Latina. Conclusões de Puebla. São Paulo: Ed. Paulinas, 1979.

TRIBUNA INDEPENDENTE, Maceió-AL, Ed. No. 2070, 2º. Caderno, pg. 3, 14 de junho de 2014.

 

 

[1] Doutor e mestre em Ciências da Religião pela Unicap. E-mail: gilvan.neves@uol.com.br.

[2] Nadja Nara Dâmaso, residente em Maceió-AL, sobrinha neta do Monsenhor Alfredo Dâmaso. Entrevista concedida no dia 20.07.2015.

 

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BEATOS/BEATAS/MESSIAS EM ALAGOAS NA SEGUNDA METADE DO SÉCULO XIX À PRIMEIRA METADE DO SÉCULO XX (3)

Os Beatos e a liderança carismática

Ao analisar comparativamente os movimentos em torno dos beatos, nos casos de Canudos, de Juazeiro e do Contestado, dentre outros, o estudioso Leonildo Silveira Campos chegou à conclusão de que eles

(…) têm características que os ligam à prática de um catolicismo popular por um lado e a conflitos com a hierarquia católica de outro. Eles ilustram bem os conflitos existentes entre religiões organizadas e os movimentos mais livres, rapidamente tachados pelos analistas como movimentos ‘rebeldes’, ‘heréticos’, ‘surtos de fanatismo’, ‘subversivos’ ou ‘revolucionários’ ( 2012, p. 23).

Pode-se afirmar, de certa forma, que é ao redor de lideranças carismáticas, definidas por Weber (1999, p. 162) como pessoas dotadas de um “dom de graça”, que se reúnem os discípulos. Essa reunião muitas vezes se faz através de uma pregação escatológica, de conversão, profecias de tempos melhores, bem como da busca de uma recompensa pelo tipo de comportamento que tiveram, seja “…assim na terra, como no céu”. 

 

O poder carismático, para Weber (1999), tem como característica fundamental a  pessoalidade de um indivíduo, e nisso ele se aproxima do poder tradicional. Mas, este poder é a antítese do tradicional: enquanto o tradicional se legitima no passado, na tradição, o poder carismático nega a tradição. (WEBER, 1999). Por sua vez, os carismáticos “…são portadores de dons físicos e espirituais específicos, considerados sobrenaturais” (WEBER, 1999, p. 323).  Este líder seria um chefe que se distinguiria do homem comum pelas suas qualidades pessoais extraordinárias, quase sobrenaturais. 

Assim, no que diz respeito a esta pesquisa, é de primordial importância o conceito weberiano de carisma. Qual outro conceito – senão o poder carismático do Franciscano, do Velho Pedro ou dos outros beatos mencionados – poderia explicar o fato de centenas de pessoas deixarem tudo e segui-los numa aventura de encontro com o divino? E, ainda mais, o fato de eles construírem, em torno de si, uma forma social, moral e religiosa desligada da sociedade vigente em seu entorno?

 

(Fonte: http://rafael-zoihn.blogspot.com/2010/11/revolta-de-canudos-1893-1897-movimento.html)

Um dos fundamentos de legitimação da dominação e ascendência exercida por certos líderes é o carisma, que teria por embasamento a confiança depositada em alguém, diferente dos demais, “..por demonstrar qualidades prodigiosas, seja por heroísmo ou por outras habilidades exemplares que fazem dele um chefe, um líder” (WEBER, 1999, p. 61).

Procurando entender o posicionamento de Weber, percebe-se que ele aponta que a submissão ao carisma profético está relacionada com a existência de certas características próprias de uma vocação pessoal, missionária, revelada e, portanto, diferente, tanto do poder sacerdotal (que depende do cargo) quanto da atividade do mago (que tem caráter de troca, onerosidade).

           Dessa maneira, a teoria weberiana ensina que a atividade profética sempre traz consigo o anúncio de uma verdade religiosa, salvífica, por ser ela uma revelação pessoal, sendo esta a sua principal característica (WEBER, 1999).

Por carisma, Weber (1999, p. 162) entende

(…) uma qualidade considerada extraordinária que se atribui a uma pessoa […], alguém dotado de forças sobrenaturais […] não acessível aos demais, ou enviada por Deus, ou como revestida de um valor exemplar.)

Weber (1999) menciona outras características do carisma importantes para a pesquisa, como o caráter irracional e a instabilidade. Pelo fato de o carisma estar ligado à pessoa do portador, com sua morte ou desaparecimento surgem dois problemas: de um lado, a questão da sucessão na função de líder, chefe da comunidade religiosa; e, do outro, a estabilidade da mensagem. Quer dizer, acontece a institucionalização, gerando uma crise que pode ser superada com o que Weber (1999) chama de “rotinização do carisma”, que é a transformação do carisma em prática cotidiana.

Conforme Weber (1999), o líder carismático não conseguiria adquirir sua autoridade sem uma legitimação carismática, pois os defensores de novas profecias sempre precisarão de legitimações deste tipo.    

 

REFERÊNCIAS:  

CAMPOS, Leonildo Silveira. Reações católicas e protestantes ao movimento sociorreligioso de inspiração messiânico-milenarista de Canudos. In: LEMOS, Fernanda (Org.). Movimentos messiânico-milenaristas. João Pessoa: Ed. Universitária da UFPB, 2012, p. 13-77.

WEBER, Max. Economia e sociedade. Brasília: Editora da UnB, 1999.

 

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BEATOS/BEATAS/MESSIAS EM ALAGOAS NA SEGUNDA METADE DO SÉCULO XIX À PRIMEIRA METADE DO SÉCULO XX (2)

  •  Os Beatos e o Mito Sebastianista em Alagoas

Maria Isaura Pereira Queiroz (2003, p. 220) menciona que “Silvestre José dos Santos, cognominado o Profeta, ex-soldado do Décimo Segundo Batalhão de Milícias”, fez peregrinações, por volta do ano de 1817, na localidade alagoana de Lage do Canhoto (hoje município de São José da Lage). E, depois de juntar muitos seguidores, foi expulso pelas autoridades, saindo daquela região para o monte Rodeador, no Estado de Pernambuco. Ali formou uma cidade encantada – a “cidade do Paraíso Celeste” – “onde tudo era perfeito e onde gozavam de imortalidade; e, se atacados, D. Sebastião os tornaria invisíveis”.

 

Foto 1 : Silvestre José dos Santos (Fonte www.google.com)

 

Este é o único movimento, no território alagoano, com características do sebastianismo ou do “encoberto”. Mas, em Alagoas, não apenas nasceram como suas terras foram percorridas por outros beatos que deram origem a comunidades; embora mais frequente em Alagoas, o fato ocorreu em outros estados. Um exemplo é o Beato José Lourenço, alagoano, que diziam ser a reencarnação do Padre Cícero Romão Batista e viveu na comunidade por ele fundada em Caldeirão – CE, entre as décadas de 20 a 40 do século passado.

Foto 2: José Lourenço
(Fonte: www.google.com)

 

Mauro Mota (1958, citado por Queiroz, 2003, p. 283) afirma que, “…ainda em Alagoas demonstrara José Lourenço pendores místicos, ingressando num grupo de penitentes”.

Não só beatos surgiram nesse universo de catolicismo místico; também tem-se notícia de mulheres, como, por exemplo, a Beata Maria,  sexagenária de estatura mediana, cor morena; usava roupas de tecido grosseiro escuro, uma espécie de hábito ou batina, com um cordão branco amarrado à cintura. Conduzia um terço ou rosário de contas grandes, pretas,  e calçava chinelos tipo franciscano. A Beata Maria instalou-se na Igreja do Rosário (Rua João Pessoa – Maceió-AL), residindo em um pequeno compartimento dos fundos da Igreja. Tomou para si o encargo de limpar os altares, lavar as toalhas, varrer, espanar os móveis e cuidar ainda de um pequeno jardim. Maria tinha dificuldade de locomoção e enxergava pouco nos seus últimos anos. Dizia ser das almas, mas, o sacristão Manoel não acreditava na estória da idosa, pois ela era sócia das almas e as espórtulas arrecadadas na igreja, que ficavam, na maioria, em seu poder, muitas vezes foram roubadas por malandros. O padre Luiz Barbosa, capelão daquela Igreja, vendo a situação da senhora, alugou uma casa próxima à Praça Floriano Peixoto e para lá a transferiu. Dois anos depois da mudança para a nova residência, a Beata Maria faleceu. O capelão fez o enterro, sepultando-a no cemitério de Nossa Senhora da Piedade. Seu túmulo é local de visitas e romarias até hoje (LIMA JÚNIOR, 1967).

Nos fins da década de 40 e início da década de 50 do século passado surgiu, no Rio de Janeiro, precisamente na Avenida Getúlio Vargas, um líder religioso que atendia pelo nome de Yokaanam. Lá, ele instalou a sede de sua seita, com o nome de Fraternidade Eclética Espiritualista Universal. Seu nome era Oceano de Araújo Sá, antigo piloto da Condor e Lufthansa, nascido em Alagoas.

Ainda podemos citar Pedro Batista da Silva, que se estabeleceu em Santa Brígida, povoado de Jeremoabo, na Bahia, onde seu movimento ficou conhecido como o “povo do velho Pedro”. A ele se refere Queiroz (2003, p. 295):

Em 1942, surge também no interior de Alagoas, um penitente de barba e cabelos grisalhos, pregando e curando; chamava-se Pedro Batista da Silva. Afirmava-se que era natural de Alagoas mesmo, mas que vivera muito tempo no sul do país, tendo sido marinheiro, estivador, soldado do exército. Visões lhe indicaram certo dia que devia regressar à terra natal, onde tinha uma missão a cumprir.

 

(Foto 3: Pedro Batista)
(Fonte: www.google.com)

 

Logo após a morte do Padre Cícero Romão Batista, que durante muitos anos atraiu para Juazeiro do Norte – CE verdadeiras multidões de romeiros de todos os estados do Norte e Nordeste, surgiu o “Franciscano”, em Alagoas. Seu nome era Antônio Fernandes Amorim, o “Beato Franciscano”; ele apareceu em 1936, na Serra de Bom Jesus, povoado de Belo Monte, hoje Batalha – AL. Envergava um hábito negro, com um enorme rosário pendurado no pescoço, na mão direita um crucifixo e anunciava, aos quatro cantos, que “…era chegada a hora da penitência”. Como a sua aparição nos sertões de Alagoas ocorreu logo após a morte do padre Cícero Romão Batista, rapidamente apareceram comparações com o patriarca do Juazeiro.

Quando o ‘Franciscano’ apareceu, pregando pelas estradas, o povo se convenceu de que ele era realmente o sucessor do padre Cícero. Suas palavras, seus gestos e seus olhos penetrantes conseguiram impressionar o bastante para que em pouco tempo, uma multidão o seguisse pelas estradas (DANTAS, 1954, p. 2). 

 

(Foto 4: Franciscano) (Fonte: Audálio Dantas)

Com o clero e a polícia intervindo sempre, foi gerada uma situação de insegurança, levando a que ele mesmo confessasse ao repórter da Folha da Tarde: “Minha vida está muito incerta, não sabe?”. (DANTAS, 1954, p.1). Naquele mesmo ano, como acontecera em eleições passadas, muita gente procurou Serra Grande para obter o apoio político do Beato Franciscano para as eleições de 3 de outubro de 1954.  Dantas escreveu:

O ‘Coronel’ Ari Maia, senhor de muitas terras, também bateu às portas do beato para solicitar apoio à candidatura de seu irmão, Reni, candidato a deputado pelo Estado de Alagoas. Acontece que ele apoiava um outro candidato, Humberto Mendes, e vinha aconselhando o povo a votar em seu nome. Ari Maia saiu de Serra Grande desiludido (1954, p. 1). 

 

A situação perdurou até 30 de julho de 1954, quando aconteceu uma tragédia, como descreveu Valois: “À noite de sexta-feira passada, registrou-se, na Vila Franciscana, situada no município de Quebrangulo, um bárbaro crime, sendo vítima o Sr. Antônio Fernandes de Amorim, conhecido por todos como ‘Beato Franciscano’.” (1954, p.5).  

E continua o autor:

Propala-se que o assassínio, praticado de uma maneira brutal e desumana, foi de origem política […] O Franciscano encontrava-se retirando uma lâmpada elétrica de um poste, quando foi alvejado pelas balas assassinas. Preparava a vila para a recepção de romeiros de vários pontos diferentes do estado que ali deveriam se encontrar para participar das comemorações do seu aniversário (VALOIS, 1954, p.5).

 

Referencias:

DANTAS, Audálio. Morreu o último santo do Nordeste. Folha da Tarde, São Paulo, 8 out. 1954. 

LIMA JÚNIOR, Félix. A última Beata. Gazeta de Alagoas, Maceió, 12 jun. 1967. Suplemento literário, p. 2.

QUEIROZ, Maria Isaura P. O messianismo no Brasil e no mundo. São Paulo: Alfa Omega, 2003.

VALOIS, Francisco. Bárbaro crime no interior de Alagoas. Assassinado o “Beato Franciscano”, figura popular no município de Paulo Jacinto – Providências para captura dos criminosos. Diário de Pernambuco, Recife,  7 ago.1954. p. 5.

 

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BEATOS/BEATAS/MESSIAS EM ALAGOAS NA SEGUNDA METADE DO SÉCULO XIX À PRIMEIRA METADE DO SÉCULO XX

Este artigo é o primeiro de uma série de artigos sobre os Beatos e Beatas em Alagoas no período de 1850 a 1950 e fez parte da minha pesquisa para a dissertação de Mestrado; consta de uma análise, a partir da especificidade do catolicismo místico beato, em Alagoas.  Alagoas foi um “celeiro de beatos”, pregadores e penitentes, que sempre granjearam muitos seguidores. A partir de uma pesquisa bibliográfica, vamos localizá-los no tempo e no espaço e, em seguida, fazer uma análise do surgimento desses beatos, beatas e Messias, e de sua trajetória, a partir de uma tipificação Weberiana de carisma e líder carismático.

  1. Introdução

O processo de evangelização no Brasil, como em Alagoas, se deve, em grande parte, à ação do povo iletrado, simples e pobre.

Povo que vem, avança, trabalha e desbrava a terra. Instala-se e forma a Igreja (= comunidade de fé) antes da chegada dos padres e das paróquias. As paróquias nascem sempre mais tarde, quando a terra já é habitada e quando já existe a Igreja-Comunidade. (QUEIROZ, 2003, p. 72).

 

A Arquidiocese de Maceió, desmembrada da Arquidiocese de Olinda e Recife, foi criada em 2 de julho de 1900, pelo Papa Leão XIII, através da bula Postremis Hisce Temporibus. Designada Diocese das Alagoas, abrangia todo o território do Estado e teve a sua instalação oficial em 23 de agosto de 1901, com a posse solene do primeiro bispo, D. Antônio Manuel de Castilho Brandão, na Catedral de Nossa Senhora dos Prazeres. Alagoano da região sertaneja de Mata Grande, D. Manuel fora  anteriormente bispo do Grão-Pará. A cerimônia de posse foi realizada num clima de euforia, soprado pelos ventos da romanização. Era preciso marcar presença, delimitar território, ter o clero e o povo sob o mais absoluto controle. Assim, seu  O primeiro grande marco de D. Antônio foi a criação de um Seminário, com ensino de Filosofia e Teologia, para a formação do clero dentro dos   nos moldes das exigências da romanização. Esta prescrição será comum com a criação das novas Dioceses, no final do século XIX e início do século XX. Assim, foi cumprida a primeira tarefa do bispo: criar o seminário, que deveria ser “a obra das obras” (HOORNAERT, 1973).

Os pobres eram objeto da caridade da Igreja, nunca da justiça. Mas, isoladamente, apareceram apóstolos que apontavam para outro caminho, como Frei Caetano de Messina e Padre Ibiapina, exemplos de uma alternativa no lidar com o povo e sua religião. “A fidelidade do povo do interior à Igreja Oficial não era incondicionada. Os sertanejos dispunham de um ideário religioso próprio. Era um catolicismo autônomo e leigo, expressão específica de sua vida” (OTTEN, 1990, p. 301).

(Foto nº 1 – Arquivo do autor)

A partir do século XIX, com o acirramento da romanização da Igreja Oficial, o monopólio gerencial dos bens religiosos, da salvação, estava cada vez mais nas mãos do clero. E o crescimento das exigências para se ter acesso a estes bens condicionou a subsistência de uma grande classe de agentes religiosos na zona rural, que continuaram a produzir, embora sejam desconhecidos, marginalizados e até combatidos pelo clero. Criou-se, assim, um submundo católico de atividades múltiplas, que talvez sejam identificadas pelas autoridades eclesiásticas como magia, feitiçaria, abuso, mas nem por isso deixam de existir e proliferar na vida rural católica. Dentre esses agentes, os beatos foram os que mais ajudaram a conservar a forma rural do catolicismo em muitos povoados e fazendas, chegando até a provocar e liderar verdadeiros movimentos messiânicos.

Hoornaert (1997) afirma que os beatos e beatas que surgiram em meados do século XIX eram como a ponta de um iceberg de uma estrutura rígida que tinha muito a ver com o que – mais na perspectiva do pensamento de Thales de Azevedo do que na de Roger Bastide – estávamos acostumados a chamar de “religiosidade popular”. E que estas figuras de cunho social e eclesial foram se delineando com contornos “fluidos e imprecisos”, em razão da falta de documentação escrita.

Fui aprendendo que os beatos não podiam simplesmente ser considerados ‘leigos’, no sentido que o Direito Canônico atribuiu a essa palavra, pois não agiam ao lado dos padres no seio de uma mesma Igreja hierárquica, mas, sim, experimentavam uma experiência eclesial específica, dentro do mesmo campo religioso católico (HOORNAERT, 1987, p. 16).

O beato vive de esmola, se faz casto e a sua função é ser útil ao próximo: é um tipo de serviço social, feito principalmente nas rezas pelos vivos e pelos mortos. Somente depois de algum tempo de exercício de sua vocação é que ele é reconhecido pelo povo como “beato”.

Ainda segundo Hoornaert (1983) foi instalada, dessa maneira, uma alternativa de poder na Igreja do Brasil: um poder dividido entre a instituição eclesiástica, ligada ao sistema colonial, e o livre caminhar para os santuários que surgiram por toda a parte. Claro que, nestas condições, a Igreja começou a perceber a importância das romarias e a tentar recuperar as forças vivas que nelas se manifestavam.

Referencias:

HOORNAERT, Eduardo. Verdadeira e falsa religião no Nordeste. Salvador: Editora Beneditina, 1973.

______. Ambientes e movimentos alternativos. In: HISTÓRIA da Igreja no Brasil. Petrópolis: Vozes, 1983. T. II/1.

______. Os anjos de Canudos: uma revisão histórica. Petrópolis: Vozes, 1997.
OTTEN, Alexandre. Só Deus é grande. São Paulo: Loyola, 1990.
QUEIROZ, Maria Isaura P. O messianismo no Brasil e no mundo. São Paulo: Alfa Omega, 2003.

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 O Papa Francisco e o Sínodo da Amazônia (3)

           No dia 12 de fevereiro, com a Exortação Apostólica pós-Sinodal do Papa Francisco, Querida Amazônia, fruto do Sínodo dos Bispos, realizado em outubro de 2019, no Vaticano, “dirigida ao povo de Deus e a todas as pessoas de boa vontade”.

 

(Fonte: www.google.com)

 

Compreender as linguagens, o que elas contêm, é um dos grandes desafios. Nesse sentido, é importante entender o que os documentos do processo sinodal contêm, especialmente Querida Amazônia, e que poderíamos considerar como aquele em que o Papa Francisco se expressa mais pessoalmente, a partir do seu coração de pastor.

A exortação foi escrita em quatro capítulos, os sonhos expressos pelo Papa Francisco: o sonho social, o sonho cultural, o sonho ecológico e o sonho eclesial.

O sonho social expressa o seu desejo de uma Igreja ao lado dos pobres, denunciando “a devastação ambiental da Amazônia”. Onde, os povos originários, afirma, sofrem uma “sujeição” seja por parte dos poderes locais, seja por parte dos poderes externos. Para o Papa, as operações econômicas que alimentam devastação, assassinato e corrupção merecem o nome de “injustiça e crime”.

Ao sonho cultural, é dedicado o segundo capítulo da “Querida Amazonia”. O Papa esclarece que “promover a Amazônia” não significa “colonizá-la culturalmente”.
Para Francisco, é urgente “cuidar das raízes” (33-35). Citando as Encíclicas anteriores, Laudato si’ e Christus vivit, destaca que a “visão consumista do ser humano” tende a “a homogeneizar as culturas” e isso afeta sobretudo os jovens. A eles, o Papa pede que assumam as raízes, que recuperem “a memória danificada”.
O terceiro capítulo, o sonho ecológico, é enfatizado um “Sonho com uma Amazônia que guarde zelosamente a sedutora beleza natural que a adorna, a vida transbordante que enche os seus rios e as suas florestas.”

O sonho eclesial, onde duas palavras do Papa resumiriam esse sonho: renovação e criatividade: é o sonho eclesial do Papa. O último capítulo do documento pontifício é dedicado aos desafios que a Igreja é chamada a enfrentar na região.
“Sonho com comunidades cristãs capazes de se devotar e encarnar de tal modo na Amazônia, que deem à Igreja rostos novos com traços amazónicos.”

(Fonte: www.google.com)

 

Todos esses aspectos apontam para um itinerário de trabalho que precisa de continuidade. O documento não é, portanto, a ‘última palavra’; ao contrário, quer provocar a avançar e a aprofundar as tantas questões que dizem respeito à obra da evangelização, em primeiro lugar junto à região Pan-Amazônica.

Lendo a Querida Amazônia, somos arrebatados pelo encantamento de muitas expressões do Papa  Francisco, como: “Somos água, ar, terra e vida do meio ambiente criado por Deus. Por conseguinte, pedimos que cessem os maus-tratos e o extermínio da ‘Mãe Terra’. A terra tem sangue e está sangrando, as multinacionais cortaram as veias da nossa ‘Mãe Terra’” [n. 42].

Mas, fica um questionamento: a Querida Amazônia do Papa Francisco não é querida por alguns, e quem são eles?

Certamente, ela não é “querida” pelo presidente do Brasil, Jair Messias Bolsonaro e seus ministros, da extrema direita, antiamazônicos e anti-indígenas. Ela não é “querida” pelos madeireiros, nem pelos “garimpeiros” do ouro e pelas empresas nacionais e internacionais que pensam nas minas, nas hidrelétricas e na exploração das riquezas naturais amazônicas. Mas isso era de se esperar.

Esperamos que essa forma carinhosa e respeitosa utilizada pelo Papa Francisco tenha ressonância na vida e nos corações daqueles  e daquelas que continuam sonhando e lutando por um mundo melhor, igualitário onde os sonhos expressos pelo Papa sejam realidade e não mais um pesadelo vivido.

 

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