Ricardo Ramalho

O surreal Dia da Árvore de Alagoas

Uma movimentação da mídia e dos órgãos governamentais estaduais e municipais voltou-se, nos últimos dias, para o Dia da Árvore. Observou-se um festival de ações em torno da data, para a importância das árvores na convivência humana, com a natureza. Nada mais justo e acertado para essa atenção, não fora a verdadeira deseducação ambiental que promoveu. Inicia-se pela data que não é formalmente válida para o Estado. Um decreto federal de décadas passadas (55.795/65) instituiu, acertadamente, que o 21 de setembro se limita aos estados do Sul do país. Para o Norte e Nordeste, criou-se a Festa Anual das Árvores, a transcorrer na última semana de março. Entretanto, a confusão de datas seria de pouca valia, para tão importante personagem, se não representasse uma conduta errônea, que desconsidera o clima da região.

O nosso despreparo educacional é de tal magnitude que nos faz esquecer que estamos iniciando uma das duas estações de clima que se admitem em nossa região: o verão que acontece após o inverno. Ao que parece, não se tem conhecimento de tão simples e, provavelmente, milenar alternância climática e que as árvores para crescerem, quando plantadas, necessitam de umidade das chuvas, que escasseiam em todo Estado. Foi, exatamente, o espírito do decreto federal ressaltado, o de conciliar o clima favorável ao seu adequado plantio. Assim, no afã de seguir o noticiário do Sul e da absurda descontextualização do ensino, governo, escolas, instituições das mais diversas características se lançaram nessa surreal comemoração. Vimos enormes outdoors saudando a árvore, notas públicas comemorativas de órgão governamentais e a mais equivocada das ações para plantios de árvores, em pleno verão: a distribuição de mudas.

As mudas são comparadas a bebês vegetais. Requerem cuidados especiais quando são retiradas dos viveiros de produção, daí se denominar “berço” e não “cova” a perfuração do solo que a receberá. O berço deve ser suprido de adubo e, sobretudo, água, em abundância. A distribuição de mudas, sem critérios e orientação, em uma época inapropriada para plantio sem a disponibilidade de irrigação constante, representa uma sentença de morte para as frágeis árvores em miniatura além do desperdício de recursos.

O surrealismo na educação ambiental, contudo, não para na data referida. Começa outro mecanismo bizarro de imitação do que faz o Sul: a chegada da Primavera! Ora, ora, os mais primários ensinamentos de geografia e climatologia afirmam que as conhecidas quatro estações não são bem definidas no Nordeste, tampouco é a estação das flores. Nos dois principais biomas de Alagoas, a Caatinga e a Mata Atlântica, as flores não estarão abundantes, nessa pretensa primavera que se inicia. A chegada do verão no primeiro, prenuncia a queda das flores e no segundo, ainda, chegará a alguns dias a plenitude florística que embelezará mais nossas matas e jardins.

Conheçamos mais a natureza e seus efeitos, sobre todas as formas de vida que coabitam em nosso Planeta. Sem essa sabedoria, não compreenderemos como viver em equilíbrio e harmonia.

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Por Ricardo Ramalho

Reconectando com a Natureza

Nossos sentidos necessitam de aproximação com as características da Natureza, da beleza de seus aspectos e complexidades.

A reconexão com os processos naturais, na atualidade, tem sido uma busca generalizada dos humanos. Percorrer essa trilha deslumbrante, nos arremessa ao intenso uso de nossos sentidos básicos. Mas, não basta uma aproximação fria, mecanicista. Requer emoção, afeto, paixão pela Natureza e seus inúmeros componentes. Exige o uso sensorial que nos iguale, nos coloque na real posição, enquanto mera espécie viva, dentre um inimaginável caudal de outras formas de vida.

Nossos sentidos necessitam de aproximação com as características da Natureza, da beleza de seus aspectos e complexidades. Um olhar acurado para as cores e formas dos elementos naturais, nos descobrem matizes e modelos desconhecidos. Nosso olfato se inebria com odores inusitados de folhas, flores, frutos, da terra. Sentir, com o tato, superfícies dessas composições naturais é um prazer para quem deseja esse retorno ao natural, ao simples. Ouvir os pássaros, os insetos, o ranger dos ramos, o coaxar das rãse até o silêncio que acorda o espírito. Degustar sabores, encontrando requintes da culinária saudável, do doce ao salgado, do amargo ao ácido, mesclados ao apimentado.

Essa vereda de sentimentos que afloram, nos reaproxima da Natureza. Caminhar nessa direção nos afastará da desolação que nos afeta nesses difíceis tempos. Vivenciar um modelo que produza o bem viver, é a proposta.

Por Ricardo Ramalho

Respirando o Bem Viver Comum

A reflexão nos ajuda a superar crises e obstáculos de nosso viver. Impulsiona na busca das utopias e enlevos da existência humana. Com esses sentimentos, enfrentamos o atual estado de espírito que nos comove.

Um debate intenso e muitas vezes rudimentar, coloca em faces opostas, visões de prioridades econômicas e de salvar vidas, diante da pandemia. Como barco sem rumo, navegamos por essas águas revoltas do comportamento humano. Dominados por um projeto de sociedade consumista, antropocêntrico, antiecológico e, eminentemente, especista, estamos atordoados por um inimigo ardiloso e de capacidade destrutiva inimaginável.

Envoltos pela proposta da sociedade contemporânea, coberta por preceitos do que se denomina de “felicidade de vitrine”, corremos, de forma célere e avassaladora, para alcançar objetivos voláteis, fluidos, que se desmancham aos solavancos da reinante insustentabilidade dos princípios elementares de fatores ambientais. De súbito e, rapidamente, surge um vírus que derruba pilares dessa “sociedade líquida” para usar mais um conceito em discussão, na atualidade. Descobrimos que a humanidade, ciosa dos avanços tecnológicos e arrogante em sua composição de seres vivos inteligentes, percorre um sistema frágil de inter-relação com a natureza e alimenta uma cruel desigualdade, entre seus participantes.

Mesmo antes da hecatombe sanitária universal, se alardeavam sinais de falência do modelo econômico e ameaças ambientais graves, como as mudanças climáticas, para muitos, o próximo desafio vital que o mundo enfrentará. Há, felizmente, uma tímida, mas, consistente reação se formando. Acessamos textos iluminados que abordam essa mudança de comportamento social e de valores. A natureza dessa abordagem não comporta citações. Apenas nos inspiramos nesses novos pensamentos que apontam alternativas para um projeto futuro de sociedade. Será fundado em paradigmas que valorizem o “luxo supremo”. Aquele que não se atrela, exclusivamente, ao poderio econômico, mas, que considera a saúde, água limpa, animais livres, matas e florestas preservadas. Que oferece tempo, esse bem postergado, por um modo de vida acelerado e robótico. Tempo para pensar, ouvir boas músicas, ler, descobrir beleza nas coisas, dançar, até sozinho. Observar, com serenidade o pôr do sol, o nascer da lua, o brilho das estrelas. Saber perdoar pessoas, compreender quem pensa diferente, tolerar oponentes. Admitir seus defeitos e rir deles. Uma série de condutas que nos retire dessa roda viva de celeridades e urgências indefinidas.

A construção de novas dinâmicas sociais se revela como um caminhar que nos leve a utopias para um Bem Viver que se espraie, coletivamente. Um Bem Viver Comum que se afaste da linearidade dos princípios regidos pelos ditames do deus moderno: o mercado. Ressignificando a vida, dentro de um contexto de comunhão com a Terra, nossa casa comum. Desponta, assim, a Agroecologia, como uma ciência em formação, demonstrando possibilidades para uma relação harmoniosa com o meio ambiente. Confluem, nessa direção, tendências que fortalecem essa diretriz, a exemplo da Permacultura, a Bioconstrução, os Sistemas Agroflorestais. Enraízam-se, nessa movimentação, decisões pelo retorno à vida natural, a alimentação saudável, à simplicidade, ao minimalismo e consumo responsável. Portanto, a vida em primeiro plano.
Muitas postagens circularam na internet, atribuídas a intelectuais e pensadores. Independente da autoria incerta, encerram, em linhas gerais, essa procura por um amanhã que não seja surpreendido, por situações de colapso, como a que vivenciamos. Anunciam encaminhamentos alternativos, à trilha dominante, adotada pela humanidade. Arremetamo-nos nessas veredas.

É fundamental se libertar do jugo do Produto Interno Bruto (PIB), essa abstração monetária que move a economia de forma fria e implacável, somando “riquezas” que empobrecem a maioria, pela cruel desigualdade, na qualidade de vida dos povos. Formular um novo índice, que exprima o Bem Viver, comum aos mais diversos segmentos sociais. Investir em áreas que produzam felicidade sustentável como energias limpas, saneamento em suas vertentes básicas, de acesso à agua potável, esgotamento, drenagem urbana e tratamento do lixo. Redistribuir renda, perseguindo níveis com menor discrepância nos valores. Praticar uma agricultura regenerativa que alimente a biodiversidade, diminua a geração de resíduos e a fome, livre das tarefas penosas e prejudiciais à saúde ambiental. Cultivar a terra, sobretudo, observando a teia da vida e dela se aproveitando, em benefício de todos. Reduzir o consumo, o luxo orgiástico, o esbanjamento dos recursos naturais, compreendendo que são finitos. Empreender sempre visando o labor colaborativo e edificante. Valorizar o capital humano, estimulando a participação de todos. As pessoas movem o mundo. O fluxo de caixa, a estrutura logística, são instrumentos subalternos a esse capital.

Ética, ética! Parece escondida, espreitando um mundo, em velocidade incontida, que não podia parar. Que ressurja e inspire uma nova civilização, escudada, sobremodo na exemplaridade, essa força que remove montanhas de iniquidades e faça “a boa nova” andar nos campos e cidades, “semeando canções no vento”. Que edifique vivências e ações sob um mandato sublime e definitivo: todo poder à vida!

*Obrigado a Alberto Cabus, Bauman, Beto Guedes, Boaventura de Souza, Chomsky, Osman Giraldo, Edgar Morin por me doarem, sem permissão prévia, pensamentos e ideias que me fizeram respirar e inspirar, nesta pandemia.

(*) Ricardo Ramalho é engenheiro agrônomo 

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Por Redação