
Webinar debate riscos e ética nos investimentos em leis de incentivo
Criadas como instrumentos de política pública para fomentar a cultura, o esporte, a ação social e iniciativas de interesse coletivo, as leis de incentivo fiscal têm sido cada vez mais alvo de questionamentos jurídicos e éticos.
Esse foi o ponto de partida do webinar online ‘Vantagem Indevida para o Investidor no âmbito das Leis de Incentivo: riscos legais e melhores práticas’, realizado no mês passado pelo Instituto Ethos, em parceria com a ABCR (Associação Brasileira de Captadores de Recursos). O evento reuniu juristas, especialistas em compliance, representantes de empresas e organizações do terceiro setor para discutir os riscos de vantagem indevida a investidores privados e os desafios de preservar a legitimidade desses mecanismos.
Ao longo do encontro, os participantes destacaram que o problema central não está necessariamente em práticas fraudulentas evidentes, mas em zonas cinzentas da legislação que permitem a apropriação privada de instrumentos concebidos para gerar valor público. Segundo os debatedores, a simples conformidade formal com a lei já não é suficiente para afastar riscos legais e reputacionais.
Um dos temas mais recorrentes foi a distinção entre incentivo legítimo e benefício indevido. Especialistas alertaram que, em muitos casos, o investidor passa a obter retornos indiretos, como exposição excessiva de marca, fortalecimento de relações comerciais ou influência sobre decisões estratégicas do projeto, que podem caracterizar desvio de finalidade. Mesmo sem ganho financeiro direto, esses benefícios podem ser entendidos como vantagem indevida.
Do ponto de vista jurídico, foi ressaltado que a interpretação das leis de incentivo tem evoluído para uma abordagem mais material e finalística, especialmente por parte dos órgãos de controle. Tribunais de contas, controladorias e o Ministério Público têm ampliado o escopo das análises, avaliando não apenas a regularidade documental, mas também se o projeto, na prática, cumpre os objetivos de interesse público que justificaram a renúncia fiscal.
Nesse contexto, a definição de contrapartidas surgiu como um dos principais focos de atenção. Embora a legislação permita determinadas formas de visibilidade institucional, especialistas alertaram para o risco de contrapartidas excessivas ou mal delimitadas. A utilização de projetos incentivados como ferramentas de marketing, relacionamento comercial ou fortalecimento de marca foi apontada como uma das práticas mais sensíveis e potencialmente problemáticas.
Os participantes observaram que, em muitos casos, há uma assimetria de poder entre investidores e organizações proponentes, o que pode comprometer a autonomia dos projetos. A dependência financeira de grandes patrocinadores pode levar a concessões indevidas, enfraquecendo a governança e ampliando a exposição a questionamentos legais e administrativos.
A responsabilidade das empresas investidoras foi outro ponto central do debate. Especialistas em compliance destacaram que os incentivos fiscais devem ser tratados como investimentos sujeitos aos mesmos critérios de integridade aplicáveis a qualquer outra operação corporativa. A utilização desses mecanismos apenas como estratégia de otimização fiscal ou reputacional, sem avaliação adequada de riscos, pode resultar em danos significativos à imagem institucional.
Além dos riscos legais, os participantes ressaltaram os impactos reputacionais associados a eventuais irregularidades. Em um ambiente de maior escrutínio público e de crescente exigência por transparência, empresas envolvidas em controvérsias relacionadas a incentivos fiscais podem enfrentar perda de credibilidade junto a consumidores, investidores e à sociedade civil.
Do lado das organizações executoras, o debate enfatizou a necessidade de fortalecer estruturas internas de governança, compliance e prestação de contas. A ausência de políticas claras de integridade, a fragilidade nos controles internos e a concentração excessiva de decisões foram apontadas como fatores que aumentam a vulnerabilidade a irregularidades.
Os participantes também discutiram o papel do poder público na fiscalização e no aperfeiçoamento dos mecanismos de incentivo. Embora reconheçam a importância desses instrumentos para viabilizar projetos relevantes, os especialistas defenderam critérios mais claros, maior transparência e processos de acompanhamento mais eficazes, capazes de reduzir ambiguidades e prevenir abusos.
Nesse sentido, foi destacada a necessidade de revisão e atualização das próprias leis de incentivo, de modo a alinhá-las a princípios contemporâneos de integridade, sustentabilidade e critérios ESG. Para os debatedores, a ausência de parâmetros objetivos sobre contrapartidas e benefícios permitidos cria insegurança jurídica tanto para investidores quanto para proponentes.
Como encaminhamento prático, o evento apresentou um conjunto de boas práticas para mitigar riscos. Entre elas estão a definição clara e documentada das contrapartidas, a separação rigorosa entre interesses comerciais e o investimento incentivado, o fortalecimento de políticas de compliance e a adoção de mecanismos robustos de prestação de contas.
Outra recomendação foi a promoção de maior transparência na comunicação dos projetos, com divulgação clara dos critérios de seleção, dos valores investidos e dos impactos gerados. Segundo os especialistas, a transparência é um dos principais instrumentos para fortalecer a confiança pública e reduzir a percepção de favorecimento indevido.
Ao final do encontro, prevaleceu a avaliação de que a sustentabilidade das leis de incentivo depende da credibilidade do sistema como um todo. Qualquer percepção de uso indevido ou de benefício privado excessivo compromete não apenas projetos específicos, mas a legitimidade do próprio mecanismo de renúncia fiscal.
Para os participantes, preservar as leis de incentivo como instrumentos de política pública exige uma atuação responsável e coordenada de todos os atores envolvidos, incluindo empresas, organizações, poder público e sociedade civil. Mais do que cumprir a letra da lei, é necessário respeitar seu espírito, garantindo que os recursos públicos mobilizados por meio de incentivos gerem efetivamente valor coletivo.
Gratuito, o webinar está disponível no YouTube para quem não pôde acompanhá-lo ao vivo.
Lei Rouanet alcança pico histórico de investimentos em 2025
18 de janeiro de 2026 12:49 por Vanderlei Tenório
O ano começou com boas notícias para o setor cultural brasileiro. A Lei Rouanet voltou a registrar crescimento expressivo e, em 2025, atingiu o maior volume da sua história pelo terceiro ano consecutivo. Foram R$ 3,41 bilhões captados via renúncia fiscal, 12,1% a mais que em 2024 e 45,1% acima de 2023, quando a captação somou R$ 2,35 bilhões, segundo dados do Sistema de Apoio às Leis de Incentivo à Cultura (Salic).
Hoje, 4.866 projetos culturais estão em execução com apoio da Lei, contemplando todas as 27 unidades da Federação. O crescimento da captação ocorreu em todas as regiões. O Norte se destacou, com um salto de 81,4%, passando de R$ 64,6 milhões em 2023 para R$ 117,2 milhões em 2025. O Centro-Oeste quase dobrou seus números, alcançando R$ 128,2 milhões, e o Nordeste também apresentou avanço significativo, de 57,4%, chegando a R$ 233,9 milhões. Já o Sul captou R$ 479,7 milhões e o Sudeste manteve a liderança absoluta, com R$ 1,72 bilhão. Esses números refletem a política de descentralização da Lei, que busca incluir regiões historicamente menos favorecidas pelos mecanismos de fomento.
O impacto da Rouanet vai além da captação. Em 2024, o setor cultural empregava 5,9 milhões de pessoas no Brasil, mantendo 5,8% da população ocupada — a maior marca desde 2014. Entre os estados, São Paulo (7,6%), Rio de Janeiro (7%) e Ceará (7%) concentraram a maior proporção de trabalhadores no setor, enquanto Acre (2,7%), Amapá (2,8%) e Rondônia (2%) tiveram os menores índices.
Nas capitais, destacaram-se Florianópolis (10,7%), São Paulo (10,1%) e Manaus (9,4%). A informalidade é alta em algumas regiões, como Roraima (76,9%), Pará (74,1%) e Tocantins (71,5%), mas menor em Santa Catarina (30%), Rio Grande do Sul (32,6%) e Paraná (33,2%). Segundo o IBGE, a principal categoria de trabalhadores culturais é o profissional por conta própria (43%), seguido dos empregados do setor privado com carteira assinada (34,4%) e sem carteira (14,3%).
A Lei Rouanet é responsável pela manutenção de centenas de instituições culturais em todo o país, incluindo o MASP (SP), Museu do Amanhã (RJ), Instituto Inhotim (MG), Museu Oscar Niemeyer (PR), Museu Paço do Frevo (PE), Museu da Amazônia (AM), Museu Nacional da Cultura Afro-brasileira (BA) e Casa da Vovó Dedé (CE).
Além disso, viabiliza mais de 400 festivais de arte e eventos contínuos, entre eles o Festival de Teatro de Curitiba (PR), Festival de Cinema de São Paulo (SP), Festival Internacional de Arte Naif (PB) e Festival Favela Cria (RJ). Festivais de cultura popular em municípios menores também são apoiados, como o Festival da Galinha Recheada (RS), Festival Folclórico de Silves (AM) e Festival Nacional de Danças Folclóricas de Blumenau (SC).
Mais de 600 iniciativas de formação artística recebem recursos da Lei, como Talentos da Amazônia (AM), Instituto Baccarelli (SP), Teias da Juventude (CE), Orquestra Jovem de Maragogi (AL) e Escola do Teatro Bolshoi no Brasil (SC). Cerca de 120 grupos e coletivos também são mantidos, incluindo o Grupo Corpo (MG), Grupo Galpão (MG), Grupo de Teatro Palha (PA), Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo e o bloco carnavalesco Ilê Aiyê (BA).
O incentivo ainda apoia ações de empreendedorismo cultural em territórios vulneráveis, com projetos como Expo Favela (SP), Programa Jovem de Expressão (DF), Conexão da Periferia (GO), Prêmio Pretas Potências (SP) e PerifaImpacto (SP).
Nos últimos anos, o teatro musical consolidou-se como um segmento em expansão, promovendo emprego e turismo cultural. Hoje circulam pelo país 106 espetáculos, entre eles Elza, o Musical, Tom Jobim Musical, Rita Lee – Uma Autobiografia Musical, Torto Arado, o Musical, Tim Maia – Vale Tudo, Djavan – Vidas pra Contar e Ney Matogrosso – Homem com H.
No ano passado, ao completar 34 anos, a Lei Rouanet totalizou R$ 33,6 bilhões em investimentos nominais (R$ 60,5 bilhões corrigidos), gerando uma movimentação econômica de R$ 441,7 bilhões, segundo pesquisa da FGV, e impactando praticamente todos os setores produtivos do país. Esses números mostram que o incentivo cultural não apenas mantém a arte viva, mas também dinamiza a economia e amplia oportunidades em todo o território nacional.
Cultura como investimento: estudo da FGV analisa efeitos econômicos da Lei Rouanet
18 de janeiro de 2026 12:52 por Vanderlei Tenório
A Lei Rouanet, frequentemente alvo de debates públicos e disputas narrativas, passa a ser analisada com base em dados consolidados a partir da Pesquisa de Impacto Econômico da Lei Rouanet, lançada no dia 13, em São Paulo, pela Fundação Getulio Vargas (FGV) (confira o lançamento aqui).
Encomendado pelo Ministério da Cultura (MinC) e pela Organização dos Estados Ibero-Americanos (OEI), o estudo apresenta o levantamento mais amplo já realizado sobre os efeitos econômicos e sociais do principal mecanismo de incentivo à cultura no Brasil desde a sua criação, há 34 anos.
A pesquisa adota uma abordagem estrutural da economia da cultura, tratando os projetos incentivados não como ações isoladas, mas como partes de uma cadeia produtiva complexa, que envolve criação artística, serviços técnicos, logística, comunicação, turismo, comércio e arrecadação tributária.
Com base em metodologias internacionais utilizadas na mensuração da economia criativa, o levantamento aponta que, para cada R$ 1 investido por meio da Lei Rouanet, R$ 7,59 retornam para a economia e para a sociedade, índice de alavancagem que posiciona a política cultural entre os instrumentos públicos de maior retorno econômico proporcional.
Os dados referentes a 2024 ajudam a dimensionar esse impacto. No período, cerca de R$ 3 bilhões foram captados por meio da Lei Rouanet, viabilizando a execução de 4.939 projetos culturais, apresentados por 3.154 proponentes distribuídos por todas as regiões do país. Esses projetos movimentaram aproximadamente R$ 27,5 bilhões na economia brasileira, considerando impactos diretos, como pagamentos a artistas, técnicos e fornecedores, e impactos indiretos, relacionados ao consumo induzido e à ativação de setores complementares.
Um dos aspectos destacados pelo estudo é a pulverização dos recursos. Dos cerca de 567 mil pagamentos registrados, 76% corresponderam a valores de até R$ 1 milhão, o que contraria a percepção de concentração excessiva dos investimentos em poucos grandes projetos. A análise indica que o mecanismo tem atendido de forma significativa iniciativas de pequeno e médio porte, contribuindo para a diversidade cultural e para a descentralização econômica.
O levantamento também evidencia a capacidade da Lei Rouanet de induzir investimentos adicionais. Cerca de 22% dos projetos apoiados conseguiram captar recursos fora do mecanismo, somando R$ 579 milhões em aportes financeiros complementares e R$ 305 milhões em apoios não financeiros, como cessão de espaços, serviços, comunicação e infraestrutura. Para os pesquisadores, esse efeito demonstra que a política pública funciona como um catalisador de parcerias e amplia o alcance econômico das iniciativas culturais.
Ao considerar o conjunto dos impactos diretos e indiretos, a pesquisa estima que os projetos analisados movimentaram R$ 25,7 bilhões na economia brasileira, sendo R$ 12,6 bilhões em impactos diretos e R$ 13,12 bilhões em impactos indiretos. Diante de um investimento total de R$ 3,3 bilhões, incluindo a renúncia fiscal e outras fontes de financiamento, o índice de retorno reforça a interpretação da Lei Rouanet como um mecanismo de investimento público com elevado efeito multiplicador.
No campo do trabalho, os efeitos também são expressivos. A execução dos projetos foi responsável pela manutenção ou criação de mais de 228 mil postos de trabalho, dos quais 153 mil diretos e 75 mil indiretos. Esses números abrangem artistas, produtores, técnicos de som e luz, profissionais de montagem, transporte, comunicação, hotelaria e outros serviços associados, evidenciando o caráter transversal da economia cultural.
A arrecadação tributária é outro ponto central do estudo. Apenas em 2024, as atividades relacionadas aos projetos incentivados geraram aproximadamente R$ 3,9 bilhões em impostos municipais, estaduais e federais. O valor supera o montante da renúncia fiscal, reforçando o argumento de que a Lei Rouanet não representa um custo para o Estado, mas um investimento com retorno econômico e social mensurável.
Durante o lançamento da pesquisa, o Ministério da Cultura apresentou ainda o Painel de Impacto Econômico da Lei Rouanet, ferramenta digital desenvolvida em parceria com a FGV e a OEI e integrada ao portal oficial da pasta. Alimentada com dados do Sistema de Apoio às Leis de Incentivo à Cultura (Salic), a plataforma reúne indicadores do setor cultural em gráficos e tabelas interativas, permitindo análises por área cultural, região geográfica e volume de investimentos. A iniciativa busca ampliar a transparência da política cultural e oferecer subsídios tanto para gestores públicos quanto para pesquisadores, empresas e agentes do setor.
Ao sistematizar dados que antes estavam dispersos, o estudo da FGV contribui para qualificar o debate público sobre a Lei Rouanet, deslocando a discussão do campo da opinião para o terreno da evidência empírica e reafirmando o papel da cultura como eixo estratégico do desenvolvimento econômico e social no país.
A versão integral da pesquisa realizada pela FGV está disponível para consulta online (leia aqui).
Do número à notícia: como ONGs podem transformar dados em narrativas?
4 de setembro de 2025 7:46 por Vanderlei Tenório
Usar dados é uma das formas mais eficazes para dar visibilidade às organizações sociais. Números conferem credibilidade e aumentam as chances de uma pauta ser escolhida por jornalistas, que precisam sempre contextualizar a ação local de uma ONG dentro de uma realidade social mais ampla. Um projeto que atendeu vinte pessoas pode parecer pequeno, mas, se esse número for comparado com a taxa de abandono escolar de um bairro, ou com índices nacionais de analfabetismo, ele se torna muito mais relevante.
O dado, portanto, funciona como um gancho que transforma histórias em notícias.
É importante lembrar que, mesmo na era das redes sociais e dos influenciadores, a imprensa continua a ter um papel central. Grande parte das informações que circulam no espaço digital ainda nasce em reportagens. A imprensa não apenas legitima e amplia a voz das ONGs, como também é um pilar da democracia, responsável por dar visibilidade tanto a boas práticas quanto a denúncias necessárias.
Para dialogar com esse campo, é essencial compreender a lógica jornalística. Um texto noticioso geralmente começa pelo lead, que concentra as informações mais relevantes — quem, quando, onde, como e por quê. No segundo parágrafo, aparecem os dados que contextualizam o tema, seguidos de exemplos concretos, como a história de uma pessoa atendida. Por fim, vem a conclusão, que reforça impacto ou necessidade. Ao elaborar releases, as ONGs podem imitar esse formato, facilitando o trabalho do repórter.
Os números utilizados podem vir tanto da própria organização (quantidade de atendidos, perfil do público, resultados alcançados), quanto de fontes públicas. Entre elas, destacam-se o IBGE, o Atlas da Violência, o DataSUS, o INESC, a Oxfam e observatórios sociais. É importante buscar sempre dados atualizados e, sempre que possível, recortes locais ou regionais, que dialoguem com a realidade onde a ONG atua.
Transformar números em narrativas atraentes requer algumas estratégias simples. Usar proporções — “de cada dez jovens atendidos, sete conseguiram emprego” — torna o dado mais concreto. Comparar com a média nacional dá dimensão ao impacto: “Enquanto no Brasil 18% dos jovens abandonam a escola, no bairro X nossa ONG reduziu esse número para 5%”. Contrastar dados ajuda a evidenciar desigualdades, como na comparação entre salários de homens e mulheres. E números redondos, como “dez anos de atuação” ou “mil atendimentos”, costumam chamar a atenção da imprensa. Recursos visuais, como tabelas e infográficos, podem complementar o release e facilitar a compreensão.
Alguns exemplos mostram como isso funciona na prática. Uma ONG que oferece cursos de costura para mães solo ganhou força ao contextualizar que 63% dessas mulheres, no Brasil, são negras — e que 80% de suas alunas também o eram. Outro caso foi o dos jumentos: ao traduzir o declínio da população animal em percentuais e proporções — “94% de queda; hoje restam apenas seis a cada cem jumentos dos anos 90” —, a pauta repercutiu em mais de 800 matérias publicadas. De forma semelhante, alfabetizar oitenta adultos em um bairro onde 18% da população é analfabeta se torna uma conquista com impacto coletivo.
Ao usar dados, é preciso ter cuidado para não reforçar estigmas. Muitos números tratam de temas sensíveis, como racismo, violência ou desigualdade. Nesses casos, é fundamental não apenas repetir tragédias, mas também destacar soluções e impactos positivos. A linguagem deve ser inclusiva, valorizando conquistas e superações. Em vez de dizer apenas “jovens negros sofrem mais violência policial”, por exemplo, pode-se enfatizar que “jovens negros do projeto X conseguiram acesso à universidade”.
Para encontrar bons dados, é possível usar ferramentas como o Google Dataset Search, relatórios de institutos oficiais e releases de outras organizações. Ler o que já foi publicado por ONGs semelhantes também ajuda a compreender formatos e estratégias bem-sucedidas. O exercício prático é simples: escolha um projeto da sua ONG, levante um dado interno, conecte-o a um dado público e transforme essa combinação em uma frase de impacto. “Nos últimos 12 meses, capacitamos 120 catadores em Salvador, o que representa 10% de todos os catadores da cidade” é um bom exemplo.
Ao construir um release, é útil seguir um pequeno checklist: qual é o impacto em números? Qual dado público conecta esse impacto a um problema maior? É possível transformar isso em proporção ou comparação? A frase de impacto funciona como manchete? Há exemplos concretos que ilustrem a estatística? Um modelo básico de release poderia ser estruturado assim: título chamativo com dado (“ONG reduz evasão escolar em 70% no bairro X, onde 1 em cada 5 jovens abandona os estudos”), lead com resumo do impacto, desenvolvimento com números internos da ONG, contextualização com dados nacionais e um exemplo concreto, como a história de uma jovem atendida e, por fim, uma conclusão que aponte para os próximos passos da organização. Esse tipo de estrutura conversa diretamente com a lógica jornalística e aumenta muito as chances de publicação.
O dado, nesse contexto, não é um fim em si mesmo, mas um gancho narrativo. Ele abre portas para que histórias individuais ganhem projeção coletiva. Um número frio, quando humanizado por uma trajetória de vida, deixa de ser estatística e passa a ser notícia. É assim que uma conquista pontual — uma mãe solo que se formou, um jovem que conseguiu emprego, uma criança que aprendeu a ler — ganha relevância nacional quando aparece ao lado de um indicador amplo que mostra o tamanho do problema que a ONG ajuda a enfrentar.
Outro ponto a considerar é a forma de apresentação. Releases podem ganhar clareza com recursos simples: tabelas no Word, gráficos básicos em planilhas ou mesmo comparações diretas em frases curtas. Ao traduzir 20% em “2 a cada 10 jovens”, ou 94% em “apenas 6 em cada 100 sobrevivem”, a ONG facilita a leitura e reforça o impacto.
Mas os dados, por si só, não bastam. É preciso usá-los com responsabilidade e sensibilidade. Temas como violência, pobreza ou racismo não devem ser reduzidos a números secos. Cabe às organizações equilibrar denúncia e esperança, trazendo à tona não apenas o tamanho da desigualdade, mas também as soluções que estão sendo construídas. Essa é uma oportunidade de reposicionar narrativas e mostrar que, apesar dos desafios, existem caminhos concretos de transformação social.
Em última instância, usar dados é uma forma de dar voz às comunidades. Cada indicador representa vidas que não devem ser invisíveis. Quando uma ONG consegue articular números e histórias, ela não apenas fortalece sua presença na mídia, mas também contribui para uma comunicação mais justa, inclusiva e democrática.
Assim, o recado é claro: quem trabalha no terceiro setor precisa aprender a contar suas histórias em linguagem jornalística. Dados dão o primeiro passo; exemplos humanos, o segundo; e a combinação dos dois é o que abre espaço na imprensa. É nesse ponto de encontro entre estatística e narrativa que as ONGs conseguem transformar relatórios em manchetes, e projetos locais em exemplos de alcance nacional.
Imagem: Reprodução/CEPHO
Quem terá a honra e o desafio de substituir Francisco?
Tenho acompanhado com atenção — e até com certo fascínio — a cobertura da eleição do novo Papa. Em meio a transmissões ao vivo, mesas-redondas e programas especiais que mais se assemelham a um boletim eleitoral, há uma pergunta que se repete como um mantra: “Quem o senhor acha que será o novo Papa?” Padres, bispos e cardeais respondem em uníssono, quase como se recitassem um cântico: “O Papa será escolhido pelo Espírito Santo.” A resposta soa automática, pronta, ensaiada — e é. Mas, aqui e ali, surgem vozes como a de Frei Betto, que rompem com o discurso oficial e lembram que, por trás da fumaça branca, há muita política envolvida.
Afinal, confiar exclusivamente ao Espírito Santo a escolha de um chefe de Estado (porque é disso que também se trata) é, no mínimo, uma forma poliana de evitar o debate sobre política e poder dentro da Igreja. Tenho, evidentemente, respeito pela fé. A ideia de que uma força divina paira sobre o conclave e guia os cardeais na escolha do sucessor de Pedro é, para muitos, um consolo espiritual. Mas, quando analisada com um mínimo de estratégia ou senso crítico, trata-se de uma abstração — para não dizer uma alienação — com um tom quase singelo de interior. Uma bela metáfora que encobre disputas territoriais, alianças geopolíticas, egos inflados e interesses bem terrenos. Negar isso é vestir a batina da ignorância voluntária.
E é esse jogo que me inquieta. Não me preocupa a sobrevivência da Igreja — ela já atravessou impérios, guerras e reformas. O que me preocupa é quem virá. Num tempo em que a extrema-direita avança com força sobre corpos, direitos e discursos; num mundo em guerra, anestesiado e polarizado; num cenário em que a diplomacia virou exceção e o radicalismo, regra — é legítimo temer a escolha de alguém que não compreenda a gravidade do trono que herdará. Será esse novo Papa alguém capaz de dialogar com o século XXI — como Francisco tentou, mesmo enfrentando resistências internas? Ou assistiremos a um retrocesso discreto, disfarçado de tradição?
O conclave é um tabuleiro de xadrez revestido de veludo, ouro e simbolismo. E, por mais que se repita que o Espírito Santo guia a decisão, espero sinceramente que esse sopro divino também tenha consciência histórica e sensibilidade política.
Enquanto isso, nós, jornalistas seculares, muitas vezes nos prendemos ao espetáculo da fumaça, dos sinos, da guarda suíça imóvel e dos fiéis emocionados — quase como se fossem parte de um conto dos irmãos Grimm. Esquecemos — ou ignoramos — que há pressões reais em jogo: o lobby de diferentes alas, as disputas ideológicas, o peso da América Latina — que Trump encara como seu quintal —, da África — que, nas últimas duas décadas, passou a ser estratégica para a China — e da Ásia nesse processo. Soma-se a isso o crescimento das igrejas pentecostais, a crise de vocações, os escândalos de abusos sexuais mal resolvidos e o afastamento das gerações mais jovens da religiosidade institucionalizada.
A cobertura midiática raramente toca nas questões centrais: o papel da mulher na Igreja, a discussão sobre o celibato, a abertura à diversidade sexual, o combate às desigualdades sociais. Também se omite a necessidade de a Igreja lidar com temas urgentes, como a emergência climática — na qual o Papa Francisco foi uma das poucas vozes religiosas a se posicionar com clareza —, a relação com a ciência e o acolhimento de povos indígenas, migrantes e refugiados. Tudo isso deveria estar na pauta do novo pontífice. Mas estará?
O receio é que, diante de tantas forças conservadoras, a Igreja opte por alguém que feche portas em vez de abri-las. Alguém que, em nome de uma tradição rígida, se afaste do mundo e perca a oportunidade de conduzir um rebanho que já não aceita dogmas sem questionamento. Alguém que não perceba que a fé precisa dialogar com o conhecimento, com a justiça social, com os desafios do presente — inclusive com a própria ideia de uma espiritualidade mais aberta, comunitária e comprometida com os dramas da humanidade.
Mais do que a eleição de um líder religioso, o conclave revela o quanto as instituições de poder resistem à transformação. Numa era de transparência, de democracia participativa, de escuta ativa das minorias, a escolha de um Papa ainda se dá sob sigilo, entre muralhas e rituais. Não se trata de banalizar o mistério da fé, mas de reconhecer que o mundo mudou — e a Igreja, se quiser continuar relevante, precisa acompanhar.
O que está em jogo, afinal, não é apenas o nome do próximo Papa. É o futuro de uma instituição que precisa se reinventar se quiser continuar a ser farol em tempos tão escuros. Que venha alguém disposto a ouvir. Que, assim como foi Bergoglio, seja humano. Que seja, de fato, um pastor para o nosso tempo — e não apenas o guardião de uma memória que se recusa a ser questionada.
E se eu não fosse jornalista?
26 de abril de 2025 4:14 por Vanderlei Tenório
Há alguns dias, comemoramos aqui no Brasil o Dia do Jornalista, em 7 de abril. Sempre fui fã de datas comemorativas, e meu trabalho como assessor de imprensa só reforçou esse gosto — gosto desse pretexto simbólico pra parar, refletir e, quem sabe, reorganizar algo aqui dentro. Este ano, em especial, a data me trouxe mais do que um simples pretexto: me trouxe uma pergunta que não saiu da minha cabeça desde então. Talvez tenha sido o momento, o cansaço ou essa mania que eu tenho de revisitar o passado em datas marcadas. Seja como for, a pergunta ficou: e se eu não fosse jornalista?
Na verdade, foi o cinema que reacendeu essa dúvida. Eu estava escrevendo um texto sobre “Guerra Civil”, do Alex Garland — um filme que, à primeira vista, fala de um país em ruínas, polarizado e distópico, mas que, no fundo, diz muito sobre nós. Sobre os jornalistas. Sobre o jeito como vamos sendo engolidos pela profissão até deixarmos de perceber onde termina o trabalho e onde começa quem a gente é.
Três cenas, em especial, ficaram marcadas em mim. A primeira mostra Lee Smith, a fotojornalista vivida por Kirsten Dunst, atravessando o caos. Ela corre da destruição, mas mantém a câmera firme nas mãos. O medo está ali, mas logo dá lugar à urgência do trabalho. O instinto profissional se sobrepõe ao instinto de sobrevivência.
Na segunda, Jessie, a jovem fotojornalista interpretada por Cailee Spaeny, vê a colega cair morta ao seu lado. O choque é visível, a dor humana é escancarada. Mas ela não larga a câmera. Ela fotografa a morte. E segue. Como se não tivesse escolha. Como se o compromisso com a história fosse mais forte do que o luto, mais urgente do que o próprio medo.
E, por fim, a terceira cena acontece no final do filme: o presidente dos Estados Unidos está prestes a ser executado. O jornalista Joel, vivido por Wagner Moura, interrompe o momento e pergunta: “Alguma declaração?”. E o presidente, interpretado por Nick Offerman, com os olhos fixos na morte, implora: “Não deixem que me matem.”
Essa última cena, especialmente, faz a gente refletir sobre a relação entre a imprensa e a realidade. O impulso de continuar, de perguntar mesmo quando tudo está à beira do fim, nos coloca diante de um dilema entre o dever jornalístico e o respeito pela humanidade na sua forma mais vulnerável.
Ao assistir a essas cenas, senti um desconforto estranho. Uma sensação de reconhecimento. Não que eu seja correspondente de guerra, mas, assim como eles, quantas vezes segui em frente — escrevendo, editando, ligando — mesmo quando tudo dentro de mim pedia uma pausa? Quantas vezes confundi dever com silêncio, compromisso com exaustão? Como se parar fosse trair uma promessa protocolar com o mundo. Um mundo que, muitas vezes, nos consome, nos suga, nos controla, nos empurra ao limite — e, sim, às vezes até nos odeia.
Nunca sonhei em ser jornalista. Era uma ideia distante, quase um devaneio. Quando era criança, dizia que queria ser cientista — mais especificamente zoólogo, por causa dos documentários do Sir David Attenborough. Depois, quis ser arqueólogo, por causa do Indiana Jones. Mais tarde, antropólogo, como Claude Lévi-Strauss. Acabei indo parar na Geografia, movido por uma paixão que nasceu na preparação pro vestibular, quando um professor — o querido Gabriel Burani, daqueles que nos viram por dentro — me mostrou que o mundo podia ser lido, decifrado, questionado. A Geografia me ensinou a observar, a desconfiar, a perguntar. Até hoje, acho que tudo começou ali.
Na faculdade, os amigos brincavam: “Van, você tem jeito pra contar histórias — ainda vai acabar no jornalismo.” E eu, sempre cético, só ria. Não me via nesse lugar. Soava técnico demais, pragmático demais, e — talvez o que mais me afastava — centrado demais no próprio umbigo. Mas isso já é assunto pra outra crônica. Curiosamente, era nos bastidores desse mesmo território que eu me sentia mais vivo: nos projetos de extensão, nas conversas virando entrevistas, nos relatórios que os professores pediam e que, pra mim, eram quase retratos — com o rigor de um geógrafo e a ternura de quem escreve sobre gente.
Não foi uma decisão brusca, nem um rompimento. A travessia entre a Geografia e o Jornalismo aconteceu quase sem eu perceber — um passo aqui, outro ali, movido por uma inquietação que crescia aos poucos. Foi preciso escutar — e me escutar. Perceber que aquele impulso de escrever, de conectar ideias, de contar o mundo, não era um capricho, mas uma parte real de mim. E que não havia traição nenhuma em seguir por esse caminho.
A verdade é que essa travessia esteve longe de ser simples. Teve o empurrão da família, os tropeços da vida e uma teimosia antiga que sempre me acompanhou. Mas, do outro lado, havia algo me esperando. Algo que, pela primeira vez em muito tempo, fez sentido.
O lado cômico — ou irônico, talvez — é que, por um tempo, ainda tentei conciliar os dois cursos. Mas chegou o momento de escolher. E eu escolhi. Não sem hesitar, mas com o coração apontando a direção.
Hoje, vejo que continuo sendo geógrafo. Continuo observando os espaços, as pessoas, os deslocamentos. Só mudei as ferramentas. Em vez de mapas, uso blocos de anotações. Em vez de gráficos, frases sublinhadas. Em vez de SIGs, entrevistas. E, no fim, o que faço continua sendo cartografia — emocional, política, social.
Mas nem tudo é poesia. A profissão cansa. Tem dias em que parece que não há mais nada a dizer. Em que as notícias nos esmagam, os prazos nos sufocam, os comentários nos desgastam. Tem dias em que eu duvido de mim. Em que me pergunto se estou fazendo alguma diferença ou só repetindo fórmulas. Em que me pergunto se ainda me reconheço nesse ofício.
E, ainda assim, eu fico. Fico porque tem momentos que compensam tudo: quando alguém me diz “obrigado por ter escrito isso”, ou quando entrevisto alguém que nunca teve voz e, de repente, se sente ouvido. Fico porque escrever, pra mim, é uma forma de respirar. É onde tento organizar o que não entendo, dar forma ao indizível. É o meu jeito de habitar o mundo.
Com o tempo, percebi que existe algo profundamente geográfico na escuta. Escutar é mapear o outro. É reconhecer o território das emoções, das memórias, das feridas. Escutar é um ato político. E é ali, nesse instante de atenção absoluta, que me sinto inteiro. Que entendo por que continuo aqui.
Talvez o jornalismo, pra mim, seja isso: um lugar de pertencimento. Um jeito de não desistir do mundo. Um compromisso com a escuta, mesmo quando tudo ao redor grita o contrário. E talvez, só talvez, essa seja a maior missão de um jornalista hoje: encontrar humanidade no ruído. E escrevê-la.
Seis anos depois, ainda não tenho todas as respostas. Mas aprendi a aceitar a dúvida como parte do caminho. E, às vezes, isso basta.
A caricatura de si mesmo
15 de abril de 2025 10:30 por Vanderlei Tenório
Houve um tempo em que “Os Excêntricos Tenenbaums” era, sem hesitação, o meu filme favorito do Wes Anderson. E não só pela estética — embora as paletas de cores cuidadosamente pensadas, os movimentos de câmera rigorosamente coreografados e a trilha sonora melancólica ajudassem a criar um universo irresistivelmente único.
O que me tocava, acima de tudo, era o desalinho humano que habitava aquele mundo simétrico. Havia uma tristeza bonita, difusa e persistente, que se insinuava por trás da excentricidade dos personagens e da perfeição dos enquadramentos. Uma dor reconhecível, embalada num charme visual. E havia Gene Hackman, claro — numa atuação que é, ao mesmo tempo, ferida e ferina, como se ele condensasse, num único gesto, toda a disfuncionalidade da família Tenenbaum.
Com o tempo, “Viagem a Darjeeling” foi tomando esse lugar no meu afeto. Talvez por falar de irmãos que tentam se reconectar, mesmo sem saber exatamente por quê. Um trio de luto — pela mãe, pelo pai, por eles mesmos. O filme é atravessado por uma espiritualidade que beira o clichê, mas que, paradoxalmente, soa sincera. É um filme sobre deslocamento — físico, emocional, simbólico — e sobre a delicada tentativa de se religar ao outro. E a si mesmo.
Entre esses dois marcos, deixei-me afetar por outras paisagens e sentimentos: a ternura delicadamente ilustrada de “Moonrise Kingdom”, com seu primeiro amor desenhado em tons pastéis; a inteligência ácida e sagaz de “O Fantástico Sr. Raposo”, que usa a animação em stop-motion para falar de classe, desejo e inadequação com uma leveza desconcertante; e o monumental — e já clássico do cinema — “O Grande Hotel Budapeste”, que costura farsa e elegia com um senso de fim: o fim de uma Europa, de uma inocência, de uma era. Cada filme, à sua maneira, parecia abrir uma nova janela — ou, no mínimo, levantar uma cortina diferente — para o mesmo palco encantado, onde Wes Anderson encenava seu teatro de melancolia.
Ainda tenho simpatia por “A Crônica Francesa” — uma carta de amor dispersa, sim, mas com lampejos de brilho e um olhar afetuoso sobre o jornalismo e a arte de contar histórias.
Também reservo elogios aos curtas inspirados em Roald Dahl feitos para a Netflix, que, talvez por seguirem outras regras do jogo, escapam do piloto automático e surpreendem pela síntese e invenção. Esses, sim, merecem aplauso.
Mas “Asteroid City”… não. Esse me escapa. Não me atravessa, não me mobiliza, não me deixa rastro. E não é por falta de qualidades: a direção de arte é impecável, a estrutura narrativa engenhosa, e os temas — luto, alienação, simulacro — são relevantes. Mas tudo soa excessivamente autoconsciente, como se o filme estivesse mais preocupado em parecer um “filme do Wes Anderson” do que em pulsar como cinema vivo. Como se tivesse sido concebido já pensando no making of, nos stills para o Instagram, nas camisetas com frases de efeito da Chico Rei.
“Asteroid City” evidencia uma sensação que já vinha crescendo em mim: o estilo, que antes era marca de poesia e profundidade, virou uma defesa. Uma camada de beleza que afasta o desconforto e bloqueia a surpresa. O cinema, que antes era um canal de emoção genuína, tornou-se meramente decorativo. E o que é o cinema sem a coragem de arriscar, de falhar, de se abrir ao novo?
A história, centrada na convenção anual dos Junior Stargazers em 1955, funciona como um alerta. O filme é um espetáculo visual impressionante, mas emocionalmente estéril. A direção de arte de Adam Stockhausen brilha — talvez até demais. O roteiro de Wes Anderson e Roman Coppola parece ter sido escrito às pressas, entre uma prova de figurino e outra. Tudo é tão meticulosamente planejado que sufoca. A estética, que antes encantava, virou uma carapaça: impecável por fora, mas vazia por dentro.
E agora, com o trailer de “O Esquema Fenício”, vem a confirmação: o cinema do Wes entrou oficialmente na sua fase “Pinterest”. Tudo é bonito, tudo é simétrico, tudo é coeso, tudo é… Wes Anderson. Mas e aí? O estilo, que um dia foi assinatura, virou caricatura — um estilema repetido à exaustão, feito para ilustrar editoriais da The Hollywood Reporter ou alimentar Reels de perfis indie no Instagram.
Os personagens? Variações do mesmo molde nostálgico. Os diálogos? Lapidados ao ponto de parecerem slogans de ecobag. Os exageros cenográficos? Já foram charme — agora são muleta. A sensação? A de estar preso num déjà-vu cinematográfico onde tudo é bonito, mas nada é novo. Uma repetição graciosa, porém, exaustiva.
E é justamente por ser fã que esse desencanto dói mais. Não se trata de desprezo gratuito nem de má vontade — muito pelo contrário. É o cansaço de quem acompanhou com entusiasmo cada novo filme, defendeu o estilo quando diziam que era só artifício, e que agora assiste, quase resignado, à repetição automatizada de uma fórmula. O que antes me surpreendia, agora apenas se repete — como se a magia tivesse virado um algoritmo de design em algum prompt genérico.
A verdade é que Wes Anderson parece hoje preso num looping estético, onde o maior risco é desalinharem o centro geométrico do enquadramento. E quando o maior medo de um cineasta é sair do eixo visual, talvez seja hora de parar. Respirar. Errar. Desordenar. Porque, no fim das contas, não basta ser bonito. O cinema, mesmo quando abraça a beleza, exige desconforto. Exige risco. Exige vida.
Academia Brasileira de Cinema anuncia filmes que irão representar o Brasil nos prêmios Goya e José María Forqué
26 de setembro de 2024 12:29 por Vanderlei Tenório
A Academia Brasileira de Cinema anunciou nesta quarta-feira (25), os longas-metragens indicados para representar o Brasil em duas tradicionais premiações espanholas: os Prêmios José María Forqué 2024 – em parceria com a SICAV – e os Prêmios Goya 2025.
“Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, foi selecionado para concorrer a uma indicação aos prêmios de Melhor Filme Ibero-Americano na 39ª edição dos Prêmios Goya, marcada para fevereiro de 2025 em Granada, e de Melhor Filme Latino-Americano do Ano no 30º Prêmio Cinematográfico José María Forqué, será realizado em dezembro de 2024, em Madri.
O thriller erótico “Motel Destino”, de Karim Aïnouz, também representará o cinema brasileiro na disputa por uma vaga nos Prêmios Forqué, que permitem a indicação de até dois títulos de cada país.
Títulos dos seguintes países concorrem na categoria Melhor Filme Latino-americano do Ano no 30º Prêmio Cinematográfico José María Forqué e na de Melhor Filme Ibero-Americano na 39ª edição dos Prêmios Goya: Argentina, Bolívia, Brasil, Colômbia, Costa Rica, Chile, Cuba, Equador, El Salvador, Guatemala, Honduras, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, Porto Rico, República Dominicana, Uruguai e Venezuela.
Ainda Estou Aqui
Baseado no livro de Marcelo Rubens Paiva, “Ainda Estou Aqui” é estrelado por Fernanda Torres, Selton Mello e Fernanda Montenegro.
O filme foi exibido nos festivais de Toronto e San Sebastián, conquistou o prêmio de melhor roteiro no Festival de Veneza, e foi escolhido para representar o Brasil na disputa por uma vaga na categoria Melhor Filme Internacional no Oscar 2025.
O longa narra a luta de Eunice Paiva em busca de respostas após o desaparecimento do marido, o ex-deputado Rubens Paiva, durante a ditadura militar em 1971.
Produzido pela Videofilmes, RT Features e Mact Productions, o longa é o primeiro filme original Globoplay, em coprodução com ARTE France e Conspiração, com distribuição no Brasil pela Sony Pictures.
Motel Destino
“Motel Destino” estreou mundialmente no Festival de Cannes, onde concorreu à Palma de Ouro, e está em cartaz nos cinemas brasileiros. Com produção da Cinema Inflamável Produções Cinematográficas, o filme é estrelado por Iago Xavier, Nataly Rocha e Fábio Assunção.
A trama acompanha Heraldo, um homem perseguido pela polícia e pela gangue da qual fazia parte, que encontra refúgio em um local inesperado: o Motel Destino. O local, na beira da estrada de uma cidade litorânea do Ceará, é administrado pelo casal Elias e Dayana, que acolhem o jovem como “faz tudo” no estabelecimento.
80 anos de Chico Buarque: 7 canções originais compostas para filmes brasileiros
18 de junho de 2024 7:58 por Vanderlei Tenório
No mês de junho, celebramos o aniversário de um dos maiores cantores e compositores da história brasileira, Chico Buarque, que completa oitenta anos nesta quarta-feira, dia 19.
Aproveitando esta data especial, não poderia deixar de prestar uma merecida homenagem a este artista que tanto admiro.
Persona
Durante toda a sua carreira, Chico não apenas criou uma obra vasta, matizada e singular, mas também se destacou como uma figura de resistência, compaixão, ética e consciência social.
A sua música e arte refletem o seu compromisso em captar as realidades, os sonhos e dilemas do povo brasileiro, deixando um legado perpétuo que, para nossa alegria e para desagrado dos conservadores, perdurará ao longo das gerações.
Chico e as trilha sonoras
Além do teatro e da literatura, a carreira de Chico Buarque se destacou por suas contribuições em trilhas sonoras. No IMDB, ele possui 33 créditos como compositor e participou em 53 trilhas sonoras de filmes.
Em 1967, Chico deu início à sua trajetória na composição de trilhas sonoras com o filme “Garota de Ipanema”, dirigido por Leon Hirszman. Nesta obra musical, onde Tom Jobim e Vinícius de Moraes eram figuras dominantes, Chico deixou sua marca com duas composições: “Chorinho” e “Noite dos Mascarados”.
No mesmo ano, Chico estreou como compositor solo em “O Anjo Assassino” (1967), dirigido por Dionísio de Azevedo. Ele colaborou na trilha sonora com Gabriel Migliori, reconhecido por suas contribuições em filmes brasileiros icônicos como “O Cangaceiro” (1953), de Lima Barreto, e “O Pagador de Promessas” (1962), de Anselmo Duarte.
Contudo, foi na década de 70 que Chico Buarque alcançou sucesso como compositor cinematográfico com o filme “Quando o Carnaval Chegar” (1972), dirigido por Cacá Diegues. Para esta obra, ele criou canções clássicas como “Mambembe”, “Quando o Carnaval Chegar”, “Partido Alto” e “Bom Conselho”.
Após “Quando o Carnaval Chegar”, Chico continuou sua colaboração com Cacá Diegues, contribuindo com as músicas-tema de “Joana Francesa” (1973) e “Bye Bye Brasil” (1979).
Para além de Diegues, Chico estabeleceu parcerias memoráveis com Hugo Carvana, para quem compôs o hino da malandragem carioca “Vai trabalhar, vagabundo!”, que deu título a um filme em 1973, Miguel Faria Jr., com quem colaborou repetidamente e mantém uma relação próxima até hoje, e Bruno Barreto.
Entre as dezenas de músicas compostas para obras de Miguel Faria Jr., podemos destacar “Não sonho mais” para “República dos Assassinos” (1979), e “Imagina”, “Tanta saudade” e “Samba do grande amor” para “Para viver um grande amor” (1983).
Já para Bruno Barreto, Chico compôs a extraordinária “O que será?”, que integra a trilha sonora de um dos maiores êxitos do cinema brasileiro: “Dona Flor e seus dois maridos” (1976). Neste filme, Chico criou três versões de “O que será?”, as quais pontuam diferentes momentos da trama: “Abertura”, “À flor da pele” e “À flor da terra”.
Na década de 80, Chico direcionou seu talento para o universo infantil e a comédia ao compor as músicas para “Os Saltimbancos Trapalhões” (1981), dirigido por J. B. Tanko. Dentre as canções do projeto, destacam-se “Hollywood”, “Piruetas” e “História de uma gata”.
Em síntese, “A noiva da cidade” (1978), de Alex Viany, “Perdoa-me por me traíres” (1983), de Braz Chediak, “Ópera do malandro” (1985), de Ruy Guerra, “A ostra e o vento” (1997), de Walter Lima Jr., e “A máquina” (2005), de João Falcão, foram outros filmes que contaram com composições de Chico nas suas trilhas sonoras.
Aproveitando a abundância de composições de Chico Buarque para o cinema como forma de homenagem, decidi listar as minhas 7 favoritas.
“Eu Te Amo” (1980) para “Eu Te Amo”, de Arnaldo Jabor
“O que será?” (1976) para “Dona Flor e seus dois maridos”, de Bruno Barreto
“Vai Trabalhar, Vagabundo” (1976) para “Vai Trabalhar, Vagabundo”, de Hugo Carvana
“Piruetas” (1981) para “Os Saltimbancos Trapalhões”, de J. B. Tanko
“História de uma gata” (1981) para “Os Saltimbancos Trapalhões”, de J. B. Tanko
“Bye Bye Brasil” (1980) para “Bye Bye Brasil”, de Cacá Diegues
“A Noiva da Cidade” (1978), para “A Noiva da Cidade”, de Alex Viany
Nova edição do programa Rodovida visa realizar ações de fiscalização e atividades educativas
20 de dezembro de 2023 2:26 por Vanderlei Tenório
No início deste mês, foi lançada a mais recente edição do programa Rodovida, que visa realizar 608 ações de fiscalização e atividades educativas com o objetivo de contribuir para a redução de mortes e lesões no trânsito.
Neste cenário, o programa tem como objetivo fomentar uma integração mais efetiva entre os diferentes órgãos e entidades que fazem parte do Sistema Nacional de Trânsito. Esses colaboram conjuntamente para a implementação de medidas destinadas a promover a segurança viária desde dezembro de 2023 até o domingo após o Carnaval, em fevereiro de 2024.
Composto por um conjunto de ações planejadas, coordenadas e integradas por instituições de trânsito, incluindo a Polícia Rodoviária Federal (PRF), o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), bem como órgãos estaduais e municipais de trânsito, o programa está em conformidade com as orientações estabelecidas pelo Plano Nacional de Redução de Mortes e Lesões no Trânsito (Pnatrans).
A participação federativa é crucial para avançar na disseminação da mensagem sobre a importância da educação, do cuidado e da promoção de uma consciência de trânsito que evite acidentes.
Dentre as ações e temas abordados pela fiscalização e atividades educativas na edição 2023/2024 do Rodovida, destacam-se:
– Excesso de velocidade;
– Ultrapassagens proibidas;
– Uso de álcool;
– Descumprimento do tempo de direção dos motoristas profissionais;
– Transporte ilegal de passageiros;
– Não uso do cinto de segurança;
– Transporte inadequado de crianças em veículos automotores;
– Utilização do celular pelos condutores;
– Não uso de equipamento de proteção por motociclistas, como capacete adequado;
– Falta de cuidado com os mais vulneráveis no trânsito (pedestres, ciclistas e motociclistas);
– Uso incorreto da cadeirinha para crianças;
– Condução insegura, especialmente por motofretistas e ciclofretistas.
Além disso, os integrantes do Sistema Nacional de Trânsito que participam do programa são obrigados a registrar os resultados de suas ações em relatórios mensais, os quais serão divulgados nos sites eletrônicos pertinentes. A Senatran assume a responsabilidade de receber as informações contidas nesses relatórios.
Condições das rodovias brasileiras é destaque na 26ª edição da Pesquisa de Rodovias da CNT
9 de dezembro de 2023 2:43 por Vanderlei Tenório
No término do último mês, a Confederação Nacional de Transportes (CNT) divulgou os resultados de uma pesquisa que examinou 11.502 quilômetros da rede viária do Brasil, enfatizando tanto as regiões com condições críticas quanto aquelas com desempenho satisfatório.
A 26ª edição da Pesquisa de Rodovias (disponível aqui) avaliou o estado atual da infraestrutura rodoviária no país, levando em consideração critérios como pavimentação, sinalização, visibilidade, acostamento, pontes, entre outros.
Confira alguns pontos do levantamento:
Em 2023, 56,8% do pavimento, 63,4% da sinalização e 66% da geometria dessas vias foram classificados como regulares, ruins ou péssimos. Esses valores se aproximam dos registrados no ano anterior: 55,5%, 60,7% e 63,9%, respectivamente.
O transporte rodoviário, responsável por movimentar 65% das cargas e 95% dos passageiros no país, enfrentou um aumento de 32,7% nos custos operacionais em 2023 devido à má conservação das rodovias.
A pesquisa evidencia que a qualidade insatisfatória da pavimentação rodoviária impacta diretamente nos custos do frete, influenciando, consequentemente, nos preços dos produtos para o consumidor final. A estimativa da CNT é que, neste ano, 1,139 bilhão de litros de diesel serão consumidos desnecessariamente pelo transporte rodoviário nacional, resultando na emissão de 3,01 milhões de toneladas de gases poluentes na atmosfera.
O estudo destaca que as rodovias públicas, que representam 76,6% da extensão pesquisada em 2023, apresentam percentuais mais elevados de avaliações negativas (77,1%). Por outro lado, entre as rodovias concessionadas, que compõem 23,4% da extensão pesquisada, 64,1% da malha foram classificados como boas ou ótimas.
Os principais problemas identificados nas rodovias brasileiras, conforme apontados pela CNT, incluem quedas de barreiras, erosões nas pistas, grandes buracos, pontes danificadas e pontes estreitas.
Os resultados da pesquisa reforçam a urgência de manter investimentos contínuos na reconstrução, restauração e manutenção da malha rodoviária brasileira. A má qualidade das rodovias impacta negativamente a economia do país, aumentando os custos de produção e transporte, e também representa um risco para a segurança dos usuários.
Dia Mundial em Memória das Vítimas de Acidentes de Trânsito: Um momento de conscientização
21 de novembro de 2023 5:46 por Vanderlei Tenório
No dia 20 de novembro, o mundo se unirá para celebrar o Dia Mundial em Memória das Vítimas de Acidentes de Trânsito, uma iniciativa instituída em 1993 pela RoadPeace, uma organização social sediada no Reino Unido. O objetivo primordial da data é homenagear as vítimas de acidentes viários, contando com o respaldo inicial da Federação Europeia e diversas organizações parceiras que passaram a promover diversas ações de conscientização global.
O Brasil figura como o terceiro país com maior número de mortes no trânsito em escala global. A média anual de fatalidades nos últimos anos alcança a alarmante marca de 6,3 mil pessoas, acompanhada por mais de 65 mil acidentes nas rodovias. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o Brasil ocupa o terceiro lugar mundial em mortes no trânsito, ficando atrás apenas da Índia e da China no ano de 2018.
A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) destaca que mais de 3,5 mil pessoas perdem a vida diariamente nas vias, resultando em cerca de 1,3 milhão de mortes evitáveis anualmente e aproximadamente 50 milhões de pessoas lesionadas. Os acidentes de trânsito assumem, assim, a 12ª posição no ranking global de causas de morte, tornando-se a principal causa de óbito entre crianças e jovens com idades entre 5 e 29 anos. No Brasil, as mortes no trânsito ocupam a oitava posição entre as principais causas de óbito.
Um dado preocupante revelado por pesquisa da Associação Brasileira de Medicina do Tráfego (ABRAMET) aponta que cerca de 60% dos acidentes registrados nas rodovias brasileiras no último ano foram provocados por fadiga e sonolência excessiva.
Além disso, estudos indicam que a saúde física e mental dos caminhoneiros pode estar diretamente ligada à ocorrência de acidentes envolvendo esses veículos. A ABRAMET analisou aproximadamente 250 mil acidentes, resultando em 208.716 feridos e 12.449 mortos.
Contudo, com base nos registros da PRF, especialistas agruparam os acidentes em categorias principais, identificando a falta de atenção na condução, o consumo de álcool, a ingestão de substâncias psicoativas, a fadiga, a restrição à visibilidade e eventos de mal súbito como os fatores mais recorrentes.
Esses dados ressaltam a urgência de medidas efetivas para enfrentar o crescente desafio global dos acidentes viários.
Motoristas profissionais têm até dezembro para regularizar exame toxicológico
9 de novembro de 2023 2:21 por Vanderlei Tenório
No mês passado, o Contran (Conselho Nacional de Trânsito) referendou, sem alterações no texto, a Deliberação 268/2023, que estabelece o prazo para a realização do exame toxicológico por motoristas profissionais.
Com essa decisão, a deliberação adquiriu status de resolução, determinando que condutores com Carteiras Nacionais de Habilitação (CNH) das categorias C, D e E, que ultrapassaram o prazo de 30 meses (dois anos e meio) para a realização do exame toxicológico, têm até 28 de dezembro de 2023 para regularizar sua situação.
Diante dessa resolução, nosso informativo desta semana aborda algumas dúvidas relacionadas a esse tema.
O exame toxicológico de larga janela de detecção é um procedimento que avalia o consumo de substâncias psicoativas, como álcool, maconha, cocaína e crack, ao longo de pelo menos 90 dias. Essa análise é obrigatória para motoristas das categorias C, D e E, que operam veículos de transporte coletivo, como ônibus e caminhões.
A realização do exame toxicológico é exigida tanto no momento da obtenção quanto na renovação da CNH, além de ser necessária a cada 2 anos e meio. Os motoristas podem verificar o status de seu exame por meio do aplicativo Carteira Digital de Trânsito (CDT).
A Senatran, órgão responsável pelo trânsito no Brasil, utiliza notificações eletrônicas para alertar, com 30 dias de antecedência, sobre o vencimento do prazo para a realização do exame. A não realização do exame no prazo estabelecido sujeita os motoristas a penalidades, incluindo multa, suspensão da CNH e proibição de dirigir.
A coleta de pequenas amostras de cabelo ou pelos é o método utilizado para o exame toxicológico, que é posteriormente encaminhado a laboratórios devidamente credenciados pelo Departamento Nacional de Trânsito (DENATRAN) para análise. Este procedimento visa identificar se houve ou não o consumo de substâncias psicoativas (drogas) em um intervalo de 90 a 180 dias.
De acordo com o Código de Trânsito Brasileiro (CTB), caso o condutor não realize o exame até o término do período determinado pela resolução, estará sujeito a uma multa de R$ 1.467,35 e à atribuição de sete pontos na CNH.
Essas penalidades entraram em vigor após o Congresso Nacional, no início do mês, derrubar três vetos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Lei 14.599, de 2023, que trata do exame toxicológico para motoristas, reinstaurando, assim, a multa por falta do exame.
A mídia como ferramenta de guerra
Muitas vezes, nossas opiniões nos foram habilmente sugeridas pela manipulação da mídia sem que tivéssemos plena consciência disso. A mídia usa métodos sutis para implantar crenças em nós, enquanto nos faz acreditar que elas nos pertencem, que nós as escolhemos. Nesse viés, as motivações para a manipulação da mídia podem ser diferentes, mas, na maioria das vezes, visam à criação de cidadãos submissos. Aqueles que ignoram informações importantes e não conhecem seus direitos geralmente não criam problemas para a estabilidade do sistema político e econômico.
A disseminação de notícias falsas ou a ênfase em casos limítrofes serve para criar divisões. O amplo espaço dado às opiniões infundadas ou lógicas difundidas pelas grandes agências de notícias servem justamente para isso.
Nessa perspectiva, o primeiro meio usado para direcionar a opinião pública em um sentido ou outro é o alarmismo. Em consideração a isso, palavras como alarme, guerra, genocídio, ataque, terrorismo, emergência e perigo são usadas com muita frequência pela mídia homogênea mundial. Tais palavras servem para fazer as pessoas se sentirem inseguras e gerar um medo sutil constante nelas.
Outro método eficaz é focar a atenção em notícias que geram uma forte resposta emocional. As questões que poderiam desencadear uma reação das massas contra o establishment ficam em segundo plano para estimular debates inúteis sobre fatos que, infelizmente, não podem mais ser alterados.
Nesse cenário, a concepção da (falsa) superinformação é outra técnica de manipulação midiática. Hoje, falamos até a exaustão sobre um assunto para dar ao ouvinte a impressão de que ele sabe o suficiente, muito, demais. Porém, na realidade, as mesmas coisas são repetidas várias vezes e nada é explicado. Isso é para evitar que o cidadão tenha o desejo de se aprofundar, buscando informações em outros lugares e, portanto, construindo um pensamento autônomo sobre ela.
Outro artifício estruturante é o de extrapolar uma notícia do contexto, o que é útil para direcionar a opinião pública. Tal artifício é presente na construção narrativa das guerras. Quando isso acontece, observe que, geralmente apenas o número de vítimas e os locais são divulgados. Neste cenário, a situação política, social e econômica desses países nunca é explicada, muito menos os reais motivos que levaram à violência. Infelizmente, atualmente, estamos observando isso presente em todos os noticiários nacionais e internacionais através da Guerra da Ucrânia e agora do Conflito em Israel.
Sejamos sinceros, para manipular o que pensamos, basta uma escolha cuidadosa de imagens, palavras ou tom. Desta forma, podemos automaticamente despertar aprovação ou dissidência para o assunto em questão.
Falando em conflito em Israel, percebo uma distorção no que se refere à produção de informações equivocadas. Não sei quanto a você, mas sinto certo desconforto ao examinar a forma como as notícias relacionadas ao conflito são divulgadas, especialmente nos últimos dias. Embora haja uma pretensa “neutralidade”, a questão palestina e o suposto heroísmo israelita ainda mantêm uma presença dominante. Paira no ar a omissão de fatos relevantes, entrevistas desequilibradas e informações incorretas, manipuladas e incompletas. Tudo isso parece enraizado em uma simplificação maniqueísta.
Nesse ponto, causa-me indignação o modo como os confrontos no Oriente Médio são abordados pela grande imprensa ocidental. É imperativo situarmos a atual situação política no contexto histórico, desde a Nakba em 1948 até a ocupação da Cisjordânia, o confisco de terras, a imposição da colonização ao povo palestino e a desconsideração e humilhação dos habitantes árabes de Jerusalém e da Cisjordânia. Não estou aqui para defender o Hamas, muito pelo contrário. No entanto, afirmar que a atual escalada é exclusivamente responsabilidade do Hamas é uma análise simplista. É crucial reconhecer que devemos cessar a prática de absolver o Estado de Israel de suas responsabilidades neste conflito.
Por esse ângulo, em relação a notícias, até mesmo o espaço dado as coberturas internacionais, em especial as de guerra, nos telejornais – principalmente os de horário nobre – faz parte da manipulação da mídia, pois confunde as pessoas no conceito de informação. Infelizmente, a velha dicotomia do bem e do mal, do herói e do vilão, ainda vende muito.
Não é por acaso que nunca ouvimos falar de certos assuntos muito mais importantes nos noticiários televisivos e nos jornais impressos, como a senhoriagem bancária, a produção e exportação de armas, e as atividades do Fundo Monetário Internacional (FMI). Logo, graças à manipulação da mídia, as pessoas não sabem que não sabem. Assistindo TV, lendo jornais ou obtendo informações nas redes sociais, a maioria de nós está convencida de que sabemos e, acima de tudo, que estamos definitivamente do lado certo.
Além de que, os meios de comunicação de massa (rádio-TV-Web) tornaram-se decisivos na criação do senso comum. Para tanto, a eficácia da manipulação midiática não depende de símbolos ou metáforas como tais, mas de sua capacidade de criar um contexto emocional favorável à aceitação de mensagens comerciais e principalmente políticas (essas diretas e indiretas).
Nesse sentido, a opinião pública é presa na teia da propaganda política, recebendo apenas estereótipos, ou seja, representações simplistas da realidade. Sob essa lógica, as redes sociais se tornaram um terreno fértil para a opinião pública. Desde a compra do extinto Twitter pelo Elon Musk, passando pela Guerra na Ucrânia, as redes sociais são amplamente empregadas na manipulação de opiniões, o que molda a mídia e como ela irá manipular os receptores (nós).
Detalhando melhor esse ponto para análise, as eleições de 2022 no Brasil foram marcadas por uma intensa manipulação da opinião pública. A partir da metodologia do matemático francês David Chavalarias, do Centro de Análise de Matemática Social (CAMS), da Escola de Estudos Avançados em Ciências Sociais da França (EHESS) os três principais tipos de manipulação observados foram:
- Disseminação de informações falsas: esse é o tipo mais clássico de manipulação, que envolve a disseminação de informações falsas com o objetivo de influenciar o voto. Um exemplo disso foi a utilização da narrativa de que o presidente Lula é um “ex-presidiário” para semear dúvidas sobre sua idoneidade.
- Divulgação de dados pessoais ou internos: esse tipo de manipulação consiste em revelar dados pessoais ou internos de determinados partidos políticos imediatamente antes de uma eleição, sem dar tempo para verificar as acusações. Um exemplo disso foi a utilização dos 580 dias em que o presidente Lula passou preso, que foi usado para criar a narrativa de que ele é um criminoso inapto para governar.
- Multiplicação de mensagens online: esse tipo de manipulação consiste na multiplicação de mensagens online contendo informações tendenciosas. Geralmente, essas manipulações são realizadas sem revelar a identidade do autor, ou até mesmo sugerindo outra identidade. Um exemplo disso foi a rede de desinformação que espalhou notícias falsas e deturpadas pró-Bolsonaro pelo aplicativo WhatsApp durante as eleições do ano passado.
É importante destacar que essas técnicas de manipulação podem ter um impacto decisivo na opinião pública, podendo influenciar o resultado de eleições e referendos. É por isso que é importante estar atento a essas técnicas e combatê-las.
Posto isto, a mídia, embora uma ferramenta para o desenvolvimento da participação democrática, torna-se um risco potencial para a democracia. Em resumo, a saber, a mídia de notícias e o governo estão entrelaçados em um círculo vicioso de manipulação mútua, criação de mitos e interesse próprio. Jornalistas, analistas e opinião pública precisam de crises para dramatizar as notícias, e os funcionários dos governos das grandes potências hegemônicas precisam parecer estar respondendo às crises.
Enfim, muitas vezes, as crises não são realmente crises, mas fabricações conjuntas. As duas instituições tornaram-se tão enredadas em uma teia simbiótica de mentiras que os meios de comunicação são incapazes de dizer ao público o que é verdade e os governos democráticos são incapazes de governar efetivamente.
Os caminhoneiros irão desaparecer?
2 de novembro de 2023 8:52 por Vanderlei Tenório
O avanço da tecnologia tem sido um tema constante de debate na sociedade. Em alguns casos, essa evolução é vista como uma ameaça aos empregos, como é o caso da automação veicular.
No setor de transporte rodoviário de carga, a automação é uma possibilidade real, mas ainda está longe de se tornar realidade no Brasil. A introdução de veículos autônomos exigirá um investimento significativo em infraestrutura e tecnologia, o que ainda não é viável no país.
Além disso, os caminhoneiros exercem um papel fundamental no transporte de mercadorias, especialmente em um país de dimensões continentais como o Brasil. Eles possuem experiência, conhecimento das rotas e, sobretudo, compreensão da precária infraestrutura do país.
Por isso, mesmo com a introdução de veículos autônomos, os caminhoneiros ainda serão necessários por muitos anos. No entanto, eles precisam estar preparados para as mudanças que essa tecnologia trará.
Tendo isso em mente, o SEST SENAT, por meio do programa Mais Motoristas, está trabalhando para capacitar esses profissionais para o futuro. A iniciativa oferece cursos de formação que combinam teoria e prática em veículos com tecnologia embarcada.
O programa já atraiu mais de 55 mil inscrições e, nos próximos meses, novas convocações serão realizadas. A iniciativa é uma oportunidade para os caminhoneiros se manterem atualizados e preparados para as mudanças que o mercado de trabalho irá enfrentar.
O programa funciona de maneira ampla para beneficiar tanto os candidatos interessados quanto as empresas envolvidas. De maneira geral, o SEST SENAT assume os custos necessários para a mudança de categoria da CNH de todos os participantes. Após a conclusão desse processo, os alunos têm a oportunidade de escolher um dos cursos oferecidos pela Escola de Motoristas.
Esses cursos abrangem diversas especializações, incluindo transporte de produtos perigosos, cargas indivisíveis e outras regulamentadas pelo Contran, transporte coletivo de passageiros e transporte de escolares.
Participar desse programa oferece uma série de vantagens para os candidatos. Além de aumentar a empregabilidade, a obtenção da certificação comprova a habilitação e a proficiência para a condução de veículos, proporcionando uma maior proximidade com empresas contratantes.
As empresas também colhem benefícios expressivos ao aderirem ao programa. Elas passam a contar com profissionais que possuem habilitação e competência comprovadas para a condução de veículos, o que contribui para a segurança no trânsito.
Além disso, os motoristas formados pelo programa são capacitados para uma condução segura e econômica, resultando em redução do consumo de combustível e diminuição dos gastos com manutenção. Dessa forma, o programa não apenas amplia as oportunidades para os profissionais, mas também promove um impacto positivo nas operações e na segurança das empresas de transporte.
Infelizmente, as inscrições para o programa Mais Motoristas encerraram em 22 de agosto de 2023. Ao todo, foram disponibilizadas 2.793 vagas distribuídas em 86 unidades operacionais em todo o país. Atualmente, mais 2 mil vagas estão sendo ofertadas, e nos próximos meses, novas convocações serão realizadas.
Enfim, é urgente implementar ações para preparar os motoristas para os próximos anos, tornando a profissão cada vez mais atrativa para os jovens. Para isso, é importante que o governo e as empresas do setor de transporte rodoviário de carga ofereçam cursos de capacitação e atualização para os caminhoneiros. Essas ações são fundamentais para garantir a permanência da profissão no Brasil e a segurança do transporte de carga.
Setor de cargas: Mulheres no volante e a falta de jovens
7 de outubro de 2023 12:29 por Vanderlei Tenório
O transporte rodoviário de cargas tem sido predominantemente composto por motoristas do gênero masculino. De acordo com dados da Secretaria Nacional de Trânsito, o país possui aproximadamente 4,39 milhões de Carteiras Nacionais de Habilitação para veículos pesados, sendo que 97,19% delas pertencem a motoristas homens, enquanto apenas 2,81% são de mulheres.
Considerando esse contexto, a Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos (CNTA) recentemente conduziu uma pesquisa para avaliar as condições de trabalho das mulheres que atuam como caminhoneiras no país. Essa iniciativa foi concebida para fortalecer o movimento Agosto Lilás, que tem como objetivo combater a violência contra a mulher.
Conforme os resultados da pesquisa, a maioria das entrevistadas (34,7%) está na faixa etária entre 31 e 40 anos, e 43,1% delas têm menos de 5 anos de experiência na profissão. Esses dados indicam que muitas mulheres possivelmente ingressaram na carreira em estágios posteriores de suas vidas ou após uma transição de carreira, sendo que 69,6% delas escolheram a profissão movidas pelo amor a ela.
Para mais, 72,2% das entrevistadas trabalham com carteira assinada. Apenas 11,1% relataram nunca terem enfrentado preconceito relacionado à profissão, enquanto 87,5% afirmam que frequentemente ou ocasionalmente têm suas habilidades subestimadas devido ao fato de serem mulheres. Em relação ao assédio moral, 45,8% afirmaram terem sido vítimas em algumas ocasiões.
Não apenas isso, mas também é preocupante que 70,8% das mulheres entrevistadas afirmem nunca ter recebido remuneração inferior à de um colega masculino desempenhando as mesmas funções. Além disso, outra questão é a inadequação da estrutura destinada ao público feminino, sendo esse um ponto crucial destacado pelas profissionais, conforme revelado no espaço aberto da pesquisa, sendo este o aspecto mais citado pelas entrevistadas.
Na avaliação das caminhoneiras participantes, 70,8% expressaram insatisfação com a quantidade de banheiros femininos nos Postos de Parada (PPDs) e postos de combustíveis, classificando-os como péssimos ou ruins. Quanto à limpeza desses banheiros, 68,1% também avaliaram como péssima ou ruim. Aliás, 41,7% das entrevistadas consideraram como regular as opções de hospedagem disponíveis.
Diante desse panorama, a Confederação Nacional dos Transportes (CNTA) apresentou algumas propostas para reforçar a sensação de segurança das caminhoneiras nas estradas, solicitando a avaliação delas em uma escala de 1 a 5, onde a opção 5 representa uma ideia excelente.
Em adição a isso, 61,1% das participantes atribuíram nota 5 à ideia de reservar vagas exclusivas para mulheres nos PPDs, e 73,6% também classificaram com nota 5 a proposta de instalação de câmeras nas portas de acesso aos banheiros femininos.
Paralelamente a esses desafios enfrentados pelas profissionais, há uma escassez de mão de obra com as competências técnicas e operacionais necessárias para atender às demandas do setor de transporte no Brasil. De acordo com dados da Confederação Nacional do Transporte – CNT, mais de 40% das empresas de transporte rodoviário de cargas e de transporte rodoviário urbano de passageiros enfrentam dificuldades para encontrar profissionais com todas as capacidades exigidas, especialmente no caso dos motoristas.
Essa escassez é atribuída, em parte, aos elevados requisitos necessários para exercer as atividades do setor. Atualmente, para trabalhar como motorista de ônibus ou no transporte de produtos perigosos, por exemplo, é preciso ter mais de 21 anos, possuir carteira de habilitação nas categorias D ou E, e passar por cursos de formação especializada. A última pesquisa da Confederação Nacional do Transporte (CNT) sobre o perfil dos caminhoneiros, revelou que a média de idade era de 44,8 anos
Frente a essa realidade, o SEST SENAT lançou, neste ano, o projeto Mais Motoristas, que tem como objetivo aumentar o número de motoristas profissionais por meio do financiamento da mudança gratuita de categoria da CNH, além de oferecer cursos de formação (mais detalhes disponíveis aqui).
Transportes: Setembro tem sido desafiador para o setor
28 de setembro de 2023 3:29 por Vanderlei Tenório
Atualmente, uma preocupante questão está afetando tanto contratantes quanto empresas no setor de transporte: o aumento de custos decorrente das recentes mudanças na Lei do Descanso (Lei 13.103).
Esse aumento de custos, especialmente perceptível em viagens de longa distância, gira em torno de 12%. No entanto, o que tem causado ainda mais impacto é a elevação de até 70% nos custos das operações que antes eram conduzidas por duplas de motoristas. Esses números são fruto de cálculos realizados pelo Departamento de Custos Operacionais e Pesquisas Técnicas e Econômicas (Decope), vinculado à NTC&Logística.
As alterações na Lei do Descanso foram estabelecidas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em 12 de julho, quando foram declarados inconstitucionais vários dispositivos da lei. Entre essas alterações, estava a permissão para que os caminhoneiros dividissem o intervalo de 11 horas de descanso entre dois dias de trabalho.
Anteriormente, eles podiam descansar 8 horas, sendo que as outras 3 horas podiam coincidir com os intervalos de meia hora obrigatórios após cinco horas e meia de direção. Com a decisão do STF, os motoristas agora são obrigados a descansar ininterruptamente por 11 horas e não podem acumular períodos de descanso remunerados em viagens de longa distância.
Antes, a lei permitia que eles trabalhassem três semanas consecutivas e, em seguida, tivessem três dias de folga em casa com a família. Agora, essa prática não é mais permitida, sendo obrigatório um dia de descanso por semana, independentemente de onde estiverem.
Outro fator impactante no setor é o preço do diesel. O preço médio do diesel S10 nos postos de combustível do Brasil registrou uma nova alta nesta semana, de 0,32%, atingindo R$ 6,22 por litro entre os dias 17 e 23 de setembro.
Nas semanas anteriores, de 10 a 16 de setembro, o preço médio nacional do produto era de R$ 6,20 por litro. Esse é o oitavo aumento consecutivo no preço médio do diesel S10 para os consumidores, com a última queda ocorrendo no fim de julho. O aumento nos preços é resultado de uma série de fatores, incluindo a cobrança de tributos, os reajustes nas refinarias e a retomada da cobrança de impostos federais PIS/Cofins, além do impacto do biodiesel na mistura vendida nos postos.
A situação pode se agravar ainda mais com a proibição das exportações de diesel e gasolina pela Rússia, o que pode exercer pressão adicional sobre os preços dos combustíveis no Brasil. Segundo analistas, essa medida do governo russo visa estabilizar o mercado local, que enfrentou meses de escassez de combustíveis. Além disso, o governo russo está considerando a aplicação de uma taxa de US$ 250 por tonelada de derivados de petróleo de outubro de 2023 a julho de 2024.
Essa restrição às exportações russas já está gerando aumento nos spreads de refino e nos preços do petróleo bruto, com implicações significativas para o mercado global. Apesar do crescimento na produção interna de óleo e gás, o Brasil ainda é fortemente dependente de derivados de petróleo importados, o que o torna vulnerável às flutuações de preços no cenário internacional. Em agosto, a Petrobras operou suas refinarias quase na capacidade máxima, mas os consumidores não sentiram alívio nos preços, já que o diesel subiu 8,54% e a gasolina 1,24% no mesmo mês.
Como se não bastasse, desde 16 de agosto, os caminhoneiros têm enfrentado um custo adicional de cerca de R$ 300 para encher o tanque de seus caminhões. Esses dados foram revelados em um levantamento realizado pelo Índice de Preços Ticket Log (IPTL), que monitora os preços nos postos de combustível e demonstra o impacto direto desses aumentos nos gastos dos caminhoneiros.
Segundo o IPTL, o preço do diesel aumentou consideravelmente nas bombas de abastecimento do país após o último reajuste de 25,8% no valor repassado às refinarias, que entrou em vigor em 16 de agosto. Entre os dias 10 e 24 de agosto, o preço médio do diesel comum subiu 18,40%, passando de uma média de R$ 5,11 para R$ 5,76. O diesel tipo S-10, com menor teor de enxofre, também registrou um aumento de 19,05% no mesmo período, indo de R$ 5,25 para R$ 5,94.
Onde está o diesel?
12 de agosto de 2023 11:41 por Vanderlei Tenório
A política de fixação de preços adotada pela Petrobras tem gerado um crescente descompasso entre os valores dos combustíveis no mercado interno e as flutuações das cotações internacionais. Essa situação vem desencadeando problemas também no abastecimento doméstico, com postos de combustível enfrentando dificuldades na aquisição de óleo diesel. Revendedores relatam que as empresas distribuidoras estão reduzindo e limitando os pedidos de compra devido à diminuição da disponibilidade desse produto no mercado nacional.
Estimativas do setor apontam para uma discrepância de cerca de 26% nos preços dos combustíveis em relação ao mercado internacional, o que torna inviável a importação do produto para as distribuidoras independentes. Esse desequilíbrio já começa a se manifestar no fornecimento dos combustíveis, com alguns pontos do país começando a impor restrições nas vendas, embora ainda não haja escassez generalizada.
Apesar de a situação atual não se assemelhar ao cenário do mesmo período do ano anterior, já há relatos pontuais de falta de combustível por parte dos caminhoneiros. Uma pesquisa conduzida pela consultoria Posto Seguro revelou que revendedores estão enfrentando dificuldades para adquirir diesel S500 em seis estados: Rondônia, Pará, Minas Gerais, Mato Grosso, Paraná e Santa Catarina.
A situação é ainda mais crítica para o diesel S10, com relatos de interrupções no fornecimento em 11 unidades federativas: Rondônia, Pará, Tocantins, Rio de Janeiro, Distrito Federal, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
A Federação Nacional do Comércio de Combustíveis e de Lubrificantes (Fecombustíveis) confirma a ocorrência de restrições em algumas regiões, mas ressalta que se trata de casos isolados e não há um quadro de escassez no país no momento.
Nos últimos 30 dias, os preços internacionais do diesel têm subido consideravelmente, o que torna menos atrativa a importação desse produto em comparação com o diesel nacional produzido pela Petrobras. A empresa estatal está praticando preços mais baixos devido a uma nova estratégia comercial. Isso tem levado importadores e distribuidores, incluindo os de menor porte, a buscar suprimentos junto à Petrobras e às principais distribuidoras do país, como Vibra, Raízen e Ipiranga, cujas capacidades de fornecimento já estão comprometidas por contratos pré-estabelecidos.
Em relação aos preços internacionais, a Associação Brasileira de Importadores de Combustíveis (Abicom) afirma que os valores praticados no Brasil estão cerca de 23% mais baixos para o óleo diesel e 18% para a gasolina. Se analisarmos somente as refinarias da Petrobras, essa diferença aumenta para 28% e 24%, respectivamente, o que poderia resultar em um aumento de R$ 1,14 por litro no diesel e R$ 0,77 na gasolina.
A Petrobras, em comunicado, assegura que está honrando integralmente seus compromissos contratuais com as distribuidoras. A empresa também ressalta que o mercado brasileiro é atendido por diversos agentes além da própria Petrobras, como distribuidoras, importadores, refinarias e formuladores, que têm a capacidade plena de atender a demanda por derivados de petróleo.
Entenda a dinâmica geopolítica que resultou na proibição da exibição do filme “Barbie” no Vietnã
5 de julho de 2023 2:40 por Vanderlei Tenório
Na última segunda-feira (3), a mídia estatal do Vietnã divulgou que o filme “Barbie”, realizado por Greta Gerwig, não será disponibilizado para exibição no país. O motivo para essa proibição reside em uma determinada cena que exibe um mapa contendo a controversa “linha dos nove traços”, uma reivindicação territorial da China sobre a região do Mar do Sul da China, a qual é contestada pelos vietnamitas.
De acordo com Vi Kien Thanh, o chefe do Departamento de Cinema local, a licença para o lançamento do filme norte-americano “Barbie” não foi concedida devido à presença dessa imagem considerada ofensiva, a qual retrata a mencionada linha.
Esta não é a primeira vez que o mapa em questão causa contestações no país do sudeste asiático. No ano de 2019, o governo Võ Văn Thưởng também proibiu a exibição da animação “Abominável”, de Jill Culton e Karey Kirkpatrick, produzida pela DreamWorks, sob o mesmo argumento. Além disso, outras produções, tais como o filme de ação “Uncharted”, de Ruben Fleischer e a série de espionagem australiana “Pine Gap”, foram barradas por apresentarem o referido mapa.
Essas decisões de censura refletem as tensões políticas e territoriais entre o Vietnã e a China em relação à região do Mar do Sul da China, tornando-se um tema sensível para o país, que busca preservar sua soberania e interesses nacionais.
Tendo em vista esse cenário, no papel de professor de atualidades e de ex-bacharelando em Geografia pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL), é minha responsabilidade explicar melhor o fenômeno em questão.
Dito isso, a complexa origem das disputas territoriais no Mar da China Meridional remonta aos mapas oficiais criados pelo governo nacionalista do Kuomintang antes e depois da Segunda Guerra Mundial, como documentado no livro “Asia’s Cauldron”, de Robert D. Kaplan. Após a derrota do Kuomintang pelas forças comunistas lideradas por Mao Zedong, o governo nacionalista se refugiou em Taiwan, onde estabeleceu sua sede. Essa situação resultou na República Popular da China e Taiwan reivindicando oficialmente a propriedade do Mar da China Meridional.
A principal fonte de disputa territorial está relacionada à Linha de Nove Traços, originalmente uma linha de 11 traços, que foi estabelecida com a ajuda do geógrafo chinês Yang Huairen. No entanto, países como Vietnã, Filipinas e Malásia argumentam que essa linha ultrapassa os limites estabelecidos pelo Direito do Mar e reivindica um território muito maior do que é justificável.
Dessa forma, as reivindicações territoriais da China têm gerado tensões, pois entram em conflito com as questões de soberania territorial dos Estados do Sudeste Asiático. Nesse aspecto, embora a China se baseie em argumentos históricos para justificar suas pretensões, essas alegações são vistas com preocupação pelos países vizinhos, que temem uma possível hegemonia chinesa na região. Por conseguinte, a ocupação de ilhas no Mar do Sul da China e a construção de ilhas artificiais têm aumentado as tensões, levantando preocupações sobre a biodiversidade marinha e as relações políticas e diplomáticas entre os países da região.
Por sua vez, sob esse ângulo, o Vietnã reivindica a soberania das ilhas Paracel e Spratly, o que resulta em conflitos acentuados com a China. Para esquentar a “briga”, Taiwan também busca fundamentos históricos para suas reivindicações nessas ilhas. No meio de tudo isso, Malásia, Brunei e Filipinas baseiam-se no Direito do Mar (UNCLOS) para justificar suas reivindicações territoriais.
Mais especificamente, Taiwan também pleiteia o território das ilhas Paracel e ocupa a maior ilha do arquipélago de Spratly. O sultanato de Brunei reivindica um pequeno recife nas ilhas Spratly, dentro de sua Zona Econômica Exclusiva (ZEE). A Malásia também reivindica áreas dentro de sua ZEE, assim como algumas ilhas da cadeia de Spratly. As Filipinas têm uma relação estreita com os Estados Unidos, mas Washington não tem sido ativo na defesa das ilhas ocupadas no arquipélago de Spratly, que são reivindicadas em sua totalidade pelo governo filipino. No início de 2013, as Filipinas iniciaram um procedimento arbitral contra a China na Corte Permanente de Arbitragem, mas todas as decisões foram negadas por Pequim.
Essa região é de grande importância econômica, pois uma porcentagem significativa do comércio mundial passa pelo Mar da China Meridional, incluindo recursos energéticos como gás natural e petróleo. Por esse motivo, é conhecido como a “garganta do Pacífico” e é uma das rotas comerciais mais importantes do mundo.
Em resumo, a disputa territorial no Mar da China Meridional é uma questão complexa e delicada, envolvendo argumentos históricos, soberania territorial, interesses econômicos e relações políticas entre os países da região. O cenário geopolítico e a importância estratégica da área tornam essas disputas uma preocupação internacional.
“Barbie”, estrelado por Margot Robbie e Ryan Gosling, estava originalmente programado para estrear no Vietnã em 21 de julho, a mesma data que nos Estados Unidos, de acordo com o jornal estatal Tuoi Tre.
Fontes teóricas consultadas:
ZIETLOW, B; MARTINS, C. Tensões no Mar do Sul da China. RIPE/UFRGS, Porto Alegre, 04 de jul. de 2023. Disponível em: https://www.ufrgs.br/ripe/wp-content/uploads/2017/05/Mar-do-Sul-da-China.pdf. Acesso em: 04 de jul. de 2023.
FAKHOURY, R. M. M. As disputas marítimas no Mar do Sul da China: antecedentes e ações militares no século XXI. Série Conflitos Internacionais, Marília, v. 6, n. 1, p. 1- 9, fev. 2019.
Cretaceous Park?
27 de junho de 2023 12:10 por Vanderlei Tenório
Embora o título do filme “Jurassic Park” faça uma referência direta ao período Jurássico, que ocorreu entre 205 e 142 milhões de anos atrás, a maioria dos dinossauros que aparecem nele pertence ao período Cretáceo, que ocorreu de 145 milhões a 65 milhões de anos atrás.
Mesmo que tenha havido um erro cronológico em uma das falas iniciais do Dr. Alan Grant, interpretado por Sam Neill, os roteiristas reconheceram o erro. Eles afirmaram que a maioria dos espectadores não saberia a diferença entre os períodos Jurássico e Cretáceo, mas reconheceram a importância de se manter a precisão histórica em obras de ficção científica.
Por conseguinte, no início do primeiro filme da série “Jurassic Park”, há uma cena que se passa em um acampamento de escavações em um deserto de Montana, nos Estados Unidos, entre os minutos 07:46 e 09:00. Nessa cena, o personagem Dr. Alan Grant declama um monólogo científico para um garoto descrente da existência de dinossauros. Na breve declamação, o Dr. Grant enfatiza a veracidade e a genialidade da existência do Velociraptor e pede para o garoto se imaginar no período Cretáceo.
“Tente se imaginar no período Cretáceo…”
O período Cretáceo é um dos três períodos geológicos da era Mesozoica, que ocorreu há cerca de 145 milhões a 65 milhões de anos atrás. Durante este período, muitos dinossauros se desenvolveram e evoluíram, incluindo o famoso Velociraptor. O Dr. Grant usa essa referência para encorajar o garoto a imaginar a realidade desses animais pré-históricos e acreditar em sua existência.
Nesse quadro, a dúvida sobre se os dinossauros só existiram no período Jurássico pode parecer fechada, mas a resposta é um sonoro não! Os dinossauros não se limitaram apenas a esse período, que corresponde ao segundo período da Era Mesozoica, entre 205 e 142 milhões de anos atrás.
A Terra passou por inúmeras mudanças geológicas ao longo de sua história, afetando tanto sua estrutura quanto a vida que a ocupava. Essas mudanças ocorreram durante milhares e milhões de anos, o que resultou em uma ampla diversidade de dinossauros em diferentes eras geológicas. Portanto, afirmar que os dinossauros só existiram no período Jurássico é uma afirmação completamente equivocada.
Logo, atualmente, há um consenso razoável de que os dinossauros surgiram no início do período Triássico e atingiram seu ápice de existência no período Jurássico, sendo extintos no início do período Cretáceo. No entanto, a causa da extinção dos dinossauros e de quase toda forma de vida no planeta é um tema que ainda gera debate entre cientistas. A descoberta de uma cratera gigantesca na Península de Yucatán, no México, no início dos anos 1990, levou muitos cientistas a afirmarem que o choque de um asteroide com a Terra, há 66 milhões de anos, foi a causa da extinção dos dinossauros.
Contudo, outros estudiosos têm questionado essa teoria amplamente aceita da “morte súbita por asteroide“. Esse grupo argumenta que erupções vulcânicas massivas, que podem ter liberado gases capazes de mudar o clima numa região do tamanho da Espanha, conhecida como Basaltos de Decão, podem ter tido um papel significativo na devastação da vida na Terra. Apesar de ainda não haver um consenso definitivo, essas teorias nos fornecem informações valiosas sobre a história do nosso planeta e a forma como eventos catastróficos podem afetar a vida na Terra.
Nesse ínterim, a trilogia cinematográfica Jurassic Park, lançada entre 1993 e 2001, é conhecida por trazer os dinossauros à vida nas telonas com uma perfeição nunca antes vista. Embora a franquia seja a mais famosa representação cinematográfica dessas criaturas milenares, é importante analisar os períodos em que as espécies retratadas nos filmes habitaram.
Detalhando melhor, durante o período Jurássico, por exemplo, existiram dinossauros como o Brachiosaurus, o Dilophosaurus, o Stegosaurus, o Compsognathus e o Ceratosaurus. Já durante o período Cretáceo, houve espécies como o Tyrannosaurus, o Triceratops, o Velociraptor, o Parasaurolophus, o Corythosaurus, o Baryonyx e o Ankylosaurus. Nesse sentido, embora a franquia seja intitulada Jurassic Park, matematicamente, o primeiro filme tem um maior número de espécies do Cretáceo do que do Jurássico, o que traz uma ironia ao nome da franquia.
Por conseguinte, podemos identificar alguns fatos curiosos na franquia Jurassic Park, um deles sendo que a maioria dos dinossauros deveria ter penas em seus corpos, incluindo o Tiranossauro rex. Xing Xu, um paleontólogo chinês que nomeou mais dinossauros do que qualquer outro paleontólogo vivo, descobriu através de fósseis bem preservados que a maioria das espécies de dinossauros possuía penas. Ele liderou um grupo de cientistas que analisou uma série de fósseis de aves primitivas com mais de 100 milhões de anos e constatou que algumas espécies tinham quatro asas, com penas nos membros traseiros que poderiam ser utilizadas para voar.
A pesquisa concluiu que o processo evolutivo levou os pares de asas traseiras a se tornarem patas, com penas cada vez menores ao longo do tempo. Um estudo semelhante realizado pela revista Science chegou à conclusão de que 11 fósseis de pássaros primitivos apresentavam evidências notáveis de grandes penas nos membros traseiros, que compunham um sistema de quatro asas.
Curiosamente, a franquia Jurassic Park não retratou os dinossauros com penas em seus efeitos especiais, apesar de ser um marco na indústria de efeitos especiais. O personagem Dr. Grant menciona esse fato em detalhes em um exemplo com um fóssil de Velociraptor entre os minutos 7:18 e 7:33 do filme 1.
À vista disso, o sucesso meteórico de bilheteria do primeiro filme da franquia “Jurassic Park”, que arrecadou US$1.029.153.882, pode ser atribuído à construção virtual dos dinossauros que contracenaram com o elenco de carne e osso. Esse sucesso demonstrou nosso fascínio por essas criaturas pré-históricas enigmáticas e peculiares, que sempre instigaram nossa imaginação desde a infância.
Ademais, um fato curioso sobre o filme é que a afirmação do Dr. Alan Grant, que diz para a neta de John Hammond “Não se mexa! Ele não pode nos ver se nós não nos mexermos”, está incorreta em relação ao Tiranossauro rex (Tyrannosaurus). O Tiranossauro rex (Tyrannosaurus) conseguia ver mesmo que o alvo não estivesse se movendo, e há evidências de que ele tinha uma visão excelente, provavelmente melhor que a das águias e gaviões atuais.
Além disso, o Tiranossauro rex (Tyrannosaurus) também tinha ótimos sentidos de olfato e audição, indicando que permanecer imóvel diante dele como mostrado no filme não seria uma estratégia eficaz para despistá-lo. A velocidade dos tiranossauros é um ponto de controvérsia entre os cientistas, mas muitos acreditam que a velocidade máxima dos tiranossauros ficava entre 27 e 40 quilômetros por hora, o que pode tornar algumas cenas do filme menos dramáticas.
O filme também apresenta uma representação imprecisa dos Braquiossauros. Nesse aspecto, Mateus Marchetto, no artigo “Os dinossauros mais famosos a caminharem pela Terra”da seção “Planeta Terra” do site So Cientifica, observa que ao mostrar um braquiossauro adulto levantando-se sobre as patas traseiras para alcançar folhas de uma árvore, o primeiro filme da franquia omite o fato de que esses dinossauros eram simplesmente muito pesados para realizar tal ação. Além disso, os braquiossauros possuíam patas dianteiras mais longas, o que lhes permitia alcançar galhos mais altos das árvores.
Para finalizar o artigo, gostaria de comentar sobre a clonagem e recriação de espécies de dinossauros através da engenharia genética usada no argumento dos filmes. A ideia de clonar e recriar espécies de dinossauros através da engenharia genética, como apresentada no filme “Jurassic Park”, é impossível de ser realizada na realidade.
No filme, os cientistas da empresa InGen coletavam o DNA de animais extintos por meio da coleta do sangue existente dentro de mosquitos presos em âmbar há milhões de anos. A partir desse material genético, os dinossauros eram clonados e colocados em um parque temático. Conquanto, estudos recentes demonstram que o DNA degrada-se facilmente no ambiente, e mesmo em condições ideais, nenhum DNA sobreviveria a mais de 6,8 milhões de anos, o que torna essa ideia impossível de ser concretizada.
No entanto, algumas pesquisas recentes têm tentado reverter geneticamente as aves para terem algumas características de seus ancestrais, que são dinossauros. Apesar disso, essas aves nunca serão completamente semelhantes a qualquer espécie de dinossauro que já existiu.
