Pelo menos 1.229 policiais, militares e profissionais ligados às forças de segurança estão entre os candidatos das eleições de 2026, segundo levantamento da Agência Pública baseado em dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
O grupo representa 5,99% das 20.506 candidaturas registradas até 17 de agosto. Na prática, quase seis de cada 100 candidatos deste ano têm ligação profissional com polícias, Forças Armadas ou corpos de bombeiros.
Apesar da presença expressiva, houve queda em relação a 2022. Naquele ano, 1.963 candidatos ligados à segurança disputaram as eleições, 37,4% a mais que agora. A participação proporcional, porém, caiu pouco: de 6,71% para 5,99%.
A diferença de apenas 0,72 ponto percentual mostra que a presença das forças de segurança continua próxima do patamar observado na eleição anterior.
Os policiais militares formam o maior grupo, com 46,14% das candidaturas. Depois aparecem policiais civis, com 9,76%, bombeiros militares, com 7,49%, militares reformados, também com 7,49%, e integrantes das Forças Armadas, com 6,67%.
A predominância da Polícia Militar também revela uma disputa sobre qual modelo de segurança ganha espaço na política. A PM está diretamente associada ao policiamento ostensivo, enquanto investigação, perícia e produção de provas dependem de outras estruturas.
Os dados orçamentários ajudam a dimensionar esse desequilíbrio. Segundo informações da Plataforma Justa citadas pela Agência Pública, os Estados destinam R$ 53,3 bilhões ao policiamento.
Desse total, quase 70% são direcionados às Polícias Militares, enquanto menos de 23% chegam à Polícia Técnico-Científica, área fundamental para a investigação criminal.
O resultado aparece em um dos indicadores mais preocupantes da segurança brasileira: menos de 40% dos homicídios são esclarecidos, de acordo com dados do Instituto Sou da Paz mencionados no levantamento.
O país, portanto, mantém uma forte estrutura de policiamento ostensivo sem conseguir solucionar a maioria dos assassinatos.
A concentração política das candidaturas também chama atenção. O PL lidera entre os partidos, com 197 candidatos ligados às forças de segurança, cerca de 16% do total.
Na sequência aparecem Republicanos, com 10%, Podemos, com 8,22%, e Novo, com 7,24%. O cenário revela forte presença desse segmento em partidos de direita e centro-direita.
Essa aproximação acompanha a transformação da segurança pública em uma das principais bandeiras eleitorais desse campo político, especialmente em torno do endurecimento de penas e do aumento da repressão ao crime.
O fenômeno também é marcado por forte desigualdade de gênero. Homens representam 80,80% das candidaturas policiais ou militares, enquanto as mulheres somam apenas 19,20%.
Entre os estados, a proporção geralmente varia de 3% a 7%. O Distrito Federal é exceção: possui 59 candidatos ligados às forças de segurança, equivalentes a 9,18% das candidaturas locais.
A presença policial também já se consolidou no Congresso. Cerca de 38 dos 513 deputados federais são policiais militares, delegados, agentes federais ou policiais civis, grupo equivalente a aproximadamente 7,4% da Câmara.
Essa bancada tem forte atuação na Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado. Segundo o Instituto Sou da Paz, os requerimentos apresentados na comissão aumentaram 32,28% entre 2022 e 2023.
Para pesquisadores ouvidos pela Agência Pública, parte dessa atuação está relacionada à busca de visibilidade política e ao engajamento nas redes sociais.
A chamada policialização da política, porém, envolve mais do que o número de policiais eleitos. Ela inclui a transformação da farda, das operações e da experiência profissional em capital eleitoral.
O pesquisador Thiago Amparo, da FGV Direito SP, avalia que essas candidaturas costumam se concentrar em duas frentes: reivindicações corporativas das próprias forças e defesa do endurecimento das leis penais.
O problema, segundo especialistas, é que uma política de segurança baseada principalmente na repressão pode deixar em segundo plano prevenção, investigação, inteligência e reinserção social.
A pesquisadora Natasha Bachini, do Núcleo de Estudos da Violência da USP, afirma que políticos ligados à segurança frequentemente exploram casos de grande repercussão para construir narrativas sobre criminalidade.
O risco é que crimes chocantes e episódios isolados tenham mais influência sobre as decisões públicas do que estatísticas capazes de revelar as causas e os padrões da violência.
O feminicídio é um exemplo. O Brasil registrou aumento de 4% nesse tipo de crime em 2025, alcançando o quarto ano consecutivo de crescimento.
Outro ponto de preocupação é o destino das emendas parlamentares. Segundo a pesquisa citada pela Pública, políticos ligados às forças de segurança ou próximos das corporações frequentemente direcionam recursos para o fortalecimento das próprias instituições policiais.
Esse mecanismo pode criar um ciclo de influência: a segurança produz capital eleitoral, o capital eleitoral leva policiais ao Legislativo e o mandato amplia recursos e visibilidade para as estruturas de segurança.
O sistema penitenciário apresenta outro paradoxo. O Brasil possui mais de 964 mil pessoas presas e está entre os países com maior população carcerária do mundo.
Quase 70% dos presos são negros, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública citados na reportagem.
Mesmo com esse encarceramento em massa, as políticas voltadas aos egressos do sistema prisional permanecem insuficientes. A falta de reinserção pode contribuir para a reincidência e alimentar novamente o ciclo de encarceramento.
A discussão eleitoral, entretanto, costuma privilegiar propostas de aumento de penas e endurecimento da legislação.
O deputado federal Capitão Alberto Neto (PL-AM), ouvido pela Pública, vê o crescimento das candidaturas policiais como reflexo da insegurança no país.
Ele defende prevenção, “repressão qualificada”, punições mais duras e medidas de enfrentamento às organizações criminosas.
Outro debate envolve o período de afastamento dos policiais que pretendem disputar eleições. Atualmente, as regras permitem afastamentos que, em geral, variam entre três e seis meses antes do pleito.
A diretora-executiva do Instituto Sou da Paz, Carolina Ricardo, defende que esse intervalo seja de pelo menos um ano para reduzir o risco de utilização política da atividade policial.
A questão ganhou importância porque policiais em atividade acumulam visibilidade, autoridade e acesso a estruturas públicas que podem ser convertidos em vantagem eleitoral.
O levantamento da Agência Pública mostra, portanto, que a presença das forças de segurança na política brasileira não é episódica.
Embora o número absoluto de candidaturas tenha caído 37,4% desde 2022, a participação proporcional permanece próxima de 6% do eleitorado candidato.
Mais importante que a quantidade é o tipo de agenda que acompanha essa representação. A expansão da bancada policial ocorre em um país que destina a maior parte dos recursos de policiamento às estruturas ostensivas, mas esclarece menos de quatro em cada dez homicídios.
O desafio das eleições de 2026 será decidir se a crescente influência política das forças de segurança produzirá apenas mais recursos, penas mais duras e maior presença policial ou se também será capaz de enfrentar os problemas menos visíveis: investigação deficiente, prevenção, saúde mental dos agentes, sistema penitenciário e reincidência.






0 comentários