Por Duse Leite*
Hoje, a notícia da partida de Glória Menezes me fez voltar no tempo.
Não apenas ao tempo da televisão, das novelas, do teatro e daqueles grandes atores que ajudaram a construir a dramaturgia brasileira. Voltei a um lugar muito particular da minha memória: a nossa casa em Paripueira.
Meu pai era um homem de teatro. E talvez nós, seus filhos, nem tivéssemos dimensão, naquela época, do presente que a vida nos dava.
Eu e Gustavo éramos adolescentes e vivíamos naquele universo. O teatro fazia parte da nossa casa, das nossas conversas, dos nossos dias. E, por causa do meu pai, tivemos a oportunidade de conhecer de perto pessoas que, para nós, pareciam pertencer a um mundo distante, quase inacessível.
Mas elas estavam ali. Na nossa casa. Sentadas, conversando, rindo, convivendo conosco.
Tarcísio Meira e Glória Menezes estiveram em nossa casa em Paripueira.
Para nós, aquilo era fantástico.
No dia seguinte, chegávamos à escola cheios de entusiasmo e contávamos:
— Ontem, Tarcísio e Glória Menezes estiveram lá em casa!
E ninguém acreditava.
Quem acreditaria?
Éramos dois adolescentes contando que dois dos maiores nomes da televisão brasileira tinham estado na nossa casa, como se aquilo fosse a coisa mais comum do mundo.
Mas, para nós, era.
Porque nosso pai nos deu esse privilégio. Ele nos abriu as portas de um universo que talvez jamais imaginássemos conhecer tão de perto. E nós fomos crescendo entre atores, atrizes, artistas, histórias, ensaios, conversas e aquela magia que só quem vive o teatro consegue compreender.
Hoje, tantos anos depois, percebo o quanto aquilo foi extraordinário.
Naquele tempo, eu não sabia que estava vivendo momentos que um dia se transformariam em memória.
Não sabia que aqueles rostos que eu via tão próximos se tornariam, para milhões de brasileiros, personagens inesquecíveis.
Não sabia que um dia eu escreveria sobre a partida de alguns deles com o coração apertado.
E talvez seja por isso que a morte de Glória Menezes tenha me tocado de uma maneira diferente.
Eu não estou apenas me despedindo da atriz.
Estou me despedindo um pouquinho daquela menina que viveu aquilo tudo.
Da menina que chegava à escola contando uma história que parecia impossível.
Da menina que teve a sorte de conhecer, de perto, artistas que admirava pela televisão.
Da menina que ainda não entendia que certas oportunidades são presentes que o tempo só nos ensina a valorizar muitos anos depois.
E então os nomes começam a desfilar diante dos meus olhos.
Laura Cardoso. Tarcísio Meira. Glória Menezes. Paulo Autran. Dina Sfat. Cleyde Yáconis. Yoná Magalhães. Francisco Cuoco.
Quantos já partiram. Quantas vozes se calaram.
Quantos olhares que um dia iluminaram palcos e telas agora vivem apenas nas nossas lembranças.
E penso em Fernanda Montenegro, que ainda está aqui, como uma dessas grandes árvores da nossa dramaturgia, testemunhando a passagem do tempo.
Que privilégio foi ter vivido aquele Brasil.
Um Brasil em que grandes artistas podiam atravessar a porta da nossa casa e sentar conosco.
Um Brasil que meu pai, através do teatro, nos apresentou sem que soubéssemos o tamanho daquela riqueza.
Hoje eu entendo. Entendo que não era apenas Tarcísio e Glória em nossa casa.
Era a história da dramaturgia brasileira passando pela nossa sala.
E nós, dois adolescentes, talvez sem perceber, estávamos vivendo um daqueles capítulos que a vida escreve uma única vez.
Por isso, quando um grande artista parte, alguma coisa dentro de mim também se despede.
Não apenas deles. De um tempo. De uma época.
De uma parte da minha própria história.
Mas há uma coisa bonita nisso tudo: eles podem partir, mas não desaparecem completamente.
Porque permanecem nos personagens.
Nas fotografias. Nas cenas.
Nas histórias que contamos.
E, no meu caso, permanecem também naquela casa em Paripueira, onde um dia dois dos maiores atores do Brasil estiveram diante de mim — e eu ainda era jovem demais para compreender a dimensão daquele encontro.
Hoje compreendo.E agradeço.
Ao meu pai, por ter nos dado aquele mundo.
Aos artistas, por terem feito da arte uma maneira de permanecer.
E à memória, por guardar aquilo que o tempo não consegue levar.
Porque alguns atores, quando partem, não saem de cena.
Apenas deixam de aparecer na tela.
E passam a morar, para sempre, dentro de nós.
*Funcionária pública e jornalista







0 comentários