Por Claudevan Melo*
O acervo histórico que venho pesquisando reúne documentos, registros fonográficos e referências sobre uma das obras mais conhecidas do poeta, médico e escritor alagoano Jorge de Lima (1893-1953): o poema “Essa Nega Fulô”, criação que marcou sua fase regionalista e sua aproximação com o afro-modernismo brasileiro.
O poema integra a produção de Jorge de Lima voltada à representação das raízes culturais brasileiras, especialmente do universo nordestino marcado pelas relações sociais construídas nos engenhos, nas casas-grandes e nos antigos banguês.
A obra foi inspirada em histórias e memórias recolhidas pelo poeta em sua terra natal, União dos Palmares, a partir das narrativas de mulheres negras, das chamadas mucamas, e das experiências vividas no ambiente patriarcal que marcou a sociedade rural alagoana.
“Essa Nega Fulô” tornou-se uma das expressões literárias do interesse de Jorge de Lima pela formação cultural brasileira, abordando a mestiçagem nacional e as complexas relações sociais herdadas do período escravista. O poema dialogava com temas que mobilizavam a intelectualidade nordestina nas primeiras décadas do século XX, especialmente a busca por compreender a identidade brasileira a partir de sua história e de suas tradições.
Ao longo do tempo, a obra ultrapassou os limites da literatura e ganhou diferentes interpretações musicais e cênicas. O poema recebeu arranjos para canto, piano e declamação, sendo registrado em discos de 78 rotações, LPs e também representado por meio de ilustrações do artista plástico Di Cavalcanti.
Entre as versões musicais e interpretações de “Essa Nega Fulô” estão:
- Oswaldo Santiago e Jorge de Lima, em versão cantada por Dorival Caymmi;
- Herivelto Martins, interpretada pela dupla Preto e Branco;
- Oscar Lorenzo Fernández, em composição para piano;
- Jorge Fernandes, em interpretação cantada.
A força do poema também levou a obra aos discos de declamação, ampliando o alcance da poesia de Jorge de Lima para além dos livros. Entre os registros estão:
- Sadi Cabral, no LP Sadi Cabral declama Jorge de Lima;
- João Villaret, ator português, que também gravou a obra em LP.
A permanência de “Essa Nega Fulô” ao longo das décadas revela a importância de Jorge de Lima como um dos grandes nomes da literatura brasileira. Seu poema continua despertando reflexões sobre memória, identidade cultural, formação social do Brasil e as marcas deixadas pela escravidão na sociedade brasileira.
O trabalho de preservação de documentos, discos e referências históricas contribui para manter viva a obra de um dos maiores poetas nascidos em Alagoas, aproximando novas gerações de sua produção literária e cultural.
* Claudevan Melo é pesquisador, colecionador e escritor.









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