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Agricultura familiar: uma estratégia de desenvolvimento para o próximo governo de Alagoas

por | 27 ago, 2026

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Por Geraldo de Majella*

A criação de polos agroindustriais da agricultura familiar em Alagoas deve partir de uma visão territorial, considerando não apenas os assentamentos da reforma agrária e as áreas adquiridas pelo Programa Nacional de Crédito Fundiário (PNCF), mas também o conjunto de agricultores familiares que produzem fora desses programas. A soma dessas diferentes formas de acesso à terra revela uma ampla base produtiva, distribuída em regiões com características econômicas, sociais e ambientais próprias, que demandam estratégias específicas de desenvolvimento agroindustrial.

A agricultura familiar representa uma parcela significativa da produção rural alagoana. Segundo o Censo Agropecuário de 2017 do IBGE, Alagoas contava com 98.542 estabelecimentos agropecuários, dos quais 82.369 eram classificados como agricultura familiar, correspondendo a 83,6% do total. O segmento respondia por 27,48% do valor da produção agropecuária estadual.

Apesar dessa importância, os agricultores familiares ainda enfrentam muitas dificuldades para transformar produção em renda, devido à insuficiência de estruturas de beneficiamento, armazenamento, industrialização e comercialização. Superar essa limitação significa agregar valor à produção, fortalecer cooperativas e ampliar a participação da agricultura familiar nos mercados.

O papel dos governos — federal, estadual e municipais — será fundamental para viabilizar essa estratégia, por meio da organização dos produtores, do incentivo à pesquisa, da formação e capacitação dos agricultores, além da oferta permanente de assistência técnica e extensão rural. A agroindustrialização da agricultura familiar exige políticas públicas contínuas, capazes de articular produção, tecnologia, gestão, crédito e acesso aos mercados, criando condições para ampliar a produtividade e agregar valor aos produtos.

Nesse contexto, uma rede de polos agroindustriais poderá organizar a produção e transformar a agricultura familiar em vetor de desenvolvimento regional. Considerando a concentração das áreas de reforma agrária, a presença do Crédito Fundiário e as características produtivas de cada região, cinco territórios, entre outros com potencial no Estado, destacam-se pelas condições estratégicas para sediar polos agroindustriais em Alagoas.

Reprodução

1. Polo Litoral Norte–Mata Norte: Maragogi e Joaquim Gomes

O eixo Litoral Norte–Mata Norte reúne uma das mais importantes bases da agricultura familiar em Alagoas, considerando a presença de assentamentos da reforma agrária, áreas adquiridas pelo Crédito Fundiário e milhares de agricultores familiares tradicionais. Nesse território, Maragogi e Joaquim Gomes apresentam características distintas e complementares para a implantação de estruturas de beneficiamento, armazenamento e comercialização.

Maragogi, localizado no Litoral Norte de Alagoas, próximo à divisa com Pernambuco, destaca-se pela concentração de assentamentos da reforma agrária e pela proximidade com dois importantes mercados consumidores: Maceió e Recife. O município está a cerca de 120 quilômetros de Recife e aproximadamente 125 quilômetros de Maceió. A presença do turismo regional amplia as possibilidades de comercialização de produtos da agricultura familiar, especialmente frutas, alimentos processados, derivados e produtos com identidade territorial.

Joaquim Gomes, situado na Mata Norte, possui função estratégica de articulação territorial. Com ligação pela BR-101 e proximidade de Maceió, distante cerca de 70 quilômetros, e Recife, a aproximadamente 150 quilômetros, o município pode atuar como centro de organização da produção regional, integrando assentamentos, comunidades rurais e agricultores familiares de diversos municípios, com estruturas de beneficiamento, armazenamento e distribuição.

2. Polo Zona da Mata/Leste: União dos Palmares

A Zona da Mata alagoana possui forte presença histórica da agricultura familiar, dos assentamentos da reforma agrária e de comunidades rurais que desenvolvem diferentes atividades produtivas. União dos Palmares, pela localização e importância regional, apresenta condições para funcionar como centro de organização e apoio à produção desse território.

O polo poderia integrar agricultores familiares, assentados e beneficiários do Crédito Fundiário em cadeias produtivas como mandioca, frutas, hortaliças, pequenos animais e produção de alimentos.

A posição estratégica de União dos Palmares, articulando municípios da Zona da Mata e do Vale do Mundaú, como Messias, Murici, Branquinha, São José da Laje e Ibateguara, favorece a implantação de estruturas de armazenamento, processamento e comercialização, fortalecendo cooperativas e associações de agricultores familiares.

3. Polo Agroindustrial de Arapiraca: a força da agricultura familiar do Agreste

Arapiraca apresenta uma vocação diferenciada por reunir uma agricultura familiar diversificada e integrada à dinâmica econômica regional. O município exerce liderança no Agreste alagoano, funcionando como centro de comércio, serviços e distribuição para dezenas de municípios.

A região reúne milhares de agricultores familiares envolvidos na produção de hortaliças, mandioca, frutas, ovos e criação de animais de pequeno porte, além de iniciativas de beneficiamento de alimentos, como derivados da mandioca, polpas, doces e outros produtos da agroindústria familiar.

A existência de uma base produtiva diversificada e de uma estrutura comercial consolidada cria condições para a implantação de um polo agroindustrial voltado ao beneficiamento, armazenamento e comercialização, fortalecendo cooperativas, associações e pequenas agroindústrias.

Arapiraca representaria o polo da agricultura familiar de mercado, articulando produção rural, infraestrutura, serviços e consumidores de toda a região do Agreste.

4. Polo Médio Sertão: Santana do Ipanema, Batalha e Pão de Açúcar

O Médio Sertão possui forte presença de agricultores familiares, reunindo produtores tradicionais, assentados da reforma agrária e beneficiários do Programa Nacional de Crédito Fundiário (PNCF). A região apresenta uma identidade produtiva marcada pela pecuária, pela produção de alimentos e por atividades adaptadas às condições do semiárido.

Um polo agroindustrial nesse território poderia fortalecer cadeias produtivas já presentes na região, como leite e derivados, queijo artesanal, caprinovinocultura, mel, produção de alimentos e beneficiamento de produtos agrícolas, ampliando a agregação de valor e a inserção dos produtores nos mercados.

Santana do Ipanema, Batalha e Pão de Açúcar exercem funções estratégicas na organização econômica do Médio Sertão, concentrando comércio, serviços e circulação de produtos. A implantação de estruturas de beneficiamento, armazenamento e comercialização permitiria integrar agricultores familiares, cooperativas e associações, fortalecendo a economia rural e criando novas oportunidades de renda no semiárido.

5. Polo Alto Sertão: Delmiro Gouveia

Delmiro Gouveia apresenta condições estratégicas para sediar um polo agroindustrial voltado às características produtivas do semiárido. A região reúne assentamentos do Incra, áreas adquiridas pelo Programa Nacional de Crédito Fundiário (PNCF) e milhares de agricultores familiares que, mesmo fora dos programas de reforma agrária, possuem papel fundamental na economia rural do Alto Sertão.

O polo teria como objetivo integrar esses diferentes segmentos em cadeias produtivas adaptadas às condições da Caatinga, agregando valor à produção e ampliando o acesso aos mercados. Entre as atividades com potencial estão a caprinovinocultura, leite e derivados, apicultura, produtos da Caatinga, sementes, forragens e alimentos produzidos por sistemas adaptados ao semiárido.

A localização de Delmiro Gouveia, com ligação para Pernambuco, Bahia e Sergipe, amplia seu potencial para funcionar como centro regional de processamento, comercialização e distribuição da produção familiar.

Uma rede de desenvolvimento regional

A criação desses cinco polos não significa a instalação de unidades isoladas, mas a construção de uma rede estadual de agroindustrialização da agricultura familiar.

O Litoral Norte–Mata Norte teria como base a concentração de áreas da reforma agrária, famílias beneficiárias e proximidade com grandes mercados consumidores. A Zona da Mata fortaleceria a organização produtiva dos assentamentos e das comunidades rurais. Arapiraca consolidaria a agricultura familiar diversificada do Agreste. O Médio Sertão ampliaria a capacidade de processamento da produção familiar. Delmiro Gouveia fortaleceria a economia do semiárido.

Mais do que uma política de apoio à produção, a proposta representa uma nova etapa para a agricultura familiar em Alagoas: transformar terra, trabalho e conhecimento acumulado em renda, emprego e desenvolvimento regional.

A agricultura familiar já possui a base produtiva. O desafio agora é criar as estruturas necessárias para que essa riqueza permaneça nos territórios, gere valor e amplie a participação dos agricultores familiares nos mercados estadual, regional e nacional.

*Historiador e jornalista. Ex-secretário Extraordinário de Reforma Agrária de Alagoas (2000); ex-diretor-presidente do Instituto de Terras e Reforma Agrária de Alagoas (Iteral), de 2007 a 2012; ex-conselheiro do Conselho Estadual de Desenvolvimento da Agricultura Familiar e Reforma Agrária (Cedafra).

*Historiador e jornalista

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