A expansão das apostas on-line no Brasil deixou um cenário de endividamento, transtornos relacionados ao jogo e impactos na saúde mental de milhares de pessoas. Reportagem da Agência Brasil mostra como as bets passaram a fazer parte da rotina dos brasileiros e os efeitos provocados pelo acesso permanente às plataformas.
Um dos casos relatados é o de Kaio*, de 42 anos, que afirma ter perdido o carro, a casa e o emprego após acumular dívidas com apostas. Atualmente, ele vive em um dormitório no interior de Goiás e busca tratamento em um Centro de Atenção Psicossocial (Caps).
A experiência dele se soma a um problema que ganhou dimensão nacional. Dados citados pela Agência Brasil apontam que as famílias brasileiras perderam R$ 62,5 bilhões com apostas no período analisado. O cálculo considera a diferença entre o dinheiro colocado nas plataformas e os valores devolvidos em prêmios.
As transações movimentadas pelas bets por meio do Pix chegaram a quase R$ 351 bilhões no mesmo intervalo. Os dados foram apresentados no Boletim Fiscal dos Estados, elaborado pelo Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz).
Publicidade e vulnerabilidade
Especialistas ouvidos pela Agência Brasil apontam que a publicidade teve papel importante na expansão das apostas, especialmente entre pessoas em situação de vulnerabilidade financeira.
A psiquiatra Katia Branco, do Hospital das Clínicas de São Paulo, afirma que parte das campanhas publicitárias transmitia a ideia de que as apostas poderiam funcionar como uma fonte complementar de renda.
Na avaliação da especialista, a promessa de ganhos rápidos pode aumentar a exposição de pessoas que já enfrentam dificuldades econômicas.
A regulamentação das bets ocorreu somente em dezembro de 2023, embora a exploração das apostas de quota fixa tivesse sido autorizada anteriormente. A legislação passou a estabelecer medidas de proteção, incluindo advertências sobre os riscos do jogo e mecanismos voltados à identificação de usuários com comportamento compulsivo.
Segundo relatos apresentados na reportagem, porém, essas medidas não impediram que jogadores continuassem recebendo mensagens, bônus e ofertas das plataformas.
Adolescentes também entram no cenário
O problema não ficou restrito aos adultos. Uma pesquisa citada pela Agência Brasil aponta que 20,4% dos estudantes dos anos finais do ensino fundamental e do ensino médio entrevistados disseram ter realizado apostas on-line no período de um ano.
O levantamento ouviu 1.912 estudantes de 191 escolas brasileiras. Entre os entrevistados, 9,5% dos alunos de 11 anos afirmaram já ter apostado.
A psicóloga Mariana Kehl explica que adolescentes apresentam maior vulnerabilidade a estímulos relacionados à recompensa porque áreas do cérebro responsáveis pelo controle dos impulsos e pela avaliação de riscos ainda estão em desenvolvimento.
O acesso facilitado aos aplicativos e sites de apostas amplia essa exposição, já que as plataformas podem ser acessadas pelo celular durante praticamente todo o dia.
Impactos na saúde mental
Profissionais de saúde também relatam casos de ansiedade intensa, desesperança, isolamento social e aumento do consumo de álcool entre pessoas que desenvolveram problemas relacionados ao jogo.
Em situações mais graves, especialistas identificam pensamentos relacionados à morte e ideação suicida associados às perdas financeiras provocadas pelas apostas.
A orientação dos profissionais é que familiares e amigos estejam atentos a mudanças significativas de comportamento e procurem atendimento especializado quando houver sinais de dependência ou sofrimento psicológico.
O tratamento pode envolver acompanhamento médico, psicológico e grupos terapêuticos. No caso de Kaio, o atendimento em um Caps passou a fazer parte da tentativa de reorganizar a vida depois dos prejuízos provocados pelo jogo.
Mudança na política pública
Com o avanço dos problemas associados às apostas, o Sistema Único de Saúde (SUS) ampliou, em agosto, os serviços de teleatendimento destinados a pessoas afetadas pelo uso problemático das plataformas.
Segundo a Agência Brasil, após o anúncio da proibição das bets, o Ministério da Saúde informou que pretende ampliar as ações de busca ativa e oferecer acompanhamento aos apostadores que apresentarem sinais de dependência.
A estratégia deverá envolver o compartilhamento de informações entre órgãos públicos, incluindo os ministérios da Fazenda e da Justiça e Segurança Pública e a Receita Federal.
Para especialistas, a mudança representa uma tentativa de tratar o fenômeno não apenas como uma questão financeira ou regulatória, mas também como um problema de saúde pública.
*Nomes foram alterados a pedido dos entrevistados.
Com Agência Brasil







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