O diagnóstico de câncer costuma concentrar a atenção do paciente no tratamento e na recuperação. Mas, ao mesmo tempo, outras questões continuam fazendo parte da rotina: como ficará o trabalho, a renda da família, o acesso a benefícios previdenciários e até a cobertura de procedimentos e medicamentos pelo plano de saúde.
Foi diante dessa realidade que a advogada Jessika Coelho, que atua há 15 anos nas áreas trabalhista e previdenciária, passou a enxergar de uma nova maneira as dificuldades enfrentadas por pessoas com câncer. Ela própria recebeu dois diagnósticos de câncer de mama, em 2019 e 2024.
“Quando recebemos um diagnóstico de câncer, toda a atenção se volta para o tratamento e para a cura. Só que a vida continua acontecendo. Existem o trabalho, a renda, as despesas e decisões que precisam ser tomadas justamente quando estamos mais vulneráveis”, afirma.
Dois diagnósticos e diferentes etapas do tratamento
Quando descobriu o primeiro câncer, em 2019, Jessika conciliava a advocacia com os cuidados com a filha, Maria Luísa, que tinha cerca de um ano e meio e ainda estava em fase de amamentação.
Ela foi submetida a cirurgia e quimioterapia e, em junho de 2020, iniciou o tratamento de manutenção.
Cinco anos depois, veio um novo diagnóstico. Segundo a advogada, tratava-se de um segundo câncer, e não de uma recidiva da doença anterior. O tratamento incluiu nova mastectomia, quimioterapia e radioterapia.
Durante esse período, ela reduziu o ritmo de trabalho, mas decidiu continuar exercendo a profissão dentro dos limites impostos pelo tratamento.
“Diminuí o ritmo porque realmente não tinha condições, mas também não quis ficar sem trabalhar. Era uma forma de ocupar a minha mente, de não me sentir sem rumo”, conta.
A quimioterapia e a radioterapia foram concluídas em setembro de 2025. Atualmente, Jessika permanece em acompanhamento médico e faz uso de anastrozol.
Afastamento e benefícios previdenciários
A experiência pessoal também ampliou a atuação da advogada em relação às dúvidas que surgem para pacientes durante o tratamento. Entre elas estão o afastamento das atividades profissionais e a possibilidade de acesso a benefícios previdenciários.
Dependendo das condições do segurado e da incapacidade para o trabalho, podem existir situações em que sejam aplicáveis o auxílio por incapacidade temporária, antigo auxílio-doença, ou a aposentadoria por incapacidade permanente.
O diagnóstico de câncer, por si só, não significa concessão automática desses benefícios. É necessário cumprir os demais requisitos previstos na legislação previdenciária e comprovar a incapacidade para o exercício da atividade profissional.
Nos casos de neoplasia maligna, existe previsão legal de dispensa da carência mínima para benefícios por incapacidade, desde que as demais exigências sejam atendidas.
“Como advogada e como mulher que passou pelo câncer de mama, percebi o quanto conhecer os próprios direitos pode fazer diferença”, destaca Jessika.
Documentação deve ser organizada desde o início
Uma das orientações da advogada é que o paciente mantenha organizada toda a documentação relacionada ao tratamento. Laudos médicos atualizados, atestados indicando períodos de afastamento, exames, relatórios médicos, prescrições e comprovantes de internações ou procedimentos podem ser importantes em eventuais solicitações administrativas.
Em situações envolvendo o INSS, também é recomendável preservar documentos pessoais e registros relacionados à vida previdenciária.
Já nos casos de problemas com planos de saúde, devem ser guardados a solicitação médica, a justificativa da negativa de cobertura e os números dos protocolos de atendimento.
De acordo com Jessika, manter esse histórico reunido pode facilitar a análise de cada situação e evitar que o paciente precise procurar documentos às pressas justamente durante um período de maior fragilidade.
Negativas de planos de saúde também geram dúvidas
Outro problema que pode surgir durante o tratamento é a negativa de cobertura por parte de planos de saúde. A recusa pode envolver medicamentos, exames, procedimentos ou terapias indicadas pelo médico.
Nessas situações, a orientação é identificar o motivo apresentado pela operadora, solicitar a negativa por escrito, reunir a documentação médica e os protocolos de atendimento e buscar orientação adequada para avaliar quais medidas podem ser adotadas.
“Receber uma negativa durante o tratamento gera uma angústia enorme, porque o paciente já está emocionalmente envolvido com a doença e, muitas vezes, tem pressa para começar ou continuar uma terapia”, explica.
Desafios continuam depois do tratamento
Mesmo após o encerramento das principais etapas do tratamento, outras decisões podem surgir. O retorno ao trabalho, a reorganização da rotina profissional e as consequências financeiras do período de afastamento são alguns dos desafios enfrentados por pacientes.
Para Jessika, informação e planejamento podem ajudar a reduzir parte das incertezas nesse processo.
“Quem está enfrentando um câncer já tem muitas preocupações. A falta de informação sobre trabalho, renda, benefícios ou acesso ao próprio tratamento não deveria ser mais uma delas”, conclui.








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