Por Dilson Ferreira*
Maceió e Alagoas precisam voltar a discutir o futuro.
Somos mais de 3,1 milhões de alagoanos vivendo em 102 municípios. Gente que trabalha, estuda, pega ônibus, cria seus filhos e constrói todos os dias este estado.
Depois de tantos anos como professor, arquiteto e urbanista, estudando e debatendo nossas cidades, aprendi que os problemas urbanos não acontecem por acaso.
Quando falta moradia e a população acaba ocupando uma grota; quando o ônibus não funciona; quando uma chuva vira alagamento; quando uma árvore é derrubada sem necessidade; quando uma restinga vira grama ou um rio vira esgoto, existem escolhas por trás disso.
E nós podemos fazer escolhas diferentes.
Maceió talvez seja o exemplo mais doloroso dessas contradições.
Temos milhares de famílias precisando de moradia e, ao mesmo tempo, prédios vazios e abandonados no Centro. Temos uma das orlas mais bonitas do Brasil, mas ainda convivemos com línguas sujas, praias impróprias para banho e rios e lagoas degradados.
Estamos trocando restinga por grama, árvore por concreto e espaço público por negócio.
Não é essa a cidade que eu defendo.
Praia é de todos. Praça é de todos. Calçada é de todos. A cidade é de todos.
E nenhuma história mostrou de forma tão brutal o preço das escolhas erradas quanto o desastre da mineração em Maceió.
Cinco bairros foram atingidos. Cerca de 60 mil pessoas tiveram suas vidas transformadas. Casas, escolas, igrejas, comércio, ruas e parte da própria memória da cidade desapareceram.
Não perdemos apenas imóveis. Perdemos uma parte de Maceió.
Nos Flexais, famílias ainda convivem com as consequências do isolamento. E os recursos recebidos como reparação precisam ser usados para reconstruir a cidade e melhorar a vida das pessoas.
Porque dinheiro nenhum devolve uma infância, uma rua onde se brincava ou uma vizinhança inteira.
Cidade é memória, pertencimento e gente.
Também precisamos cuidar da cidade que ficou.
Precisamos enfrentar os alagamentos, recuperar nossos rios e lagoas, proteger as restingas, ampliar a arborização, cuidar das praias e tratar saneamento, drenagem e resíduos como partes do mesmo problema.
Precisamos mudar também a maneira como nos deslocamos. Melhorar o transporte coletivo, recuperar a integração ferroviária, criar corredores eficientes de ônibus, calçadas acessíveis e ciclovias conectadas.
A cidade precisa voltar a ser planejada primeiro para as pessoas.
Na moradia, antes de empurrar a população cada vez mais para longe, precisamos olhar para a cidade que já existe. Recuperar prédios abandonados, levar moradores de volta ao Centro e aproveitar escolas, transporte, comércio e infraestrutura que já estão lá.
Isso também é desenvolvimento.
Porque desenvolvimento não é simplesmente construir mais.
É viver melhor.
É morar com dignidade. É chegar mais cedo em casa. É poder andar pela calçada. É encontrar uma árvore fazendo sombra. É não ter medo quando começa a chover. É entrar numa praia limpa. É ter transporte público funcionando e gerar emprego sem destruir o lugar onde vivemos.
E essa discussão não pode ficar restrita a Maceió.
Alagoas tem 102 municípios, cada um com sua realidade. Do litoral ao Sertão, precisamos discutir moradia, mobilidade, saneamento, meio ambiente, desenvolvimento e adaptação às mudanças climáticas respeitando cada território.
É por isso que tenho insistido em três compromissos muito simples:
MORADIA. MOBILIDADE. MEIO AMBIENTE.
Os 3 Ms.
No fundo, todos eles falam da mesma coisa: o direito à cidade.
O direito de morar, caminhar, chegar, encontrar sombra, sentar numa praça, entrar numa praia limpa e participar das decisões sobre o lugar onde vivemos.
Não tenho todas as respostas. E talvez uma das coisas mais importantes que a universidade tenha me ensinado seja justamente essa.
Precisamos ouvir a ciência, os técnicos, os trabalhadores, os movimentos sociais, o setor produtivo e, principalmente, as pessoas.
Meu compromisso sempre foi esse:
estudar antes de decidir, ouvir antes de propor e planejar antes de fazer.
Governos passam. Mandatos passam. As cidades ficam.
Por isso, essa discussão é muito maior que uma eleição. É sobre a Alagoas que queremos deixar para nossos filhos e sobre aquilo que precisamos ter coragem de transformar — e também de preservar.
Maceió não pertence a um prefeito. Alagoas não pertence a um governador. A praia não pertence ao mercado. A praça não pertence a um evento. A rua não pertence ao automóvel.
A cidade pertence às pessoas.
Porque cidade não é apenas prédio, asfalto ou obra.
Cidade é gente.
A CIDADE SOMOS NÓS.
*Arquiteto urbanista e professor da Ufal







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