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Milícias, facções e poder econômico: artigo analisa avanço do crime organizado no Brasil

por | 12 out, 2026

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O avanço das milícias e das facções criminosas no Brasil vai além da disputa territorial e da violência armada. Essa é a análise apresentada pelo jornalista Marcelo Phintener em artigo publicado em 7 de outubro de 2026 no site Outras Palavras. O texto argumenta que o crime organizado também atua como força econômica, com conexões entre atividades ilegais, agentes públicos, empresas e circuitos financeiros.

No artigo, intitulado a partir da discussão sobre a chamada “zona cinzenta”, Phintener compara a expansão das milícias brasileiras à atuação de organizações mafiosas na Itália. A análise utiliza obras do escritor Roberto Saviano, como Gomorra e ZeroZeroZero, para discutir como grupos criminosos transformam a violência em patrimônio, influência política e fonte de renda.

Segundo o autor, interpretar o narcotráfico e as milícias apenas como desvios da economia formal dificulta a compreensão de suas estruturas. Ele sustenta que, em determinadas regiões, esses grupos controlam serviços, impõem cobranças à população e estabelecem relações com setores da economia legal.

Milícias e controle territorial

O artigo destaca que as milícias brasileiras têm características próprias, especialmente por sua origem ligada a integrantes e ex-integrantes de forças de segurança. A atuação desses grupos envolve cobranças por proteção, controle do fornecimento de gás, água, internet e transporte, além de negócios imobiliários e ocupação irregular de terrenos.

Phintener recorre aos estudos dos pesquisadores José Cláudio Souza Alves e Bruno Paes Manso para descrever a transformação de grupos de extermínio em organizações que exploram economicamente territórios periféricos.

Como exemplo, o texto cita o desabamento de dois prédios na Muzema, na zona oeste do Rio de Janeiro, em 2019. A tragédia deixou 24 mortos e é apresentada como um caso que evidencia os riscos associados à construção irregular em áreas submetidas ao controle miliciano.

O autor também aponta a existência de alianças entre grupos armados. Segundo a análise, a fronteira entre milícias e tráfico de drogas nem sempre corresponde à divisão apresentada publicamente, já que investigações identificaram organizações que combinam diferentes atividades criminosas.

Dados apontam expansão do domínio armado

Para dimensionar o problema, o artigo utiliza dados do Mapa Histórico dos Grupos Armados, elaborado pelo Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (GENI/UFF) em parceria com o Instituto Fogo Cruzado.

De acordo com os números citados, em 2024 cerca de 34,9% dos moradores da Região Metropolitana do Rio de Janeiro — aproximadamente 4 milhões de pessoas — viviam sob domínio ou influência de grupos armados.

O levantamento também indica que as milícias controlavam ou influenciavam cerca de 201 quilômetros quadrados, equivalentes a 49,4% da área sob domínio armado considerada no estudo. O artigo ressalta ainda a desigualdade socioeconômica e racial presente nesses territórios.

Phintener afirma que o crescimento das organizações não pode ser atribuído exclusivamente a um governo. O texto aborda diferentes períodos da política fluminense, incluindo o avanço registrado entre 2016 e 2020, e discute fatores como a crise financeira estadual, mudanças na política de segurança e disputas entre grupos criminosos.

Armas e conexões políticas

Outro eixo da análise é a política de armas adotada durante o governo de Jair Bolsonaro, entre 2019 e 2022. O autor relaciona a flexibilização das regras para colecionadores, atiradores desportivos e caçadores (CACs) ao aumento do acesso a armamentos e menciona levantamentos sobre armas desviadas para organizações criminosas.

O artigo também aborda relações políticas controversas. Entre os exemplos citados está a homenagem feita pelo então deputado estadual Flávio Bolsonaro ao policial Adriano da Nóbrega na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, além da contratação de familiares dele em seu gabinete.

O texto ressalta que as investigações envolvendo o gabinete foram anuladas pelos tribunais superiores por razões processuais, sem julgamento de mérito. A referência é apresentada como parte da discussão sobre as relações entre política e grupos armados, e não como prova de condenação criminal.

Crime organizado e mercado financeiro

A análise se estende para além das periferias do Rio de Janeiro e aborda a circulação de recursos de origem criminosa por empresas e instituições financeiras.

Como exemplo, Phintener cita a Operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto de 2025, que investigou suspeitas de infiltração do crime organizado em setores como combustíveis, importação e distribuição de produtos e estruturas financeiras.

Segundo o artigo, as investigações apontaram possíveis conexões entre atividades ilegais e empresas, fundos de investimento e outros agentes da economia formal. O autor utiliza o caso para discutir como recursos obtidos com o crime podem circular por negócios legalmente constituídos.

A partir dessa análise, o texto questiona os limites da relação entre capital legal e ilegal e sustenta que a resposta ao crime organizado precisa considerar não apenas os grupos armados, mas também os mecanismos econômicos que permitem a movimentação e a ocultação de recursos.

Eleições de 2026 e desafios para o próximo governo

Na parte final, Phintener relaciona o tema ao cenário eleitoral de 2026 e aos desafios que serão enfrentados pelo governo a partir de 2027. Para o autor, a disputa eleitoral não determina, por si só, o fim das estruturas criminosas, que envolvem questões de segurança pública, fiscalização financeira, controle territorial e funcionamento das instituições.

O artigo também questiona a eficácia de operações policiais de alta letalidade quando não são acompanhadas de medidas capazes de atingir as fontes de renda e as redes de financiamento das organizações criminosas.

Como referência histórica, o autor retoma a experiência italiana no combate às máfias e argumenta que prisões e operações policiais, isoladamente, não impedem que a acumulação de recursos ilegais se desloque para outros setores.

A conclusão é que milícias e facções precisam ser compreendidas também a partir de sua dimensão econômica e das relações que estabelecem com estruturas legais. Na avaliação de Phintener, enfrentar o problema exige investigar tanto a violência nos territórios quanto os circuitos financeiros, políticos e institucionais que podem sustentar essas organizações.

Fonte: Marcelo Phintener, artigo publicado no site Outras Palavras, em 7 de outubro de 2026. Texto original: https://outraspalavras.net/

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