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Futuros alternativos

por | 14 out, 2026

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 Por Carlos Vargas*

Coincidiu no tempo ter tido a oportunidade de ver, numa sala de cinema de Lisboa, A Odisseia, o filme dirigido por Christopher Nolan – uma megaprodução de Hollywood com estreia global neste Verão – e, alguns dias depois, de assistir ao espectáculo Nada acontece como gostaríamos, dirigido por Catarina Rôlo Salgueiro e Leonardo Garibaldi, no Auditório Carlos Avilez em Cascais. Falo, evidentemente, de duas experiências culturais radicalmente distintas, tanto para quem nelas participa como para os respectivos públicos, e com objectivos, escalas e resultados dificilmente comparáveis. Por um lado, um grande espectáculo audiovisual, construído com meios de produção colossais, efeitos especiais tão imaculados quão surpreendentes e uma constelação de actores ocupando os lugares cimeiros do firmamento cinematográfico mundial. Por outro, um espectáculo de teatro, realizado com meios de produção muito contidos e interpretado por um grupo de jovens actores finalistas da Escola Profissional de Teatro de Cascais.

Apesar destas diferenças, e de muitas outras que aqui não enumero por economia de meios, os dois espectáculos parecem-me partilhar algo relevante ao capturarem, à sua maneira, o espírito do nosso tempo. No enorme abismo que os separa, ambos deixam entrever o Zeitgeist de uma época marcada por um estranho sabor agridoce: a angústia perante o presente e a dificuldade crescente em imaginar o futuro sem recorrer à distopia. Estará aqui um dos sinais mais inquietantes do nosso tempo? Tornámo-nos extraordinariamente competentes a imaginar o desastre e surpreendentemente incapazes de representar futuros desejáveis?

Um presente em tensãp

Vivemos, é certo, um período marcado por sucessivas policrises que se prolongam e se sobrepõem no tempo e no espaço. As transformações geopolíticas em curso, os realinhamentos estratégicos, as sucessivas guerras em torno da bacia do Mediterrâneo, o crescimento das desigualdades sociais, o eventual declínio relativo da Europa e dos EUA, a par da afirmação crescente dos países do Sul Global como interlocutores incontornáveis nos areópagos internacionais, todas esta transformações – e outras ainda – têm vindo a alterar as coordenadas a que o mundo ocidental há muito se acostumara. Paralelamente, a crise das ideologias, das religiões institucionalizadas, do multilateralismo e do primado da lei – e, por consequência, a fragilização do modelo democrático – parece alimentar a percepção de que vivemos num estado de tensão crescente, o qual desembocará, mais cedo ou mais tarde, numa realidade diferente daquela que conhecemos até aqui.

É precisamente neste ponto que a questão se torna, pelo menos para mim, simultaneamente inquietante e mobilizadora: que futuros alternativos temos à nossa frente? Seremos sujeitos passivos perante possibilidades que apenas divisamos através de prospectivas académicas, quase sempre organizadas em cenários de declínio, de decadência, de conflito ou de degradação cultural, social, política e económica? Ou queremos, enquanto cidadãos, participar deliberadamente na construção de futuros alternativos e desejáveis, nos quais a liberdade, a igualdade e a fraternidade poderão ultrapassar as fronteiras das nações e os dogmas religiosos, políticos e identitários que tantas vezes têm servido para dividir e agrilhoar a Humanidade?

Entre optimalismo e optimismo

A resposta exige, creio, uma distinção fundamental entre optimalismo e optimismo. O optimalismo parte da convicção, mais ou menos explícita, de que existe uma solução óptima para os problemas e de que, através do progresso tecnológico, da racionalidade económica, da ciência ou simplesmente através do curso natural da História, acabaremos por encontrá-la. Há no optimalismo uma confiança excessiva na ideia de que o futuro se encarregará de corrigir o presente. De facto, o optimalista acredita que haverá sempre uma combinação melhor, uma tecnologia mais eficiente, um mecanismo mais inteligente ou uma solução capaz de resolver, finalmente, os problemas que formos adiando.

O optimismo de que precisamos é de outra natureza: não é ingénuo, não ignora o perigo e, sobretudo, não confunde esperança com previsão. Ser optimista não significa acreditar que tudo acabará bem. Significa considerar que ainda podemos agir para que alguma coisa acabe melhor. É uma posição menos confortável e muito mais exigente,  até porque transforma a esperança em responsabilidade.

A responsabilidade de agir

Esta distinção torna-se particularmente evidente perante a crise climática. Não basta esperar que uma inovação tecnológica ainda desconhecida resolva aquilo que não tivemos coragem política para enfrentar. Não basta confiar que o mercado encontrará, por si só, um equilíbrio sustentável. Não basta imaginar que as gerações futuras disporão de instrumentos mais eficazes para reparar aquilo que lhes deixarmos. O optimalismo desresponsabiliza-nos, porque transfere para o futuro a resolução dos problemas do presente.

O optimismo, pelo contrário, obriga-nos a agir agora. E obriga-nos também a alargar a comunidade perante a qual somos responsáveis. Que lugar concebemos, em pleno século XXI, para os outros seres vivos que connosco habitam a Terra? Perante uma crise climática avassaladora e crescente, conseguiremos construir um futuro colectivo orientado por uma responsabilidade igualmente colectiva, capaz de proteger aqueles que ainda não nasceram e aqueles que, não tendo uma voz política, partilham connosco os mesmos ecossistemas?

A cultura e a imaginação do futuro

É nomeadamente neste contexto que a cultura pode desempenhar um papel que não deveremos subestimar. A jornalista e escritora brasileira Cora Rónai, referindo-se ao filme de Christopher Nolan na sua crónica regular no jornal O Globo (6 de Agosto de 2026, Segundo Caderno, p. 6), afirma, depois de identificar alguns desagrados e anacronismos entre o filme e o texto homérico: “Mas, no fundo, nada disso tem importância. O poema é uma coisa, o filme, forçosamente, outra. O fato de um estar chamando a atenção para o outro é um verdadeiro milagre: não é o máximo que todo mundo esteja discutindo personagens criados há mais de três mil anos?”

Cora Rónai

 

Ora, é justamente esse milagre que aqui importa. Também no espectáculo a que assisti em Cascais, jovens actores regressavam a Shakespeare e a Tchékhov, interpretando cenas escritas noutros tempos e para outros públicos, procurando sentidos possíveis para as dificuldades do presente e para as incógnitas do futuro. Homero, Shakespeare e Tchékhov não nos oferecem soluções para a crise climática, para a erosão das democracias, para as guerras contemporâneas ou para as novas desigualdades. Seria absurdo pedi-lo. Oferecem-nos, porém, algo certamente mais importante: experiências acumuladas da condição humana, conflitos, dilemas, escolhas, fracassos, regressos, desejos e possibilidades.

Qual é, então, o valor das referências culturais que acumulámos enquanto civilização? Talvez sejam precisamente instrumentos para compreendermos a nossa experiência presente sem ficarmos prisioneiros dela. A História não se repete, mas a experiência humana comunica através do tempo. Os medos mudam de nome, as guerras mudam de armas, os impérios mudam de fronteiras e as sociedades mudam de tecnologias, mas persistem perguntas antigas sobre poder e justiça, sobre pertença e exclusão, sobre liberdade e submissão, sobre responsabilidade e desejo.

A cultura permite-nos, ainda, desenvolver um curioso processo intrinsecamente humano e verdadeiramente transformador: imaginar aquilo que não existe. Será porventura essa capacidade que urgentemente deveremos recuperar. Durante tempo demasiado, aceitámos que o futuro fosse representado quase exclusivamente através da catástrofe. Como se a distopia fosse mais verosímil do que a utopia, o colapso mais facilmente imaginável do que a transformação, e o medo mais convincente do que a esperança. Como se desejar um mundo melhor fosse sinal de ingenuidade, enquanto prever a sua destruição constituísse uma demonstração de inteligência.

Utopias abertas

Não necessitamos de regressar às utopias fechadas, aos modelos perfeitos de sociedade ou às promessas totalizantes que tantas vezes terminaram em violência. Precisamos, sim, de recuperar a capacidade de imaginar utopias abertas mesmo com futuros imperfeitos, discutíveis, plurais, mas melhores. E com horizontes suficientemente desejáveis para nos mobilizarem e suficientemente incompletos para poderem ser construídos de forma democrática e revistos sempre que assim se entender.

Nada garante que esses futuros venham a acontecer. Contudo, é exactamente essa ausência de garantia que lhes confere sentido político. Entre o optimalismo de quem espera que o futuro resolva os nossos problemas e o pessimismo de quem considera inevitável a catástrofe, existe um terceiro caminho: um optimismo activo, informado e determinado. Um optimismo que conhece os riscos, reconhece os fracassos e não fecha os olhos perante a violência do presente, mas que se recusa a transformar o pior dos futuros possíveis numa profecia inevitável.

Sabemos que os futuros alternativos não estão à nossa espera. De facto, esses futuros ainda não existem. Teremos de os imaginar primeiro. Depois, teremos de decidir, entre as possibilidades concorrentes, quais é que queremos tornar realidade. E, finalmente, com todas as imperfeições, contradições e incertezas que tal implica, teremos de começar a construí-los.

Lisboa, 28 de Setembro de 2026

*Doutor em Ciência Política

Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa

 

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