A eleição presidencial revelou uma realidade que não pode ser ignorada: quase metade dos eleitores sufragou a candidatura da extrema-direita, mantendo viva uma base social e eleitoral que alimenta a polarização política dos últimos anos. Como dissolver os laços que ligaram quase 60 milhões de brasileiros às fantasias distópicas bolsonaristas?
A sociedade brasileira é culturalmente rica e diversificada. Não é admissível que permaneça refém de fanatismos, submetida a comportamentos que lembram uma formação militar em ordem unida, na qual a voz de comando substitui a reflexão e a autonomia individual.
O governo do presidente Lula e os partidos que compõem o arco de alianças vitorioso não podem deliberadamente descartar um contingente de quase 60 milhões de eleitores. É preciso distinguir a responsabilidade política dos dirigentes bolsonaristas daquela dos setores da sociedade que aderiram eleitoralmente a esse projeto. Ignorar essa realidade significa abrir mão de compreender as razões que sustentam essa adesão.
A condenação e a prisão de Jair Bolsonaro, assim como a fuga de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos, onde se juntou ao irmão Eduardo, condenado em um dos processos, e a outros comparsas igualmente condenados, que também se evadiram do país em razão de seu envolvimento em crimes, dão a dimensão do destino da família. Distanciar-se da Justiça brasileira, escapar das condenações, administrar fortunas depositadas em fundos estadunidenses e manter uma vida de privilégios e ostentação no exterior fazem parte desse cenário.
Entretanto, o destino da família Bolsonaro não resolve, por si só, o problema da permanência do bolsonarismo como força social e eleitoral. A questão central é como romper os vínculos que mantêm milhões de brasileiros ligados a esse campo político.
Será necessária inteligência política e cálculo estratégico. Não se trata de desconsiderar as diferenças, muito menos de relativizar responsabilidades, mas de compreender que a democracia exige capacidade de diálogo com a sociedade em toda a sua diversidade.
Dissolver esses laços requer compreender esse eleitorado, disputar ideias e construir caminhos para superar a polarização tóxica. O desafio não é pequeno e não será resolvido por gestos de exclusão política.







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