Por Claudevan Melo*
Pela primeira vez revelada ao público alagoano, esta é a história de uma verdadeira relíquia da historiografia da música brasileira: Humberto Marsicano, alagoano nascido em Maceió em 1900, figura até então invisível nos compêndios tradicionais, mas que deixou uma marca profunda no rádio paulista e na música popular nas primeiras décadas do século XX.
Filho das Alagoas, Marsicano partiu com a família em 1920 rumo ao Sudeste, estabelecendo-se em São Paulo, onde sua verve criativa encontrou espaço nos palcos e estúdios ainda em formação. Já adulto, deu início à sua carreira como locutor de rádio, ao mesmo tempo em que se afirmava como compositor e ator de teatro cômico.
Um artista de muitos nomes
Marsicano gravou discos em 78 rotações pela gravadora Columbia, utilizando os pseudônimos de “Zeca do Norte” e “Marquês de Brucutu”. Esses nomes artísticos apontam tanto para a irreverência quanto para o desejo de enaltecer as raízes nordestinas em tempos de forte estigma sobre o povo do Norte e do Nordeste.
Na tradicional Rádio Nove de Julho, manteve durante vários anos o popular programa “Sítio do Brucutu”, cuja abertura era embalada pelo samba autoral “Sô Alagoano” (Columbia 5052-B) — uma autodeclaração de pertencimento e orgulho por sua terra natal.
Também na Rádio América de São Paulo, Marsicano idealizou e apresentou os programas “Arraial de São José” e “Vila do Bate Papo”, que misturavam humor, causos do interior e música, conquistando ouvintes entre os anos 1930 e 1950.
Um repertório que pede resgate
A obra de Humberto Marsicano inclui títulos como:
- Morena dos meus amores
- No altar do Amor
- Tico-Tico Voou
- Sabiá Casou
- Não Deixe o Galo Cantar
- Prestes a Subir
- Rancho Velho
- E Tome Polca
São músicas que variam entre o samba, a polca e a moda nordestina, demonstrando sua versatilidade e sua capacidade de dialogar com diferentes públicos e regiões.
Um legado à espera de reconhecimento
Faleceu em São Paulo, em 1978, deixando para trás um legado ainda pouco explorado pelos estudiosos da música brasileira. Compositor prolífico, voz pioneira do rádio, Marsicano merece um lugar ao lado de nomes como Alvarenga e Ranchinho, Jararaca e Ratinho — figuras que também navegaram entre o humor e a música nas primeiras décadas da cultura radiofônica nacional.
Como pesquisador, adquiri e formei um acervo precioso que agora vem à tona. O trabalho minucioso de coleta, catalogação e escuta de discos antigos traz de volta à cena um alagoano que, mesmo longe de casa, nunca deixou de afirmar sua origem: o ‘Sô Alagoano’.
(*) É pesquisador e colecionador.






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