A Braskem, protagonista da maior tragédia socioambiental em áreas urbanas em curso no mundo, volta a ocupar os holofotes. Agora, não com um pedido de desculpas, mas com uma campanha de marketing que beira o cinismo: o uso de crianças da comunidade dos Flexais — uma das atingidas pelo afundamento do solo causado pela extração de sal-gema — em atividades de plantio de mangue, sob o pretexto de educação ambiental.
Nas ações recentes, crianças de 8 a 12 anos foram mobilizadas para plantar mudas de mangue na região da Lagoa Mundaú, em meio a uma série de oficinas e rodas de conversa. Ao final, kits com camisetas, garrafas e livretos com desenhos foram distribuídos, em um gesto que tenta pintar com tintas coloridas o que é, de fato, um dos cenários mais sombrios da história ambiental e social de Alagoas.
A Braskem, mesmo após ser responsabilizada judicialmente pela destruição de bairros inteiros e pela remoção forçada de mais de 60 mil pessoas, segue operando estratégias de controle narrativo — desta vez, instrumentalizando justamente os filhos das famílias afetadas.
O chamado Programa de Educação Ambiental (PEA), vinculado ao Projeto Integração Urbana e Desenvolvimento dos Flexais, é apresentado como uma reparação. Mas na prática, o que se vê é uma tentativa de reconstrução de imagem institucional, enquanto a reparação verdadeira — justa, digna, profunda — continua travada ou incompleta.
Crime contínuo, silêncio institucional
É importante lembrar que o caso Braskem não se encerra em relatórios ou em termos de acordo. Os efeitos da mineração seguem presentes: solo instável, deslocamento de famílias, perdas materiais e afetivas irreparáveis. As comunidades seguem fragilizadas, e o Estado, silencioso.
Nesse contexto, a participação da empresa em ações educativas dentro de territórios onde ela mesma destruiu modos de vida é não apenas imoral, mas perigosa. A exposição de crianças como símbolo de regeneração, quando essas mesmas crianças são herdeiras de um trauma coletivo ainda não resolvido, revela a inversão de valores que marca esse tipo de iniciativa.
Memória sequestrada, futuro manipulado
A tentativa da Braskem de reescrever a própria história a partir de projetos ambientais insere-se em um padrão cada vez mais comum entre grandes corporações: o uso do discurso da sustentabilidade como escudo contra críticas e responsabilidades. No caso de Alagoas, porém, o estrago é visível demais para ser apagado por ações pontuais ou campanhas bem embaladas.
As histórias contadas pelas “ações educativas” ignoram a memória do crime — e pior, tentam sobrepor a ela uma narrativa de regeneração patrocinada pelo próprio algoz. O que está em curso é o sequestro simbólico da dor coletiva e sua transformação em vitrine publicitária.
É hora de responsabilização real
Enquanto kits e atividades são distribuídos como souvenirs de um projeto “compensatório”, o que as comunidades precisam é de justiça — e de políticas públicas que garantam verdade, memória, reparação e não-repetição. Qualquer gesto que não parta desses princípios está condenado a ser visto, com razão, como mais uma violência.
Braskem não pode ser tratada como parceira na reconstrução de um território que ela própria destruiu. É preciso romper com a normalização do absurdo e exigir que a responsabilidade não se limite a gestos simbólicos, mas se traduza em justiça concreta e contínua.






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