Por Stanley de Carvalho*
A teimosia das chuvas das duas últimas semanas me fez lembrar dos meus tempos de férias de meio de ano do Instituto Motta Trigueiros, na rua Boa Vista, onde eu cursava o 1º grau.
Naquela época, inverno era inverno, com direito a galochas Vulcabrás e dias de garganta irritada, além das escapulidas para a rua.
Morávamos na rua Augusta, pavimentada com paralelepípedos dos quais se erguiam os majestosos oitizeiros que ainda hoje brigam para existir. Rente ao meio-fio que delimitava os passeios largos corria um veio de água limpinha, de chuva, sem restos de macarrão e arroz, como atualmente.
Como na época não havia videogames, nem celulares, e o sinal preto e branco da TV Jornal do Comércio, enviado desde Recife, era muito prejudicado por causa das chuvas, a nós, crianças, restava inventar e fazer nossos próprios brinquedos.
Um desses passatempos de que eu gostava muito era corrida de barcos de papel, ao longo da “correnteza” proporcionada pela chuva. O material para confecção dos barcos vinha de publicações de laboratórios farmacêuticos, retiradas das estantes do consultório de meu pai, que era médico, pois seu consultório e residência coexistiam num mesmo imóvel.
Assim, a folha era arrancada, dobrada ao meio, seguindo-se outras dobragens, até aparecer o barquinho, pintado de cores e letras. Cada um fazia o seu. As peças eram colocadas lado a lado na água corrente e liberadas para descerem sarjeta abaixo, competição acompanhada festivamente pela patota. A classificação de chegada era testemunhada por todos, antes das embarcações serem engolidas pela boca-de-lobo da esquina. Isso tudo debaixo de chuva torrencial, que nos arroxeava os lábios, fazia tremer o corpo, mas não nos adoecia, como os chuviscos sobre as crianças de hoje em dia. Interessante!
Não havia tantas notícias de mortes por soterramento, porque as barreiras ainda eram livres para existir, sem o amontoado de imigrantes que as ocupassem e as desnudassem. Alagamentos, contudo, já eram notórios, pois saneamento é obra enterrada que não se inaugura desde muito.
As noites ficavam longuíssimas sob o cobertor. As manhãs, por sua vez, nos despertavam logo cedo, para ficarmos à janela, olhando a chuva cair do lado de fora. Vez em quando um carro; vez em quando um transeunte encharcado que, nem debaixo d’água, não poderia faltar com seus compromissos.
O chiado das águas cadentes e o vento na copa dos oitizeiros compunham uma espécie de sonata de inverno, já que a Sonata de Outono, de Schubert, já tinha feito.
Assim era o inverno no meu tempo de criança…
(*) Stanley de Carvalho é engenheiro civil, ex-funcionário público, compositor e cronista.









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