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A energia ancestral que nos alimenta e ilumina

por | 24 ago, 2025

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Baiana do Acarajé. Salvador-1983. Foto: Luiz Antônio Dualibi

 

Por Klinger Silva

Os saberes pessoais e coletivos traduzidos em práticas sociais, políticas, econômicas e culturais que são transmitidos geracionalmente, constituem-se em nutrientes imprescindíveis ao processo edificador que dá luz às identidades individuais, comunitárias e sociais.

 

Tais Tecnologias Ancestrais Afro-Atlânticas, estabelecidas e pós-referenciadas neste território singular do hemisfério sul, ora desenvolvidas em conexão com o “cyberespaço” global representam uma síntese de parte fundamental de nosso patrimônio histórico-cultural-imaterial. E possuem sua origem em nossa grandiosa ascendência afro-brasileira e alagoana.

 

De fato, a energia sagrada transatlântica advinda em grande medida da África Ocidental, através do processo perverso de escravização de seres humanos, continua viva, persistente, resiliente, atual e operante. Concretizada em várias dimensões da vida cotidiana privada e pública.

 

Vibrações Palmarinas

 

Notável, muitas vezes, mas na maior parte do tempo e do espaço imperceptível. Esta força afro-originária se situa, energeticamente, como o élan vital de nossa tradição Yorùba: herança que ao ser transmitida impulsiona o nosso viver. Potência criativa e, por isso mesmo, a um só tempo disruptiva e construtiva. “Dinamo Social” antagônico às forças político-culturais reativas às quaisquer formas de expressão simbólica e material de justiça e liberdade coletivas.

 

De fato, a energia ancestral encontra-se em todas as dimensões da estrutura social. Expressa-se nos movimentos das mentes, corpos e mãos daqueles que exercem exaustivas jornadas de trabalho, sem as quais a sociedade não poderia funcionar ou até nem mesmo existir, aqueles que limpam as ruas e higienizam nossos lares, aqueles cuidam dos nossos filhos enquanto usufruímos das possibilidades sociais que lhes são interditas, aqueles que produzem o pão e que o pão lhes é negado tantas e tantas vezes.

 

A dita força vital herdada dos nossos ancestrais, de certa forma, consubstancia-se em ações emancipatórias de indivíduos, grupos e classes precarizadas de toda a sociedade. Construindo ao mesmo tempo determinadas identidades e representatividades.

 

Tal energia também se materializa em tecnologias culturais, com seus ricos e diversos saberes. Um desses conhecimentos técnicos-simbólicos específicos transformou-se no início do século XXI em Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil: O Acarajé. Seus Saberes e Ofícios.

O Acarajé e suas tecnologias foram Inscritos no Livro dos Saberes pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN em 10 de dezembro de 2004.

 

Xangô, Iansã e os Êres:

Iê Acarajé, Iê Abará!

A denominação do Bolinho, do ponto de vista etimológico, tem sua origem na Língua Yorùbá (Idioma dos Orixás). Falada pela maioria dos povos escravizados no Brasil-colônia e que hoje integra a nossa imensa potencialidade cultural.

 

Dito isto, etimologicamente a palavra Acarajé é composta por dois termos:

Acará (fogo) + Ajeum (comer) = Acarajé (comer fogo).

 

A Iguaria originária do Golfo do Benin na África Ocidental, chegou ao Brasil pelas mãos dos povos em situação de escravidão a partir do século XVI. E tem seu significado e origem nas práticas religiosas yorùbás.

 

O candomblé, no Brasil, é o grande guardião desta tradição ancestral. Sua utilização acontece nos seus diversos cultos; podendo ainda ser comercializado fora dos rituais, a partir da sua referência sagrada.

 

Existe, ainda, a possibilidade de ser vendido de forma dessacralizada como qualquer outro produto comercial. Neste último caso, seu consumo e venda fugiriam à herança sagrada.

 

A divina iguaria é feita com feijão-fradinho (Phaseolus angulares wild), sal, cebola, frito no azeite de dendê (Elaesis guineenses L) e segundo a tradição africana, poderá ter tamanhos variados em função do Orixás a quem é oferecido.

 

De acordo com o alagoano Adeílson Alexandre (1º Ogan/Alabê), registrado na Associação Nacional das Baianas de Acarajé – ABAM – Salvador, da Casa de Mãe Mirian (Ilé N’ifé Omi Omo Posú Betá), que faz o acarajé tradicional da Bahia e de Maceió, o que diferenciaria o “bolinho de fogo” baiano e maceioense seriam os condimentos ou molhos.

 

No primeiro caso, o que acompanha o acarajé é o camarão defumado, o vatapá, o caruru e o vinagrete.

Em Maceió o bolinho leva camarão, molho de batatinha e também vinagrete.

Nas duas formas de fazedura tradicionais destas regiões citadas acima, os bolinhos são fritos no azeite de dendê.

Ogan/Alabê: Adeilson Alexandre. Foto: Klinger Silva

Dedé, o nosso Ogan, também relata que não só mulheres como homens fazem, atualmente, o acarajé de tradição. E que em nossa cidade só existiriam em torno de quatro a cinco pessoas que comercializam a iguaria, votiva a Iansã, Xangô e aos Erês, na forma tradicional baiana. Ou seja, vendidas seguindo todos os preceitos ritualísticos exigidos.

 

Padrão simbólico e reinterpretação dinâmica

 

O Benin é aqui o Benin não é aqui
Seguindo essa ordem argumentativa, poderíamos a esta altura refletir: aquilo que se considera tradicional seria necessariamente algo negativo e/ou ultrapassado?

Por outro lado, aquilo que é inovação seria, necessariamente, algo prejudicial a um certo ideal de perfeição inabalável e, portanto, intocável?

E nestes termos, a ação de conservar e o ato inovar seriam atitudes irreconciliáveis, revelando uma espécie de “transtorno-opositor-psicológico” cultural? E, portanto, a sobrevivência de um significaria necessariamente a aniquilação total do outro?

 

De fato, percebe-se que o legado advindo do passado, como o patrimônio imaterial representado por nosso acarajé, não poderia ser entendido e assimilado como algo limitado e sem movimento.

 

Na verdade, o legado se recicla continuamente, materialmente e imaterialmente. Assim, uma tradição simbólica, como o acará, ao reinterpretar-se, mantendo seus valores fundamentais e originais nas formas de fazer e consumir, celebrar e vender, em um processo de equilíbrio-dinâmico, preservaria o melhor da tradição yorùbá ao tempo em que se atualizaria contribuindo para o desenvolvimento sociocultural e econômico.

 

Por outro lado, inovar sem preservar bens e valores relevantes em termos históricos, sociais e culturais, contribuindo, assim, para o apagamento de nossas referências imprescindíveis do passado em termos de memória e sentido simbólico, nos levaria à uma crescente perda de identidade, de nossa essência, de nossa rica cultura.

Foto: Ari Rodrigues.

Neste sentido, o “acarajé do amor”, o “acarajé de jesus”, o “hamburguer de acarajé”, entre outras modalidades comerciais, obedeceriam às lógicas mercadológicas atuais.

 

De certa forma, lógicas “aceitáveis”, quando se fazem necessárias à sobrevivência possível de muitos em situação de precarização das condições do mundo do trabalho. Porém seriam completamente dessacralizadas e mergulhadas na imensa onda “hiperconsumista-pós-moderna”, algo jamais visto na história.

 

Logo, o Acarajé é, dentre outros bens e valores patrimoniais brasileiros, algo que nos identifica, alimenta e ilumina. Fonte de saberes e técnicas ancestrais. Síntese do élan vital que nos impulsiona à ação para uma vida plena, harmônica, de paz, de afeto e sobretudo de crença e fé no melhor da humanidade.

 

Existe uma palavra yorùbá para identificar esse Energia Ancestral:

AXÉ!

(*) Mestre em Patrimônio pela Universidade Nova de Lisboa

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