Por Geraldo de Majella*
A mineradora Braskem, responsável pelo maior crime socioambiental urbano em curso no Brasil, aposta em uma estratégia de marketing cultural para tentar reduzir os danos à sua imagem. Releases distribuídos à imprensa e a mídias digitais destacam grupos culturais originários dos bairros do Pinheiro, Mutange, Bebedouro, Bom Parto e Farol — áreas destruídas pelo afundamento do solo causado pela extração de sal-gema.
Na narrativa da assessoria, a destruição provocada pela mineração é tratada como “área desocupada”. O material afirma que o Programa de Apoio Cultural “colabora com o resgate das festividades em comunidades localizadas no entorno da área desocupada”.
O discurso, no entanto, ignora que esses bairros não foram “desocupados”, mas sim devastados, deixando mais de 60 mil vítimas que perderam suas casas, suas referências e sua vida comunitária. Os grupos culturais, agora apresentados como símbolo de “tradição preservada”, foram desalojados e forçados a reconstruir suas práticas em outras regiões da cidade.
Escárnio com a cidade
Chamar de “tradição preservada” o que restou das manifestações culturais desses territórios é, no mínimo, um escárnio. A destruição dos bairros de Maceió não pode ser romantizada por uma narrativa publicitária que tenta apagar a dor coletiva e transformar tragédia em peça de propaganda.
Enquanto a Braskem promove imagens de quadrilhas juninas, grupos de coco de roda, guerreiros e pastoris como se fossem prova de “legado cultural vivo”, milhares de moradores ainda convivem com rachaduras em casas nos Flexais, na Rua Marquês de Abrantes, no Bom Parto e nas Quebradas. Nessas localidades, famílias seguem vivendo em risco, segregadas, sem reparação e com o trauma diário do solo instável sob seus pés.
A tentativa de engolfar a realidade
O patrocínio cultural, previsto no Plano de Ações Sociourbanísticas (PAS) — que faz parte do acordo judicial entre Braskem, Ministério Público Federal e Estadual e a Prefeitura de Maceió — é apresentado como medida de valorização do patrimônio imaterial. Mas, na prática, a iniciativa funciona como cortina de fumaça: tenta engolfar a realidade com a exibição de cores e sons de uma tradição que foi brutalmente interrompida pela mineração.
A cidade ainda não viu justiça plena para a tragédia que marcou a vida de dezenas de milhares de maceioenses. Promover cultura é importante, mas usá-la como instrumento de marketing para suavizar a imagem de quem destruiu bairros inteiros é uma afronta à memória e à dor das vítimas.
Por Assessoria






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