Por Dilson Ferreira*
O urbanismo nunca foi neutro, ele sempre refletiu o discurso político de seu tempo. Desde o século XIX, intervenções urbanas serviram como propaganda.
Entre 1853 e 1870, Haussmann liderou a grande reforma urbana de Paris sob Napoleão III, demoliu bairros medievais, provocou migrações e criou cenários de poder. Já entre as décadas de 1930 e 1960, Robert Moses, em Nova York, ergueu pontes, rodovias e parques monumentais para projetar modernidade, ao custo da expulsão de comunidades inteiras.
Na metade do século XX, cidades costeiras americanas como Santa Monica, Long Beach e Atlantic City apostaram em cassinos, rodas-gigantes e parques de praia como símbolos de progresso. Com o tempo, essas cidades amargaram crises, aumentou a criminalidade, cresceu o consumo de drogas, multiplicou-se a população em situação de rua e houve decadência das atrações urbanísticas, além de problemas ambientais como poluição e enchentes.
No Brasil, a fórmula também foi usada. Durante o Estado Novo (1937-1945), Getúlio Vargas fez da arquitetura modernista no Rio de Janeiro, com destaque para o edifício do Ministério da Educação e Saúde construído entre 1936 e 1945, uma vitrine de modernidade e do poder centralizador do regime.
Décadas depois, Paulo Maluf assumiu a prefeitura de São Paulo em diferentes períodos (1969-1971, 1993-1996) e também o governo do estado (1979-1982), transformando avenidas, túneis e viadutos em marcas pessoais de poder. Grandes obras viárias tornaram-se propaganda política travestida de urbanismo.
Hoje, no Nordeste e em várias capitais brasileiras, essa lógica assume nova forma, o urbanismo instagramável, alinhado ao conceito global de brand urbanism ou urbanismo de marca. Escadarias pintadas, praças inauguradas de forma instantânea, fachadas coloridas e areninhas são apresentadas como inovação. Orlas recebem gramados e coqueiros alinhados para agradar ao olhar turístico.
Cada obra desses gestores é pensada para render imagens de drone, vídeos emocionais, gatilhos mentais e posts diários nas redes sociais. É o que chamo de ego-urbanismo, um urbanismo voltado mais ao marketing do político, à eleição futura, à construção de seguidores fiéis à sua imagem, do que às necessidades reais da cidade.
A fórmula política perfeita
Esse modelo, mesmo realizado dentro da legalidade por meio de licitações públicas, cria também uma relação de clientelismo e patrimonialismo entre o gestor, empresários e aliados políticos. Obras efêmeras, mal planejadas, pouco discutidas com a população, movimentam contratos milionários ou bilionários, geram empregos temporários e irrigam recursos para empresários próximos ao poder, além de oferecer palanque a vereadores e deputados.
É uma equação vantajosa, os políticos se promovem com inaugurações, a população recebe entregas visíveis mesmo que de baixa qualidade, e empresários aliados garantem contratos. Tudo isso ainda gera marketing digital diário, amplia base de seguidores, visualizações e votos.
As redes sociais potencializam a prática. Cada inauguração vira palco para fotos e hashtags custeadas com recursos públicos. Pesquisas mostram que imagens coloridas e celebratórias têm mais efeito eleitoral do que propostas concretas.
Ao pintar uma escadaria ou iluminar uma praça, o gestor cria um cartão-postal político que circula viralmente. É Haussmann no século XIX, Moses em meados do século XX, Vargas no Estado Novo e Maluf no fim do século XX, agora multiplicados pela lógica dos algoritmos, porém com obras artificiais e de curta vida útil.
O preço da maquiagem
As consequências são conhecidas:
Efemeridade: obras feitas para foto degradam rápido e exigem manutenção cara.
Custo elevado: desviam recursos de saúde, educação, mobilidade e saneamento.
Identidade apagada: a estética padronizada ignora história, cultura, patrimônio e ecologia locais.
Desigualdade simbólica: áreas turísticas recebem maquiagem, periferias seguem invisíveis ou recebem investimentos mínimos.
Cidade real negligenciada: o resultado são alagamentos constantes, calor excessivo, baixa arborização, falta de mobilidade e transporte precário.
O futuro em disputa
A história ensina que maquiagem urbana não resiste ao tempo. O que permanece é a cidade real, com seus problemas agravados dia após dia. O desafio do Brasil e do Nordeste é escolher entre continuar reféns do brand urbanism, a cidade como vitrine eleitoral e máquina de clientelismo, ou assumir um urbanismo enraizado na cultura, na história, no patrimônio e no ambiente local.
Tudo isso, não se enganem, também está sendo aplicado em diversas cidades brasileiras e, aqui em Maceió, de forma explícita. Ou alguém acha que o slogan “Maceió é Massa” surgiu por acaso?
É puro Urbanismo de Marca.
*Arquiteto urbanista e professor da Ufal









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