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Mácleim Carneiro: dos palcos para a cena literária

por | 22 out, 2025

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Foto: Divulgação

Músico, compositor e jornalista estreia na Bienal do Livro de Alagoas com O Olho do Crítico, uma coletânea de textos sobre a música e a cultura alagoana.

O talentoso músico, cantor e compositor Mácleim Carneiro, alagoano de Murici e cidadão do mundo, estreia na 11ª Bienal Internacional do Livro de Alagoas com o lançamento de O Olho do Crítico.

Jornalista profissional, Mácleim tem se dedicado à crítica musical em Alagoas e, ao reunir uma seleção de textos escritos nas últimas décadas, oferece ao público especializado, aos artistas e à memória cultural da cidade um amplo panorama de sua produção, originalmente publicada nas páginas dos jornais.

O Olho do Crítico pode ser lido — e revivido — pelos olhos daqueles que um dia receberam suas críticas, e também pela nova geração de artistas, jornalistas, produtores culturais e admiradores de sua obra. A capa do livro é assinada pelo artista plástico e arquiteto Pedro Cabral.

O lançamento acontecerá no dia 7 de novembro, às 15h.

Em entrevista concedida a Geraldo de Majella, para o portal 082 Notícias, Mácleim Carneiro falou sobre o lançamento de O Olho do Crítico.

082 – Você reúne um acervo valioso de entrevistas — e não apenas isso — com artistas de grande relevância para a música alagoana e brasileira. Quem está presente neste livro?

Mácleim Carneiro – Bem, este livro não aborda nem tem como foco as inúmeras entrevistas que, de fato, eu tenho no meu acervo. Todas já digitalizadas. Certamente, serão objeto de um outro livro, pois algumas delas são atemporais, a partir da perspectiva de que alguns artistas têm antenas que lhes permitem uma visão ampla e até futurista. Isso está registrado na grande maioria delas e podemos observar em alguns dos mais expressivos artistas de outras latitudes e daqui do aquário, que foram entrevistados por mim. 

Na verdade, este livro traz uma panorâmica do que aconteceu no projeto Teatro Deodoro é o Maior Barato, no segmento música, entre os anos 2014 a 2019, quando aconteceu a sua última edição. São 29 resenhas de shows, que aconteceram no projeto e traçam uma panorâmica do que estava rolando na nossa cena musical, à época. Nesse livro, temos um retrato dos diversos segmentos musicais, que ocuparam o palco da nossa centenária casa de espetáculos e deram forma à nossa inquieta pluralidade. Evidentemente, pela ótica do exercício crítico e jornalístico, pois o título do livro já deixa bem evidente que o olho do crítico é um ponto de vista. 

Foto: Divulgação

082 – O primeiro livro sempre desperta expectativas, tanto no autor quanto no público. Há, de alguma forma, uma semelhança entre essa estreia literária e a estreia de um show?

Mácleim Carneiro – Para ser absolutamente sincero, quanto à expectativa do público eu não saberia nem sequer pensar, pois será algo absolutamente novo e inusitado para mim. Quanto à minha expectativa, estou absolutamente tranquilo. Portanto, sem expectativas! Simplesmente, porque não tenho a menor pretensão literária e nem poderia ter ao lidar com esse gênero. Ou seja, não me vejo um escritor e isso já me traz um alívio imenso. 

Sendo assim, não há como comparar com a estreia de um novo show, onde a preparação demanda um enorme trabalho, arregimentação de pessoas, parcerias e etc, sem falar que a minha expertise estará em xeque e posta à prova o tempo todo.

O trabalho, basicamente solitário, de escrever ou organizar um livro é muito mais confortável. Depois, como o retorno nunca é imediato, se houver, será uma surpresa prazerosa para mim.

082 – Como crítico musical e também músico profissional, com longa trajetória, é possível manter o distanciamento necessário ao escrever sobre outro artista ou espetáculo?

Mácleim Carneiro – Essa é uma questão muito delicada, que eu abordo rapidamente na apresentação do livro. 

A função do crítico não é nada confortável e é até mesmo inconpreedida por muitos. Portanto, para quem tem o telhado de vidro, como eu tenho, o distanciamento é uma premissa básica e absolutamente necessária ao exercício da avaliação crítica competente, destituída de pessoalidade e objetivando o ponto de vista técnico ou até mesmo emocional, porém, construtivo em argumentos e embasamentos necessários, sobretudo, ao autoquestionamento do objeto da crítica. 

É verdade que nem sempre o distanciamento é possível, ainda mais no nosso aquário perfumado, onde os melindres e vaidades do universo artístico estão sempre à flor da pele. Aí você tem que ser ético o bastante para recusar a função. Isso já aconteceu comigo e eu deleguei o trabalho para outro crítico. 

082 – Costuma-se dizer que o crítico é como um juiz de futebol — às vezes aplaudido, às vezes vaiado. Essa comparação faz sentido no seu cotidiano profissional?

Mácleim Carneiro – Permitam-me discordar um pouco dessa comparação. Embora um árbitro lide com essas duas reações da torcida, o bom árbitro é aquele que não aparece em campo, que cumpre a sua função sem ser notado, para vaias ou aplausos. Já a crítica jamais poderá passar despercebida nem desapercebida, para o bem ou para o mal. Quando isso ocorre, é porque não foi bem feita, foi insípida e ineficiente, e o sujeito que escreveu desconhece sua função e os preceitos básicos que a definem. Portanto, como eu já tive a oportunidade de colocar e me posicionar, no meu exercício de crítico, eu não exerço essa função para escrever releases para ninguém. Para isso, temos bons jornalistas, que não precisam ser especialistas de música ou outras expressões da arte. 

Quando optei por esse segmento do jornalismo cultural, sabia exatamente do que precisava para exercer essa função de maneira íntegra e imparcial. Portanto, assumo cada vírgula do que escrevo e tenho a consciência tranquila, porque também não dou e acho que não merece relevância o que escrevo. 

Foto: Divulgação

082 – Como é exercer a crítica musical em Alagoas, um estado de grande riqueza artística, mas com poucos espaços especializados para esse tipo de reflexão?

Mácleim Carneiro – Quando eu conclui o curso de jornalismo, essa já era uma questão que me incomodava bastante. Esse vazio, estabelecido pela imprensa e pelos veículos de comunicação em Alagoas, demonstra uma falta de interesse em ter uma crítica especializada, para espetáculos de música, dança, teatro, cinema e os demais segmentos artísticos e literários. Isso gerou um gap imenso nessa área e a acomodação provinciana dos tapinhas nas costas e elogios duvidosos após os espetáculos. 

Entendo que, para o pós-espetáculo, a crítica especializada é tão ou mais importante do que um bom press release de divulgação.

Por isso, idealizei a possibilidade de tentar amenizar essa carência e, com a aquiescência da Alessandra Vieira, à época editora do Caderno B, do jornal Gazeta de Alagoas, e do Alexandre Holanda, também à época, diretor artístico do Teatro Deodoro, começamos a publicar resenhas dos espetáculos do Teatro Deodoro é o Maior Barato, todas as quartas-feiras, com a participação e contribuição valiosíssima e corajosa de diversos colaboradores, todos e todas especialistas em suas respectivas áreas de atuação. 

O projeto não existe mais, daí a ideia desse livro, mas o desinteresse dos veículos, com poucas e raras exceções, e da classe artística, isso, permanece! 

Então, não é fácil malhar em ferro frio e observar o silêncio proposital dos que assimilam como prática o comportamento do caranguejo alagoano. Na imensa maioria das vezes, o sentimento é de estar falando para as paredes. Não é totalmente desestimulante porque o feedback de fora do aquário é constante e compensador.

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