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A Fiocruz pode ser a Petrobras do Século 21?

por | 2 maio, 2026

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Por Redação Outra Saúde | Entrevista com Denis Gimenez

O Brasil enfrenta um dilema histórico: embora possua o maior sistema público de saúde do mundo, o país ainda “consome o que não produz”, acumulando um déficit comercial de US$ 20 bilhões no setor. Em entrevista exclusiva, o economista e historiador Denis Gimenez, assessor da presidência do IBGE e professor da Unicamp, argumenta que a solução para esse gargalo não é apenas uma questão de saúde, mas o motor para um novo ciclo de desenvolvimento nacional.

Diferente da tendência de precarização e informalidade que assola outros setores, o mundo do trabalho na saúde é classificado por Gimenez como o “filé mignon” da economia brasileira.

Alta Qualificação: Com a chegada da Indústria 4.0, ocupações na saúde exigem domínio de tecnologias de ponta, do Big Data à cirurgia remota.

Remuneração Superior: O setor sustenta melhores salários e contratos mais estáveis que a média nacional.

Escala Gigantesca: Estima-se que 10 milhões de pessoas — 10% da população ocupada do país — trabalhem diretamente no complexo da saúde.

O trunfo do SUS e a Escala “Petrobras”

A tese central de Gimenez é audaciosa: a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) deve ser alçada ao patamar estratégico que a Petrobras ocupou no século 20. Para o economista, a saúde é a nova fronteira da acumulação de capital.

“A Petrobras é gigante porque tem escala, autonomia tecnológica e domina o processo produtivo. A estrutura necessária para a saúde hoje tem que ser gigante, muito maior do que a Fiocruz tem hoje.”

O grande diferencial brasileiro é o Poder de Compra do Estado. Quando o SUS decide adquirir equipamentos ou vacinas, ele tem força para deslocar o mercado mundial e exigir contrapartidas, como a transferência de tecnologia e a internalização da produção.

Lições estrangeiras: o peso do planejamento

Gimenez rebate a ideia de que o mercado resolverá o problema sozinho. Citando os exemplos de China e Índia, ele enfatiza que o sucesso desses países na produção de fármacos e tecnologia não veio do “livre jogo das forças”, mas de um planejamento estatal ferrenho.

 O Caso Indiano: O país transformou-se em potência farmacêutica global através de uma estratégia de Estado que durou 50 anos, unindo coordenação pública e execução privada.

Soberania vs. Patentes: O entrevistado defende que o Brasil precisa ser mais ousado na quebra de patentes e em políticas de *joint ventures*, condicionando o acesso ao mercado brasileiro à produção local.

Desenvolvimento para quem?

A modernização tecnológica corre o risco de aprofundar desigualdades se não for mediada pelo SUS. Gimenez recorda que, na pandemia, a vacinação seguiu critérios de cidadania, não de renda. O fortalecimento do Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS) é, portanto, a garantia de que a tecnologia de ponta chegará tanto aos grandes centros quanto às periferias, evitando uma “saúde rica para ricos e pobre para pobres”.

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