
Imagens de domínio público
Por Klinger Silva*
A tradição afro-religiosa alagoana e brasileira afirma que as divindades iorubás Iroko (Senhor do Tempo), Xangô (Senhor da Justiça) e Ogum (Senhor da luta, força e coragem) são energias ancestrais transformadoras, incontornáveis e fundamentais para a vida.
O enlace dinâmico entre Tempo, Justiça e Coragem Indômita desdobra-se em uma energia inspiradora, mobilizadora e transformadora. Uma potente ferramenta simbólica e democrática capaz de impactar as disputas entre as narrativas de memória coletiva e as narrativas da memória oficial na direção da justiça-verdade e reparação histórica.
Entende-se, dessa forma, que seria possível lutar durante o tempo necessário para a compreensão e interpretação das camadas e lógicas do próprio tempo. Lutar pelo rompimento dos controles e bloqueios, materiais e simbólicos, dos herdeiros do crime e do “apagamento” da memória coletiva. E abrir caminhos de verdade e justiça para as vítimas do passado e do presente. A memória coletiva sufocada é a contra memória que desafia a memória oficial-dissimulada ou tergiversante.
Etimologicamente a palavra tergiversante vem do latim tergiversans, -antis, tergiversari, cujo significado seria tergi (costas) e versare (virar/voltar). Ou seja, aquele que vira as costas, que é dissimulado e utiliza de subterfúgios, que nega afirmando, que declara mudanças para não mudar nada e faz uso da “retórica-douta” para dissimular o tabu vivido e difundido por si e por seu grupo social.
Percebe-se que o Quebra de Xangô representa o maior trauma individual e coletivo alagoano. Fato este fortemente reprimido no inconsciente da coletividade. E, por isso mesmo, responsável por toda sorte de sequelas pessoais e sociais. Desde o momento do planejamento e execução da violência extrema até os dias de hoje os perpetradores e seus herdeiros fugiram e fogem à responsabilidade, através de uma espécie de negacionismo repressor, dissimulador e silencioso.

Uma das razões da forte repressão física, psicológica, social e cultural sobre os herdeiros do Quebra de Xangô por parte dos descendentes político-ideológicos dos autores da referida violência seria o temor inconsciente e/ou consciente de uma certa “vingança imaginada”.
Tal ideia é reforçada pelo atual “contexto da violência urbana”, onde o Negro(a) “macumbeiro(a)” é muitas vezes percebido(a) como uma ameaça em potencial. Inimigo(a) capaz de desestruturar o mundo mítico encantado, confortável, heroico e imaculado do “passado maravilhoso” e do “presente próspero da promessa” da terra da Estrela Radiosa.
Por outro lado, verifica-se que de 1912 até 2012, logo em 100 anos, ocorreu um silêncio sepulcral negacionista sobre a extrema violência contra o povo-de-santo ocorrida em Maceió no início do século XX. A intelectualidade, a academia, as instituições culturais, os museus, entre outros, calaram-se vergonhosamente. A grande produção acadêmica e intelectual sobre o tema só se iniciaria na segunda década dos anos dois mil, na esteira das lutas do povo-de-santo e seus apoiadores.
Faz-se necessário a ampliação e o aprofundamento do debate sobre que versão do passado queremos vivenciar socialmente de forma dominante: A memória oficial dos algozes, mesmo que disfarçados de bons moços inocentes e, portanto, desresponsabilizados juntos com seus descendentes? Ou a memória das vítimas e seus herdeiros com o objetivo de expiação e catarse do trauma coletivo no sentido de verdade, justiça e reconciliação?
Porém, não se trata tanto de identificar os culpados, mas de reconhecer que, em democracia, a responsabilidade histórica pode e deve ser assumida e resgatada pelos herdeiros do poder. Não se trata de vingança, mas de justiça; não se trata de apontar culpas, mas de identificar responsabilidades. E, desse modo, reconhecer e reparar, no presente, os gestos de violência e a dor causados, no passado, a uma comunidade orgulhosa das suas tradições e plena de futuros.

Em 2026, a mudança de nome da Av. Fernandes para Av. Tia Marcelina tem essencialmente o sentido simbólico de letramento democrático, cultural e político do conjunto da sociedade e a construção efetiva da reparação histórica e responsabilização dos autores do Quebra de Xangô. Contudo, um processo de alteração de nomenclatura sem a devida promoção e aprofundamento do debate perde em força, dimensão e sentido a luta secular do povo sofrido de Alagoas.
A sabedoria popular enxerga longe. Uma pessoa do povo não tem por hábito utilizar a palavra “tergiversante”, mas reconhece com clareza as dissimulações e subterfúgios dos que direta ou indiretamente sobrevivem do espólio do Quebra de Xangô sufocando a memória das vítimas para se manterem em seus nichos de poder herdados.
Os orixás não podem ser enganados, nem tão pouco usados ou controlados politicamente.
SALUBA NANÃ!
OGUNHÊ!
*Mestre em Patrimônio pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH), da Universidade NOVA de Lisboa (UNL).







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