A recuperação da Caatinga deixou de ser apenas uma experiência comunitária para se tornar política pública nacional. Inspirado em iniciativas desenvolvidas por povos e comunidades tradicionais do Semiárido, o governo federal lança nesta segunda-feira (8) o Programa Recaatingar, uma estratégia que busca restaurar 10 milhões de hectares de áreas degradadas do bioma até 2045.
A iniciativa nasce de uma constatação simples, mas poderosa: a desertificação não é apenas um problema ambiental. Ela está diretamente ligada à concentração fundiária, à pobreza rural, à insegurança hídrica e à perda dos modos de vida tradicionais. Por isso, o recaatingamento propõe uma abordagem mais ampla do que o simples plantio de árvores.
A metodologia, desenvolvida ao longo de uma década por comunidades de fundo de pasto da Bahia com apoio técnico do Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (Irpaa), considera simultaneamente as dimensões ambiental, social, produtiva e cultural da Caatinga. O conceito parte da ideia de que restaurar o bioma exige também fortalecer as pessoas que vivem nele.
A Agência Eco Nordeste acompanhou a trajetória da Comunidade Tradicional de Fundo de Pasto de Malhada da Areia, em Juazeiro (BA), uma das experiências que ajudaram a consolidar a proposta.
“Com toda a sinceridade, eu nunca pensei que a gente precisava cuidar da Caatinga”, relata a agente comunitária de saúde Iracema Lima, de 48 anos. “A gente cresceu vendo fogo, vendo as pessoas tirarem a madeira para vender, e na minha cabeça isso era muito normal.”

Foto: Irpaa
A percepção mudou quando os moradores começaram a notar o desaparecimento gradual da vegetação nativa. Sem alternativas econômicas e pressionadas pela degradação ambiental, as famílias testemunharam áreas inteiras se aproximarem de um cenário de desertificação.
O problema se agravou em 2013, quando a comunidade descobriu que parte do território utilizado coletivamente havia sido grilada e passou a sofrer desmatamento intensivo. A reação veio anos depois, com a adoção do recaatingamento como instrumento de recuperação ambiental e também de defesa territorial.
Em 2019, os moradores iniciaram o cercamento de uma área de 50 hectares destinada à regeneração natural. Mais do que restaurar a vegetação, o processo revelou uma capacidade de mobilização que a própria comunidade desconhecia.
“Com isso a gente viu uma coisa que a nossa comunidade não sabia que existia: a nossa união e força”, afirma Iracema.

Mapa da Comunidade Tradicional de Fundo de Pasto de Malhada da Areia, pendurado na área destinada para o recaatingamento | Foto: Iracema Lima
Os resultados apareceram rapidamente. Em apenas quatro anos, levantamentos realizados pela comunidade em parceria com a Companhia de Desenvolvimento e Ação Regional (CAR) registraram um salto de 20 para 35 espécies vegetais na área restaurada. A quantidade de plantas catalogadas passou de 246 para 585 indivíduos, enquanto a captura de carbono alcançou 42 toneladas em um único ano.
Os números reforçam uma característica cada vez mais valorizada pela ciência: a capacidade da Caatinga de atuar como importante sumidouro de carbono. Segundo o pesquisador Aldrin M. Perez Marin, do Instituto Nacional do Semiárido (Insa), áreas preservadas do bioma podem sequestrar até cinco toneladas de dióxido de carbono por hectare ao ano.
Essa capacidade ganha relevância estratégica em um contexto de mudanças climáticas e avanço da desertificação. Atualmente, milhões de hectares do Semiárido enfrentam processos de degradação que comprometem a produção agrícola, a disponibilidade de água e a permanência das populações rurais em seus territórios.

Iracema Lima é agente comunitária de saúde e moradora da Comunidade Tradicional de Fundo de Pasto de Malhada da Areia | Foto: Acervo pessoal
É nesse cenário que o Programa Recaatingar surge como uma tentativa de ampliar para escala nacional práticas já testadas por comunidades locais. A proposta integra o Plano de Ação Brasileiro de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca (PAB), construído ao longo de dois anos com participação de cerca de 500 representantes da sociedade civil.
Segundo Alexandre Pires, diretor do Departamento de Combate à Desertificação do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, a iniciativa busca transformar experiências exitosas em política pública permanente.
“O Programa Recaatingar é o esforço do governo de olhar para as experiências concretas da sociedade civil e transformá-las em política pública, para valorizar aquilo que já está sendo feito e que está dando certo”, afirma.
O avanço institucional também encontra respaldo no Congresso Nacional. O Projeto de Lei 1990/2024, aprovado pelo Senado em maio deste ano e aguardando sanção presidencial, cria a Política Nacional para a Recuperação da Vegetação da Caatinga. A proposta estabelece mecanismos para restaurar áreas degradadas, fortalecer a produção sustentável de alimentos, ampliar a segurança hídrica e estimular atividades ligadas à bioeconomia.

Na ocasião da Missão Climática pela Caatinga 2024, Marina Silva conheceu a experiência de Malhada da Areia com o recaatingamento | Foto: Feijão Almeida / Governo da Bahia
A trajetória do recaatingamento revela uma inversão importante na formulação de políticas ambientais brasileiras. Em vez de partir exclusivamente de gabinetes ou centros de pesquisa, a proposta nasce da observação de mulheres extrativistas que perceberam o desaparecimento dos umbuzeiros em suas comunidades e concluíram que era preciso agir.
Hoje, essa experiência construída no chão do Semiárido se transforma em referência nacional para enfrentar um dos maiores desafios ambientais do país: impedir que a desertificação avance sobre a única floresta seca exclusivamente brasileira e, ao mesmo tempo, garantir condições para que seus povos continuem vivendo e produzindo em seus territórios.
*Com Agência Eco Nordeste








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