A Prefeitura de São Paulo e o Governo do Estado concentravam cerca de 85% da carteira de crédito consignado do Banco Digimais, instituição ligada ao bispo Edir Macedo, segundo documentos internos obtidos pela imprensa. A capital paulista respondia por 60% das operações da instituição, enquanto outros 25% estavam vinculados a servidores estaduais.
Os dados mostram que São Paulo se tornou o principal mercado da estratégia de expansão do banco justamente em um período marcado por mudanças no modelo de negócios da instituição e pelo surgimento de alertas sobre sua situação financeira.
Material institucional do Digimais informa que a instituição mantinha 69 convênios públicos e pretendia ultrapassar a marca de 100 acordos. A expansão ocorreu principalmente entre servidores públicos paulistas e em municípios administrados por prefeitos de partidos alinhados à base política do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), como PL, Republicanos e MDB.
Entre as cidades que autorizaram ou credenciaram o banco para operar consignados estão São Paulo, Guarulhos, Ubatuba, Praia Grande, São Sebastião, Pindamonhangaba, Tupã e Tambaú. Não há, porém, indicação de participação direta do governo estadual nos processos municipais, que foram realizados pelas administrações locais.
A ampliação das operações coincidiu com uma revisão da estratégia do Digimais, que passou a priorizar linhas de crédito consignado para reduzir a dependência do financiamento de veículos. Em abril de 2026, a agência Moody’s Local Brasil rebaixou a classificação de risco da instituição e atribuiu perspectiva negativa ao banco.
Segundo o relatório, os investimentos em fundos alternativos alcançaram R$ 4,2 bilhões no fim de 2025, o equivalente a 42,6% dos ativos totais. O documento também apontou deterioração da qualidade dos ativos, necessidade de aportes dos controladores e índice de capital abaixo do mínimo regulatório exigido pelo Banco Central.
As preocupações se intensificaram após investigações do Banco Central e da Polícia Federal. Em representação enviada à Justiça Federal, a PF apontou suspeitas de gestão fraudulenta ou temerária e citou indícios de irregularidades contábeis e operações envolvendo fundos ligados ao banco. Os investigadores pediram o bloqueio de cerca de R$ 670 milhões, além de medidas de busca e apreensão e quebra de sigilos.
Diante desse cenário, foram levantados questionamentos sobre os critérios utilizados pelos governos e prefeituras para autorizar a atuação da instituição junto às folhas de pagamento dos servidores.
Em resposta, o Governo de São Paulo afirmou que o credenciamento das instituições financeiras segue regras previstas em decreto estadual e que não há contratação direta ou escolha discricionária por parte da administração. Segundo o Executivo, o Digimais atendia às exigências do Banco Central quando foi habilitado e representa atualmente 1,57% das operações mensais de consignado do Estado.
A gestão estadual acrescentou que acompanha o tema, avalia medidas cautelares e busca aperfeiçoar os mecanismos de controle para garantir a segurança dos usuários.
Já a Prefeitura de São Paulo informou que o Digimais faz parte do grupo de 57 instituições autorizadas a operar consignados para servidores municipais. De acordo com a Secretaria Municipal de Gestão, o banco responde por menos de 3% das operações realizadas na capital.
As administrações ressaltaram que as autorizações seguiram a legislação vigente e que a instituição estava regular perante os órgãos competentes no momento do credenciamento.
*Com informações do ICL Notícias






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