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Governo sepulta marinheiro vítima da ditadura após mais de 50 anos

por | 30 jun, 2026

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O Governo Federal realizou, na sexta-feira (26), em São Paulo, o sepultamento de Grenaldo de Jesus Silva, ex-marinheiro perseguido pela ditadura militar brasileira e identificado em 2025 entre os remanescentes ósseos encontrados na Vala Clandestina de Perus. A cerimônia representa mais um avanço da política de memória, verdade, justiça, reparação e não repetição, ao garantir à família o direito a um sepultamento digno após mais de cinco décadas de espera.

O cortejo partiu do Centro de Antropologia e Arqueologia Forense da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) em direção ao Cemitério Dom Bosco. Em seguida, familiares, representantes de órgãos públicos, movimentos de direitos humanos e instituições parceiras participaram de uma homenagem no Memorial da Vala de Perus antes do sepultamento.

A ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania, Janine Mello, destacou o simbolismo da cerimônia, realizada no Dia Internacional de Apoio às Vítimas da Tortura.

“O Brasil reafirma hoje seu compromisso inegociável com a dignidade da pessoa humana e com a rejeição absoluta da tortura. Não existe democracia forte sobre o esquecimento.”

Segundo a ministra, a identificação de Grenaldo representa um ato de justiça histórica.

“Reconhecer Grenaldo de Jesus Silva é reafirmar o direito à verdade. O Estado tem o dever de reconhecer, reparar, preservar a memória e assegurar que violações como essas nunca mais se repitam. Hoje afirmamos que seu nome jamais voltará ao anonimato.”

Foto: Ludmila Duarte/MDHC

Janine Mello também ressaltou a retomada dos trabalhos da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) e a continuidade do Projeto Perus, iniciativas voltadas à identificação de vítimas da repressão e à reparação histórica. Ela lembrou que a descoberta da Vala Clandestina de Perus, em 1990, revelou uma tentativa de ocultar os corpos e apagar a memória das vítimas do regime militar.

Em nome da família, o filho de Grenaldo, Grenaldo da Silva Mesut, afirmou que o momento encerra uma espera de mais de 50 anos.

“É uma mistura de emoções, mas, acima de tudo, uma felicidade muito grande. Hoje posso dar um lugar digno ao meu pai. Espero que outras famílias também possam viver esse momento e encontrar seus entes queridos.”

A neta, Paloma, também prestou homenagem durante a cerimônia.

“Hoje dou um lugar à memória, ao luto que ficou suspenso e à história que insistiu em permanecer. Que esta despedida traga o descanso que meu avô não pôde ter durante todos esses anos.”

A presidente da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, Eugênia Augusta Gonzaga, destacou que a identificação foi resultado de um trabalho conjunto entre equipes periciais brasileiras e internacionais.

“Isso só foi possível graças ao esforço de inúmeras equipes periciais e à colaboração da família. Hoje cumprimos um ritual que foi negado a Grenaldo por mais de cinquenta anos.”

Representando a Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos, Amelinha Teles afirmou que cada identificação simboliza uma conquista coletiva.

“Esse momento é fruto de uma longa luta pela memória e pela verdade. Cada identificação representa uma vitória coletiva e reforça a importância de que todas as famílias possam dar um sepultamento digno aos seus familiares.”

Foto: Ludmila Duarte/MDHC

Natural do Maranhão, Grenaldo de Jesus Silva era oficial da Marinha e foi perseguido após se posicionar contra o golpe militar de 1964. Em 1972, aos 31 anos, morreu durante uma tentativa de capturar uma aeronave no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Enterrado como indigente no Cemitério Dom Bosco, permaneceu desaparecido por mais de cinco décadas até ser identificado pelo Projeto Perus, que atua na localização e identificação de vítimas da ditadura militar brasileira.

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