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Pesquisa aponta experiências latino-americanas como referência para memorial do DOI-Codi em São Paulo

por | 21 jul, 2026

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Experiências de antigos centros de repressão transformados em espaços de memória na América Latina podem servir de referência para a criação de um memorial permanente no antigo DOI-Codi de São Paulo. É o que mostra reportagem publicada pelo Brasil de Fato, com base em pesquisa coordenada pela historiadora Mariana Joffily, da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc).

O estudo analisou sete memoriais instalados em antigos centros de repressão no Chile, Argentina, Uruguai, Paraguai e México, identificando diferentes formas de preservar a memória das ditaduras e de apresentar ao público as violações de direitos humanos cometidas nesses locais.

Segundo Mariana Joffily, um dos principais diferenciais desses memoriais é a preservação dos edifícios onde ocorreram prisões, torturas e assassinatos. Para a pesquisadora, esses espaços possuem valor histórico e probatório por manterem relação direta com os acontecimentos e com os testemunhos das vítimas. “É completamente diferente de um lugar escolhido de maneira aleatória para ser um museu. O local em si é o que carrega a força do testemunho”, afirma.

A pesquisa também mostra que não existe um modelo único de memorialização. Enquanto alguns espaços utilizam recursos artísticos para abordar a violência de Estado, outros priorizam relatos de sobreviventes, documentos históricos e exposições permanentes sobre a repressão política.

Os pesquisadores alertam, porém, que esses equipamentos permanecem sujeitos às disputas políticas em torno da memória das ditaduras. Segundo a historiadora Deborah Neves, coordenadora do Grupo de Trabalho Memorial DOI-Codi, memoriais da Argentina e do Chile enfrentam dificuldades financeiras após mudanças de governo. “Eles estão esvaziando, não fechando completamente, mas demitindo funcionários e tornando os acessos cada vez mais difíceis”, afirma.

No Brasil, o debate se concentra no complexo da Rua Tutóia, na Vila Mariana, onde funcionou o DOI-Codi de São Paulo entre 1969 e 1983. Embora tombado como patrimônio histórico, o imóvel continua sob responsabilidade da Secretaria de Segurança Pública do Estado e ainda não foi transformado em memorial.

Desde 2017, o Grupo de Trabalho Memorial DOI-Codi desenvolve pesquisas, visitas mediadas e estudos arqueológicos no local. Em 2024, a iniciativa foi reconhecida pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) como um Ponto de Memória, mas a implantação definitiva do equipamento depende da transferência do imóvel para a área da cultura.

As pesquisas arqueológicas realizadas no complexo também identificaram vestígios materiais do funcionamento do centro de repressão, contribuindo para reconstituir práticas de tortura e fortalecer investigações sobre crimes cometidos durante a ditadura militar. Um dos estudos, desenvolvido pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), apontou evidências de que o jornalista Vladimir Herzog e o tenente reformado José Ferreira de Almeida foram mortos na mesma cela do DOI-Codi, contestando as versões oficiais divulgadas à época.

Além da preservação física do prédio, o grupo responsável pelo futuro memorial defende que o espaço tenha papel educativo, voltado especialmente às novas gerações, com ações permanentes de promoção dos direitos humanos e reflexão sobre o período da ditadura militar.

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