Por Duse Leite*
O brasileiro é um povo de fé. Talvez por isso a promessa tenha encontrado terreno tão fértil na política.
Promete-se uma ponte antes do primeiro tijolo. Anuncia-se um hospital antes da planta sair da gaveta. Inaugura-se uma obra que ainda precisa de outra inauguração para funcionar. E o cidadão, entre uma solenidade e outra, segue aprendendo a esperar.
Não importa o partido. Mudam-se as cores, trocam-se os discursos, renovam-se os rostos. A promessa permanece. Ela atravessa governos com uma vitalidade invejável, sempre bem maquiada, sempre apresentada como novidade.
A política brasileira descobriu que anunciar rende mais aplausos do que entregar. A fotografia da assinatura de um convênio ganha destaque. A placa da obra vira notícia. Já a conclusão, muitas vezes silenciosa, quase passa despercebida.
Enquanto isso, a vida real não espera. A mãe continua na fila do posto de saúde. O estudante enfrenta escolas que precisam de mais do que tinta nova. O pequeno empresário tenta sobreviver em meio à burocracia. A cidade cresce, mas os problemas parecem correr mais depressa.
O curioso é que o eleitor não espera milagres. Espera coerência. Não exige perfeição. Exige respeito. Quer governantes que entendam que administrar não é produzir manchetes, mas produzir resultados.
Promessa é necessária quando aponta um caminho. Mas ela perde o valor quando se transforma em modo permanente de governar. A esperança precisa de compromisso. Caso contrário, vira apenas propaganda com prazo de validade.
A democracia não se fortalece com discursos inflamados nem com campanhas eternas. Ela se fortalece quando a palavra dada encontra abrigo na ação.
Porque um país não se constrói com promessas bem escritas. Constrói-se com obras concluídas, serviços funcionando e cidadãos que não precisem esperar pela próxima eleição para ouvir, mais uma vez, aquilo que já lhes foi prometido tantas vezes.
*jornalista






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