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Denúncias expõem abusos de PMs em Piracicaba

por | 29 jul, 2026

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Uma abordagem policial que deveria terminar em poucos minutos se transformou no início de uma investigação sobre suspeitas de extorsão, coação e flagrantes forjados envolvendo policiais militares em Piracicaba, no interior de São Paulo. O caso, revelado pela Agência Pública, deu origem a um relatório do Ministério Público de São Paulo (MPSP) que reúne diferentes episódios atribuídos a agentes do 10º Batalhão da Polícia Militar do Interior (10º BPM/I) e alerta para o aumento da letalidade policial na região.

Segundo a investigação, um caminhoneiro, identificado como Paulo para preservar sua identidade, voltava do hospital com a esposa e os filhos — um deles ainda bebê — quando teve o carro parado por policiais militares. Após revistarem a família e o veículo sem encontrar qualquer irregularidade, os agentes teriam exigido que ele entregasse um traficante da região, além de um fuzil e uma grande quantidade de drogas. Caso contrário, seria preso.

De acordo com o relato encaminhado ao Ministério Público, as ameaças continuaram mesmo após a abordagem. Paulo afirmou que um dos policiais chegou a bater com a arma em seu peito e o intimidou com uma faca. Dias depois, um policial teria feito contato pelo WhatsApp cobrando o cumprimento das exigências, que, segundo a denúncia, passaram a incluir a entrega de cocaína. As mensagens e gravações foram entregues aos investigadores.

As denúncias de Paulo, somadas a outros dois relatos de supostos flagrantes forjados e coação, motivaram uma operação realizada em fevereiro deste ano. Mandados de busca e apreensão foram cumpridos contra dez policiais militares, com recolhimento de celulares, cartões de memória, anotações e munições, materiais que passaram por perícia.

A Corregedoria da Polícia Militar também instaurou um inquérito para apurar a conduta dos agentes. Já a Secretaria da Segurança Pública informou que o procedimento tramita sob sigilo e afirmou, em nota, que as diligências necessárias foram realizadas e que eventuais medidas administrativas e disciplinares serão adotadas ao fim das investigações, conforme as conclusões do inquérito.

Prisão derrubada pela Justiça

O relatório do Ministério Público também cita outro episódio envolvendo uma família da cidade. Segundo a investigação, policiais entraram na residência onde Janaína e o marido viviam sem apresentar mandado judicial. O homem foi preso sob suspeita de ligação com a facção PCC, acusação contestada pela defesa.

Embora os policiais tenham afirmado que localizaram arma, munições e drogas durante uma abordagem de rotina, imagens apresentadas pela defesa indicaram que os agentes estiveram na residência antes da abordagem descrita na versão oficial.

Ao analisar o caso, a Justiça apontou inconsistências entre o relato dos policiais e as provas apresentadas, revogando a prisão quase dois meses depois. O juiz destacou que os elementos reunidos colocavam em dúvida a narrativa registrada no auto de prisão em flagrante.

A SSP informou que esse caso também é alvo de inquérito policial militar encaminhado ao Tribunal de Justiça Militar e ressaltou que as apurações seguem os trâmites legais.

Mortes em ações policiais cresceram

Além das denúncias individuais, o documento do Ministério Público chama atenção para um cenário mais amplo. Os dados apontam que as mortes decorrentes de intervenção policial em Piracicaba passaram de cinco casos em 2024 para 12 em 2025, um aumento de 140%, índice que colocou o município acima da média estadual.

Entre as vítimas citadas está Gabriel Junior Oliveira Alves da Silva, de 22 anos, morto durante uma abordagem policial em abril de 2025.

Diante desse cenário, o promotor responsável pelo relatório recomendou à Secretaria da Segurança Pública e ao comando da Polícia Militar a aceleração da implantação das câmeras corporais, além da revisão de protocolos operacionais e da avaliação administrativa das ocorrências analisadas.

Para o Ministério Público, o uso dos equipamentos fortalece a produção de provas, reduz conflitos entre versões apresentadas por policiais e civis e também protege agentes que atuam corretamente, contribuindo para a credibilidade das instituições.

O relatório foi encaminhado à Secretaria da Segurança Pública e ao Comando da Polícia Militar com recomendações para aperfeiçoar a atuação policial e reduzir os índices de mortes decorrentes de intervenções. A investigação, revelada pela Agência Pública, segue em andamento, assim como os procedimentos instaurados pela Corregedoria da PM e pelos órgãos responsáveis.

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