
Josias Marques (terno claro) e o advogado e candidato a senador pelo MDB, Mendes de Barros na Câmara de Vereadores de Anadia, em 1970.
Se estivesse entre nós, Josias de Souza Marques (1921-1987) estaria completando 100 anos. Nasceu no dia 29 de novembro de 1921, em Anadia (AL), filho de Maria Jacinta Marques e Salvador Elizio Marques. O casal constituiu uma família com quatro filhos: José, Jonas, Josias e Juracy. Os filhos ainda jovens foram trabalhar para se sustentar e ajudar a manter a casa dos pais. José e Juracy conseguiram emprego durante a Segunda Guerra Mundial como operários têxteis em Rio Largo; no pós-guerra, decidiram imigrar para o Rio de Janeiro, num período de expansão da indústria nacional, e logo obtiveram trabalho como operários na Fábrica Bangu, onde trabalharam por mais de 35 anos no chão de fábrica.
Josias, o meu pai, iniciou a vida trabalhando como balconista em Anadia, na loja do “seu” Botelho; em seguida foi trabalhar numa farmácia, como aprendiz e balconista. Com o tempo e dedicação ao trabalho, aprendeu as técnicas de manipulação de medicamentos utilizadas à época. Confiante no que havia aprendido, arriscou-se abrindo o seu próprio negócio. Jonas, por ser incapaz, viveu sempre sob os cuidados dos pais e do irmão até os últimos dias de vida.
Anadia foi o seu universo mais ampliado. Impedido de sair da cidade para alçar voos mais longos no comércio por ser o responsável pelo irmão incapaz, resignou-se a viver a vida sem reclamar e entendeu que essa era uma das suas missões: cuidar da melhor maneira possível do irmão.
Em 1957, no dia 04 de janeiro, o padre Estevão da Rocha Lima oficiou o casamento de Josias de Souza Marques com a professora primária Marinalva Fidelis de Moura, na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Piedade, em Anadia. Dessa relação nasceram três filhos: o primogênito Geraldo de Majella nasceu no dia 5 de novembro de 1957, mas faleceu com menos de dois meses de vida. O segundo: Rosa Maria nasceu no dia 8 de setembro de 1959, na Maternidade Sampaio Marques, em Maceió, e o terceiro: Geraldo de Majella nasceu em Anadia, no dia 02 de janeiro de 1961. O avô, Salvador Elizio Marques devoto de São Geraldo de Majella pediu que se fosse homem registrasse com o nome do santo.

Juracy e José com a sobrinha-neta Larissa, em Anadia.

Juracy (esquerda) com a cunhada Marinalva (azul) com amigas no Rio de Janeiro.
A vontade de ser médico foi abortada pelos motivos expostos, mas não cessou o desprendimento de servir como farmacêutico de um interior onde não havia médicos e os primeiros socorros se davam em sua farmácia e sob os seus cuidados. Isso lhe bastava na vida. A sua atividade comercial não era restrita a venda de medicamentos, mas se estendia a evitar as doenças e, se possível salvar vidas.
O binômio saúde e educação lhe preenchia de satisfação. Sabia que poderia lutar à sua maneira para melhorar as condições de saúde da cidade e ampliar a rede pública de educação. O tempo ‒ e possivelmente a falta de uma representação política que tivesse como plataforma essas duas bandeiras ‒ o levou para a atividade política, elegendo-se vereador em três legislaturas.
Meu pai era um tipo mineiro no seguinte sentido: falava pouco e procurava objetivar as ações. Quando em Anadia não havia o ensino médio, a sua bandeira era criar o curso pedagógico para formar professoras a fim de ensinar as crianças da zona rural e da periferia da cidade. Enquanto essa conquista não se materializava, as bolsas de estudos que eram destinadas à prefeitura ele fazia gestões para que alunos e alunas pobres viessem estudar em Maceió. Em alguns casos, e não foram poucos, a nossa casa recebia alunas que não tinham família na capital e estudaram até concluir o curso.
O mundo caiu sob sua cabeça em 1964, não por ser militante de esquerda ou manter vínculos com a esquerda, mas por vivenciar os tormentos que alguns dos seus amigos passaram ao serem presos. As portas de uma hora para outra foram fechadas. O seu principal amigo, o deputado Sebastião Barbosa de Araújo (Betinho), havia sido preso e teve os seus direitos políticos cassados por dez anos. E mais: José Simão das Neves, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, o vereador José Pedrosa Irmão, o ferroviário José Alde Mata da Fonseca e o motorista Djalma Fidelis Freire foram presos nos primeiros dias do golpe.
As aflições causadas pelos boatos e pela deduragem que emergiu com a ditadura militar o deixavam tenso. Por ser criança, só muitos anos depois é que eu soube dos fatos por ele e por minha mãe. Deslocava-se todas as quartas-feiras de Anadia para visitar os amigos presos na antiga penitenciária. Isso foi motivo da boataria de que seria o próximo a ser preso. Calmo e sereno, como sempre foi, manteve as visitas até quando o último dos presos foi libertado. Nunca alterou a voz, nunca discutiu com o “gado da época”. Nesse caso, não é metafórico o fato de aquela gente proprietária rural que apeava do cavalo na porta da sua farmácia a dizer: “o próximo preso será você, Josias”.

Jonas Marques
O perfil ideológico do meu pai seria o de um trabalhista que tinha como líder o governador Muniz Falcão e o presidente João Goulart. A ligação familiar, por parte de minha mãe, era com o deputado Abrahão Fidelis de Moura, de quem ela era prima e em quem nossa família votava.
Em suas andanças visitando presos políticos, conheceu alguns comunistas apresentados por Betinho que de alguma maneira marcaram a sua vida: o operário Rubens Colaço, o jornalista Jayme Miranda e o historiador Dirceu Lindoso. Colaço era boêmio e amigo do vereador José Pedrosa; com esse meu pai voltou a se encontrar várias vezes em Maceió, sempre na companhia de Pedrosa. Os outros dois nunca mais voltou a se encontrar.
O humanismo cristão é o que poderia definir o perfil ideológico de Josias de Souza Marques. A tolerância era o principal traço da sua personalidade. Além do bom humor.
A assistente social Lucia Ferreira de Souza, que viria a ser presa no pós-golpe e que ao ser solta mergulhou na vida clandestina nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, em 1979, com a Anistia, foi visitar a família em Anadia e passou na farmácia para rever meus pais. Nesse momento eu presenciei o quanto ele se emocionou por rever alguém que estimava e que não tinha a menor noção de se estaria viva ou morta.
Tudo do meu pai era voltado para a vida prática. A sua experiência era a de quem vivia a vida do interior, mas que lia e ouvia o rádio. O seu senso de justiça e o espirito democrático estavam muito além daquela comunidade em que nasceu e onde viveu até os 65 anos. Morreu no dia 7 de maio de 1987, na Santa Casa de Misericórdia de Maceió.
Estou em dívida como meu pai. Pretendia escrever um perfil biográfico, mas com a pandemia não foi possível. Em 2022 pagarei a dívida.






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