Uma pesquisa nacional realizada pelo Instituto Sou da Paz em parceria com a Oma Pesquisa coloca em xeque a ideia de que a maioria dos brasileiros defende respostas mais violentas para enfrentar a criminalidade. O levantamento, realizado em maio de 2026 com 1.115 pessoas em 40 municípios, mostra que o medo da violência interfere diretamente no cotidiano da população, mas não se traduz automaticamente em apoio à ampliação da letalidade estatal.
Segundo reportagem publicada pelo blog Outras Palavras, 57% dos entrevistados afirmaram ter mudado hábitos ou rotinas por medo da violência. Entre eles, 53% evitam sair à noite, 31% deixam de usar o celular na rua e 29% alteram trajetos para escapar de áreas consideradas perigosas.
O impacto também aparece na vida social. Parte dos entrevistados deixou de frequentar determinados locais, participar de eventos culturais ou utilizar o transporte público por receio da criminalidade.
A pesquisa aponta ainda que 51% dos brasileiros entrevistados sofreram algum tipo de violência no período de um ano. O levantamento identificou também que 37% percebem algum grau de controle do crime organizado sobre a rua, bairro ou região onde vivem.
Apesar desse cenário, a maioria não demonstra adesão às soluções baseadas no aumento indiscriminado da violência.
Apenas 20% concordam com a afirmação de que “bandido bom é bandido morto”. Já 55% defendem que o caminho para enfrentar a criminalidade é aplicar de forma rigorosa as leis que já existem, em vez de simplesmente ampliar penas.
Maioria rejeita mais armas
O levantamento também contraria a ideia de que a população, especialmente a mais atingida pela violência, vê o armamento como principal resposta à criminalidade.
Setenta e três por cento dos entrevistados associam a maior circulação de armas ao aumento da violência. Além disso, 60% são contrários à presença de armas dentro de casa.
O apoio ao armamento varia de acordo com a renda. Entre pessoas que vivem com até dois salários mínimos, 18% defendem as armas como solução para a violência. O percentual sobe para 24% na faixa intermediária e chega a 26% entre aqueles com renda superior a cinco salários mínimos.
A pesquisa também mostra forte apoio ao controle da atuação policial: 82% defendem a utilização de câmeras corporais pelas forças de segurança, enquanto apenas 12% consideram o equipamento um obstáculo ao trabalho policial.
Medo muda relação com a cidade
Os dados indicam que a insegurança não se limita ao risco de ser vítima de um crime. Ela altera a forma como as pessoas circulam, trabalham e ocupam os espaços públicos.
O medo faz com que moradores mudem trajetos, evitem determinados horários e assumam gastos adicionais para reduzir riscos, como optar por transportes considerados mais seguros.
A reportagem do Outras Palavras destaca que esse processo atinge especialmente trabalhadores de menor renda, que dependem de deslocamentos cotidianos entre bairros periféricos e áreas centrais e têm menos alternativas para escapar de regiões consideradas perigosas.
O levantamento mostra, portanto, uma população fortemente impactada pela violência, mas que não necessariamente associa segurança à redução de direitos ou ao aumento da letalidade.
Entre os entrevistados que defendem o endurecimento das penas, 58% dizem que nenhum argumento é capaz de mudar sua opinião. Ainda assim, parte desse grupo demonstra abertura quando confrontada com argumentos sobre a efetividade das políticas de segurança.
Diante da ideia de que o problema não está no tamanho da pena, mas na certeza de seu cumprimento, 19% reconsideraram parcialmente ou mudaram de opinião. Quando o argumento apresentado foi o risco de prisões por crimes menos graves aproximarem pessoas de criminosos mais perigosos, o percentual de reconsideração chegou a 27%.
Os resultados apontam para uma demanda por políticas de segurança que combinem combate ao crime, eficiência policial, produção de provas e mecanismos de controle da atuação das forças de segurança.
Em vez de um consenso nacional pela ampliação da violência, os dados revelam uma sociedade profundamente afetada pelo medo, mas que mantém forte apoio a mecanismos institucionais e ao cumprimento das leis.







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