segunda-feira, 28 setembro 2026
Nublado
Maceió
23°C
Nublado
Nublado
Maceió
23°C
Nublado

Wendy Brown: extrema direita cresce sobre ruínas do neoliberalismo, mas derrota de Trump mostra limites do projeto

por | 28 set, 2026

ESPALHE A NOTÍCIA
Link copiado para o Instagram!

A filósofa norte-americana Wendy Brown afirma que a ascensão da extrema direita está relacionada às transformações provocadas pelo neoliberalismo e à perda de referências de solidariedade social e política.

Em entrevista ao site OutrasPalavras, Brown avalia que o neoliberalismo não produziu apenas mudanças econômicas, mas também uma nova forma de compreender a liberdade, a sociedade e o papel do indivíduo.

Segundo a filósofa, esse processo contribuiu para enfraquecer ideias como solidariedade, igualdade política e responsabilidade coletiva.

Para Brown, a transformação do cidadão em um sujeito orientado principalmente por interesses econômicos ajudou a criar condições para o avanço de movimentos autoritários.

Ela sustenta que a extrema direita pode se apresentar como resposta ao sentimento de perda de poder e de controle sobre a própria vida experimentado por parcelas da sociedade.

Na avaliação da filósofa, esse fenômeno também ajuda a explicar a admiração por líderes autoritários em diferentes países.

Brown cita como exemplos o ex-ditador chileno Augusto Pinochet e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, apontando diferenças históricas entre os dois, mas identificando uma valorização comum da autoridade, da força e da violência política.

Para ela, a exaltação desses líderes pode expressar um sentimento de perda de influência econômica e social, especialmente entre grupos que percebem mudanças nas relações de poder.

A filósofa também revisita uma das teses apresentadas em seu livro Nas ruínas do neoliberalismo e admite que sua interpretação inicial foi influenciada pela experiência histórica dos países do Norte global.

Ao analisar o caso brasileiro, Brown afirma que a sequência entre neoliberalismo, enfraquecimento do Estado social e avanço da extrema direita não pode ser tratada como uma trajetória universal.

Ela reconhece que países do Sul Global seguiram caminhos diferentes e cita Brasil, Chile, Índia, África do Sul e China como exemplos de experiências distintas.

No caso brasileiro, segundo Brown, a convergência entre políticas de mercado e valores conservadores ocorreu sem que o país tivesse construído previamente um Estado de bem-estar social semelhante ao existente em algumas nações europeias.

A filósofa afirma que essa experiência obrigou-a a rever a ideia de que haveria uma sequência histórica necessária entre neoliberalização e autoritarismo.

“Eu contava uma história a partir de um lugar da Terra como se ela fosse a história natural e inevitável”, afirmou Brown, ao reconhecer o caráter limitado de sua formulação original.

Na entrevista, ela também aborda o cenário político dos Estados Unidos e afirma estar menos preocupada atualmente com a possibilidade de um golpe do governo Trump do que estava anteriormente.

Brown atribui essa mudança ao enfraquecimento da coalizão que, segundo ela, sustentava o presidente norte-americano, envolvendo setores do Partido Republicano, empresários, financistas e representantes da indústria de tecnologia.

Apesar disso, a filósofa ressalta que considera existente o risco de retrocessos democráticos.

Ela cita medidas e disputas envolvendo o direito ao voto e afirma que setores da direita norte-americana continuam desenvolvendo projetos políticos de caráter antidemocrático.

Para Brown, a eventual perda de força de Trump não significa o desaparecimento dessas ideias.

A filósofa também relaciona o debate sobre democracia à crise climática e defende uma distinção entre liberdade individual e liberdade política.

Na interpretação apresentada na entrevista, a liberdade individual precisaria ser limitada em determinados aspectos para permitir respostas coletivas às mudanças climáticas e às desigualdades.

Já a liberdade política, entendida como a capacidade de uma sociedade governar a si própria, deveria ser fortalecida.

Brown afirma que abandonar a liberdade política abriria espaço para formas de governo concentradas em tiranos, oligarquias, tecnocratas, grandes empresas de tecnologia ou mercados.

“Desistir da liberdade política simplesmente não é uma opção”, declarou.

Para a filósofa, o desafio contemporâneo seria formular uma concepção de liberdade e igualdade capaz de responder à crise do modelo liberal sem abandonar a democracia.

Ao comentar a América Latina e as eleições brasileiras, Brown reconhece não ser especialista na política do país, mas interpreta a disputa entre diferentes projetos como parte de uma crise mais ampla da democracia liberal.

Ela afirma que a permanência de mobilização política e participação eleitoral demonstra que o debate democrático ainda possui força na região.

Sobre uma eventual volta da família Bolsonaro ao poder, Brown declarou que isso representaria, em sua avaliação, um retrocesso para o Brasil, a América Latina e o planeta.

Ao mesmo tempo, ressaltou que uma eventual vitória da direita não significaria o fim das disputas políticas pela democracia.

A filósofa considera que o cenário atual também pode ser interpretado como uma demonstração da permanência do desejo de participação política, apesar das crises institucionais e sociais.

A entrevista foi concedida ao jornalista Thiago Gama.

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *