A filósofa norte-americana Wendy Brown afirma que a ascensão da extrema direita está relacionada às transformações provocadas pelo neoliberalismo e à perda de referências de solidariedade social e política.
Em entrevista ao site OutrasPalavras, Brown avalia que o neoliberalismo não produziu apenas mudanças econômicas, mas também uma nova forma de compreender a liberdade, a sociedade e o papel do indivíduo.
Segundo a filósofa, esse processo contribuiu para enfraquecer ideias como solidariedade, igualdade política e responsabilidade coletiva.
Para Brown, a transformação do cidadão em um sujeito orientado principalmente por interesses econômicos ajudou a criar condições para o avanço de movimentos autoritários.
Ela sustenta que a extrema direita pode se apresentar como resposta ao sentimento de perda de poder e de controle sobre a própria vida experimentado por parcelas da sociedade.
Na avaliação da filósofa, esse fenômeno também ajuda a explicar a admiração por líderes autoritários em diferentes países.
Brown cita como exemplos o ex-ditador chileno Augusto Pinochet e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, apontando diferenças históricas entre os dois, mas identificando uma valorização comum da autoridade, da força e da violência política.
Para ela, a exaltação desses líderes pode expressar um sentimento de perda de influência econômica e social, especialmente entre grupos que percebem mudanças nas relações de poder.
A filósofa também revisita uma das teses apresentadas em seu livro Nas ruínas do neoliberalismo e admite que sua interpretação inicial foi influenciada pela experiência histórica dos países do Norte global.
Ao analisar o caso brasileiro, Brown afirma que a sequência entre neoliberalismo, enfraquecimento do Estado social e avanço da extrema direita não pode ser tratada como uma trajetória universal.
Ela reconhece que países do Sul Global seguiram caminhos diferentes e cita Brasil, Chile, Índia, África do Sul e China como exemplos de experiências distintas.
No caso brasileiro, segundo Brown, a convergência entre políticas de mercado e valores conservadores ocorreu sem que o país tivesse construído previamente um Estado de bem-estar social semelhante ao existente em algumas nações europeias.
A filósofa afirma que essa experiência obrigou-a a rever a ideia de que haveria uma sequência histórica necessária entre neoliberalização e autoritarismo.
“Eu contava uma história a partir de um lugar da Terra como se ela fosse a história natural e inevitável”, afirmou Brown, ao reconhecer o caráter limitado de sua formulação original.
Na entrevista, ela também aborda o cenário político dos Estados Unidos e afirma estar menos preocupada atualmente com a possibilidade de um golpe do governo Trump do que estava anteriormente.
Brown atribui essa mudança ao enfraquecimento da coalizão que, segundo ela, sustentava o presidente norte-americano, envolvendo setores do Partido Republicano, empresários, financistas e representantes da indústria de tecnologia.
Apesar disso, a filósofa ressalta que considera existente o risco de retrocessos democráticos.
Ela cita medidas e disputas envolvendo o direito ao voto e afirma que setores da direita norte-americana continuam desenvolvendo projetos políticos de caráter antidemocrático.
Para Brown, a eventual perda de força de Trump não significa o desaparecimento dessas ideias.
A filósofa também relaciona o debate sobre democracia à crise climática e defende uma distinção entre liberdade individual e liberdade política.
Na interpretação apresentada na entrevista, a liberdade individual precisaria ser limitada em determinados aspectos para permitir respostas coletivas às mudanças climáticas e às desigualdades.
Já a liberdade política, entendida como a capacidade de uma sociedade governar a si própria, deveria ser fortalecida.
Brown afirma que abandonar a liberdade política abriria espaço para formas de governo concentradas em tiranos, oligarquias, tecnocratas, grandes empresas de tecnologia ou mercados.
“Desistir da liberdade política simplesmente não é uma opção”, declarou.
Para a filósofa, o desafio contemporâneo seria formular uma concepção de liberdade e igualdade capaz de responder à crise do modelo liberal sem abandonar a democracia.
Ao comentar a América Latina e as eleições brasileiras, Brown reconhece não ser especialista na política do país, mas interpreta a disputa entre diferentes projetos como parte de uma crise mais ampla da democracia liberal.
Ela afirma que a permanência de mobilização política e participação eleitoral demonstra que o debate democrático ainda possui força na região.
Sobre uma eventual volta da família Bolsonaro ao poder, Brown declarou que isso representaria, em sua avaliação, um retrocesso para o Brasil, a América Latina e o planeta.
Ao mesmo tempo, ressaltou que uma eventual vitória da direita não significaria o fim das disputas políticas pela democracia.
A filósofa considera que o cenário atual também pode ser interpretado como uma demonstração da permanência do desejo de participação política, apesar das crises institucionais e sociais.
A entrevista foi concedida ao jornalista Thiago Gama.







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