Por Dilson Ferreira*
Recentemente, li uma publicação de um corretor de imóveis de Alagoas afirmando que o mercado imobiliário depende do capitalismo, da livre iniciativa e da propriedade privada. Ele criticou colegas que votam no presidente Lula e chegou a declarar que odiava o governo do PT.
Mas, será que o mercado imobiliário depende apenas da iniciativa privada? Vamos aos fatos e aos números.
1. QUEM FINANCIA O MERCADO IMOBILIÁRIO?
Segundo a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), em 2025 o financiamento habitacional movimentou:
• R$ 137,6 bilhões com recursos do FGTS.
• R$ 156,3 bilhões com recursos da poupança (SBPE).
• R$ 293,9 bilhões no total dessas duas fontes.
Esses valores não são despesas diretas do governo. São recursos dos trabalhadores e dos poupadores, utilizados em sistemas regulados pelo Estado brasileiro.
E aqui existe uma contradição: ainda há quem defenda substituir empregos com carteira assinada por contratações mais precárias.
O FGTS é formado, principalmente, por depósitos dos empregadores em nome dos trabalhadores formais. Ou seja, proteger o emprego formal também ajuda a financiar moradias e movimentar a construção civil.
2. QUAL É O PAPEL DO MINHA CASA, MINHA VIDA?
Criado no governo Lula, em 2009, e retomado em 2023, o programa registrou, entre 2023 e 2025:
• 2,11 milhões de moradias contratadas.
• R$ 317,8 bilhões em investimentos e financiamentos contratados.
• 44% de crescimento nas contratações anuais da modalidade financiada, passando de 459,6 mil unidades em 2023 para 662,5 mil em 2025.
Em 2026, o programa passou a atender famílias com renda mensal de até R$ 13 mil.
E quem ganha com isso? Além das famílias beneficiadas, ganham bancos, construtoras, incorporadoras, imobiliárias, corretores, seguradoras, fornecedores de materiais de construção, lojas de móveis e eletrodomésticos.
Portanto, uma política habitacional criada por um governo de esquerda também fortalece a propriedade privada e movimenta toda a cadeia produtiva do mercado imobiliário.
3. E QUAL É A REALIDADE DE ALAGOAS?
Entre 2023 e 2025, o Minha Casa, Minha Vida registrou no estado:
• 36.318 moradias contratadas.
• R$ 4,6 bilhões em recursos contratados.
Empresas como MRV, Direcional, Tenda, Cury e Plano&Plano atuam nesse segmento nacionalmente.
Em Alagoas, segundo o CRECI-AL, a Telesil e a Telesil Mais possuíam, em setembro de 2026, mais de 700 unidades em construção, distribuídas em cinco canteiros de obras em Maceió, com empreendimentos financiados pelo Minha Casa, Minha Vida e pelo SBPE.
Basta visitar os shoppings de Maceió e de outras cidades brasileiras. Tornou-se comum encontrar quiosques e estandes oferecendo imóveis pelo Minha Casa, Minha Vida.
É a iniciativa privada comercializando imóveis cuja aquisição é facilitada por uma política pública federal.
4. E A CONSCIÊNCIA DE CLASSE DOS CORRETORES?
A Constituição de 1988 garante a propriedade privada, sua função social e o direito à moradia. Portanto, não existe incompatibilidade entre defender o mercado imobiliário e apoiar políticas públicas habitacionais.
Os corretores de imóveis têm consciência de classe e liberdade para fazer suas escolhas políticas. Respeitá-las é respeitar a democracia.
Parabéns aos profissionais que reconhecem a importância das políticas sociais.
Quanto ao corretor que criticou seus colegas, vale lembrar: seu próprio trabalho também depende do financiamento habitacional e das políticas públicas do Estado brasileiro, toda vez que ele vai vender um imóvel com financiamento estatal.
*Arquiteto e Urbanista, Professor Doutor da UFAL







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