Por Mácleim Carneiro*
Às vezes, as coisas têm seu tempo certo para acontecer e pôr à prova o que já havia sido pensado, sentido e avaliado. Esse é o caso de agora e da minha relação com o álbum ‘Torus’, do Divina Supernova, que, à época do lançamento, em 2015, eu não teria porque resenhá-lo, já que não existia a coluna Depois do Play. Entretanto, lembro bem que passei alguns dias com ele entre as minhas prioridades auditivas, simplesmente, porque gostei do que ouvi e porque é assim que faço com todos os álbuns que me despertam como fruidor descompromissado com a análise crítica. Portanto, ‘Torus’ é uma boa oportunidade de usar o retrovisor dessa coluna e trazer, para os que ainda não o conhece, um rápido perfil desse trabalho, que dá continuidade sonora e temática ao primeiro álbum ‘Pulsares’, lançado pelo duo em 2013.
Não tenho absoluta certeza se o duo ainda existe, mas sei que Ana Gal e Júnior Bocão são dois multi-instrumentistas que, durante um bom tempo, fizeram da união musical e de vida uma bela maneira de expressividade e contribuição para a música contemporânea, criando e assumindo a carreira do duo Divina Supernova. A dedicação de ambos a este projeto, levando-se em consideração o curto tempo de existência e os caminhos galgados, foi, sem dúvida nenhuma, bastante exitosa! Além de dois consistentes e coerentes álbuns, o Divina Supernova não perdeu tempo e foi à luta: fez turnês internacionais pela Europa, Japão e Estados Unidos, três dos mais importantes mercados para a música mundial e que muita gente, com muito mais tempo de estrada, apenas sonha com essa possibilidade. Tão somente com esse rapidíssimo painel, de forma resumida, temos o suficiente para uma noção da dimensão e capacidade musical e empreendedora desses dois artistas criativos e inquietos. Por sorte, a paulistana Ana Gal e o arapiraquense Júnior Bocão escolheram o nosso Aquário como base e laboratório para suas explosões – no sentido de uma supernova musical, claro!
Trabalho Coletivo
Na maioria dos casos, um álbum é mesmo um trabalho coletivo. No entanto, existem álbuns que vão além, saem da moldura e expandem os limites da coletividade, sobretudo, em participações especiais. ‘Torus’ é um belo exemplo de coletividade! São 18 participações especiais que, ao que parece, traçam um panorama da expansão do universo planetário e do diálogo musical alcançado pelo duo, nos diversos continentes e latitudes por onde andaram. São músicos e artistas brasileiros, norte-americanos e europeus. Uma salada de linguagens e de gêneros, que vai do Carlos Bala ao Vitor Pirralho, passando pelo trombonista escocês Ross MacCrae, mas que se torna saborosa, pelo tempero bem dosado de quem tem o caldeirão sob controle e sabe que a pitada na medida exata está nas mãos calibradas do Divina Supernova.
Como definição, a palavra torus abriga o conceito de uma energia dinâmica, como em uma superfície contínua, que flui através de uma das extremidades, circula em torno do centro e sai pela outra extremidade. Algo como o campo de energia de um ímã. Certamente, tal energia esteve presente para possibilitar a confluência de tantas participações nesse álbum, assim como quem o escuta com atenção e vai sendo atraído e cooptado das extremidades para o centro, num enredo sonoro e musical repleto de peculiaridades, que acontecem em cada uma das 11 faixas de ‘Torus’.
Impactos em Torus
No entanto, confesso que, quando da minha primeira audição, a faixa ‘Torus’ (Junior Bocão), que dá título e abre o álbum, provocou-me uma inadequação à sua sonoridade, pelo som de um elemento rítmico repetitivo e de timbre imódico, que me remeteu aos antigos carnavais, onde as crianças brincavam com martelinhos de plástico irritantes e de timbre semelhante. Mas isso é coisa de quem é oriundo de meados do século passado e tem memória auditiva ainda insistentemente atuante. Outro fato curioso dessa faixa, é a forma como ela termina. Parece algo que não foi pensado, tipo: e agora, como vamos fazer para pôr um fim? Daí a solução foi uma daquelas convenções quase no susto: pam pam pam e fim de papo! Talvez, a intenção tenha sido exatamente essa e, por isso mesmo, chamou-me tanto a atenção.
Passado esse primeiro impacto, as coisas começam a ser esclarecidas em ‘Torus’. E tudo caminha maravilhosamente bem, já a partir da faixa 2, ‘Iluminar’ (Ana Gal e Júnior Bocão), onde aparece o trombone do escocês Ross MacCrae, como elemento inesperado para uma deliciosa baladinha pop, cujo arranjo apresenta uma alternância de ritmo que gera um charme todo especial! Ao chegarmos à faixa 4, ‘Supernova’ (Ana Gal, Júnior Bocão e Vitor Pirralho), com a participação inspirada de Vitor Pirralho, temos um resultado que me fez lembrar a pegada de alguns produtores da música pop norte-americana, sobretudo, os das antigas, que escolhiam a faixa de trabalho de um disco muito mais pela timbragem, pelo resultado sonoro como um todo, do que pela qualidade melódica e literária em si. A faixa 7, ‘College Park’ (Chris Cummings), também tem essa pegada sonora, além das participações de Carlos Bala e Dinho Zampier.
Mensagens
Um pouco antes, temos a faixa 5, ‘Amaré’ (Luís Nenung e Junior Bocão), cuja intro, e depois o retorno a ela, é bastante imagética e traduz algo entre nostalgia e um certo bucolismo de um acampamento cigano, pois tem um solo de violino com um timbre bem característico para essa atmosfera. Sem dúvida, é um dos momentos mais interessantes e criativos deste álbum. E, claro, antes de chegarmos ao fim, passamos pela faixa 9, ‘Sem Refrão’ (Junior Bocão), uma evidente volta as origens morphonianas do Bocão, perceptível na estrutura melódica, na levada e no próprio Júnior Bocão assumindo o canto bem característico para um clima retrô, reforçada pelos contracantos da flauta de Ana Gal e pelo trompete meio que sintetizado do nova-iorquino Matt Giella.
Se torus, o padrão, mostra-nos como aceder a energia limpa e abundante, para expandir a nossa consciência, restaurar a saúde e o equilíbrio da vida no nosso planeta, ‘Torus’, o álbum, apresenta-nos um trabalho amadurecido, de linguagem pós-contemporânea e que nos deixa várias mensagens para reflexão. Entre elas, a que encontramos em ‘Estamiragem’ (Ana Gal): “Me trata com o teu trato, que eu devolvo o teu trato!” Em tempos de eleição, tão significativa para o futuro do povo brasileiro, eu diria: Cuida-me com o teu voto 13, que eu devolvo a certeza de que todas as garantias democráticas, constitucionais e sociais estarão preservadas!
No +, MÚSICABOAEMSUAVIDA!!!
Pulo do Gato: “Torus difere de Pulsares mas mantém a sutileza e o nosso compromisso em explorar tendências e estilos e é ainda mais pulsante que o primeiro.” (Ana Gal)
Ouça Aqui: https://music.youtube.com/watch?v=9P_9GC1HZfA
*Jornalista, cantor, compositor e escritor







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