O general Augusto Heleno, que comandou as tropas militares da missão da Organização das Nações Unidas (ONU) no Haiti, defendeu que ataques e até mortes poderiam ser necessários para recuperar a credibilidade dos soldados brasileiros no país. A posição aparece em telegramas diplomáticos enviados ao Itamaraty em outubro de 2004 e divulgados nessa terça-feira (3).
Segundo reportagem de Jamil Chade e Cleber Lourenço, publicada pelo ICL Notícias, os documentos revelam divergências entre Heleno e o general Américo Salvador de Oliveira, responsável direto pelas tropas brasileiras. Enquanto Heleno defendia uma postura mais ofensiva, Salvador demonstrava preocupação com possíveis retaliações e baixas entre os militares.
Em um dos telegramas, o então embaixador brasileiro no Haiti, Armando Vitor Boisson Cardoso, relatou que Heleno considerava insuficiente a presença militar para intimidar grupos criminosos. Na avaliação atribuída ao general, seria necessário realizar “ações concretas, ataques, apreensões de armamentos e talvez mortes para se recuperar a credibilidade da força militar”.
O documento também registra que Heleno temia que os soldados brasileiros fossem vistos como incapazes de reagir à violência. Segundo o relato diplomático, essa percepção poderia deixar o contingente “humilhado”.
Pressão dos Estados Unidos
A defesa de uma atuação mais dura também encontrava apoio do então embaixador norte-americano no Haiti, James Foley. De acordo com outro telegrama, o diplomata defendia que as tropas respondessem com mais força até mesmo diante de ameaças e boatos ainda não confirmados.
“Caso contrário, a Missão fica humilhada e perde credibilidade, o que já vem ocorrendo”, teria afirmado Foley, conforme o registro brasileiro.
A diplomacia dos Estados Unidos demonstrava preocupação com a segurança no Haiti às vésperas das eleições presidenciais norte-americanas de novembro de 2004. O governo brasileiro, por sua vez, alertava que a atuação internacional não deveria ser condicionada aos interesses eleitorais de Washington.

O general Heleno (à esquerda), comandante das operações de paz da ONU no Haiti, e José Viegas, ministro da Defesa, durante coletiva de imprensa em 8 de julho de 2004, em Porto Príncipe. Foto: AFP/Thony Belizaire
Ofensiva deixou denúncias de mortes de civis
Nove meses depois, em julho de 2005, tropas da ONU sob o comando de Heleno realizaram uma grande operação em Cité Soleil, área pobre e densamente povoada da capital haitiana. Batizada de Punho de Ferro, a ofensiva mobilizou cerca de 440 militares, veículos blindados e helicópteros.
Segundo dados atribuídos à própria missão, foram utilizados 22,7 mil cartuchos de munição, 78 granadas e cinco disparos de morteiro. A operação provocou denúncias de mortes de civis e questionamentos de organizações humanitárias sobre o impacto dos disparos em residências.
Um telegrama da Embaixada dos Estados Unidos registrou dúvidas sobre a quantidade de munição utilizada em comparação com o número de mortos reconhecido oficialmente pela missão.
“22 mil cartuchos é uma quantidade grande de munição para ter matado só seis pessoas”, apontou o documento.
Médicos Sem Fronteiras informou ter atendido dezenas de pessoas feridas durante a operação. Em audiência na Câmara dos Deputados, em novembro de 2005, Heleno negou violações deliberadas de direitos humanos pelas tropas, mas admitiu a possibilidade de civis inocentes terem morrido.
Da missão no Haiti ao governo Bolsonaro
Anos depois, Heleno tornou-se aliado do ex-presidente Jair Bolsonaro e ocupou o comando do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) entre 2019 e 2022. Ele foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a 21 anos de prisão por participação na trama golpista para impedir a continuidade do governo eleito em 2022 e cumpre pena em regime domiciliar.
O ICL Notícias também publicou, em outubro último, uma investigação sobre uma suposta articulação de Heleno para influenciar a escolha de comandantes das Forças Armadas em um eventual governo de Flávio Bolsonaro. A defesa do general negou a movimentação e classificou a reportagem como falsa. A Força Aérea Brasileira (FAB) afirmou que o comandante Marcelo Kanitz Damasceno não participou de reunião com Heleno.
Os telegramas sobre a missão no Haiti foram tornados públicos em janeiro de 2026 e integram um acervo de mais de 11 mil comunicações diplomáticas obtidas pela organização Fiquem Sabendo por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI).







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