Se você sair às ruas e perguntar a qualquer transeunte de quem é ‘Morena Tropicana’, ‘Pelas Ruas Que Andei’ ou ‘Cabelo No Pente’, de imediato terá a resposta: Alceu Valença! Sim, a resposta estará correta, porém, certamente, o nome Vicente Barreto, parceiro em todas elas, não será citado. O que me lembra de certa vez em que fui assistir a um show do Flávio Venturini e, na minha juvenil ignorância, fiquei surpreso ao saber que Espanhola era de sua autoria. A minha falta de conhecimento tinha como base a desinformação proposital do principal veículo difusor de música, à época, o rádio. São raríssimas exceções, os locutores que anunciam a autoria das canções. Nas rádios comerciais, isso nunca acontece e a justificativa, de tão absurda, chega a ser uma excrecência!
Pois bem, o fato, é que, vivemos num país de deslembranças, onde alguns compositores nascem, produzem e morrem sem serem reconhecidos pela obra que criaram. Não creio que esse seja, explicitamente, o caso do compositor Vicente Barreto, mas é fato que algumas de suas canções são creditadas muito mais aos seus intérpretes e parceiros. Toda essa digressão foi apenas um preâmbulo afirmativo, para demonstrar que compositores da linhagem de Vicente Barreto são tão importantes e significativos ao cancioneiro desse país, como a essência do que eles representam. ‘Na Força e na Fé’ é o 13º álbum de uma carreira exitosa, que posiciona Vicente Barreto de volta às origens e raízes nordestinas, legitimando o fato de que sua música é substanciosamente forte e vital, como um vicejante roçado de mandioca, que afiança alimento, sustança e vida! Esse retorno ao que lhe é cerne, certamente, passou pela afetividade ao que lhe é caro, insubstituível e importante. Daí, as parcerias escolhidas e, sobretudo, a entrega da produção e arranjos ao seu filho Rafa Barreto.
Dimensões Sensoriais
Se é fato que Vicente Barreto frequentava as feiras da pequena Serrinha, no interior baiano – assim como eu também frequentava em Murici –, para ver e vivenciar as apresentações de cantadores de embolada, violeiros repentistas e trios de forró, então, a partir de agora, terão eco as sensações indescritíveis e de puro aprendizado e deleite, compreensíveis aos que, empírica e afortunadamente, vivenciaram-nas sob toldas coloridas e o sol inclemente, que torrava o cocuruto, mas abria infinitas dimensões sensoriais, para o resto da vida e formação musical dos que tiveram a felicidade e a riqueza de uma vida interiorana!
Pois é com o xote “ajustadinho”, ‘Na Força e Na Fé’ (Vicente Barreto e Sonekka), que Vicente dá título a esse precioso álbum e abre os trabalhos falando de saudade, para fazer uma leitura do ponto de partida ao ponto de chegada. Tal leitura, parece ser autodescritiva, mas o interessante é que foi feita sob medida, pelo parceiro Sonekka, que, de cara, já sai na frente para uma possível biografia do baiano de Conceição do Coité. Como num daqueles arrasta-pé em casa de taipa e chão batido, onde a pinga de alambique é só o que tem de beber, e vai direto da goela ao fogo ardente dos possuídos, Vicente sobe um tantinho o andamento, logo na segunda pedra cantada, e traz a participação especial do mestre Mestrinho (perdoem-me a redundância) cantando e ao acordeon, com um quê da expressão saudosa do também mestre Dominguinhos. Estamos em ‘Ziguezague’ (Vicente Barreto e Zeca Baleiro), onde a letra é bem clara: “Quem tem que vagar que vague”.
Alheios ao Purismo
Zeca Baleiro também assina a parceria em ‘Êh Flor’ e ‘Saudade de te Ver, Paraíba’, sempre com letras inteligentes e algumas brincadeiras semânticas, criando boas surpresinhas. Em ‘Saudade de te Ver, Paraíba’, Baleiro protagoniza o canto com Vicente Barreto e faz uma entrada triunfante, numa sequência melódica cromática, ponto alto do xote. Dando encadeamento à prazerosa audição, vem ‘Sementes do Baião’ (Vicente Barreto e Zeh Rocha), cuja letra meio que anuncia uma rabeca no porvir: “A sanfona, a rabeca e a zabumba / A semente do baião se espalhou”. Logo em seguida, ela acontece e é Rafa Barreto rabequiando com intimidade de fazer inveja aos saudosos mestres Nelson e Salustiano.
‘Falando Sério’ (Vicente Barreto e Renato Teixeira), fala de quereres e, sonoramente, diz que é possível sons alheios ao vernaculismo do que se convencionou chamar de pé de serra, onde cabe sim guitarrinhas, samples e efeitos. Já passamos pela metade da viagem proposta por esse belo trabalho, quando a introdução do acordeon de Mestrinho, em ‘Pelas Ruas Que Andei’ (Vicente Barreto e Alceu Valença), sugere um ponto de inflexão no álbum, daquelas que valem ingresso, porém, o ritmo chega rapidinho, certamente, morrendo de inveja do poder que lhe precede. Ressalte-se a participação de Alceu Valença, que é puro respeito ao parceiro, sem se utilizar dos floreios e arroubos interpretativos facilmente encontrados em sua obra.
Influência Moura
Para todo nordestino orgulhoso e saudoso de sua origem, não há como expressar melhor a palavra saudade do que com um (aiiii) bem comprido e alongado, precedendo o substantivo feminino. Isso fica claro em ‘Ilusão Retada’ (Vicente Barreto e Chico César), cuja bela melodia tem, na terça neutra e em outros recursos da influência moura na música regional nordestina, uma dolência melódica que nos conduz até ao refrão, onde o (aiiii) é quase um aboio. Do mesmo modo que iniciou os trabalhos, o álbum finda com mais uma profícua parceria entre Vicente Barreto e Sonekka. ‘Só eu e o Sol’ meio que repensa tudo e admite que não há o que se arrepender do caminho trilhado: “Simbora pro mar, melhor deixar desses cafundó / Quem sabe por lá o amor, pra não ser mais só eu e o sol”. Vai ver que, por isso mesmo, o xote ganhou um swing especial, com direito a congas e uma guitarra um tantinho mais pesada.
Deixei para comentar sobre a capa desse belo álbum por último, pois parece uma pintura, um ato de contrição de fé, sem remissão de pecados. Certamente, é gratidão pela graça de ser quem se é: Vicente Barreto, ato contínuo dos deuses apolíneos a semear belezuras ‘Na Força e na Fé’.
No +, MÚSICABOAEMSUAVIDA!
SERVIÇO
Na Força e Na Fé, Vicente Barreto
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