Por Dilson Ferreira*
Estou, neste momento, retornando de Porto Alegre-RS para Maceió-AL e decidi, no voo longo, escrever essa reflexão sobre nossa mobilidade urbana.
Maceió encontra-se, neste momento, elaborando seu Plano de Mobilidade Urbana. Pela Lei Federal nº 12.587/2012, cidades com mais de 20 mil habitantes são obrigadas a possuir este instrumento para acessar recursos federais destinados a obras e serviços de transporte.
Entretanto, elaborar um plano não é preencher formulários: exige diagnósticos profundos, metodologia sólida e visão de futuro.
O que um plano sério precisa conter
Um Plano de Mobilidade Urbana consistente parte de pesquisas de campo e análises técnicas que descrevem com precisão como a cidade se movimenta. Os principais levantamentos incluem:
1. Pesquisa Origem-Destino (O/D)
Registra de onde partem as viagens (bairros), para onde se destinam e qual o modal utilizado. Base fundamental para entender fluxos e definir redes de transporte.
2. Pesquisa Sobe-e-Desce
Conta o número de passageiros que entram e saem dos ônibus em cada ponto e horário. Essencial para redesenhar linhas e ajustar frequência.
3. Contagem de Tráfego
Mede o fluxo de ônibus, automóveis, motocicletas, bicicletas e pedestres em diferentes horários e dias da semana.
4. Pesquisa de Velocidade e Tempo de Viagem
Avalia o desempenho do sistema viário e do transporte coletivo.
5. Pesquisas de Satisfação e Preferência
Captam a percepção da população sobre custo, conforto, confiabilidade e segurança.
6. Levantamento de Infraestrutura
Inventaria calçadas, ciclovias, pontos de ônibus, sinalização, acessibilidade e arborização urbana.
7. Simulações de Tráfego Futuro
Projetam cenários de crescimento urbano e de demanda de transporte.
O que esses dados permitem analisar
Com esse material, o plano pode diagnosticar e propor soluções para:
- Oferta e Demanda: compatibilidade entre frota, horários e necessidade da população.
- Capacidade Viária: se a malha atual suporta a carga presente e futura.
- Segurança Viária: mapeamento e tratamento de pontos críticos de acidentes.
- Integração entre Modos: ônibus, VLT, transporte hidroviário, bicicletas e deslocamentos a pé.
- Impactos Ambientais: poluição atmosférica e sonora, impermeabilização e uso do solo.
Particularidades de Maceió
O contexto local exige atenção especial para:
1. Áreas afetadas pela subsidência (caso Braskem) – reconfiguração de fluxos e acessos.
2. Revisão do Plano Diretor – integração entre uso do solo e mobilidade.
3. Ciclovias – ampliar e interligar de forma planejada, conectando bairros.
4. Integração de Terminais – uso eficiente como nos de conexão.
5. Tarifa Zero – mudança de lógica: de passageiro pagante para oferta pública de transporte.
6. Calçadas e Arborização Urbana – hoje deficientes, prejudicam pedestres, idosos e pessoas com deficiência.
7. Modais Inovadores – considerar transporte hidroviário na Lagoa Mundaú, teleféricos urbanos e bondes modernos como alternativas.
Por que é urgente fazer bem feito
Um Plano de Mobilidade completo é a única forma de garantir:
- Transporte público eficiente e competitivo.
- Ruas mais seguras.
- Mobilidade ativa (caminhar e pedalar) como parte da rede de deslocamentos.
- Integração real entre modais.
- Sustentabilidade econômica, social e ambiental.
Conclusão
A pergunta central permanece: Maceió está realizando todas as pesquisas e estudos necessários para um plano que realmente transforme a mobilidade da capital de Alagoas e Região Metropolitana de Maceió ?
Sem diagnóstico sólido, qualquer proposta será mero cumprimento burocrático. Com base técnica, será possível redesenhar a cidade para que as pessoas se movam com mais rapidez, segurança e dignidade.
Isso leva tempo e exige uma boa base de dados que Maceió não possui (apesar do plano diretor exigir e nenhum vereador sequer cobrar). Esperamos um plano de mobilidade detalhado e condizente com nossa realidade urbana.
(*) Urbanista e professor da FAU/Ufal





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