A sessão da CPMI do INSS da última quinta-feira (4) deixou claro o desconforto do relator, deputado Alfredo Gaspar (União-AL), diante de documentos e depoimentos que expõem as falcatruas envolvendo descontos associativos ilegais em aposentadorias e pensões durante o governo Jair Bolsonaro.
O embate mais tenso ocorreu quando Gaspar questionou a diretora de Auditoria da Controladoria-Geral da União (CGU), Eliane Viegas Mota, sobre a eventual comunicação de irregularidades em 2021. A resposta de Eliane, citando registros em atas do Grupo de Trabalho Interinstitucional (GTI) da Previdência, desmontou a tentativa de Gaspar: a CGU, ao lado do Ministério Público e da Defensoria Pública da União, já havia alertado sobre o problema, antes mesmo do relatório final entregue ao INSS no governo Bolsonaro.
A insistência do relator acabou reforçando um ponto incômodo: as fraudes prosperaram justamente durante a gestão bolsonarista, com total omissão do governo. Ao tentar culpar a CGU pelo tempo da investigação, Gaspar acabou expondo a inércia da gestão passada. Eliane relatou que o primeiro caso oficial de desconto irregular foi identificado em 2019, quando aposentados já perdiam R$ 604,6 milhões. Em 2024, ano do relatório consolidado da CGU, o valor dos descontos fraudulentos havia disparado para R$ 2,6 bilhões.
A auditora destacou que, em 2024, a CGU comunicou oficialmente o Ministério da Previdência e a Polícia Federal, além de adotar medidas administrativas para bloquear os descontos. Antes disso, não houve emissão de ofícios específicos — um dado que reforça a negligência do governo Bolsonaro. Atualmente, todos os descontos e os acordos de cooperação técnica (ACTs) que permitiam a prática estão suspensos pelo INSS.
Parlamentares da base destacaram a seriedade da CGU. O senador Rogério Carvalho (PT-SE) ressaltou o rigor técnico do órgão; Alencar Santana (PT-SP) lembrou que o Procon-SP já havia denunciado o problema em 2019, mas que o governo da época nada fez. Randolfe Rodrigues (PT-AP) exaltou a CGU como instituição de Estado, enquanto Leila Barros (PDT-DF) elogiou a paciência de Eliane diante das tentativas de intimidação. Até mesmo senadores de oposição, como Soraya Thronicke (Podemos-MS), criticaram a postura de colegas no tratamento dispensado aos depoentes. Soraya questionou ainda se Wagner Rosário, então ministro da CGU no governo Bolsonaro, havia tratado das auditorias do INSS. Eliane disse não se recordar de qualquer interação com o ex-ministro.
O esforço de Alfredo Gaspar em transformar a CPMI em palanque eleitoral para 2026 naufraga a cada sessão. Assim como na CPI dos Atos Golpistas, realizada em 2023, a tropa de choque bolsonarista é engolida pelas evidências. No caso do INSS, a materialidade das fraudes e o descaso do governo Bolsonaro são inescapáveis. Ao tentar blindar o ex-presidente, Gaspar só evidencia sua própria contradição: a de um relator que deveria investigar, mas prefere desviar o foco para proteger o passado que agora pesa contra ele.







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