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Direito à memória e à verdade: a força de Elza Rocha de Miranda

por | 3 dez, 2025

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Jayme e Elza Rocha de Miranda. Reprodução.

Por Geraldo de Majella*

A Secretaria de Estado de Direitos Humanos (SEDH) de Alagoas, dirigida pelo secretário Marcelo Nascimento, indicou a cabeleireira Elza Rocha de Miranda, 88 anos, viúva do advogado e jornalista Jayme Amorim de Miranda, para receber a 4ª Edição do Prêmio dos Direitos Humanos, na categoria estadual. A homenagem acontece quando se completam cinquenta anos do sequestro e assassinato de Jayme Miranda, militante comunista alagoano, ocorrido em fevereiro de 1975, no Rio de Janeiro. O evento ocorrerá das 18 às 22 horas, na OAB em Jacarecica. 

Há meio século, Elza luta para sepultar o marido. Durante décadas, foi a “viúva do quem sabe e do talvez”, expressão usada pelo ex-deputado Alencar Furtado (MDB-PR) ao se referir aos familiares de desaparecidos políticos — ele próprio cassado pela ditadura militar em 1977. Os quatro filhos do casal viveram a incerteza e a angústia; eram “filhos órfãos de pais vivos — quem sabe? Mortos talvez. Os órfãos do talvez e do quem sabe.”

Elza Rocha de Miranda é símbolo sem reivindicar essa condição, a sua figura angelical e serena representa simbolicamente todas as viúvas, mães, avós, filhas e netas dos desaparecidos, mortos sem sepultura, vítimas da violência gestada nos porões das Forças Armadas brasileiras — uma maquinaria que deixou um rastro profundo de dor, sangue e sofrimento nas famílias brasileiras.

A mulher indefesa bateu às portas dos órgãos repressivos na busca desesperada por qualquer vestígio do marido. Escreveu cartas ao general-ditador Ernesto Geisel, a ministros da Justiça, ao presidente do Congresso Nacional e à OAB. Hoje, é possível ler suas cartas no Arquivo Nacional, assim como as de seu sogro, Manoel Simplício de Miranda — ambos suplicando informações sobre o paradeiro de Jayme.

Elza atravessou tormentas e sacrifícios inimagináveis com a força que a define como uma “fortaleza serena”: alguém que não se exalta, mas que jamais abaixou a cabeça diante do mundo que desabou sobre ela e sua família. Criou os quatro filhos — Olga Tatiana, Yuri Patrice, Jayme e André — com afeto, apoio familiar e a verdade sobre quem era o pai e pelo que lutava.

Neste 4 de dezembro, o Prêmio de Direitos Humanos é o reconhecimento de uma trajetória marcada pela dignidade, pela serenidade e pela coragem de quem busca justiça. É um tributo justo e merecido a uma mulher que transformou a dor em luta por justiça, memória e verdade.

(*) Historiador e jornalista.

 

 

 

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