Em meio a rachaduras, afundamentos e insegurança diária, crianças dos Flexais transformam garrafas PET, latas e pedaços de madeira em instrumentos musicais nas oficinas do projeto Melodia Sustentável. A atividade desperta criatividade e consciência ambiental, mas expõe um paradoxo evidente: essas ações acontecem no epicentro do maior desastre socioambiental em área urbana do mundo — provocado pela Braskem, a mesma empresa que financia o Programa de Educação Ambiental que tenta, agora, dar contornos de normalidade a um território marcado pela destruição.
A realidade das crianças e de seus pais é bem diferente: as famílias vivem entre rachaduras, pisos afundando, ruas esburacadas e risco permanente. O recente acidente sofrido pela moradora Lenice Cardoso (Dona Nice) — que caiu em um buraco deixado por uma empresa terceirizada da Braskem e acabou com o braço esquerdo fraturado e um corte profundo no pé — é apenas um exemplo da negligência cotidiana. Nos Flexais, a educação ambiental acontece em meio a casas condenadas e à pressão constante pela realocação, demanda central ignorada enquanto a empresa investe em ações que funcionam como marketing para tentar apresentá-la ao público como defensora do meio ambiente.
O Projeto Integração Urbana e Desenvolvimento dos Flexais prevê 23 ações; muitas avançam no papel, mas não enfrentam o principal problema: garantir que a população possa viver em segurança. Enquanto releases publicitários tentam suavizar a crise, moradores seguem revitimizados, presos em um território marcado pelo abandono e pelo colapso da mineração. Ensinar sustentabilidade é louvável — mas soa vazio quando a própria comunidade afunda.






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