Por Dilson Ferreira*
A orla da Pajuçara precisa ser compreendida como parte da cidade dos maceioenses, e não como mercadoria ou produto turístico e imobiliário.
A orla da Pajuçara é infraestrutura urbana pública: integra o sistema de mobilidade, é espaço de trabalho, de esporte, de lazer e de convivência cotidiana. Quando o planejamento urbano passa a tratar a orla apenas como vitrine turística, rompe-se a lógica do espaço público e abre-se caminho para processos claros de exclusão, gentrificação e privatização indireta da cidade.
Do ponto de vista urbanístico, a Pajuçara é uma área historicamente planejada. Sua urbanização estruturante ocorreu na década de 1970, durante a gestão do prefeito João Sampaio, com inauguração por volta de 1975, seguindo a lógica de grandes intervenções urbanas do período, como o Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro. O projeto original incluiu bolsões de estacionamento fora da pista de rolamento, justamente para garantir fluidez viária, segurança, ordenamento e acesso democrático à orla.
Esses bolsões cumprem função clara no desenho urbano: retirar veículos da via principal, reduzir conflitos entre pedestres, ciclistas e automóveis e permitir acesso controlado à praia. A retirada do estacionamento ao longo da pista pode ser debatida sob o ponto de vista da fluidez do tráfego. Já a eliminação dos bolsões de vagas planejadas descaracteriza o projeto original da orla, compromete a lógica funcional da orla e não oferece alternativas de mobilidade para suprir essas vagas. Retirar infraestrutura sem substituí-la por novos modais é um ato de antiurbanismo e falta de preparo imenso nas decisões urbanas que impactam os cidadãos de uma cidade.
É verdade que cidades como Paris têm reduzido vagas e retirado carros de áreas centrais. No entanto, essas medidas são acompanhadas de muito planejamento, debate público, ampliação do transporte coletivo, novos modais, redesenho do uso do solo, arborização e integração urbana. Além disso, fazem parte de estratégias de adaptação às mudanças climáticas. Nada disso ocorre em Maceió.
A Pajuçara não pode ser analisada sob uma ótica viária imediatista. Trata-se de um espaço de uso cotidiano intenso de todo o estado e da capital, especialmente nas primeiras horas do dia, quando é utilizada por praticantes de esportes náuticos como canoagem, stand-up paddle, caiaque, mergulho, windsurf, kitesurf e vela, além de atividades esportivas nas quadras e treinos ao ar livre.
Esses usuários necessitam de acesso direto à orla e, muitas vezes, de estacionamento próximo para o transporte de equipamentos volumosos. Os bolsões existentes cumpriram essa função por décadas. Agora todos estão prejudicados por decisão unilateral do poder público.
A orla também é local de trabalho diário. Trabalhadores ligados aos esportes náuticos, às barracas, ao comércio, aos serviços e ao abastecimento utilizam esse espaço continuamente. A própria Feirinha da Pajuçara foi implantada junto a uma área originalmente destinada a estacionamento, evidenciando que essas vagas sempre fizeram parte da lógica urbana do local. Ao longo de toda a orla, até a Jatiúca e Cruz das Almas, existiam centenas e centenas de vagas.
Há ainda um aspecto central frequentemente negligenciado: a acessibilidade urbana. A retirada indiscriminada de vagas impacta diretamente idosos, pessoas com mobilidade reduzida, pessoas com deficiência, gestantes, pessoas em reabilitação e famílias com crianças pequenas. Para esses grupos, o acesso à praia depende de parada próxima, segura e previsível. Quando se tiram vagas e não se dá uma alternativa de uma nova acessibilidade compatível a que foi retirada (no caso as vagas), comete-se uma exclusão de acesso à cidade. Isso é antiurbano.
O espaço público deve obedecer aos princípios do desenho universal, garantindo condições reais de uso para todos, seja por vagas acessíveis, seja por outros modais compatíveis com o uso da orla, ou seja a acessibilidade compatível aos diversos tipos de usuários e usos deve ser igual ou melhor do que a mobilidade que foi suprimida.
Esse debate também envolve pessoas autistas e neurodivergentes, que utilizam a praia em horários específicos, buscam ambientes menos ruidosos e necessitam de acessos organizados, com menor sobrecarga sensorial. Dificultar o acesso físico à orla é, na prática, restringir o direito dessas pessoas ao lazer, ao convívio e à cidade.
O problema que se consolidou ao longo do tempo não foi a existência dos bolsões de estacionamento, mas a ausência de gestão, ordenamento e fiscalização da prefeitura. Veículos passaram a ocupar vagas de forma permanente, hotéis, turismo, trailers e ambulantes se apropriaram do espaço desde cedo, flanelinhas passaram a cobrar por vagas públicas, houve registros de roubos e furtos e privatização informal das áreas. Tudo isso é resultado direto da omissão do poder público.
A resposta urbanística correta não é eliminar infraestrutura planejada, mas regular o uso, estabelecer critérios claros, horários, rotatividade, setorização, uso de tecnologia viária e fiscalização permanente. O turismo tem direito à cidade, mas não pode ter exclusividade sobre o espaço público. Pode-se criar bolsões específicos para ônibus vans e veículos de turismo, mas o espaço urbano deve atender à multiplicidade de usos que caracteriza a vida urbana e o cidadão não pode ser excluído. Isso é negar o direito à cidade a0 maceioense.
Destinar vagas exclusivamente a um setor econômico configura privatização indireta do espaço público e fere o princípio da função social da cidade.
Esse processo é conhecido: primeiro restringe-se o uso, depois priorizam-se interesses específicos e, por fim, abrem-se concessões privadas em áreas que deveriam permanecer públicas. A instalação da roda-gigante em área de praça é um exemplo concreto desse tipo de apropriação, travestida de “concessão”.
A orla da Pajuçara não é apenas paisagem turística. É cidade viva, infraestrutura urbana, espaço de mobilidade, de esporte, de trabalho, de inclusão e de convivência.
Defender a função pública da orla não é ser contra o turismo, mas defender uma cidade mais justa, acessível, democrática e tecnicamente planejada. É ter uma cidade realmente para todos na prática e não no discurso político e do marketing das redes sociais.
Retiram-se estacionamentos planejados desde a década de 1970 sem ampliar a mobilidade, sem debate público, sem escuta social, sem estudos urbanísticos e sem alternativas. Tudo isso em uma cidade há mais de dez anos sem Plano Diretor atualizado e sem Plano de Mobilidade. Como os órgãos de controle aceitam esse processo? Como os profissionais do planejamento se mantêm em silêncio diante de tamanha desestruturação urbana sem apresentar alternativas, que ampliem a mobilidade com a retirada destas vaga?
Até agora, poucos enfrentam publicamente esse debate sobre mobilidade da orla e de toda Maceió, inclusive de bairros populares.
O que a prefeitura quer fazer na orla? fechar em um grande parque para o turismo? tirar o trânsito e transformar em um Boulevard? jogando o caos de estacionamento e trânsito, para as demais quadras? sem fazer um planejamento urbanístico integrado dos bairros da orla?
Quem viver verá, o resultado de transformar nossa orla em produto travestido de planejamento urbano. Isso é retirar o direito de todos os maceioense ao único lugar democrático que ainda une as pessoas: a orla, o mar e a praia.
Carlinhos Moura, autor da música “Minha Sereia” que eternizou a orla da Pajuçara, deve tá muito triste! Em ver sua inspiração virar apenas uma mercadoria turística e imobiliária, sem mobilidade e sem árvores que uniam famílias nas sombras das copas frondosas dessa linda baía azulada.
*É arquiteto urbanista e professor da Ufal









Toda vez que vejo matéria sobre a orla-Lego da Ponta Verde, sempre penso no que estaria fazendo agora o Leão. Ele, nos anos 80’s era o dono da única barraquinha, improvisada, que vendia bebidas e refrigerantes gelados, bem defronte ao Hotel Ponta Verde. Totalmente familiarizado com os frequentadores daquela praia, tratava as pessoas de igual para igual. Se não fosse as condições de “comerciante” e “cliente” seria como um da tchurma. Com a tal “urbanização”, o povo branco do João Sampaio, então Prefeito, ganhou o privilégio de ficar com um Ponto na nova..”orla”. Leão foi preterido, esquecido, embora tivesse tentado, preferisse e necessitasse ficar. Tentado sozinho, pois, claro que a maioria dos frequentadores dali, composta já de mauricinhos e patricinhas , não teria- nem teve a preocupação nem interesse em exigir a permanência do Leão no local nobre e agora chique, sendo ele um popular, desempregado, semianalfabeto, de cabelos e barba desleixados. Maceió já era pasto de bezerros que, mais tarde, se desenvolveriam e virariam gado. 🤮🤮🤮