
Foto: Shoko Takayasu
A indústria de tecnologia consolidou-se como um dos centros de poder mais influentes do mundo, e a inteligência artificial tornou-se sua principal ferramenta de expansão. Essa é a tese central do livro Império de IA, da jornalista sino-americana Karen Hao, que analisa a trajetória e a atuação da OpenAI sob a metáfora de um novo império global.
Em entrevista concedida ao Centro Latinoamericano de Investigación Periodística, no âmbito do projeto A Mão Invisível das Big Techs, desenvolvido em parceria com a Agência Pública, Hao explicou por que compara empresas de IA a impérios históricos.
Segundo a autora, a analogia começou a ganhar forma a partir de estudos acadêmicos lidos entre 2018 e 2019, quando pesquisadores já identificavam semelhanças entre a indústria de IA e antigas estruturas imperiais. “Com o tempo, essa metáfora se tornou a única capaz de explicar a influência que essas empresas exercem hoje”, afirmou.
No livro, Hao aponta quatro pilares desse “imperialismo tecnológico”. O primeiro é a apropriação de recursos que não pertencem às empresas, como dados pessoais e obras protegidas por direitos autorais, usados para treinar modelos de IA. O segundo é a exploração de mão de obra barata, espalhada por diferentes países, responsável por tarefas essenciais, mas pouco valorizadas.
O terceiro pilar, segundo a jornalista, é o monopólio da produção de conhecimento. Ela destaca que grande parte da pesquisa em IA é financiada pelas próprias empresas do setor, o que limita visões críticas sobre riscos e limites da tecnologia. O quarto elemento é a narrativa moral: as big techs se apresentam como agentes do progresso, prometendo um futuro de abundância e soluções para todos os problemas da humanidade.
Embora o foco do livro seja a OpenAI, Hao ressalta que essas práticas não são exclusivas da empresa. “Ela definiu a era atual da IA, mas hoje todas as grandes companhias de tecnologia seguem o mesmo caminho”, avaliou.
A América Latina ocupa um lugar central nessa análise. Para Hao, a região é alvo recorrente dessas empresas por sua histórica vulnerabilidade ao extrativismo. Ela cita o caso de trabalhadores venezuelanos que, em meio à crise econômica, passaram a atuar na anotação de dados para sistemas de IA, recebendo baixos salários. “A indústria aprendeu a buscar a precariedade como modelo de negócio”, disse.
Esse padrão, segundo a autora, explica o crescimento acelerado das big techs. “Elas não distribuem o valor que extraem. Não pagam adequadamente pelo trabalho nem pelos recursos que utilizam”, afirmou.
Apesar do diagnóstico crítico, Hao vê espaço para reação. Ela destaca mobilizações comunitárias no Chile e no Uruguai contra a instalação de data centers sem contrapartidas locais. “As pessoas podem reagir, independentemente de onde vivam ou do trabalho que façam”, defendeu.
O livro tem provocado reações diversas no setor de tecnologia. Parte da indústria considera a obra precisa; outra a acusa de atacar a inovação. Dentro da OpenAI, segundo Hao, há reconhecimento da relevância histórica do relato, embora haja discordância quanto à comparação com impérios.
A jornalista também critica a capacidade de líderes do setor, como Sam Altman, de influenciar governos. Para ela, a promessa de um futuro ideal baseado na chamada inteligência artificial geral (AGI) tem levado Estados a relaxar regulações e a serem “capturados” pela indústria.
Como resposta, Hao defende mais transparência, exigindo informações sobre dados usados, consumo de energia e água e localização de data centers. Também cobra investimento público em pesquisa independente para equilibrar o debate.
Para a autora, o jornalismo investigativo tem papel central nesse processo. “É uma das principais ferramentas para quebrar o poder desses impérios”, afirmou.
Ao final, Hao propõe caminhos alternativos, com modelos menores de IA, desenvolvidos localmente e com consentimento das comunidades. “A tecnologia pode ser útil sem ser exploratória. O futuro não precisa ser controlado por poucos”, concluiu.




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