
Grota do arroz
Por Dilson Ferreira*
A drenagem urbana, o relevo e as grotas explicam por que os alagamentos são um problema estrutural.
A cada chuva acontece sempre a mesma coisa: políticos com coletes da Defesa Civil, capas de chuva amarelas e capacetes brancos, apontando para um painel eletrônico com mapeamentos de áreas de risco e alagamentos.
Suas falas se resumem a culpar a população, sempre alegando que as pessoas, especialmente as mais pobres, jogam lixo nas ruas e, por isso, a cidade alaga. Um discurso fácil de ser dito e que joga a população contra si mesma.
Pela lógica desse discurso, então, se áreas periféricas da cidade alagam, supostamente por causa de lixo descartado nas ruas, qual é a explicação para áreas com limpeza urbana exemplar, como bairros de Ponta Verde, Jatiúca, Pajuçara e Cruz das Almas também alagarem muito, as vezes até mais que bairros populares? Este artigo é sobre desmistificar esse discurso de que o alagamento é culpa do lixo e da chuva.
Os alagamentos recorrentes em Maceió seguem sendo atribuídos, geralmente, à intensidade das chuvas ou ao descarte inadequado de resíduos por parte da população. Esse diagnóstico é tecnicamente incorreto. A cidade não enfrenta um problema climático severo ainda, mas um problema estrutural de drenagem urbana, resultante de decisões de ocupação do território, de alterações profundas no relevo natural de Maceió e da ausência de planejamento integrado há décadas.
A chuva apenas revela um sistema urbano que foi artificialmente modificado de forma predatória, ao longo do tempo e que não priorizou a dinâmica hídrica e pluvial da cidade.
O relevo de Maceió não é acidental
Para compreender os alagamentos, é necessário compreender o relevo. De uma forma geral, a parte alta de Maceió está assentada sobre os tabuleiros costeiros, sustentados por sedimentos da Formação Barreiras, compostos predominantemente por materiais arenosos e argilosos.
Esses tabuleiros formam superfícies relativamente planas que, ao longo de milhares de anos, foram dissecadas pela ação da água. Em alguns pontos existem bacias nos tabuleiros que acumulam água (exemplo: Cepa e Cidade Universitária). São as chamadas bacias endorréicas.
Como as grotas foram formadas?
As grotas de Maceió são vales naturais entalhados e encravadas nesses tabuleiros pela imensa drenagem superficial que escorre da parte alta. A água da chuva, escoando continuamente das áreas mais elevadas em direção às áreas mais baixas, foi abrindo vales, ravinas e sulcos no solo, aprofundando canais e promovendo erosão que, em determinado momento, foi estabilizada e, ao longo do tempo, recoberta por vegetação nativa de mata atlântica.
Esse processo natural criou uma rede de grotas que conduzem as águas para o litoral e para o sistema do CELMM — Complexo Estuarino-Lagunar Mundaú-Manguaba. A cidade toda tem essa formação, especialmente o trecho norte e nordeste de Maceió.
As grotas são parte estrutural do sistema ambiental e de drenagem pluvial da cidade, além de constituírem um importante sistema de recarga de aquíferos e riachos que abastecem Maceió.
Toda a drenagem da cidade, por meio das grotas, foi moldada para conduzir a água dos tabuleiros até os níveis mais baixos da orla lagunar e litorânea, em um processo lento, difuso e equilibrado, até que chegamos à configuração geográfica atual.
Quando a cidade rompe a lógica geomorfológica e ambiental
O problema surge quando a urbanização ignora essa lógica de drenagem natural pelas grotas e muda tudo. Ao desmontar morros para construir edifícios, aterrar grotas, impermeabilizar extensas áreas e concentrar artificialmente o escoamento das águas da chuva, a cidade altera um sistema que funcionava de forma distribuída e equilibrada.
A água deixa de infiltrar, deixa de se espalhar e retardar sua velocidade, passando a ser acelerada e direcionada para poucos pontos disponíveis, geralmente mais baixos. É daí que surgem os alagamentos nas partes baixas.
A Avenida Josefa de Melo como marco da ruptura da drenagem urbana
A implantação da Avenida Josefa de Melo, em 2014, representa um ponto de inflexão nesse processo. Para viabilizar a obra e empreendimentos como shoppings e diversos condomínios de luxo, houve desmonte de morros existentes e aterramento de grotas que funcionavam como canais naturais de drenagem.

Área do parque shopping em 2010
Algumas grotas foram aterradas para criar novos terrenos artificialmente (o que é ilegal ambientamente), hoje vendidos por milhões. Trata-se de uma sequência de crimes ambientais, considerando que o bioma local é de Mata Atlântica e de alta sensibilidade ambiental.
Nesse processo, o relevo foi reconfigurado artificialmente e a drenagem passou a ser concentrada nas grotas remanescentes, ampliando drasticamente as vazões incidentes sobre grotas densamente ocupadas. As populações que nela vivem, como a Grota do Arroz e a Grota do Rafael, por exemplo, além de outras que integram o sistema de grotas dos bairros do Sítio São Jorge, Feitosa e Jacintinho, passaram a receber essas drenagens.

Parque Shopping 2024
Impermeabilização e aceleração das vazões
Esse processo se intensificou com a inauguração do Parque Shopping Maceió e com a implantação de grandes condomínios residenciais na região do Sítio São Jorge. Superfícies antes permeáveis e com vegetação foram completamente impermeabilizadas.
Com isso, a infiltração foi reduzida e o escoamento superficial passou a ocorrer de forma rápida e concentrada. Isso aumentou o volume, a velocidade e a intensidade das águas lançadas nessas grotas e principalmente na Avenida Gustavo Paiva e Josefa de Melo. Não por acaso, os alagamentos nessas comunidades das grotas vêm se tornando cada vez mais frequentes e intensos.

Parque Shopping hoje
Ausência de estudos cumulativos e falha de planejamento
A drenagem desses empreendimentos, especialmente na borda do Parque Shopping, passou a ser lançada diretamente nas grotas. Sem avaliações públicas mais rigorosas que analisem a capacidade hidráulica dessas áreas diante do novo volume de água, gerado pela impermeabilização maciça e pelo desmonte de morros, não podemos prever cenários de risco nessas regiões.
As obras, ao que parece, são analisadas de forma isolada pelos órgãos públicos, ignorando o efeito cumulativo das intervenções sobre o sistema urbano de drenagem da região. Essa fragmentação do planejamento é um dos principais fatores de agravamento dos alagamentos em Maceió, pois não se analisa o sistema de drenagem como um todo.
Transferência de risco como política urbana
O impacto dessas decisões recai sobre as populações que vivem nas áreas mais frágeis da cidade, geralmente nas grotas e vales. Os alagamentos tornaram-se mais frequentes, mais rápidos e mais severos. Não se trata de acaso, mas de transferência de risco para a população.
Isso acontece por causa dos grandes empreendimentos que destroem morros e alteram o regime natural de drenagem, concentrando vazões elevadas sobre áreas ocupadas por populações que estão vulneráveis em morros e fundo de vales. Os impactos ambientais são empurrados para estes territórios que já operam no limite de sua capacidade de absorção hídrica.
Além disso, a impermeabilização nas grotas é, muitas vezes, patrocinada pelo próprio poder público, que concreta e impermeabiliza fundos de vale, encostas e comunidades com asfalto, canalizações rígidas, vias implantadas em áreas naturalmente alagáveis e cortinas atirantadas de concreto e aço em encostas.

Grota do Rafael
Tudo isso amplia os alagamentos pois não trabalha a absorção e desaceleração da água. E isso acontece em muitas áreas, com especial destaque no vale do Reginaldo que possui 27km² drenando mais de uma dezena de bairros da capital.
A solução deveria ser a ampliação de áreas verdes, a naturalização de riachos e a proteção de encostas com tecnologias ambientais e resilientes, além de um sistema de bacias e lagos de amortecimento, visando reduzir os picos de vazão, ampliar a absorção e desacelerar a água. Infelizmente estamos fazendo o contrário e ainda comemoramos como se fossem grandes feitos urbanísticos.
Um padrão que se repete
Esse padrão não se restringe a uma única região de Maceió. A duplicação da Avenida Fernandes Lima e da Via Expressa (BR-316, Avenida Menino Marcelo), bem como a implantação da Via Verde, no bairro do Antares, também alteraram o escoamento natural das águas, ampliando vazões direcionadas para grotas como a do Poço Azul, entre os bairros Antares e Santa Lúcia.
Obras pontuais e novos empreendimentos, continuam transferindo riscos e problemas de alagamentos, para populações dessas regiões, sem mecanismos efetivos de mitigação de impactos ambientais.
Erosão, ravinamento e voçorocas não são fenômenos naturais apenas
As consequências já são visíveis. Processos erosivos, ravinas e voçorocas surgiram ou se intensificaram em áreas como Santa Amélia e Ladeira do Catolé.
Esses fenômenos são típicos de ambientes onde a água é concentrada artificialmente sobre solos areno-argilosos da Formação Barreiras, incapazes de suportar vazões elevadas.
Não são eventos naturais. São falhas de drenagem urbana dessa região. São processos gerados por uma infraestrutura que desconsidera impactos ambientais cumulativos.

Voçoroca Santa Amélia em 2009
Uma voçoroca como a constatada em Santa Amélia representa um problema ambiental de grandes proporções, que vem sendo negligenciado ao longo de anos. O risco ali é enorme, no Catolé também.
Responsabilidade técnica e legal do poder público
A drenagem urbana é atribuição do município. Cabe ao poder público planejar, exigir estudos integrados, fiscalizar empreendimentos e impedir que soluções pontuais transfiram riscos entre territórios e populações das grotas e encostas.

Voçoroca Santa Amélia 2025
Persistir no discurso de que o problema é apenas a chuva ou o lixo é negar a realidade técnica e ambiental da nossa geografia. É distorcer o debate público e normalizar o caos, culpando a vítima.
Planejar drenagem é planejar a cidade
Maceió precisa, com urgência, de um mapa de risco de drenagem urbana, um plano de mudanças climáticas e de drenagem urbana, que considere relevo, solos, vazões e todas as intervenções já implantadas e previstas, visando corrigir estes erros.
Planejar drenagem não é resolver pontos isolados após cada chuva. É compreender a cidade como um sistema integrado, onde geologia, geomorfologia, hidrologia, ocupação do solo e infraestrutura precisam dialogar e serem integrados.
As grotas de Maceió foram formadas pela ação da água ao longo de milhares de anos, e as chuvas continuam seguindo essa rede natural de drenagem.
Quando a cidade e seus gestores ignoram essa lógica e culpam o povo por algo que é responsabilidade do próprio poder público, o desastre não é da chuva nem do lixo. O desastre é de gestão urbana e da omissão política e técnica.
É de ausência de planejamento mínimo.
*Urbanista, Prof. Dr. da FAU/UFAL




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