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Alagoas é mundialmente conhecida por ser o berço de Marta Vieira da Silva, eleita seis vezes a melhor jogadora do mundo pela FIFA. O título simbólico de “terra da Rainha Marta” projeta o estado no cenário internacional do futebol feminino. Mas, longe da consagração da craque alagoana, a realidade enfrentada por atletas locais revela um contraste marcante.
Reportagem do Olhos Jornalismo aponta que jogadoras alagoanas ainda convivem com obstáculos básicos para treinar e competir. Falta de estrutura, calendário reduzido e desigualdade de investimentos fazem parte da rotina de quem tenta construir carreira no futebol feminino no estado.
Há relatos de partidas disputadas sob sol intenso, equipes sem acesso a água durante os jogos e uma agenda esportiva que se resume praticamente a um único grande campeonato por ano. O cenário expõe a distância entre o símbolo global representado por Marta e as condições enfrentadas pelas atletas que seguem tentando manter viva a modalidade em Alagoas.
Hegemonia esportiva em meio a limitações
Mesmo o principal clube do estado na modalidade convive com dificuldades estruturais. A União Desportiva Alagoana (UDA), fundada em 2010 em Maceió, domina o Campeonato Alagoano de Futebol Feminino. O clube conquistou 12 das 14 edições da competição e levantou a taça mais recentemente em outubro de 2025, após vencer o Guarani de Paripueira nos pênaltis, no Estádio Rei Pelé.
Apesar da hegemonia dentro de campo, a estrutura fora dele ainda está distante do ideal.
Dados obtidos pelo Olhos Jornalismo por meio da Lei de Acesso à Informação revelam uma diferença significativa no repasse de recursos públicos. Entre 2021 e 2024, os investimentos destinados aos principais clubes masculinos — CRB, CSA e ASA — superaram em larga escala os valores direcionados ao futebol feminino.
Segundo o levantamento, considerando a média de investimentos em CRB e CSA em comparação com a UDA, o futebol masculino recebeu cerca de 13,5 vezes mais recursos no período analisado. Em 2024, por exemplo, cada um dos dois clubes masculinos recebeu aproximadamente R$ 2 milhões, enquanto a UDA contou com R$ 250 mil.

UDA venceu o Campeonato Alagoano de Futebol Feminino de 2025 (Foto: Ascom UDA)
Histórias que revelam o cotidiano da modalidade
A trajetória das atletas ajuda a dimensionar os desafios. A jogadora Jéssica Cesar Monteiro da Silva, de 33 anos, que atua na UDA, começou a jogar ainda criança nas ruas do bairro. Ao longo da carreira, passou por clubes como ECA, Cesmac e CRB, além de experiências em equipes de outros estados e até no exterior.
Mesmo com uma carreira consolidada, ela afirma que muitas jogadoras ainda precisam conciliar o futebol com outros trabalhos para garantir renda.
“Até aqui mesmo em Alagoas, a maioria das meninas precisa trabalhar para conciliar. É difícil viver só do futebol hoje”, afirma.

Durante partida de futebol, Jéssica Cesar, 33, atleta do União Desportiva Alagoana (Foto: Arquivo Pessoal)
Promessas surgem apesar das dificuldades
Entre as novas gerações, o sonho continua vivo. Déborah Pereira Tenório, de apenas 14 anos, já atua no time sub-15 e também participa de partidas no elenco profissional da UDA.
A jovem começou a se interessar pelo esporte ao acompanhar o pai. Aos nove anos, pediu para entrar em uma escolinha de futebol. O padrinho também incentivou o início da trajetória.
“Quando eu era pequena, ele me levava para a quadra do condomínio para brincar de jogar bola”, relembra.
Déborah passou por escolinhas como Primeira Camisa e Arabia e por clubes como Atlético Alagoano antes de chegar à UDA. Mesmo tão jovem, já enfrentou situações que revelam o preconceito ainda presente na modalidade.
“Muitas vezes, quando jogamos contra meninos ou no mesmo time, alguns pais fazem comentários tentando diminuir as meninas. Mas a gente responde dentro de campo”, conta.
Ela também lembra de dificuldades estruturais enfrentadas durante competições.
“No Campeonato Alagoano de 2024 tivemos jogos entre 11h e 12h, no sol forte, e o clube não tinha estrutura. Durante a partida nem água tínhamos para beber”, relata.

Déborah Tenório, 14 (Foto: Arquivo Pessoal)
Talento existe, mas estrutura ainda é limitada
O técnico da UDA, Bruno Barbosa, acredita que Alagoas possui talentos capazes de alcançar destaque nacional. Um exemplo é a jovem Ana Lays, revelada pelo clube e convocada para a seleção brasileira sub-17.
Mesmo assim, ele ressalta que o desenvolvimento da modalidade depende de investimentos mais amplos.
“Acredito que falta apoio de empresas e do poder público para tornar viável financeiramente o investimento dos clubes no futebol feminino”, afirma.
Segundo ele, muitas atletas não contam com acompanhamento fixo nas áreas escolar, psicológica ou nutricional, serviços que dependem de demandas pontuais.
Um sonho que muitas vezes exige sair do estado
Para o treinador, a estrutura atual não permite que a maioria das jogadoras viva exclusivamente do esporte em Alagoas.
“Hoje, quem quer viver do futebol precisa buscar oportunidades em grandes centros, como São Paulo ou Rio Grande do Sul. Aqui temos poucas competições e os clubes não conseguem manter salários durante o ano inteiro”, explica.
Outro treinador da UDA, Alder Barbosa, reforça que as mudanças precisam ocorrer principalmente no calendário e no incentivo institucional.
“O futebol feminino não cresce com um calendário curto que começa tarde e termina cedo. As atletas ficam meses sem competição”, afirma.

Bruno Barbosa, treinador da UDA (Foto: Arquivo Pessoal)
A ausência de equipes femininas em clubes tradicionais
Entre os principais clubes masculinos de Alagoas, apenas o CRB mantém equipe feminina. O CSA ainda não possui time na modalidade e o ASA informou ter planos para criar uma equipe no futuro, mas sem prazo definido.
Uma história marcada por interrupções

Aira Bonfim (Foto: Arquivo Pessoal)
As dificuldades do futebol feminino no Brasil também têm raízes históricas. A historiadora Aira Bonfim lembra que, em 1941, o Decreto-Lei nº 3.199 proibiu mulheres de praticarem esportes considerados incompatíveis com sua “natureza”, o que na prática incluiu o futebol.
A medida, durante o governo de Getúlio Vargas, interrompeu por décadas o desenvolvimento da modalidade no país.
Segundo a pesquisadora, essa proibição teve impactos duradouros.
“Esse decreto interrompeu um processo que já existia e contribuiu para ampliar desigualdades no acesso das mulheres ao esporte”, explica.
Violência e preconceito também fora das quatro linhas
O ambiente do futebol ainda apresenta barreiras para mulheres que atuam em outras áreas da modalidade. A pesquisadora e jornalista Lídia Ramires, primeira mulher a trabalhar no rádio esportivo em Alagoas, relata ter enfrentado episódios de misoginia no ambiente profissional.
Ela também participou de estudos sobre o movimento #DeixaElaTrabalhar, que denuncia casos de assédio contra mulheres no jornalismo esportivo.
Segundo Ramires, a realidade mudou pouco ao longo dos anos.
“O ambiente ainda é de muita violência simbólica e assédio para mulheres que trabalham no futebol”, afirma.
Um futuro ainda em disputa

Lídia Ramires (Foto: Divulgação)
Mesmo diante das dificuldades, atletas, treinadores e profissionais envolvidos com o esporte continuam apostando no crescimento da modalidade.
A esperança, segundo eles, está no fortalecimento de parcerias entre clubes, federação, poder público e iniciativa privada para ampliar investimentos e criar um calendário mais robusto.
Enquanto isso, em campos espalhados pelo estado, meninas seguem correndo atrás da bola — e também do reconhecimento que o futebol feminino ainda busca conquistar em Alagoas.






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