Milhões de reais destinados ao desenvolvimento de municípios acabaram cercados por suspeitas de favorecimento político, desvios e abandono de obras essenciais. Enquanto investigações avançam em Pernambuco, é em Alagoas que um dos casos mais emblemáticos da distribuição de emendas parlamentares ganha dimensão nacional, colocando Rio Largo no centro de um esquema que envolve a Polícia Federal, o Supremo Tribunal Federal (STF) e o ex-presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira.
A reportagem é baseada em investigação da jornalista Heloísa Vilella para o ICL Notícias, que percorreu cidades dos dois estados e reuniu documentos, depoimentos e entrevistas com autoridades responsáveis pelas apurações.
Em Rio Largo, reduto político de Arthur Lira, a Polícia Federal apontou que o município foi beneficiado de forma desproporcional durante o período em que o deputado presidiu a Câmara. Segundo a investigação, a cidade recebeu recursos até de comissões parlamentares sem representantes de Alagoas, numa distribuição considerada atípica pelos investigadores.
O caso levou a PF a cumprir mandado de busca e apreensão contra Mariângela Fialek, ex-assessora de Arthur Lira, apontada como uma das responsáveis pelo gerenciamento das emendas parlamentares. Mesmo proibida pelo STF de atuar nessa área, uma denúncia encaminhada ao ministro Flávio Dino afirma que ela voltou a exercer funções relacionadas à distribuição dos recursos no gabinete do primeiro vice-presidente da Câmara.
A investigação também ouviu cinco deputados federais, um senador e uma servidora do Legislativo, que relataram o tratamento privilegiado dado a Rio Largo na destinação das verbas.
O contraste aparece nas ruas da cidade. No bairro Vila Rica, uma enorme cratera aberta para uma obra de saneamento permanece abandonada há quatro anos. As manilhas foram tomadas pelo mato, as chuvas ampliam o buraco e os moradores convivem diariamente com terra acumulada nas portas das casas, dificuldades de acesso e ausência de infraestrutura básica.
O cenário reforça a principal pergunta levantada pelas investigações: para onde foi o dinheiro?
A centenas de quilômetros dali, em Ipojuca, Pernambuco, outro capítulo do escândalo expõe como o desvio de emendas pode ultrapassar a esfera da corrupção e alcançar a violência.

Localizada no litoral sul de Pernambuco, Ipojuca é considerada uma das cidades mais ricas do estado. O município lucra com o turismo de Porto de Galinhas, com o Complexo Portuário de Suape e com a refinaria Abreu e Lima. No entanto, a população parece não saber para onde vão esses recursos. Foto: reprodução/Orçamento Secreto
As investigações do Ministério Público de Pernambuco levaram à prisão do então presidente da Câmara Municipal, Flávio do Cartório, do vice-presidente Professor Eduardo e do vereador Júlio Marinho. O Gaeco identificou uma rede de associações sem fins lucrativos que recebia milhões em emendas parlamentares.
Segundo os investigadores, o esquema funcionava de forma quase explícita.
“Em depoimento de algumas testemunhas que faziam parte dessas associações já foi aventada a divisão. Oitenta por cento retornam e 20% vão”, afirmou o coordenador do Gaeco, Roberto Brayner.
A promotora Katarina Gouveia esclareceu como funcionava a divisão do dinheiro.
“Não. Ao contrário. Oitenta por cento voltam para o secretário ou para alguém ligado à gestão, ao vereador. E 20% efetivamente são destinados para executar o projeto.”
Enquanto milhões circulavam entre associações investigadas, moradores conviviam com a falta de saneamento. Em Camela, um dos bairros mais pobres de Ipojuca, o esgoto corre a céu aberto.
“A Prefeitura devia investir pro povo! Não pro próprio bolso, que é o que muitos fazem”, criticou o morador João Bosco.
Outro morador resumiu a indignação ao apontar uma obra recém-concluída: “Olha a merda que fizeram aí. Tá tudo rachado e não tem nem dois meses.”
As investigações em Pernambuco ganharam contornos ainda mais dramáticos após o assassinato da professora Simone Marques da Silva, morta a tiros na porta de casa poucos dias depois de tentar prestar depoimento à polícia. Ela presidia uma associação que recebia recursos de emendas e poderia fornecer informações importantes para a investigação.
Os dois casos revelam uma mesma realidade. Em cidades que receberam milhões de reais em recursos públicos, moradores continuam convivendo com ruas destruídas, falta de saneamento, obras inacabadas e serviços precários. Enquanto Pernambuco expõe um esquema investigado por desvios milionários e até um homicídio relacionado às apurações, Alagoas concentra um dos principais questionamentos sobre o uso político das emendas parlamentares, envolvendo Rio Largo e o município que mais recebeu recursos durante a gestão de Arthur Lira à frente da Câmara dos Deputados.
No fim, permanece a imagem que une as duas histórias: dinheiro público em abundância nos papéis, mas escasso onde deveria fazer diferença — na vida da população.





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