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Relatos ligam parques eólicos a problemas de saúde em crianças do Agreste de Pernambuco

por | 25 jul, 2026

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A expansão da energia eólica no Agreste de Pernambuco, frequentemente apresentada como símbolo da transição para uma matriz energética mais limpa, é alvo de denúncias de moradores que afirmam conviver com graves impactos à saúde. Reportagem publicada pelo portal Marco Zero mostra que famílias residentes nas proximidades dos parques eólicos de Caetés relatam alterações no sono, ansiedade, problemas emocionais e até a necessidade de medicação em crianças.

Entre os relatos está o do agricultor Walisson José da Silva, que afirma que o filho de 11 anos passou a depender de medicamentos para conseguir dormir desde a instalação das turbinas próximo à residência da família. Segundo ele, a melhora do menino foi percebida apenas quando passou alguns dias distante da região. O agricultor também afirma que a filha mais nova começou a apresentar sinais de ansiedade e bruxismo, enquanto ele próprio desenvolveu perda auditiva.

Embora ainda não existam estudos científicos específicos que estabeleçam uma relação causal entre os parques eólicos e a saúde infantil na região, profissionais que acompanham a população afirmam observar um padrão recorrente de adoecimento. A médica da atenção primária Maria Eduarda Valois Spencer, professora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e colaboradora de uma pesquisa desenvolvida pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em parceria com a Universidade de Pernambuco (UPE), relata que crianças e adolescentes atendidos nas comunidades apresentam transtornos de ansiedade, alterações no ciclo do sono, irritabilidade e dificuldades de concentração.

 A pesquisa citada pela especialista identificou que 68% dos agricultores de Caetés vivem em sofrimento psíquico. Segundo a médica, a exposição contínua ao ruído das turbinas, somada aos efeitos provocados pela vibração e pelo chamado efeito estroboscópico das hélices, pode comprometer especialmente o desenvolvimento infantil, período considerado decisivo para a formação neurológica e emocional.

A reportagem também apresenta o caso da agricultora Michele Maria da Silva, que mora a cerca de 500 metros das torres eólicas. Ela relata que os filhos permanecem acordados até altas horas da madrugada por causa do barulho e que um deles iniciou tratamento medicamentoso para ansiedade. O filho mais novo, de quatro anos, aguarda atendimento especializado em psiquiatria infantil. A agricultora afirma ainda que o custo mensal dos medicamentos compromete boa parte da renda familiar.

De acordo com a médica ouvida pelo Marco Zero, além dos transtornos do sono e da ansiedade, moradores relatam sintomas como dores de cabeça, zumbidos, náuseas, tonturas, alterações de humor e dificuldades de aprendizagem. Ela também chama atenção para possíveis problemas respiratórios e dermatológicos associados ao aumento da poeira provocado pela operação e manutenção dos empreendimentos.

Outro ponto destacado é a transformação do cotidiano das comunidades rurais. A circulação constante de veículos pesados durante a implantação e manutenção dos parques, somada à presença permanente das turbinas, altera os espaços de convivência e restringe áreas tradicionalmente utilizadas pelas crianças para brincar, afetando também a relação das famílias com o território.

Ao longo da reportagem, especialistas defendem que os impactos da geração eólica sejam avaliados para além da produção de energia, considerando também os efeitos sociais, ambientais e de saúde sobre as populações que vivem ao redor dos empreendimentos. Para eles, a análise deve incorporar o conceito de cuidado integral, levando em conta as condições do território e a qualidade de vida das comunidades afetadas.

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